junho 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, COP30, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política, poluição
O metano pode ser a medida da cooperação global nesta década
Em 1987, ainda na Guerra Fria, representantes de 46 países reuniram-se em Montreal no Canadá, num momento de rara convergência. Cientistas haviam demonstrado que certos gases sintéticos destruíam a camada de ozônio, e o mundo precisava agir antes que o colapso fosse irreversível. O Protocolo de Montreal não nasceu do otimismo, nasceu de três condições simultâneas: clareza científica, soluções disponíveis e a disposição de cooperar acima de rivalidades econômicas e diferenças ideológicas. Quase quatro décadas depois, a camada de ozônio se recupera. Foi o maior sucesso do multilateralismo ambiental moderno, e a prova de que a cooperação internacional, quando ancorada em evidência e urgência real, é capaz de reverter trajetórias que pareciam irreversíveis.
Hoje, o mundo tem uma janela semelhante. Desta vez, o desafio atende pelo nome de metano, (CH₄).
O metano responde por cerca de 30% do aquecimento global, com potencial de aquecimento até 80 vezes superior ao dióxido de carbono (CO₂). Suas emissões estão distribuídas por atividades centrais da economia: agropecuária, resíduos, produção de energia… e, apesar disso, continua sendo um personagem secundário no debate público e raramente aparece no noticiário. Brasil, China, Estados Unidos e Índia estão entre os maiores emissores de metano do planeta. Essa concentração de responsabilidade em poucos países é, ao mesmo tempo, um obstáculo e uma oportunidade para a cooperação internacional: se esses quatro atores agirem de forma coordenada, cada tonelada capturada produz alívio climático imediato e mensurável.
A boa notícia é que as soluções já existem e, em muitos casos, estão disponíveis em escala. A má notícia é que nenhuma delas prospera isoladamente. Todas exigem o que apenas a cooperação entre governos, cooperação internacional, setor privado, ciência e sociedade civil consegue construir: financiamento, transferência tecnológica e mercados capazes de transformar conhecimento em ação, reduzir emissões, gerar valor e converter desafios climáticos em oportunidades de desenvolvimento.
O metano reúne características raras na agenda climática contemporânea, e pode ser um dos mais promissores vetores de recomposição do multilateralismo climático. Mas seu potencial não se realiza automaticamente. Não apenas porque reduz emissões, mas porque oferece algo de que a cooperação internacional necessita para se sustentar: resultados mensuráveis, verificáveis e rápidos o suficiente para gerar confiança política. Em um cenário marcado por disputas geopolíticas crescentes, a cooperação se fortalece quando os benefícios da ação coletiva podem ser observados, medidos e compartilhados. É essa capacidade de transformar compromissos diplomáticos em resultados concretos que mantém países engajados mesmo quando divergem em quase todo o resto.
Eis o teste decisivo. A credibilidade da cooperação climática não será medida pelo número de compromissos anunciados, e sim pela capacidade de transformá-los em resultados. Há um obstáculo que o avanço institucional, sozinho, não resolve: o abismo entre compromisso e implementação. Países assinam pledges (compromissos). Metas são declaradas. E o metano continua escapando dos aterros, das tubulações da cadeia de produção de petróleo e gás e dos ruminantes da pecuária, na mesma velocidade. O desafio já não está em reconhecer o problema. Está em produzir resultados compatíveis com a escala e a urgência da crise. Porque a mudança do clima deixou de ser apenas uma questão ambiental. Em outras palavras, é também de segurança nacional. Alerta à capacidade dos países de proteger seus territórios, sustentar suas economias e preservar sua autonomia em um mundo cada vez mais marcado por riscos climáticos. O desafio colocado diante do Brasil é, portanto, maior do que reduzir emissões. É demonstrar que uma agenda climática pode gerar resultados concretos, produzir desenvolvimento, fortalecer cadeias econômicas historicamente desconectadas e ampliar a resiliência estratégica do país diante das transformações do século XXI.
É nesse contexto que o Fórum Metano: Freio de Emergência Climática se insere. Realizado no dia 3 de junho, durante a Rio Nature & Climate Week, não é um espaço de consenso fácil, e é precisamente por isso que importa. Governos, setor privado, terceiro setor, sociedade civil e instituições de pesquisa estarão reunidos não para discutir cenários, mas para enfrentar uma pergunta imediata: se sabemos onde estão as emissões, conhecemos as soluções e dispomos das tecnologias, por que ainda não estamos avançando na velocidade necessária?
A mesa de encerramento do Fórum é, ela própria, uma declaração sobre o estado da agenda climática global. Marina Silva é a referência que atravessou décadas de tensão entre desenvolvimento e preservação dentro do próprio Estado brasileiro, tornando-se símbolo internacional, por persistência numa agenda que o país demorou a levar a sério. Sônia Guajajara construiu sua trajetória nas trincheiras entre direitos territoriais, soberania dos povos e sustentabilidade, e chegou ao Congresso Nacional como voz de territórios que estão na linha de frente da crise climática antes mesmo de ela ter nome. Ana Toni carrega a responsabilidade de traduzir em realidade os compromissos assumidos na COP30, a conferência que o Brasil sediou e que recolocou o país no centro da diplomacia climática internacional. Esta convergência carrega um simbolismo próprio. Ela reúne elementos sem os quais nenhum desafio planetário pode ser enfrentado: a experiência dos territórios onde a crise já é realidade, a capacidade institucional de transformar decisões em políticas públicas e a cooperação internacional necessária para coordenar interesses e acelerar soluções.
A história mostra que grandes avanços climáticos não acontecem quando territórios, instituições e diplomacia caminham separados. Eles acontecem quando essas forças operam na mesma direção. Foi assim com o Protocolo de Montreal, em 1987. Quase quatro décadas depois, a lógica permanece a mesma.
O metano não resolverá sozinho a crise climática. Mas oferece algo que raramente aparece na política internacional: a possibilidade de transformar conhecimento consolidado em resultados visíveis dentro de uma mesma geração. E resultados importam. Calendários eleitorais mudam. Mandatos terminam. A física da atmosfera não espera que estejamos prontos.
A pergunta já não é se sabemos o que fazer. A pergunta é se teremos, como em Montreal, a capacidade de agir antes que a janela se feche. Porque a história raramente se lembra daqueles que assistiram às transformações da arquibancada. Ela costuma se lembrar de quem reconheceu, a tempo, que o momento de agir já havia chegado. Não por acaso, o Fórum Freio de Emergência Climática se encerra com quem passou a vida inteira recusando a espera.
maio 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, COP30, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política, poluição
O metano como freio de emergência para o aquecimento global: o que eu tenho a ver com isso?
Durante a Semana do Clima, entre 1º e 6 de junho, o Rio de Janeiro resgata sua tradição como palco de grandes encontros multilaterais sobre o futuro do planeta — e, nesse contexto, o metano (CH₄) ganha centralidade nos debates por ser considerado, pela ciência, um verdadeiro “freio de emergência” climático.
Responsável por cerca de um terço do aquecimento global, o gás já representa aproximadamente 0,5ºC dos 1,5ºC de aumento da temperatura do planeta — com uma diferença crucial: sua mitigação pode gerar efeitos mais rápidos. Enquanto o CO₂ permanece por séculos na atmosfera, o metano tem um tempo de vida médio de cerca de 12 anos.
Presente no cotidiano — da agropecuária à produção de energia e à gestão de resíduos —, o tema atravessa economias e a vida social e se projeta como uma oportunidade estratégica: países e setores capazes de reduzir suas emissões podem liderar cadeias produtivas na nova economia da transição climática.
É nesse cenário que o Fórum Freio de Emergência Climática, no dia 3 de junho, reúne lideranças globais, especialistas e sociedade civil, conectando ciência, política e direitos humanos de alto nível, para discutir soluções capazes de gerar alívio imediato no aquecimento global, em um momento de crescente urgência marcado, entre outros fatores, pela possível chegada de um super El Niño.
Mais do que um desafio técnico, trata-se de um teste de coordenação: diante de evidências científicas consolidadas, a redução do metano depende de uma articulação ampla entre governos, setor privado, finanças e sociedade — e pode se afirmar como uma das respostas mais rápidas e eficazes à crise climática.
Mesa de abertura: Entre crises e oportunidades, o clima redefine o jogo global (9h às 9h45)
Geopolítica instável, retrocessos regulatórios e eventos extremos expõem riscos — enquanto o metano surge como a forma mais rápida de frear o aquecimento no curto prazo.
A mesa de abertura posiciona o contexto em que o Fórum de Emergência Climática se insere. A escalada de tensões no Oriente Médio e os impactos sobre o estreito de Ormuz recolocam a energia no centro das disputas e expõem a fragilidade de um mundo ainda dependente de combustíveis fósseis — ao mesmo tempo em que aceleram a urgência da transição energética. No Brasil, movimentos recentes no Congresso ampliam a insegurança regulatória justamente quando o país poderia afirmar sua liderança climática, enquanto a possível chegada de um super El Niño eleva os riscos sobre água, alimentos, energia e desigualdades. Nesse cenário de convergência de crises, ganha força uma agenda capaz de produzir resultados rápidos: a redução das emissões de metano — até 80 vezes mais potente que o CO₂ no curto prazo, mas de vida mais curta na atmosfera — desponta como uma das estratégias mais eficazes para gerar alívio climático imediato enquanto transformações mais profundas avançam.
O Fórum de Emergência Climática conta com o apoio da Globo, que lança, no Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, a nova fase da campanha “De Olho no Climão – Menos é Mais”, protagonizada pelo ator Rafael Portugal, com participações de Everaldo Marques, Milton Cunha, Pepita e Flay. A campanha aborda como as mudanças climáticas podem impactar eventos e celebrações tradicionais da cultura brasileira, como o futebol, o carnaval, as praias e até alimentos tradicionais da culinária nacional, como o feijão. A iniciativa é assinada pela Grupo Globo em parceria com o Instituto Oyá, a Climate Basecamp e a University of Exeter.
Porta-vozes – Mesa de abertura:
Henrique Bezerra, Global Methane Hub
Sérgio Besserman, Conselheiro da Uma Gota no Oceano
Stela Herschmann, Observatório do Clima
Kamila Camilo, Instituto Oyá
Mediação: André Trigueiro – jornalista.
Painel 1: Produzir mais, emitir menos: a agropecuária no centro da solução (9h55 às 10h40)
Parte-se de uma premissa central: mitigar metano na agropecuária não significa reduzir produção, mas transformar sistemas produtivos com base em ciência, inovação e política pública. O painel destaca soluções escaláveis, mensuráveis e economicamente viáveis, capazes de alinhar redução de emissões com segurança alimentar, competitividade e desenvolvimento territorial — reafirmando o papel do setor como protagonista na transição para uma economia de baixo carbono.
Porta-vozes:
Guilherme Campbell, Coordenador de Projetos – Instituto Akorde
Eduardo Fronza, Coordenador de Projetos Sênior – Organização Proforest
Juan Andrés Cardoso, Ecologista e fisiologista vegetal – Aliança da Biodiversidade Internacional e do Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT)
Mediação: Marcelo Lins – jornalista.
Painel 2: Economia circular: resíduos como solução climática imediata (10h50 às 11h35)
O painel aborda a economia circular como uma estratégia climática concreta, disponível e escalável no curto prazo. A partir da integração entre saneamento, inclusão social, inovação tecnológica e governança local, o debate explora como políticas estruturantes de gestão de resíduos podem reduzir emissões de forma imediata, fortalecer as cadeias da reciclagem e promover inclusão e justiça social — especialmente nos territórios urbanos, onde os impactos e as oportunidades se concentram.
Porta-vozes:
Adalberto Maluf, Secretário Nacional de Meio Ambiente Urbano, Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e Co-chair da Coalizão do Clima e Ar Limpo (CCAC)
Bernardo Ornelas, Coordenador de Projetos da Companhia Municipal de Limpeza Urbana da Cidade do Rio de Janeiro (COMLURB)
Claudete Costa, Vice-presidenta da União Nacional das Organizações Cooperativistas Solidárias (UNICOPAS)
Mediação: André Trigueiro – jornalista.
Painel 3: Energia, metano e Sociedade 5.0: acelerar a transição com inteligência (12h05 às 12h50)
A transição energética é inevitável — a questão central é a velocidade e quem arca com o custo do atraso. O painel parte do conceito de Sociedade 5.0 para discutir como tecnologias inteligentes, monitoramento avançado, sistemas digitais e o uso estratégico de dados podem reduzir rapidamente as emissões de metano no setor energético, ao mesmo tempo em que aceleram uma transição justa, segura e baseada em evidências.
Nesse contexto, o controle do metano no setor energético se afirma como um teste de credibilidade da própria transição: não há liderança energética possível sem enfrentar de forma direta e eficaz as emissões desse gás.
Porta-vozes:
Tasso Azevedo, Coordenador geral – MapBiomas
Paula Garcia Holley, Gerente Sênior de Políticas para a América Latina – Força Tarefa do Ar Limpo (CATF)
Urias Bueno Neto, Engenheiro ambiental – Instituto Internacional Arayara
Helen Sousa, Analista de Projetos – Instituto de Energia e Ambiente (IEMA)
Mediação: Marcelo Lins – jornalista.
Painel de encerramento | Metano como vetor de coordenação climática e geopolítica (13h – 13h45)
O painel discutirá como a cooperação internacional para redução das emissões de metano pode acelerar a implementação climática global em uma década decisiva para o cumprimento das metas do Acordo de Paris.
Desde a COP26, a agenda do metano vem se consolidando como uma das frentes mais dinâmicas da ação climática internacional, articulando governos, setor privado, instituições financeiras, centros de pesquisa e iniciativas multilaterais em torno de soluções de rápida implementação e alto impacto climático.
O debate abordará os desafios e oportunidades para transformar essa agenda em uma plataforma de coordenação regulatória, financiamento, transferência tecnológica e alinhamento econômico capaz de fortalecer a cooperação multilateral em um contexto de crescente fragmentação geopolítica.
Porta vozes:
Ana Toni – CEO da COP 30
Sonia Guajajara – Liderança indígena, deputada federal e ex-ministra dos Povos Indígenas
Marina Silva – Deputada federal e ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança de Clima
Mediação: Leila Sterenberg – Jornalista
SERVIÇO
Fórum Metano: Freio de Emergência Climática
📅 Data: 3 de junho de 2026
⏰ Horário: Recepção e café da manhã: 8h | Programação: Das 9h às 14h.
📍 Local: Píer Mauá – Edifício Touring, Rio de Janeiro
📌Inscrições gratuitas para participantes: https://www.sympla.com.br/evento/forum-freio-de-emergencia-climatica/3430945?share_id=copiarlink
📰 Credenciamento exclusivo para imprensa:
https://www.sympla.com.br/evento/credencial-de-imprensa-forum-freio-de-emergencia-climatica/3431753?referrer=page.rionatureandclimateweek.org&referrer=page.rionatureandclimateweek.org
Contatos:
- Danila de Jesus (71) 99103-4578 E-mail: imprensa@gota.ong
- Marcele Bessa (21) 99733-1359 E-mail: assessoriadeimprensa@umagotanooceano.org
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Sem confundir solução com combustão
No editorial “A commodity climática que o Brasil insiste em chamar de lixo”, publicado anteriormente, recorremos à Suécia como exemplo de país que teria transformado resíduos em ativo energético. A ideia central permanece correta: o Brasil ainda trata resíduos como passivo, quando eles podem ser parte de uma estratégia de redução de emissões, geração de energia e democratização do acesso energético, especialmente via biogás e biometano.
Mas é preciso reconhecer: ao citar a experiência sueca de forma ampla, corremos o risco de trocar alhos por bugalhos.
A Suécia, de fato, praticamente eliminou o envio de resíduos a aterros. Mas fez isso, em grande medida, apostando na incineração em larga escala — um modelo que hoje está longe de ser consenso, inclusive dentro da própria Europa.
O problema não é apenas tecnológico. É estrutural.
A lógica construída ao longo das últimas décadas foi simples: encarecer o aterro para tornar mais competitivo o envio de resíduos para usinas de recuperação energética. Na prática, isso deslocou materiais recicláveis e reaproveitáveis para a queima. O que poderia voltar à cadeia produtiva passou a alimentar fornos.
Como aponta análise recente do Instituto Pólis ,essa dependência cria um paradoxo: quanto mais eficiente é o sistema de reciclagem e redução de resíduos, menos matéria-prima existe para manter economicamente viáveis as usinas de incineração. O resultado? Uma infraestrutura cara, que precisa ser continuamente abastecida, inclusive com lixo importado.
A conta ambiental também é controversa. Mesmo com avanços tecnológicos, a incineração segue associada a emissões relevantes e à geração de poluentes persistentes, além de tensionar políticas de economia circular ao competir diretamente com a reciclagem.
Não por acaso, o próprio debate europeu vem mudando de tom. Relatórios ligados à Comissão Europeia e à Delegação para Economia Circular da Suécia alertam para os limites de um modelo que, ao priorizar a queima, acaba desincentivando a redução, a triagem e o reaproveitamento de materiais.
Ou seja: o mundo que está na fronteira do debate já não discute apenas como transformar lixo em energia. Discute como evitar que o lixo exista e, quando inevitável, como reintegrá-lo de forma inteligente à economia.
É nesse ponto que a generalização da experiência sueca se torna imprecisa. Não se trata de negar seus avanços, mas de reconhecer suas contradições e, sobretudo, de evitar importar soluções que já começam a ser revistas por quem as implementou.
E aqui está a oportunidade brasileira.
O Brasil ainda enterra sua oportunidade climática junto com seus resíduos. O metano liberado por lixões e aterros é um dos gases de efeito estufa mais potentes no curto prazo — e sua captura representa justamente o tipo de “alívio imediato” que pode ganhar tempo enquanto se ajustam sistemas energéticos mais complexos.
Mas o caminho mais promissor não passa pela dependência da queima.
Experiências locais já indicam outra direção: ampliação da compostagem, fortalecimento da reciclagem, inclusão de catadores e, principalmente, produção de biogás e biometano a partir da fração orgânica dos resíduos. Trata-se de uma rota que combina redução de emissões, geração de energia descentralizada e inclusão socioeconômica — algo que modelos baseados na incineração dificilmente entregam.
Casos como Florianópolis, com metas de lixo zero, e projetos de aproveitamento energético por rota biológica demonstram que o país pode, sim, construir uma trajetória própria — mais alinhada à economia circular, à justiça climática e à lógica de transição ecológica que o mundo começa a consolidar.
Assumir o erro, portanto, é também refinar o argumento.
Resíduos seguem sendo tratados no Brasil como algo a ser enterrado, quando deveriam ocupar papel estratégico na agenda climática e energética. Mas a solução não está em confundir valorização com combustão.
Transformar lixo em energia não pode significar queimar valor.
Se o objetivo é ganhar tempo diante da emergência climática, a escolha do caminho importa. E, neste caso, insistir em atalhos pode custar mais do que o próprio problema que se pretendia resolver.
Para leitura completa do artigo de Victor Hugo Argentino de Morais Vieira e Rafael Eudes , do Instituto Pólis, acesse: Correio Braziliense – “O lixo nosso de cada dia: futuro dos resíduos não está nas chaminés”.
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A commodity climática que o Brasil insiste em chamar de lixo
O país que discute transição energética ainda enterra uma de suas fontes mais acessíveis de energia
O El Niño que se aproxima não encontra o mesmo planeta de décadas atrás. Encontra oceanos mais quentes, eventos extremos mais frequentes e cidades cada vez mais expostas a enchentes, secas e colapsos urbanos. A Ásia já sente esses impactos, e o Brasil, como tantas vezes, parece disposto a esperar para sentir também.
Nesse cenário, chama atenção a forma como seguimos tratando um dos elementos mais decisivos da crise climática. O Brasil é hoje o quinto maior emissor de metano do mundo, e os resíduos já representam sua segunda maior fonte de emissão. O país gera cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mas reaproveita apenas 1,3% dos materiais que consome, segundo o Circularity Gap Report 2026. Ainda assim, o tema permanece à margem do debate público, como se fosse um detalhe técnico e não uma escolha estrutural.
Talvez o problema comece na forma como enxergamos — e nomeamos — aquilo que produzimos todos os dias. No Brasil, o metano nasce majoritariamente do lixo, e o lixo continua sendo tratado como destino final, não como recurso. Seguimos operando sob uma lógica que atravessou décadas quase intacta: produzir, consumir, descartar e enterrar. Enquanto isso, cerca de três mil lixões permanecem ativos no país, como um lembrete silencioso de que diferentes tempos convivem no mesmo território.
Mas o que insistimos em enterrar não desaparece, apenas muda de forma. Vira metano, vira calor, vira pressão sobre cidades que já operam no limite. E vira também algo que ainda não reconhecemos como deveria: energia. O gás gerado pela decomposição dos resíduos poderia ser capturado e transformado em biogás e biometano, capazes de gerar eletricidade, substituir combustíveis fósseis e abastecer cadeias urbanas. Mais do que isso, poderia chegar onde a rede ainda é precária, irregular ou simplesmente ausente, ampliando o acesso à energia e criando novas dinâmicas econômicas locais.
Em um país continental como o Brasil, isso ganha outra escala. Na Amazônia Legal, por exemplo, quase 3 milhões de pessoas ainda dependem de combustíveis fósseis para ter acesso à energia, segundo dados consolidados pela rede Uma Concertação pela Amazônia e pelo IEMA, com base em informações da Empresa de Pesquisa Energética. Nesse contexto, transformar resíduos em biometano deixa de ser apenas uma agenda climática e passa a ser também uma estratégia concreta de democratização energética.
Não se trata de uma promessa distante, mas de uma possibilidade real, que já começa a aparecer em iniciativas pontuais, ainda insuficientes para alterar o sistema. E talvez esteja aí o ponto central: o que falta não é tecnologia, nem conhecimento, nem sequer financiamento disponível. Falta tratar resíduos como parte da infraestrutura energética do país e não apenas como algo a ser retirado do campo de visão.
Há, aliás, algo de revelador na facilidade com que seguimos enterrando. Porque enterrar ainda é mais simples, mais imediato e, muitas vezes, mais barato do que transformar. O custo real dessa escolha, no entanto, apenas muda de lugar: reaparece sob a forma de enchentes, doenças, perda de produtividade e pressão sobre o gasto público. A má gestão de resíduos custa ao Brasil cerca de R$ 97 bilhões por ano, considerando impactos ambientais, climáticos e de saúde pública, segundo levantamento da consultoria S2F Partners com base em metodologia do PNUMA. O país esconde o problema no solo e redistribui suas consequências na superfície.
Nesse contexto, a diferença entre lixo e commodity não é técnica, mas política. Nenhum recurso nasce pronto; ele se torna estratégico quando há infraestrutura, regulação e investimento. Foi assim com o petróleo, com o etanol e com tantos outros setores que estruturam a economia brasileira. O lixo continua sendo tratado como lixo porque ainda não decidimos tratá-lo de outra forma.
Enquanto isso, o mundo começa, ainda que de forma desigual, a reposicionar os resíduos dentro de suas estratégias energéticas. Países como Suécia, Holanda e Dinamarca já operam sistemas capazes de transformar lixo em eletricidade, aquecimento urbano e insumos industriais. A Suécia desvia cerca de 99% dos resíduos dos aterros, e chegou a importar 3,86 milhões de toneladas de lixo de outros países em 2024 para abastecer suas usinas. O que antes era passivo passa a ser ativo; o que era problema passa a ser insumo. No Brasil, seguimos em outra etapa — uma etapa em que a transição energética convive, sem muito constrangimento, com a prática de enterrar uma fonte energética já disponível e distribuída pelo território.
Talvez por isso o metano revele tanto sobre o momento atual. Poucas agendas são ao mesmo tempo tão urgentes e tão viáveis. Reduzir suas emissões produz efeito climático no curto prazo, e fazê-lo a partir dos resíduos permite, simultaneamente, gerar energia, renda e inclusão.
A enorme quantidade de lixo produzida diariamente no Brasil não pode mais ser vista apenas como um passivo a ser administrado. Ela precisa ser reconhecida como aquilo que já é: um ativo com potencial energético relevante, capaz de reduzir emissões agora e ampliar o acesso à energia — especialmente para quem ainda vive fora ou à margem do sistema.
E, no fundo, talvez este seja o ponto de convergência que ainda tratamos como exceção: usar tecnologia para enfrentar desafios climáticos enquanto colocamos o bem-estar das pessoas no centro não é uma contradição — é justamente a síntese do que se convencionou chamar de Sociedade 5.0. Traduzir essa ideia em prática, no caso brasileiro, pode começar por algo menos abstrato do que parece: parar de tratar o lixo como fim e começar a reconhecê-lo como parte da infraestrutura energética do país.
Para aprofundar esse debate, o tema estará no centro do Fórum Freio de Emergência Climática, no próximo dia 3 de junho, durante a Rio Nature & Climate Week.
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O lixo nosso de cada dia: futuro dos resíduos não está nas chaminés
Por Victor H. Argentino de M. Vieira, Coordenador de Resíduos Sólidos no Instituto Pólis e Rafael Eudes, assessor da área de Resíduos Sólidos no Pólis
Proibir incineração é passo essencial para transformar cidades em espaços de economia circular e justiça ambiental. Florianópolis, reconhecida pela ONU como exemplo, mostra que coleta seletiva, compostagem e educação ambiental são caminhos a serem seguidos.
O Plano Nacional de Resíduos Sólidos, instituído em 2022, prevê a eliminação dos lixões e o aumento da reciclagem no Brasil. No entanto, mais de 3 mil depósitos de lixo a céu aberto continuam ativos e, ao mesmo tempo em que o chorume se infiltra no solo, podendo alcançar lençóis freáticos e cursos d’água, a decomposição da matéria orgânica libera metano (CH4) para a atmosfera, um gás de efeito estufa responsável por cerca de um terço do aquecimento global.
Dados do relatório de 2025 do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) mostram que em 2024 o país gerou mais de 88 milhões de toneladas de resíduos sólidos. Do total coletado, 26% tiveram como destino lixões a céu aberto ou aterros controlados que não impermeabilizam o solo para evitar o vazamento do chorume. Se por um lado é flagrante o risco de comprometer a água que abastece inúmeras comunidades, os satélites do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) também detectaram que as emissões resultantes dos resíduos respondem por cerca de 15% do metano emitido pelo Brasil.
Recentemente, a ONU homenageou 20 cidades do mundo que implementaram soluções alinhadas ao conceito de resíduo zero. A única escolhida na América Latina foi Florianópolis, pioneira ao assumir, por lei, o compromisso de alcançar lixo zero até 2030. Nada feito por meio de soluções mágicas, mas por compromissos claros com a economia circular.
Em um momento em que o Brasil tem sido palco para um intenso debate sobre tecnologias de incineração de resíduos, promovidas por meio de Usinas de Recuperação Energética (UREs), Florianópolis aponta outro caminho: o futuro está na redução da geração, na coleta seletiva, na reciclagem e na compostagem. A cidade desviou 14% dos resíduos orgânicos dos aterros; aumentou a compostagem de alimentos de 1.175 toneladas, em 2020, para 6.002 toneladas no ano passado; e cerca de 200 famílias garantem renda através da triagem de recicláveis. O compromisso com a economia circular se consolidou na Lei Municipal nº 10.574, que proíbe o envio de resíduos a aterros sanitários e à incineração, priorizando a reciclagem e a compostagem como destinos ambientalmente adequados.
Enquanto algumas cidades voltam a considerar, sob novas narrativas, a queima de resíduos como resposta rápida ao fechamento de lixões e à escassez de aterros, vale lembrar que a incineração carrega um histórico conhecido de impactos ambientais e à saúde. Em São Paulo, por quatro décadas, três incineradores anunciados como tecnologia de “última geração”, importados da Alemanha, operaram emitindo substâncias cancerígenas e desreguladores endócrinos sem controle ou monitoramento adequados. O legado não foi a solução da gestão de resíduos, mas impactos ambientais e sociais duradouros, frequentemente esquecidos quando o discurso da “energia a partir do lixo” retorna com verniz de modernidade.
Mesmo nos chamados “melhores padrões mundiais”, a incineração segue levantando alertas – inclusive pela própria ONU, que chama a atenção para a falta de fiscalização adequada e controle efetivo das emissões das UREs nos países em desenvolvimento. Monitoramentos conduzidos pela Zero Waste Europe e ToxicWatch indicam que países notórios pelo controle ambiental, como a França, registram emissões de poluentes orgânicos persistentes acima de níveis considerados seguros e 407 cidades receberam comunicados para evitar o consumo de ovos locais devido à contaminação por dioxinas, substâncias cancerígenas associadas à operação de incineradoras.
Dados econômicos também evidenciam que há alternativas mais vantajosas à incineração, cujo custo de implantação pode ser até oito vezes maior que o da energia solar fotovoltaica, com eficiência elétrica limitada a 20%–25%. Na Europa, a experiência revelou outro impasse: a Suécia importa resíduos para manter incineradores ativos, e a União Europeia passou a priorizar a reciclagem através de mudanças nas suas legislações e programas de financiamento público.
O contraste entre os caminhos é evidente: de um lado, políticas públicas que apostam em ciclos regenerativos, inclusão social e fortalecimento de economias locais – reduzir, reutilizar e reciclar-, de outro, modelos caros, poluentes e insustentáveis, que não enfrentam a raiz do problema e apenas o transformam em cinzas, gases e passivos ambientais. Florianópolis mostra que o futuro se constrói com inteligência e cuidado, e não nas chaminés do passado.
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