Entre COP 30 e a COP 31, como avançar para reduzir o metano?

Entre COP 30 e a COP 31, como avançar para reduzir o metano?

A redução do metano e a janela de tempo entre a COP 30 e a COP 31

De Belém, a Bonn, passando por Londres até Antalya: por que acelerar a mitigação do metano pode ser uma ação decisiva para o planeta? 

Editorial  

Londres é o momento em que essa travessia ganha corpo: quando a agenda climática precisa sair do campo da negociação e começar a se provar na implementação. A Conferência sobre Mudanças do Clima em Bonn deixou evidente o quanto ainda hesitamos em agir onde já seria possível fazer diferença imediata. 

A conferência terminou sem oferecer respostas proporcionais à urgência do momento. Não é incomum. A reunião de meio de ano da ONU raramente entrega grandes anúncios, seu papel é outro, mais sutil e, por isso mesmo, mais revelador. É em Bonn que se mede a temperatura real do processo climático: quanto da ambição anunciada na COP anterior resiste ao teste do tempo, da geopolítica e dos interesses em disputa. 

O que se viu, desta vez, foi uma travessia que avança, mas ainda sem eixo claro. 

Há movimento: o Mecanismo de Transição Justa começa a ganhar contorno, os Mapas do Caminho para fósseis e florestas seguem acumulando contribuições, e mais de 180 países continuam engajados nas salas de negociação. Ainda assim, por trás desse esforço coletivo, persiste uma sensação difícil de ignorar: seguimos operando em muitas frentes, sem que o centro da decisão se organize com a urgência necessária. 

Esse descompasso ajuda a explicar por que alguns temas estruturantes seguem sem aterrissagem. O fim dos combustíveis fósseis ainda não encontrou uma tradução política estável, o financiamento continua preso a impasses conhecidos, e a nova presidência da COP31 ainda ensaia seu próprio ritmo. 

Nesse cenário, o chamado “Espírito de Belém” não apenas permanece — ele se revela essencial. Não como legado de uma presidência, mas como expressão do próprio multilateralismo: uma ação coletiva, construída em camadas, sustentada por muitos atores avançando simultaneamente. 

Mas sustentar esse espírito não é o mesmo que converter esse movimento em velocidade. E é justamente aí que o diagnóstico de Bonn ganha densidade: seguimos avançando nas engrenagens mais complexas da transição — aquelas que exigem negociação longa, arquitetura institucional e pactos estruturais — enquanto hesitamos diante da frente mais frequentemente apontada pela ciência como capaz de gerar benefícios climáticos de curto prazo. 

 

O metano ocupa esse lugar. 

Central na ciência e periférico na política, ele raramente mobiliza imagens ou manchetes intuitivas, nem se traduz com facilidade no debate público. E, no entanto, é ali que está uma das poucas possibilidades reais de ganhar tempo, tempo concreto, mensurável, dentro da janela crítica desta geração. 

Isso porque, diferente do CO₂, o metano atua rápido e responde rápido. Reduzi-lo hoje é reduzir o ritmo do aquecimento, ainda nesta década. É essa relação direta entre ação e efeito que o diferencia e que torna ainda mais difícil justificar sua posição secundária. 

Por isso, talvez seja insuficiente tratá-lo como “fruta baixa”. O que está em jogo não é apenas facilidade ou custo, mas velocidade. A possibilidade de alterar o ritmo da curva enquanto ainda estamos em movimento, de agir antes que a trajetória se torne irreversível. 

É, em essência, um freio de emergência. 

E o que Bonn revelou, de forma quase silenciosa, é o quanto seguimos desconfortáveis em acioná-lo com a centralidade que ele exige. Não por falta de tecnologia — grande parte das soluções já existe, muitas delas de baixo custo — nem por dúvida científica. O que falta é deslocamento de prioridade e, em alguma medida, de imaginação política e narrativa. 

Porque o metano ainda não ocupa o espaço simbólico que a crise climática já conquistou em outras frentes. Continuamos reagindo às imagens mais visíveis da emergência — incêndios, enchentes, secas — enquanto o principal mecanismo de resposta imediata permanece invisível, técnico, quase lateral. 

Esse descompasso não é apenas comunicacional. Ele tem implicações diretas na ação. 

É aqui que a comunicação deixa de ser periférica e passa a ser estrutural. Dar visibilidade ao metano não é apenas traduzir um tema difícil, é transformar uma oportunidade concreta de ação em prioridade política. 

À medida que saímos de Bonn e entramos na Climate Week de Londres, essa tensão tende a se intensificar. Porque Londres não é apenas mais um evento no calendário: é o espaço onde compromissos começam a ganhar densidade política, econômica e narrativa, e onde a agenda deixa de ser promessa difusa para disputar prioridade real. 

Se o metano não ocupar esse espaço agora, dificilmente ocupará depois. E a consequência é previsível: chegaremos a Antalya, sede da COP31 com um repertório já conhecido — consensos amplos, declarações consistentes — convivendo com uma dificuldade persistente de traduzir tudo isso na velocidade que a ciência exige. 

Bonn não fracassou. Mas também não resolveu. O que deixou foi um diagnóstico mais claro do momento que atravessamos. 

A crise climática já não nos permite avançar apenas pelas agendas estruturais. Elas seguem indispensáveis, mas, sozinhas, já não respondem ao tempo disponível. 

Há momentos em que é preciso agir onde o impacto é imediato. 

E, neste momento da história, o metano não é apenas uma agenda entre outras. É o freio de emergência que pode manter a travessia dentro da pista enquanto o restante da transição ganha escala. 

Ignorá-lo não é apenas uma escolha estratégica. É, em alguma medida, decidir seguir acelerando mesmo sabendo que a curva já começou.

O metano no centro

O metano no centro

Entre a urgência e a transição, o metano ganha centralidade

Do Rio a Bonn e Porto Alegre, um novo eixo da ação climática 

O mundo ainda precisará de décadas para promover a transição energética para longe dos combustíveis fósseis. Mas, diante da aceleração das mudanças climáticas e de um cenário marcado por instabilidades geopolíticas e econômicas, uma pergunta se impõe: como ganhar tempo para que essa transição aconteça antes que o planeta ultrapasse pontos de inflexão irreversíveis? 

A resposta vem ganhando força nos principais espaços de debate climático. Do Rio de Janeiro, durante a Rio Nature and Climate Week, a Bonn, na Alemanha, sede das negociações preparatórias para a COP31, o metano deixou de ser um tema setorial para ocupar uma posição cada vez mais estratégica nas discussões sobre clima, energia e desenvolvimento. 

Não por acaso. Em um mundo que busca reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis sem abrir mão da segurança energética e da estabilidade econômica, a mitigação do metano desponta como uma das poucas medidas capazes de produzir resultados relevantes ainda nesta década. 

O ponto de partida dessa reflexão é simbólico. Foi no Rio de Janeiro que o mundo entendeu a importância de construir consensos globais em torno da agenda climática. Em 1992, a Rio-92 deu origem às convenções internacionais que ainda hoje estruturam a governança ambiental global. 

Se a Rio-92 ficou marcada pela construção de acordos, a Rio Nature and Climate Week, ao recolocar o Brasil no centro do calendário climático internacional, reuniu governos, cientistas, setor privado e sociedade civil em torno de um novo desafio: transformar compromissos em ações concretas. 

A mensagem dos debates é clara: já não faltam diagnósticos nem soluções – o desafio agora é implementar. Nesse contexto, o metano ganhou protagonismo no Fórum Freio de Emergência Climática, um dos eventos centrais da programação. 

E isso não é coincidência. Responsável por cerca de um terço do aquecimento global desde a Revolução Industrial, o metano aquece até 80 vezes mais que o dióxido de carbono nas duas primeiras décadas após sua emissão, mas permanece na atmosfera por cerca de 12 anos – enquanto o CO₂ pode persistir por séculos. É essa diferença que faz de sua mitigação um verdadeiro “freio de emergência climática”: uma oportunidade de desacelerar o aquecimento global no curto prazo e ganhar tempo para mudanças estruturais mais profundas. 

O que emergiu no Rio como prioridade rapidamente se confirmou no plano institucional. 

Durante a Conferência de Mudanças Climáticas da ONU, em Bonn, a presidência turca da COP31 anunciou que pretende colocar o metano no centro da ação climática global, tendo resíduos e economia circular como duas de suas principais frentes de implementação. 

A escolha consolida uma ponte com a presidência brasileira da COP30. Em Belém, o Brasil impulsionou os Mapas do Caminho para acelerar a transição energética e reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis. Foi também durante a Conferência de Belém – e sob a copresidência brasileira da Coalizão Clima e Ar Limpo (CCAC) – que surgiu a NOW (No Organic Waste), iniciativa voltada à redução das emissões de metano por meio de uma política de “zero resíduo”, escolhida como uma das prioridades da Agenda de Ação da próxima Conferência. 

A agenda do metano ganha ainda mais relevância em um contexto de instabilidade nos mercados de energia. Conflitos recentes voltaram a expor os custos econômicos da dependência fóssil, pressionando cadeias produtivas, elevando o custo de vida e reforçando a necessidade de ampliar a segurança energética global. 

Nesse cenário, o Brasil – quinto maior emissor de metano do mundo – ocupa uma posição singular. Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e uma trajetória consolidada em biocombustíveis, o país reúne condições concretas para contribuir tanto para a redução das emissões quanto para a construção de alternativas energéticas. E uma dessas oportunidades está justamente nos resíduos. 

Hoje, eles são a segunda principal fonte de emissões de metano no país, atrás apenas da agropecuária, mas também estão entre os setores em que as soluções já existem e podem ser ampliadas a baixo custo. A captura do gás gerado pela decomposição da matéria orgânica em aterros, por exemplo, permite reduzir emissões e produzir biogás e biometano – combustíveis renováveis capazes de substituir fontes fósseis. Isso transforma um passivo ambiental em uma frente concreta de transição. 

Essa agenda tem ainda uma dimensão social incontornável – especialmente em um país que ainda convive com milhares de lixões a céu aberto. A disposição inadequada de resíduos afeta de forma desproporcional populações vulneráveis, territórios periféricos e comunidades tradicionais. Reduzir metano, nesse contexto, é também promover saúde pública, inclusão produtiva, geração de renda e justiça climática. 

É justamente essa capacidade de produzir resultados simultâneos em diferentes agendas que explica sua crescente centralidade. Poucas soluções abrangem tantas dimensões ao mesmo tempo: mitigação climática, segurança energética, desenvolvimento econômico, inclusão social e resultados em curto prazo. 

É a partir dessa convergência que os olhos agora se voltam para o Sul do Brasil. Entre 20 e 26 de julho, Porto Alegre sediará sua primeira Semana de Ação Climática. A escolha não poderia ser mais simbólica: poucos lugares representam de forma tão concreta os impactos da crise climática quanto o Rio Grande do Sul após as enchentes de 2024. 

Se o Rio ajudou a reposicionar o metano no centro do debate climático e Bonn confirmou sua centralidade na agenda internacional, Porto Alegre surge como o espaço para responder a uma pergunta decisiva: como transformar essa prioridade política em soluções concretas nos territórios? 

A boa notícia é que essas soluções já existem. Elas aparecem em experiências como Florianópolis, primeira cidade “lixo zero” do país; em tecnologias que transformam lodo de esgoto em energia, como em Curitiba; em práticas agrícolas que reduzem emissões e ampliam a produtividade da rizicultura nos campos gaúchos; e em modelos de economia circular que conciliam desenvolvimento e ação climática. 

Da Rio-92 à Rio Nature and Climate Week, de Bonn a Porto Alegre, ganha força uma ideia que atravessa toda a agenda climática: a transição energética continua sendo o destino, mas a redução das emissões de metano pode ser o primeiro passo concreto para tornar viável esse caminho. 

Em um tempo marcado pela urgência climática e pela dificuldade de transformar compromissos em ação, o metano oferece algo raro: a possibilidade de produzir resultados rápidos, concretos e mensuráveis.  

Talvez seja essa sua contribuição mais valiosa – funcionar como um freio de emergência capaz de desacelerar o aquecimento antes que a velocidade da crise ultrapasse definitivamente a capacidade de resposta do mundo. 

Se a transição energética ainda exige tempo, talvez a pergunta mais urgente seja: o que podemos fazer agora para chegar lá a tempo?

Diferentes mundos à mesma mesa

Diferentes mundos à mesma mesa

O que acontece quando diferentes mundos sentam à mesma mesa?

Durante décadas, grande parte da governança climática internacional foi construída em torno de compromissos. O Fórum Freio de Emergência Climática sinaliza que estamos entrando em uma nova etapa, não porque os acordos tenham perdido relevância, mas porque sua efetividade passa a depender de algo mais profundo: a capacidade de conectar ciência, territórios, governos, comunidades e setores produtivos em torno de objetivos comuns.

Se antes o desafio era pactuar, agora é implementar.

E o que começa a emergir é o esforço coletivo de dar forma a esse Mapa do Caminho, articulando, na prática, atores, saberes e soluções que já estão em movimento.

O Fórum não revelou a ausência de respostas, mostrou que elas já existem, em abundância, ainda que dispersas. Revelou, sobretudo, o quanto precisamos aproximar conhecimentos, experiências e setores que avançam na mesma direção, mas raramente ocupam o mesmo espaço de construção. Em outras palavras: dependemos da capacidade de fazer diferentes mundos conversarem.

Em um só dia, cientistas, gestores públicos, lideranças, catadores, comunicadores e representantes do setor produtivo colocaram o metano no centro do debate — não como um tema técnico, mas como uma alavanca política e de propósito. Foi ali, no encontro entre esses mundos, que se tornou mais visível a necessidade de conectar respostas que já existem, mas ainda operam de forma dispersa.

A presença de Marina Silva parece nos lembrar que algumas ideias sobrevivem porque aprenderam a resistir. Sua fala evoca a própria seringueira: uma árvore que suporta a ferida sem abandonar sua vocação de produzir. A agenda ambiental brasileira conhece derrotas, desmontes e retrocessos. Ainda assim, segue produzindo conhecimento, instituições, políticas públicas e capacidade de mobilização, como quem insiste em abrir caminhos mesmo quando o terreno parece hostil.

Sonia Guajajara trouxe ao Fórum uma lembrança incontornável: não existe política climática eficaz sem os povos que, há séculos, protegem os territórios onde a biodiversidade permanece viva. Guajajara, “os guardiões das florestas”, nos convida a experimentar outras formas de pensar o mundo, na relação entre território, natureza e futuro. Sem esses territórios, não há caminho climático consistente, nem horizonte de justiça possível.

É nesse contexto que a fala de Ana Toni ganha ainda mais densidade. Ela aponta para uma fissura central da política climática global: a distância persistente entre compromisso e implementação. Mais do que um diagnóstico, sua intervenção desloca o eixo do debate — da ambição para a entrega, da promessa para a capacidade real de transformação.

Como CEO da COP30, Ana não apenas reconhece a força de lideranças como Sonia, Marina e Mia Mottley, como ajuda a reorganizar o campo a partir delas. Primeira-ministra de Barbados, Mottley tornou-se uma das vozes mais potentes do debate contemporâneo sobre mudança do clima e justiça climática ao insistir que a urgência da crise exige respostas à altura da velocidade do problema.

E o metano, nesse contexto, emerge como peça-chave na equação entre tempo e resultado.

É nele que se mede a nossa capacidade de agir agora, enquanto o futuro ainda pode ser disputado.

Ana não nega o multilateralismo, propõe sua ressignificação. E, ao fazê-lo, aponta para a necessidade de uma nova arquitetura de cooperação: uma que valoriza os acordos entre países, mas reconhece, com igual força, as alianças que emergem entre territórios, comunidades, cidades, cientistas, movimentos sociais, filantropias e setores produtivos engajados em problemas concretos.

É nesse horizonte que se inscreve o Mapa do Caminho da COP30, lançado pela Presidência em Belém, não apenas como um documento, mas como um processo político capaz de alinhar rumos, acelerar implementações e dar coerência às múltiplas frentes já em movimento.

Um mapa que não se impõe de cima para baixo, mas se fortalece onde ciência, política e território se encontram.

O que se viu durante a Rio Nature & Climate Week foi um ensaio concreto dessa arquitetura em ação, menos centrada na negociação abstrata e mais na confluência entre ciência, política, sociedade civil, setor produtivo e comunidades. Um espaço onde parte das conexões exigidas por esse caminho comum pôde ser vista, debatida e experimentada na prática.

Rios diferentes, naturezas distintas, que se encontram sem precisar se dissolver.

Nego Bispo chamaria isso de confluir.

Talvez esse seja o principal sinal desta semana: mais do que um diagnóstico, a reafirmação de um percurso que já está em curso e que precisa, agora, ganhar escala, consistência e continuidade.

O mapa já existe.

O desafio do nosso tempo é ser capaz de percorrê-lo juntos.

E não por acaso, o Rio ocupa um lugar especial nessa trajetória.

Foi aqui, em 1992, que o mundo aprendeu a construir consensos globais em torno do clima, da biodiversidade e da desertificação. Foi aqui que nasceram as três convenções que estruturam, até hoje, a governança ambiental internacional.

Décadas depois, o Rio volta a reunir vozes que lembram uma lição ainda atual: não basta pactuar caminhos, é preciso aprender a percorrê-los.

Liderança climática em foco

Liderança climática em foco

O metano pode ser a medida da cooperação global nesta década 

Em 1987, ainda sob a sombra da Guerra Fria, representantes de 46 países reuniram-se em Montreal, no Canadá, quando havia poucas razões para acreditar que daria certo. O Protocolo de Montreal não nasceu do otimismo, mas da evidência científica clara, soluções disponíveis e uma percepção compartilhada de risco. O mundo decidiu agir. 

Quase quatro décadas depois, a camada de ozônio se recupera. O episódio se consolidou como um marco do multilateralismo ambiental, menos pelo contexto histórico e mais por aquilo que demonstrou: quando ciência, viabilidade e cooperação se alinham, é possível reverter trajetórias que pareciam irreversíveis. 

Hoje, o mundo se depara com uma janela semelhante. Desta vez, o desafio atende pelo nome de metano (CH₄). 

Responsável por cerca de 30% do aquecimento global, o metano possui um potencial de aquecimento até 80 vezes superior ao do dióxido de carbono (CO₂). Suas emissões estão distribuídas por setores centrais da economia: agropecuária, resíduos, produção de energia e, ainda assim, ele permanece um personagem secundário no debate público, raramente presente no noticiário. 

China, Estados Unidos, Índia, Rússia e Brasil estão entre os principais emissores de metano do planeta. Essa concentração de responsabilidade é, ao mesmo tempo, obstáculo e oportunidade: se esses atores avançarem de forma coordenada, cada tonelada capturada produz alívio climático imediato e mensurável. 

A boa notícia é que as soluções já existem e, em muitos casos, estão disponíveis em escala. A má notícia é que nenhuma delas prospera isoladamente. Todas exigem o que apenas a cooperação entre governos, setor privado, ciência e sociedade civil é capaz de construir: financiamento, transferência tecnológica e mercados que transformem conhecimento em ação, reduzam emissões e convertam desafios climáticos em oportunidades de desenvolvimento. 

O metano reúne características raras na agenda climática contemporânea. Pode se tornar um dos vetores mais promissores de recomposição do multilateralismo climático, não apenas por reduzir emissões, mas por oferecer algo essencial à cooperação internacional: resultados rápidos, mensuráveis e verificáveis, capazes de gerar confiança política. 

Em um cenário marcado por disputas geopolíticas, a cooperação se sustenta quando os benefícios da ação coletiva podem ser observados, medidos e compartilhados. É essa capacidade de transformar compromissos diplomáticos em resultados concretos que mantém países engajados, mesmo quando divergem em quase todo o restante. 

Eis o teste decisivo. 

A credibilidade da cooperação climática não será medida pelo número de compromissos anunciados, mas pela capacidade de transformá-los em resultados. Há um obstáculo que o avanço institucional, sozinho, não resolve: o abismo entre compromisso e implementação. 

Países assinam pledges. Metas são declaradas. E o metano continua escapando de aterros, da cadeia de petróleo e gás e da pecuária, na mesma velocidade. 

O desafio já não está em reconhecer o problema. Está em produzir resultados compatíveis com a escala e a urgência da crise. Porque a mudança do clima deixou de ser apenas uma questão ambiental. É, também, uma questão de segurança nacional, ligada à capacidade dos países de proteger seus territórios, sustentar suas economias e preservar sua autonomia em um mundo cada vez mais exposto a riscos climáticos. 

Para o Brasil, o desafio é maior: não apenas reduzir emissões, mas demonstrar que uma agenda climática pode gerar resultados concretos, impulsionar desenvolvimento, fortalecer cadeias econômicas historicamente desconectadas e ampliar a resiliência estratégica do país. 

É nesse contexto que se insere o Fórum Metano: Freio de Emergência Climática. 

Realizado em 3 de junho, durante a Rio Nature & Climate Week, o encontro não se propõe a oferecer consensos fáceis e é precisamente por isso que importa. Governos, setor privado, terceiro setor, sociedade civil e instituições de pesquisa se reúnem não para discutir cenários, mas para enfrentar uma pergunta direta: se sabemos onde estão as emissões, conhecemos as soluções e dispomos das tecnologias, por que ainda não avançamos na velocidade necessária? 

A mesa de encerramento do Fórum sintetiza, por si só, algumas das principais forças da agenda climática global. 

Participam do painel Marina Silva, reconhecida internacionalmente com mais de 50 prêmios e homenagens por sua atuação em defesa da Amazônia e do desenvolvimento sustentável. Entre eles, o Goldman Environmental Prize, considerado o Nobel do Meio Ambiente, e o Champions of the Earth, principal reconhecimento ambiental das Nações Unidas. Sua trajetória também levou o jornal britânico The Guardian a incluí-la entre as 50 personalidades capazes de influenciar decisivamente o futuro do planeta. Foi vereadora, deputada estadual e federal, senadora, Ministra do Meio Ambiente e candidata à Presidência da República, percorrendo praticamente todas as escalas da política brasileira. Sua trajetória é marcada pela capacidade de atravessar diferentes momentos políticos sem abandonar os compromissos de 40 anos de atuação pública. 

Sonia Guajajara, deputada federal, foi a primeira Ministra dos Povos Indígenas do Brasil, escolhida pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Agora em maio, após ter retornado à Câmara dos Deputados, ela  Sua trajetória simboliza uma mudança relevante na forma como o mundo passou a discutir clima foi eleita copresidenta do Grupo Parlamentar sobre os Direitos das Mulheres e Meninas Indígenas do ParlAmericas, organização que reúne parlamentos de 35 países das Américas e do Caribe., biodiversidade e desenvolvimento. Da Terra Indígena Araribóia, no Maranhão, aos principais fóruns internacionais, representa a presença crescente dos povos originários em espaços onde decisões sobre seus territórios foram historicamente tomadas sem sua participação. 

Ana Toni carrega a responsabilidade de traduzir em realidade os compromissos assumidos na COP30, que recolocou o Brasil no centro da diplomacia climática internacional. Ao longo de mais de três décadas, atuou em organizações centrais para a agenda ambiental, como o Instituto Clima e Sociedade (iCS), a Fundação Ford e a ActionAid. Sua trajetória acompanha a evolução do debate climático: da construção de consensos globais ao desafio contemporâneo de transformar metas em ação concreta. 

Essa convergência reúne elementos sem os quais nenhum desafio planetário pode ser enfrentado: a experiência dos territórios, a capacidade institucional de implementação e a cooperação internacional necessária para acelerar soluções. A história mostra que avanços acontecem quando essas forças operam na mesma direção. 

O metano não resolverá sozinho a crise climática. Mas é, hoje, o nosso freio de emergência, a estratégia capaz de gerar alívio imediato enquanto as respostas estruturais seguem travadas. 

Em um cenário assim, o que sustenta a cooperação não são promessas, são resultados. 

Calendários eleitorais mudam. Mandatos terminam. A física da atmosfera não espera. 

A questão já não é o que fazer. É se vamos agir a tempo. 

Metano: freio de emergência para o aquecimento global

Metano: freio de emergência para o aquecimento global

O metano como freio de emergência para o aquecimento global:  o que eu tenho a ver com isso?  

Durante a Semana do Clima, entre 1º e 6 de junho, o Rio de Janeiro resgata sua tradição como palco de grandes encontros multilaterais sobre o futuro do planeta — e, nesse contexto, o metano (CH₄) ganha centralidade nos debates por ser considerado, pela ciência, um verdadeiro “freio de emergência” climático. 

Responsável por cerca de um terço do aquecimento globalo gás já representa aproximadamente 0,5ºC dos 1,5ºC de aumento da temperatura do planeta — com uma diferença crucial: sua mitigação pode gerar efeitos mais rápidos. Enquanto o CO₂ permanece por séculos na atmosfera, o metano tem um tempo de vida médio de cerca de 12 anos. 

Presente no cotidiano — da agropecuária à produção de energia e à gestão de resíduos —, o tema atravessa economias e a vida social e se projeta como uma oportunidade estratégica: países e setores capazes de reduzir suas emissões podem liderar cadeias produtivas na nova economia da transição climática. 

É nesse cenário que o Fórum Freio de Emergência Climática, no dia 3 de junho, reúne lideranças globais, especialistas e sociedade civil, conectando ciência, política e direitos humanos de alto nível, para discutir soluções capazes de gerar alívio imediato no aquecimento global, em um momento de crescente urgência marcado, entre outros fatores, pela possível chegada de um super El Niño. 

Mais do que um desafio técnico, trata-se de um teste de coordenação: diante de evidências científicas consolidadas, a redução do metano depende de uma articulação ampla entre governos, setor privado, finanças e sociedade — e pode se afirmar como uma das respostas mais rápidas e eficazes à crise climática. 

Mesa de abertura: Entre crises e oportunidades, o clima redefine o jogo global (9h às 9h45) 

Geopolítica instável, retrocessos regulatórios e eventos extremos expõem riscos — enquanto o metano surge como a forma mais rápida de frear o aquecimento no curto prazo. 

A mesa de abertura posiciona o contexto em que o Fórum de Emergência Climática se insere. A escalada de tensões no Oriente Médio e os impactos sobre o estreito de Ormuz recolocam a energia no centro das disputas e expõem a fragilidade de um mundo ainda dependente de combustíveis fósseis — ao mesmo tempo em que aceleram a urgência da transição energética. No Brasil, movimentos recentes no Congresso ampliam a insegurança regulatória justamente quando o país poderia afirmar sua liderança climática, enquanto a possível chegada de um super El Niño eleva os riscos sobre água, alimentos, energia e desigualdades. Nesse cenário de convergência de crises, ganha força uma agenda capaz de produzir resultados rápidos: a redução das emissões de metano — até 80 vezes mais potente que o CO₂ no curto prazo, mas de vida mais curta na atmosfera — desponta como uma das estratégias mais eficazes para gerar alívio climático imediato enquanto transformações mais profundas avançam. 

O Fórum de Emergência Climática conta com o apoio da Globo, que lança, no Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, a nova fase da campanha “De Olho no Climão – Menos é Mais”, protagonizada pelo ator Rafael Portugal, com participações de Everaldo Marques, Milton Cunha, Pepita e Flay. A campanha aborda como as mudanças climáticas podem impactar eventos e celebrações tradicionais da cultura brasileira, como o futebol, o carnaval, as praias e até alimentos tradicionais da culinária nacional, como o feijão. A iniciativa é assinada pela Grupo Globo em parceria com o Instituto Oyá, a Climate Basecamp e a University of Exeter. 

Porta-vozes – Mesa de abertura:
Henrique Bezerra, Global Methane Hub
Sérgio Besserman, Conselheiro da Uma Gota no Oceano
Stela Herschmann, Observatório do Clima
Kamila Camilo, Instituto Oyá 
MediaçãoAndré Trigueiro – jornalista. 

 

Painel 1: Produzir mais, emitir menos: a agropecuária no centro da solução (9h55 às 10h40) 

Parte-se de uma premissa central: mitigar metano na agropecuária não significa reduzir produção, mas transformar sistemas produtivos com base em ciência, inovação e política pública. O painel destaca soluções escaláveis, mensuráveis e economicamente viáveis, capazes de alinhar redução de emissões com segurança alimentar, competitividade e desenvolvimento territorial — reafirmando o papel do setor como protagonista na transição para uma economia de baixo carbono. 

Porta-vozes:
Guilherme Campbell, Coordenador de Projetos – Instituto Akorde
Eduardo Fronza, Coordenador de Projetos Sênior – Organização Proforest
Juan Andrés Cardoso, Ecologista e fisiologista vegetal – Aliança da Biodiversidade Internacional e do Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT)
Mediação: Marcelo Lins  jornalista. 

 

Painel 2: Economia circular: resíduos como solução climática imediata (10h50 às 11h35) 

O painel aborda a economia circular como uma estratégia climática concreta, disponível e escalável no curto prazo. A partir da integração entre saneamento, inclusão social, inovação tecnológica e governança local, o debate explora como políticas estruturantes de gestão de resíduos podem reduzir emissões de forma imediata, fortalecer as cadeias da reciclagem e promover inclusão e justiça social — especialmente nos territórios urbanos, onde os impactos e as oportunidades se concentram. 

Porta-vozes:
Adalberto Maluf, Secretário Nacional de Meio Ambiente Urbano, Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e Co-chair da Coalizão do Clima e Ar Limpo (CCAC)
Bernardo Ornelas, Coordenador de Projetos da Companhia Municipal de Limpeza Urbana da Cidade do Rio de Janeiro (COMLURB)
Claudete Costa, Vice-presidenta da União Nacional das Organizações Cooperativistas Solidárias (UNICOPAS)
Mediação: André Trigueiro – jornalista. 

 

Painel 3: Energia, metano e Sociedade 5.0: acelerar a transição com inteligência (12h05 às 12h50) 

A transição energética é inevitável — a questão central é a velocidade e quem arca com o custo do atraso. O painel parte do conceito de Sociedade 5.0 para discutir como tecnologias inteligentes, monitoramento avançado, sistemas digitais e o uso estratégico de dados podem reduzir rapidamente as emissões de metano no setor energético, ao mesmo tempo em que aceleram uma transição justa, segura e baseada em evidências. 

Nesse contexto, o controle do metano no setor energético se afirma como um teste de credibilidade da própria transição: não há liderança energética possível sem enfrentar de forma direta e eficaz as emissões desse gás. 

Porta-vozes:
Tasso Azevedo, Coordenador geral – MapBiomas
Paula Garcia Holley, Gerente Sênior de Políticas para a América Latina – Força Tarefa do Ar Limpo (CATF)
Urias Bueno Neto, Engenheiro ambiental – Instituto Internacional Arayara
Helen Sousa, Analista de Projetos – Instituto de Energia e Ambiente (IEMA)
Mediação: Marcelo Lins – jornalista. 

Painel de encerramento | Metano como vetor de coordenação climática e geopolítica (13h – 13h45) 

O painel discutirá como a cooperação internacional para redução das emissões de metano pode acelerar a implementação climática global em uma década decisiva para o cumprimento das metas do Acordo de Paris. 

Desde a COP26, a agenda do metano vem se consolidando como uma das frentes mais dinâmicas da ação climática internacional, articulando governos, setor privado, instituições financeiras, centros de pesquisa e iniciativas multilaterais em torno de soluções de rápida implementação e alto impacto climático. 

O debate abordará os desafios e oportunidades para transformar essa agenda em uma plataforma de coordenação regulatória, financiamento, transferência tecnológica e alinhamento econômico capaz de fortalecer a cooperação multilateral em um contexto de crescente fragmentação geopolítica. 

Porta vozes: 

Ana Toni – CEO da COP 30
Sonia Guajajara – Liderança indígena, deputada federal e ex-ministra dos Povos Indígenas
Marina Silva – Deputada federal e ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança de Clima
Mediação: Leila Sterenberg – Jornalista 

SERVIÇO 

Fórum Metano: Freio de Emergência Climática
📅 Data: 3 de junho de 2026
⏰ Horário: Recepção e café da manhã: 8h | Programação: Das 9h às 14h.
📍 Local: Píer Mauá – Edifício Touring, Rio de Janeiro
📌Inscrições gratuitas para participanteshttps://www.sympla.com.br/evento/forum-freio-de-emergencia-climatica/3430945?share_id=copiarlink 

📰 Credenciamento exclusivo para imprensa:  

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