março 2026 | Amazônia, Direitos humanos, Direitos indígenas, Hidrovias, Mudanças Climáticas, Povos Tradicionais, Rios
Por Monica Prestes e Paula Fernandes*
Na Amazônia, uma estrada nunca conecta apenas dois pontos. Cada obra – seja porto, rodovia, aeroporto ou hidrovia – toca diretamente o território e a vida de quem depende dos rios e da floresta para existir. Como descreve o pesquisador Philip Fearnside, a metáfora da “espinha de peixe” revela bem esse processo: uma via principal puxa ramificações secundárias e, com elas, avançam o desmatamento, as ocupações irregulares e as pressões sobre comunidades que há séculos sustentam a floresta. Ali, infraestrutura nunca é neutra; é um rearranjo de forças, presenças e ausências.
Por muito tempo, o debate sobre desenvolvimento na região foi guiado quase exclusivamente pela lógica da eficiência econômica. Essa lógica se tornou mais intensa com a expansão do Arco Norte – um corredor de hidrovias, estradas e portos criado para acelerar o escoamento de grãos do país. Em 2024, esse corredor respondeu por um terço das exportações brasileiras de soja e milho e deve concentrar metade delas até o fim da década. Mas, quando esse avanço é visto de perto, o que emerge é um contraste difícil de ignorar: os investimentos que ampliam lucros e dão velocidade para as cargas não se traduzem em melhoria das condições de vida para boa parte da população amazônica, que segue com acesso precarizado a transporte, saúde, educação e segurança – e quase tudo depende dos rios.
Essa desigualdade estrutural apareceu com força em uma recente auditoria do Tribunal de Contas da União, que escancarou as fragilidades da governança hidroviária no país ao avaliar a política federal entre 2015 e 2025. O resultado é claro: o Brasil fez avançar, com robustez, a logística de exportação, mas manteve abandonado o transporte cotidiano de pessoas, justamente no território onde ele é vital.
Para quem vive nas grandes cidades, talvez ajude imaginar assim: uma ferrovia de carga instalada no meio da Avenida Paulista, com trens de 500 vagões passando dia e noite, tremendo prédios, bloqueando cruzamentos e impondo à cidade um ritmo pesado que serve a outra região. Nos rios da Amazônia, projeta-se algo muito similar. Cursos d’água que são ruas, quintais, varandas e caminhos de vida estão sendo convertidos em corredores industriais para escoar soja. As barcaças alteram a correnteza, afastam peixes e comprimem o cotidiano de ribeirinhos, pescadores, estudantes e famílias que dependem desses rios para tudo, da comida ao transporte escolar, da emergência médica ao trabalho diário.
A isso se somam os danos ambientais já documentados por pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará e por organizações como o GT Infra: erosão de margens, impactos sobre ecossistemas frágeis, perturbação de fauna aquática e reforço a um modelo logístico que historicamente marginaliza o transporte de passageiros.
E tudo isso ocorre em um território onde a ausência do Estado abriu espaço para redes criminosas cada vez mais organizadas. Narcotráfico, garimpo ilegal, contrabando e pesca predatória disputam rotas fluviais e fronteiras invisíveis, como mostram estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Universidade Estadual do Pará. Sem presença estatal contínua, o risco é transformar hidrovias estratégicas em eixos de aprofundamento da violência — onde infraestrutura, crime e disputa territorial passam a navegar pelo mesmo leito.
Nos últimos dias, essa realidade apareceu com brutalidade no Vale do Javari, região marcada pelos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips. Em 3 de março, o indígena Mateus Aurélio Paiva, do povo Marubo, foi sequestrado e torturado por pescadores ilegais dentro de seu próprio território. Amarrado, roubado e abandonado à deriva, sobreviveu mais de 24 horas até ser resgatado pelos próprios indígenas. A PF, informou a Univaja, não tinha efetivo para reagir. A organização denunciou que esse não é um caso isolado, mas a confirmação de um padrão: invasores armados circulam livremente enquanto o Estado falha em proteger quem vive ali. O ataque escancara o vazio institucional que se espalha pelos rios amazônicos.
Esse caso não está desconectado do restante da região. Ele evidencia o que acontece quando a Amazônia é tratada como um corredor para cargas, e não como um território vivo, habitado, complexo. Mostra que infraestrutura sem governança não produz desenvolvimento; produz vulnerabilidade. E que, na prática, rotas criadas para acelerar commodities podem também acelerar a violência.
Por isso, a pergunta essencial não é se a Amazônia precisa de infraestrutura. Ela precisa e muito. A pergunta é para quem essa infraestrutura é construída? Para cerca de 30 milhões de habitantes, os rios não são apenas caminhos logísticos; são escola, hospital, mercado, trabalho, encontro, território. São o centro da vida. E, ainda assim, continuam tratados como vias secundárias na formulação das políticas públicas.
Planejar a logística amazônica de forma estratégica significa reconhecer que os rios são o eixo da cidadania regional. Significa investir em portos de pequeno porte adequados, transporte fluvial escolar e de saúde, segurança na navegação, transporte regular de passageiros, conectividade digital, presença permanente do Estado, fiscalização e proteção territorial. Significa escutar quem vive, cuida e circula diariamente por esses caminhos.
Não se trata de escolher que infraestrutura levar à Amazônia, mas de construir infraestrutura para a Amazônia, uma infraestrutura que fortaleça, e não fragilize, aqueles que mantêm esse território vivo.
O futuro corre pelos rios. E é justamente por isso que precisamos decidir, juntos, qual futuro queremos e devemos à Amazônia e aos seus povos.
*Monica Prestes, jornalista correspondente na Amazônia e Paula Fernandes, diretora da Uma Gota no Oceano
março 2026 | Amazônia, Desmatamento, Hidrovias, Mudanças Climáticas, Povos Tradicionais, Rios
Sem salvaguardas ambientais e consulta qualificada, a logística perde o que promete entregar: previsibilidade, acesso a mercados e estabilidade de longo prazo.
Por Paula Fernandes e Monica Prestes
Onde a água pulsa, pulsa a vida. Nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, o Brasil escuta o compasso do seu próprio coração. A discussão sobre hidrovias não cabe numa prancheta técnica: ela atravessa pessoas, culturas, energia e clima. Ao riscar novas rotas sobre os rios, redesenhamos futuros. E, nesse território, infraestrutura deixa de ser obra e passa a ser política pública — especialmente numa região em que a ciência já nos alerta para a proximidade de pontos de inflexão da floresta, limiares a partir dos quais o equilíbrio ecológico pode se perder de forma rápida e irreversível, com consequências profundas para o país e para o mundo.
A promessa de acelerar cargas encurta distâncias, mas também mexe nas estruturas do território: comprime ecossistemas, desloca economias locais e afeta o pulso hídrico que mantém a floresta em equilíbrio. Essa pressa se soma a um novo desenho do licenciamento ambiental: o PL 2.159/2021, aprovado entre polêmicas e vetos presidenciais, virou a Lei nº 15.190/2025 e afrouxou a guarda para unidades de conservação e direitos de comunidades tradicionais.
A ciência também diz que, se a Moratória da Soja ceder, até 10 milhões de hectares desmatados desde 2008 podem virar lavoura, dissolvendo o ganho climático atribuído ao modal hidroviário e forçando a floresta rumo a limites perigosos. A conta chega na forma de chuva rareando, agricultura instável e maior vulnerabilidade hídrica — um prejuízo silencioso que dura décadas.
E tudo isso acontece quando o planeta entra na estação da falência hídrica: lagos minguam, aquíferos baixam e zonas úmidas desaparecem. Decidir dragagens e derrocagens sem dados abertos, sem avaliação cumulativa por bacia e antes de concluir um Plano Nacional de Logística (PNL 2050) que organize prioridades é entregar o leme à correnteza justamente quando precisamos de âncora e carta náutica.
Há, também, o que não cabe em tabelas. Para os Munduruku, Arapiun, Tupinambá, Kayapó, Panará, Borari, Kumaruara, Tupaiu, Tapuia, Maytapu, Jaraky e tantos outros povos, o rio não é corredor: é casa, caminho, alimento e memória. Incorporar esse saber é reconhecer uma verdade econômica e científica: esses povos prestam serviços ecossistêmicos — protegem a água, regulam o clima, conservam a biodiversidade e mantêm cadeias de valor possíveis. Nosso maior diferencial se chama sociobiodiversidade.
Nesse mesmo compasso, a Consulta Livre, Prévia e Informada é dever e, sobretudo, inteligência institucional. A consulta bem-feita previne contenciosos, reduz incertezas e oferece algo raro em tempos turbulentos: previsibilidade.
Intervir na Amazônia, nosso grande legado dos povos ancestrais, começa por planejar: dados hidrológicos e climáticos à luz do dia, avaliação por bacia para enxergar o mosaico inteiro, decisões alinhadas a um Plano Nacional de Logística que exista como guia. Implica, ainda, aplicar o licenciamento com rigor e densidade técnica. A agilidade do novo marco só será virtude se vier acompanhada de crivo qualificado — especialmente em empreendimentos de alto impacto. A Amazônia não tolera superfícialidade; exige profundidade.
No fim, não estamos diante de progresso versus atraso, mas de responsabilidade versus improviso. A pergunta que ecoa pelo Tapajós, pelo Madeira e pelo Tocantins — e que retorna à mesa de decisões em Brasília, nos estados e nas empresas — é simples e definitiva: em nome de quem, e de quê, vamos decidir? Porque o que está em jogo não é só como chegamos mais rápido, mas quem chega junto e o que permanece de pé — e se, no futuro, ainda teremos floresta suficiente para continuar existindo.
*Paula Fernandes é diretora da Uma Gota No Oceano e Monica Prestes é jornalista correspondente na Amazônia
fevereiro 2026 | Amazônia, Desmatamento, Mudanças Climáticas, Rios
Os rios são as artérias do planeta. Sem rios saudáveis, não há futuro sustentável.
É por isso que os debates atuais sobre infraestrutura na Amazônia importam muito além do Brasil.
Por Paula Fernandes – diretora da Gota
Desde 2016, acompanho de perto a luta do povo Munduruku em defesa do seu modo de vida e de seus territórios. Desde 2018, a Uma Gota no Oceano atua diretamente com os Munduruku na campanha “Em nome de quê?”, ancorada em uma mensagem simples e profunda: os rios são as artérias do planeta. Eles precisam correr livres e saudáveis para garantir nosso modo de vida no futuro. Naquele momento, essa mensagem já era urgente. Hoje, ela é incontornável.
Essa visão está materializada no “mapa da vida” que os Munduruku construíram sobre o Tapajós: um mapeamento feito a partir de seus saberes, no qual o rio é território vivo, não linha de navegação. Ali estão locais sagrados, áreas de pesca, rotas, histórias e memórias que sustentam a vida física, cultural e espiritual de um povo. O mapa revela o que muitos projetos de infraestrutura insistem em não ver: para esses povos o rio é vida, não ativo logístico.
Ao longo desses anos, vimos as comunidades resistindo à exploração ilegal de madeira e aos impactos devastadores do garimpo. Mas algo mudou de forma decisiva: entramos na era das mudanças climáticas. Eventos extremos deixaram de ser exceção e sistemas naturais operam no limite. Isso altera completamente o contexto de qualquer decisão pública ou privada.
Nesse cenário, preocupam propostas que seguem tratando rios amazônicos como infraestrutura a ser moldada às demandas da exportação. O debate em torno do Decreto nº 12.600 é emblemático: fala-se em eficiência e modernização, mas, na prática, abrem-se caminhos para intervenções que adaptam rios vivos às demandas da economia, em vez de adaptar a economia aos limites da vida.
Esse não é apenas um debate técnico ou jurídico. É um debate sobre qual economia faz sentido num planeta em aquecimento. A IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade) aponta o ponto cego: seguimos chamando de “crescimento” processos que destroem as bases da economia: florestas, solos e água. É a contradição de um sistema que depende da natureza, mas premia sua erosão em métricas como o PIB. Como lembra Paul Polman, se uma empresa destruísse seus próprios ativos e chamasse isso de crescimento, seria má prática. É o que fazemos quando degradamos florestas, solos e água e chamamos isso de PIB.
Na Amazônia, rios garantem água potável, alimento, mobilidade, identidade cultural e regulação climática. Comprimir suas “artérias” para transformá-las em corredores logísticos compromete todas essas funções. Consulta prévia e licenciamento são essenciais, mas a pergunta é mais profunda: por que ainda tomamos decisões sem considerar impactos de médio e longo prazo em plena crise climática?
Crescimento que fragiliza os sistemas que sustentam a vida não é desenvolvimento, é aceleração do colapso. Se a economia depende da natureza, a economia precisa mudar. Proteger rios e pessoas não é entrave; é a condição de qualquer futuro viável.
Já vivemos os impactos das mudanças climáticas. A janela para agir está se fechando e as decisões que tomarmos agora definirão o mundo em que viveremos.
Que nossas escolhas honrem essa responsabilidade.
janeiro 2026 | Eleições, Política
A Dança dos Signos em Ano Eleitoral
O sentido nasce onde a palavra encontra quem a lê e é dessa relação afetiva que a política se faz.
Por Paula Fernandes – diretora da Gota
Quando a floresta vira “ativo”, o rio vira “recurso” e o animal vira “proteína”, a devastação já começou. Ainda que só no discurso. Antes da motosserra, vem a palavra. Antes da erosão da terra, a erosão do sentido.
Em ano eleitoral, quem controla a linguagem sai na frente. A disputa climática de 2026 não será apenas sobre metas, políticas públicas ou promessas de campanha. Será uma disputa simbólica: sobre como nomeamos o mundo; sobre quem define o que é progresso, quem vira obstáculo e o que pode ser sacrificado em nome do “desenvolvimento”.
Para quem comunica causas socioambientais, ignorar isso é um erro estratégico.
Foi exatamente por reconhecer a centralidade dessa disputa que a Gota decidiu investir tempo, reflexão e método em um assunto frequentemente tratado de forma superficial: como os sentidos são criados, disputados e distorcidos na comunicação. Para isso, convidamos Alexandre Shirmer Kieling, pesquisador e professor de comunicação, pós-doutor pela UnB e docente da Universidade Católica de Brasília, para conduzir com nosso time de jornalistas uma conversa intitulada “A Dança dos Sentidos – O que fazemos com os signos?”.
A escolha não foi casual. Em um ambiente saturado de fórmulas prontas, slogans vazios e respostas automáticas, quisemos alguém que ajudasse a pensar, não a simplificar. Alguém capaz de conectar linguagem, política, tecnologia e imaginário social com rigor e senso de urgência.
A conversa começou com uma pergunta incômoda:
Se o que dizemos não é o que o outro entende, quem está perdendo essa disputa?
A resposta é clara: estamos todos perdendo.
Vivemos em um ambiente digital que recompensa o choque, a simplificação e a reação imediata. Algoritmos não privilegiam nuance. Plataformas não foram feitas para sustentar pensamento complexo. Em ano eleitoral, esse cenário se agrava: bolhas se fecham, posições se radicalizam e qualquer tentativa de mediação passa a ser tratada como suspeita
Mas comunicar não é gritar mais alto, é organizar sentidos.
E organizar sentidos, hoje, exige ir contra a lógica da aceleração permanente. Exige desacelerar, contextualizar e criar pontes onde o ambiente digital só oferece trincheiras.
Ao longo da aula, ficou evidente que essa disputa acontece no imaginário coletivo. É ali que se decide se povos tradicionais serão reconhecidos como guardiões do futuro ou reduzidos a estereótipos convenientes. É ali que a Amazônia pode ser entendida como território vivo ou como fronteira de exploração. É ali que o planeta pode aparecer como um sistema do qual fazemos parte ou como um estoque a ser exaurido.
Nada disso é neutro.
Nada disso é ingênuo.
Quando trocamos “vida” por “produto”, “natureza” por “recurso” e “território” por “ativo”, não estamos apenas mudando palavras. Estamos estreitando o campo do possível. Estamos treinando a sociedade para aceitar o inaceitável.
A linguagem prepara o terreno da política.
Por isso, quem comunica causas ambientais precisa assumir sua responsabilidade: cada palavra é uma escolha ética. Cada narrativa fortalece ou enfraquece determinados mundos.
No ambiente digital, essa responsabilidade cresce. O sentido não está apenas no que se diz, mas no modo como é lido – filtrado por experiências, emoções e algoritmos. Por isso, a mesma frase pode gerar empatia ou conflito, dependendo de onde e como circula.
Mediar hoje é um ato de resistência. Resistir ao ruído, à automatização do pensamento, à captura emocional permanente. A inteligência artificial pode acelerar processos, mas não substitui discernimento, escuta e responsabilidade humana.
Também não substitui os saberes que seguem vivos fora da lógica das plataformas – os saberes ancestrais, os tempos longos, os vínculos profundos com a terra. Modos de imaginar o mundo que não viralizam, mas sustentam a vida.
Atravessar 2026 vai exigir mais do que boas campanhas, mas método, intenção e posicionamento. Será preciso disposição de olhar para cada projeto e se perguntar que imaginário ele ativa? Quem deixa de fora? Em que ponto o sentido corre o risco de ser sequestrado?
Precisaremos aprender a dançar com os signos. Não para controlá-los, mas para não sermos engolidos por eles. E, quem sabe, reconstruir os vínculos que ainda nos mantêm vivos.
Em ano eleitoral, isso não é detalhe técnico. É responsabilidade política.
janeiro 2026 | Amazônia, Desmatamento, Mudanças Climáticas
É a Gota D’água: pacto pela vida
Entre a escassez de água no mundo e a devastação da floresta, o Brasil carrega um destino inadiável: assumir a liderança ecológica que o planeta exige.
Por Paula Fernandes — Diretora da Gota
Às vezes parece que vivemos em um tempo suspenso, cheio de incertezas e rearranjos inesperados. O impasse no acordo Europa-Mercosul, as ameaças sobre a Groenlândia, os sinais de colapso climático em diferentes regiões – tudo isso compõe uma configuração instável, quase caótica, que nos obriga a repensar nosso lugar no mundo. É nesse cenário que a água e a floresta se revelam não apenas como recursos, mas como destino.
Nesta semana, a Universidade das Nações Unidas lançou um alerta inédito: o mundo já vive um estado de “falência hídrica”. Aquíferos subterrâneos em colapso, lagos encolhendo e bilhões de pessoas sem acesso à água suficiente mostram que não estamos diante de uma crise temporária, mas de uma nova realidade. O Brasil detém cerca de 12% da água doce superficial do mundo. Grande parte dessa riqueza está concentrada na Amazônia, cuja bacia hidrográfica responde por cerca de 20% da descarga fluvial mundial — o maior fluxo de água doce do planeta. Essa abundância hídrica nos coloca entre os países mais privilegiados do mundo, com vantagem estratégica para agricultura e abastecimento urbano. Como lembra João Moreira Salles em Arrabalde, “a periferia se tornou o verdadeiro centro, e o centro, a periferia. É a Amazônia que nos põe e nos tira da cena internacional”.
Em paralelo a esse diagnóstico global, Sergio Leitão resgata em seu artigo para o Correio Braziliense “Por um pacto político que resolva a questão fundiária na Amazônia” uma condição histórica que nos persegue: a ausência de destinação clara para terras públicas perpetua o desmatamento e compromete diretamente os sistemas naturais que regulam o ciclo da água. O que a ONU mostra como colapso planetário, Leitão revela como prática cotidiana no Brasil: a destruição da floresta e a fragilidade da governança fundiária corroem nossa capacidade de proteger o recurso mais estratégico que temos.
Foi diante dessas preocupações que surgiu a Uma Gota no Oceano. Em 2011, lançamos a campanha Movimento Gota D’água, que denunciava os impactos socioambientais da construção da Usina de Belo Monte, símbolo da exploração desregrada dos recursos hídricos e da falta de debate público sobre seus efeitos. Em 2013, nos estruturamos como organização de comunicação estratégica voltada para questões socioambientais, incorporando em nosso trabalho o fortalecimento dos direitos dos povos tradicionais, indígenas e quilombolas, reconhecidos como guardiões mais eficientes do nosso patrimônio natural. Em 2018, lançamos a campanha Em nome de quê?, lembrando que os rios são as artérias do planeta e precisam correr livres e saudáveis para garantir nosso modo de vida. E, desde o ano passado, temos colocado o metano no centro do nosso radar, mostrando que reduzir suas emissões é a estratégia imediata mais eficaz para ganhar tempo na corrida contra as mudanças climáticas.
Neste ano de eleições e de turbulência internacional, nosso desafio é mediar olhares e narrativas com consistência, independência e clareza, para que, em meio ao excesso de notícias e à pressão da desinformação, a sociedade perceba que a resposta está em proteger o nosso patrimônio natural e valorizar a nossa IA — Inteligência Ancestral. Por milênios, partes desta floresta vêm sendo manipuladas por mãos indígenas, em trabalhos de seleção de plantas e construção de solos férteis que revelam um conhecimento profundo das interações entre plantas, animais, fungos, micro-organismos, chuva e vento. A floresta que conhecemos hoje é fruto dessa notável inteligência ecológica.
Permitir que a Amazônia seja degradada não seria apenas um erro político ou econômico: seria um colapso moral, uma traição ao futuro. A sabedoria dos povos indígenas e quilombolas é a nossa bússola, capaz de orientar o Brasil e o mundo em direção à sobrevivência. Nossa relevância internacional não se mede em cifras ou poder bélico, mas naquilo que nos torna singulares: a maior floresta tropical do planeta e os povos que sabem como cuidar dela. O destino nos chama: esta é a primeira, e talvez a única, oportunidade de o Brasil assumir protagonismo no avanço global rumo a uma nova economia verde.
Página 1 de 2412345678...20...»Última »