O freio da emergência climática existe

O freio da emergência climática existe

Dez anos após a Emenda de Kigali, o sucesso do Protocolo de Montreal mostra que limitar a intensidade e a duração do overshoot climático exigirá transformar compromissos voluntários sobre metano em obrigações vinculantes

Artigo de Opinião

Por Durwood Zaelke – fundador e presidente do Institute for Governance & Sustainable Development (IGSD) e um dos principais defensores de estratégias para proteger rapidamente o clima por meio da redução de poluentes climáticos de vida curta, incluindo o metano.

A humanidade já mostrou que é capaz de deter uma ameaça à atmosfera e ao clima global.
Em pouco mais de três décadas, o Protocolo de Montreal eliminou 99% da produção e do consumo de quase 100 substâncias que destroem a camada de ozônio, hoje em recuperação.

Tive o privilégio de acompanhar de perto a construção dessa resposta. Montreal funcionou ao combinar metas vinculantes, cronogramas claros, monitoramento, financiamento e assistência técnica aos países em desenvolvimento.

Há 10 anos, a Emenda de Kigali incluiu nessa arquitetura a redução gradual dos hidrofluorcarbonetos (HFCs), gases usados sobretudo em refrigeração e ar-condicionado, que, peso por peso, podem aquecer o planeta até 2 mil vezes mais que o CO₂. Estima-se que Montreal e suas emendas evitem até 2,5°C de aquecimento até o fim do século, incluindo até 0,5°C atribuídos a Kigali. É dessa arquitetura que a mitigação do metano precisa na era do overshoot.

O relatório Limiting Overshoot, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), mostra que a ultrapassagem de 1,5°C de aquecimento é inevitável. No cenário mais otimista, o pico seria de cerca de 1,8°C. A questão já não é se cruzaremos esse limite. O desafio é saber quanto ficaremos acima dele, por quanto tempo e se conseguiremos retornar rapidamente a níveis seguros.

Cada décimo de grau significa mais calor extremo, mais perdas agrícolas, mais doenças, mais deslocamentos humanos e maiores danos econômicos. Limitar a intensidade e a duração do overshoot será um desafio central da governança climática nas próximas décadas. E o metano está no centro dele.
O metano responde por cerca de um terço do aumento da temperatura global já registrado. Em 20 anos, retém cerca de 80 vezes mais calor que o CO₂, mas fica apenas 12 anos na atmosfera, contra séculos do CO₂. Essa combinação faz do metano a alavanca mais rápida para desacelerar o aquecimento. Cortar 45% das emissões globais poderia evitar uma elevação de cerca de 0,3°C até 2050.

Mitigar o metano não substitui a descarbonização. Reduzir o CO₂ é a maratona que estabilizará o clima no longo prazo. Cortar metano é a corrida de curta distância capaz de desacelerar o aquecimento enquanto concluímos essa transição, minimizando o risco de ultrapassar pontos de não retorno e de um overshoot mais intenso e prolongado.

Lançado em 2021, o Compromisso Global do Metano ajudou a tirar o metano das sombras. Mais de 150 países, incluindo o Brasil, apoiam a meta de cortar 30% das emissões globais até 2030.

Mas a experiência climática expôs os limites dos compromissos voluntários. O acordo não distribui responsabilidades nem prevê mecanismos de cumprimento. Os planos nacionais atuais cortariam apenas cerca de 8% das emissões globais de metano até 2030; soluções disponíveis poderiam cortar cerca de 32%, mais de 80% dessas reduções a baixo custo. Essa é a distância entre o tecnicamente possível e o que os compromissos voluntários estão entregando.
Enfrentar o maior desafio climático da história exige transformar esse compromisso global em acordo vinculante, começando pelos combustíveis fósseis. Significa adotar metas obrigatórias, cronogramas, sistemas de monitoramento, mecanismos de financiamento e responsabilidades diferenciadas — pilares de Montreal e Kigali — que estão entre os acordos multilaterais mais bem-sucedidos.

Não exige adesão simultânea de todos os países. Uma coalizão inicial de produtores de gás natural, compradores e países vulneráveis poderia estabelecer padrões, criar incentivos de mercado e ampliar a participação. Discussões entre Brasil, China e Índia, três dos quatro maiores emissores de metano, além de Reino Unido e França, apontam um caminho.

Petróleo e gás, onde as reduções são baratas e lucrativas, são o ponto de partida. Resíduos e agropecuária podem avançar com marcos regulatórios e financiamento adaptados às diferentes realidades. Os três setores respondem por mais de 95% das emissões globais de metano.
A Semana do Clima de Nova York pode dar impulso político à proposta. A COP31 poderá ampliá-la e dar mandato claro aos negociadores para avançar nas discussões.

Montreal e Kigali mostraram que regras comuns, financiamento adequado e responsabilidades compartilhadas podem mudar a trajetória de uma crise global. O desafio do metano é diferente, mas a lógica é a mesma.

Temos diante de nós uma das raras chances de reduzir o aquecimento de forma rápida e mensurável. O freio de emergência climática está ao nosso alcance. O que falta não é tecnologia nem conhecimento. É criar a obrigação política de acioná-lo.

 

O alerta que vem do Hemisfério Norte

O alerta que vem do Hemisfério Norte

O próximo verão começa agora: nas decisões e investimentos de hoje e na capacidade de integrar conhecimento, gestão pública e participação social.

Artigo de Opinião

Por Inamara Melo: Diretora de Políticas para Adaptação e Resiliência da Secretaria Nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA)

O verão excepcionalmente quente no Hemisfério Norte chegou ao fim deixando um alerta inequívoco. Europa, América do Norte, África e Ásia registraram temperaturas que superam marcas históricas e ampliam os impactos sobre a saúde, a infraestrutura urbana e as atividades econômicas, além de favorecer incêndios florestais de grandes proporções. Somado à influência do El Niño, que intensificou eventos extremos em cidades europeias, o aquecimento experimentado no Norte Global deu à outra metade do mundo a chance de agir antes que os impactos se agravem demasiadamente.

No Brasil, Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico e Defesa Civil apontam elevada probabilidade de permanência do El Niño até o início de 2027, com intensidade muito forte entre a primavera e o verão, o que deve elevar as temperaturas, alterar os regimes de chuva e ampliar o risco de ondas de calor e incêndios florestais.

Os riscos sobre a saúde são particularmente preocupantes. O estudo Saúde e Ondas de Calor: Mortalidade, Morbidade e Implicações para o SUS no Brasil revelou que o calor extremo esteve associado a pelo menos 120 mil mortes entre 2000 e 2019, sendo 80% delas entre idosos. Os impactos atingem de forma desproporcional pessoas com menor escolaridade, mulheres e populações vulneráveis. Já o relatório elaborado por pesquisadores das universidades de Chicago e Berkley aponta que o Brasil deve ser o quinto país do mundo mais atingido, com cerca de 13 mil mortes relacionadas ao aquecimento extremo das águas do Pacífico. As projeções estimam 44% mais dias de calor extremo do que seria esperado em um ano normal.

Diante dessa urgência, o Brasil lançou o plano Clima, que envolveu 25 ministérios em diálogo com estados, municípios, setor empresarial e sociedade civil, estabelecendo objetivos de adaptação alinhados às metas globais e mais de 800 ações voltadas à redução dos riscos climáticos. Sua governança conta com o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima, com câmaras de articulação federativa e participação social, além do IndicaClima, que dá transparência às políticas públicas. Ainda assim, o planejamento federal só terá efeito com a rápida integração de estados e municípios.

Na área da saúde, essa mobilização está em curso. Com o AdaptaSUS, o país  prevê R$ 9,8 bilhões até 2035 para adaptar o SUS aos impactos climáticos, incluindo o Painel de Excesso de Calor, ferramenta que permite alertas antecipados de até cinco dias, novos protocolos para estados e municípios e a ampliação da Força Nacional do SUS para oito bases regionais, garantindo respostas mais rápidas a emergências climáticas.

Mas enfrentar o calor extremo exige integrar a adaptação às políticas de habitação, mobilidade, arborização, uso e ocupação do solo, infraestrutura urbana e proteção social. O Programa Cidades Verdes Resilientes tem papel estratégico, com iniciativas como o AdaptaCidades já presentes em mais de 500 municípios, e o Beat the Heat, o Mutirão contra o Calor Extremo, lançado na COP30.

As soluções já são conhecidas. Arborização, corredores verdes, recuperação de áreas naturais, sombreamento de espaços públicos, arquitetura bioclimática, ventilação natural e materiais mais eficientes reduzem significativamente as temperaturas urbanas. Em hospitais, escolas, creches e equipamentos públicos, o resfriamento adequado torna-se uma medida de proteção à vida, priorizando idosos, crianças, gestantes e pessoas em situação de rua, sem elevar o consumo de energia nem as emissões que alimentam o próprio aquecimento.

Com esse objetivo, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lançaram o Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento, conectando adaptação e mitigação, proteção das pessoas e desenvolvimento sustentável. Essa agenda não avança sem o fortalecimento do federalismo climático, reconhecido na NDC brasileira, que associa o enfrentamento da mudança do clima à articulação entre União, estados e municípios.

Oficialmente, entramos na primavera, mas, para os gestores, o próximo verão começa agora: nas decisões e investimentos de hoje, baseados na melhor ciência, e na capacidade de integrar conhecimento, gestão pública e participação social. Preparar o Brasil para o calor extremo é reduzir desigualdades e afirmar que a adaptação climática não é uma escolha, mas responsabilidade federativa compartilhada e condição indispensável para o desenvolvimento do país.

 

Reflorestar o futuro

Reflorestar o futuro

O tabuleiro mudou. O desafio agora é o equilíbrio.

Editorial

O Brasil chega ao segundo turno diante de uma escolha que não permite indiferença. Em menos de três semanas, as urnas decidirão não apenas quem governará o país pelos próximos quatro anos, mas como o poder será exercido em um momento de profunda vulnerabilidade democrática, social e climática. A mudança expressiva na correlação de forças, especialmente no Senado, amplia a capacidade de pressão sobre o equilíbrio entre os Poderes e sobre decisões cujas consequências ultrapassarão um mandato presidencial. Nesse cenário, a Presidência da República terá uma responsabilidade ainda maior: proteger as referências democráticas e humanitárias do país e manter abertas as pontes entre desenvolvimento, justiça social, direitos, diversidade e interesse público.

Se experiência administrativa, currículo e realizações de governo explicassem sozinhos o comportamento do eleitorado, muitos resultados teriam sido diferentes. O principal recado das urnas parece ser outro: as pessoas não votam apenas em fatos. Votam naquilo em que acreditam, no que desejam preservar, no que esperam conquistar e no futuro em que conseguem se reconhecer.

O linguista e cientista cognitivo norte-americano George Lakoff dedicou décadas a estudar esse fenômeno. Sua conclusão é simples: interpretamos a realidade por meio de valores e referências culturais. Antes de concordar com uma proposta, precisamos encontrar nela algo que dialogue com a história que contamos sobre quem somos, o que valorizamos e para onde desejamos ir.

É isso que ajuda a explicar a perplexidade depois do primeiro turno. Indicadores, programas de governo, desempenho econômico e estratégias de campanha importam, mas não dão conta, sozinhos, do resultado. A política também é uma disputa pelo imaginário: uma disputa entre diferentes histórias sobre o país e diferentes visões de futuro. Uma sociedade não se move apenas porque reconhece bons resultados. Move-se quando consegue se enxergar na proposta de amanhã em que ela se enxergue feliz.

O Brasil já foi capaz de construir um horizonte comum dessa natureza. Ao sair de duas décadas de ditadura, a Constituição de 1988 reuniu dignidade humana, cidadania, pluralismo, justiça social, direitos dos povos indígenas e proteção ambiental em um projeto democrático. Mais do que reorganizar o Estado, ajudou o país a imaginar que poderia ser mais justo, diverso e inclusivo. Muitas de suas promessas permanecem incompletas, mas foi esse sonho coletivo que abriu caminhos antes impensáveis.

É desse sonho que emerge Sonia Guajajara. A presença de uma mulher indígena no centro das decisões nacionais é uma das realizações mais concretas da Constituição Cidadã. Mas Sonia Guajajara não apenas materializa o horizonte de 1988. Ao ocupar esse espaço, atualiza, amplia e devolve aquele sonho ao país como uma nova visão de futuro.

Sonia Guajajara parte da experiência dos povos indígenas, mas não permanece confinada a ela. Ao levar água, clima, biodiversidade, soberania, democracia e qualidade de vida para o centro do debate, transforma uma vivência particular em projeto coletivo. Faz da defesa dos territórios uma reflexão sobre o futuro das cidades; da proteção da floresta, uma questão de segurança hídrica, climática e da cultura a chave para imaginar o amanhã.

Nessa perspectiva, a prosperidade e preservação deixam de ser adversárias. O desenvolvimento não se mede apenas pelo que conseguimos extrair do presente, e o futuro deixa de ser uma conta empurrada para quem ainda não nasceu. A emergência climática torna essa visão não apenas desejável, mas indispensável. Não existe resposta individual para a falta de água, o calor extremo, as enchentes ou a degradação dos ecossistemas. O clima, a água e a biodiversidade pertencem à esfera do bem comum: todos dependem deles, ninguém consegue preservá-los sozinho.

Essa visão também oferece uma resposta à polarização. A experiência indígena ensina que a interdependência não é fragilidade, mas condição de sobrevivência. Viver em sociedade exige negociar diferenças, preservar vínculos e sustentar compromissos que ultrapassam os interesses individuais. Nenhuma sociedade se mantém apenas pela imposição e pelo confronto.

É por isso que esta escolha importa. Os fatos podem perder espaço nas disputas políticas, mas a realidade se impõe. O El Niño já está entre nós, e as mudanças climáticas exigem políticas pautadas na ciência. O voto não define apenas quem ocupará um cargo, mas quem tomará essas decisões quando o país precisar proteger vidas, responder a emergências e preparar o futuro. Pode ser a diferença entre prevenir e remediar, cuidar e abandonar, salvar vidas e colocá-las em risco.

O Brasil já sabe o custo de ignorar os fatos. Há poucos anos, mais de 700 mil brasileiros perderam a vida quando a desinformação, a negligência e o desprezo pelas evidências cobraram seu preço mais alto. A emergência climática é a nova pandemia: não espera consenso nem respeita fronteiras. E, quanto maior a demora em agir, maior o preço pago pela sociedade. Estamos diante de um novo teste.

A pergunta é simples: aprendemos a lição?

O clima tem seu voto?

O clima tem seu voto?

Editorial 

Quando você apertar os números na urna, em 4 de outubro, estará decidindo muito mais do que quem ocupará os governos e o Congresso. Ajudará a definir se haverá água nos reservatórios, comida a preços acessíveis, cidades preparadas para enchentes e ondas de calor e uma Amazônia capaz de continuar regulando o clima do país. 

Durante décadas, avaliamos candidatos por critérios como economia, saúde, educação, emprego e segurança. Todos continuam essenciais. Mas já não é possível tratá-los separadamente da crise climática. Sem estabilidade do clima, falta água, a comida encarece, doenças se multiplicam, empregos desaparecem e cidades inteiras se tornam mais vulneráveis. 

Por isso, antes de votar, há uma pergunta incontornável: o que cada candidato pretende fazer diante da crise climática? 

Os resultados recentes mostram que as escolhas políticas importam. Em 2025, o Prodes, sistema de monitoramento do INPE, registrou 5.731 km² de desmatamento na Amazônia Legal, a menor taxa desde 2015 e menos da metade dos 11.594 km² registrados em 2022. No Cerrado, o desmatamento também recuou. 

Não foi acaso. A queda veio da retomada da fiscalização, dos embargos e das políticas públicas de prevenção e controle. Com a redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado desde 2022, estima-se que cerca de 734 milhões de toneladas de gases de efeito estufa tenham deixado de ser emitidas. 

A lição é inequívoca: quando há decisão política e ação do Estado, o desmatamento cai. Quando elas desaparecem, ele volta a subir. 

Mas essa conquista permanece frágil. A Moratória da Soja, pacto que impede a compra de grãos produzidos em áreas desmatadas, precisou ter sua constitucionalidade reconhecida pelo STF. A nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental alterou regras para autorizações e fiscalização de empreendimentos e continuará produzindo efeitos no próximo ciclo político. O que foi recuperado pode ser novamente perdido. 

E o Brasil já não dispõe do conforto de adiar decisões. 

A ciência alerta que a Amazônia se aproxima de limites perigosos. Carlos Nobre estima que a combinação de um desmatamento entre 20% e 25% da floresta com um aquecimento global de 2°C a 2,5°C pode levá-la ao chamado ponto de não retorno. Estimativas recentes indicam que cerca de 18% da Amazônia já foi desmatada. 

À medida que seca, fogo e calor avançam, a floresta perde sua capacidade de se recuperar. Ultrapassado determinado limite, partes da Amazônia podem deixar de funcionar como floresta. E não haverá botão de emergência capaz de restaurar o que foi destruído. 

Isso não diz respeito apenas a quem vive na região amazônica. A Amazônia é uma gigantesca máquina de produzir chuva. A umidade gerada pela floresta viaja pelos chamados rios voadores e ajuda a abastecer o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul. Sustenta lavouras, enche reservatórios, gera energia e mantém navegáveis os rios utilizados para escoar a produção. 

Proteger a Amazônia não é defender uma paisagem distante. É proteger a água que chega à torneira, a comida colocada à mesa e as condições que mantêm a economia funcionando. 

A floresta também abriga cerca de 10% das espécies conhecidas do planeta, protege povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas e armazena enormes quantidades de carbono. Quando preservada, é um cofre. Quando queima, torna-se uma chaminé. Derrubá-la em nome do lucro imediato é vender o poço para ficar com o balde. 

Os impactos sobre a saúde já podem ser medidos em vidas. Projeções relacionadas ao Super El Niño de 2026 e 2027 indicam milhares de mortes adicionais por calor extremo no Brasil. A fumaça das queimadas agrava doenças cardiorrespiratórias, aumenta internações e amplia os riscos enfrentados pelas populações mais vulneráveis. 

Diante disso, não basta um candidato afirmar que se preocupa com o meio ambiente. É preciso exigir compromissos concretos em três frentes. 

Na mitigação, pergunte qual é a meta para zerar o desmatamento e como o candidato pretende fiscalizar, restaurar áreas degradadas e reduzir emissões na energia, nos transportes, na agropecuária e nos resíduos. 

Na adaptação, exija planos para proteger cidades de enchentes e ondas de calor, preparar a agricultura para as secas, fortalecer o SUS e garantir o abastecimento de água. Eventos extremos já estão acontecendo. Administrar como se o clima não tivesse mudado é condenar a população a pagar por essa negligência. 

Em perdas e danos, pergunte quem apoiará as famílias que perderem suas casas, os agricultores que tiverem suas lavouras destruídas e as comunidades privadas de seus meios de vida. Haverá fundos de emergência, seguro rural e reassentamento digno? Quem assumirá a conta quando o desastre chegar? 

Essas perguntas devem ser dirigidas a todos os candidatos, não apenas aos que disputam o Executivo. A eleição de 4 de outubro também renovará a Câmara dos Deputados e dois terços do Senado. É no Congresso que se aprovam leis ambientais, regras de licenciamento, políticas de proteção territorial e o orçamento necessário para tirá-las do papel, além das Assembleias Legislativas nos estados da federação 

Voto para o Legislativo também é voto sobre o clima, ainda que o candidato jamais pronuncie essa palavra. 

Há ainda o Judiciário. O próximo presidente poderá indicar até quatro ministros do STF, Supremo Tribunal Federal, até 2030. Sabatinadas pelo Senado, essas escolhas terão influência duradoura sobre demarcação de terras, direitos indígenas e quilombolas e validade das regras ambientais. 

A crise climática não está apenas na Amazônia, nas conferências internacionais ou nas decisões de Brasília. Ela está na rua que alaga, no posto de saúde que recebe vítimas do calor, no reservatório que seca, na lavoura que se perde e no bairro que respira fumaça. Está também na forma como cada município lida com seus resíduos, protege seus mananciais e prepara sua infraestrutura para os eventos extremos. 

Por isso, mantenha os critérios de sempre ao escolher seus candidatos. Mas acrescente o critério que sustenta todos os demais. 

Não aceite promessas vagas. Pergunte, compare e cobre compromissos. O clima pode não aparecer na urna eletrônica, mas o resultado das urnas aparecerá na sua água, na sua comida, na sua saúde, no seu trabalho e na sua cidade. 

Conecte os pontos antes de votar. O clima pode não aparecer na urna eletrônica, mas aparecerá na sua conta de luz, na sua comida, na sua saúde, no seu trabalho e na sua cidade. Depois, será tarde demais para dizer que uma coisa não tinha relação com a outra. 

Ferrogrão é atalho para o colapso

Ferrogrão é atalho para o colapso

O debate sobre a Ferrogrão voltou ao centro da agenda nacional. Apresentada como uma solução logística para o escoamento da produção de grãos, a ferrovia que ligaria Sinop (MT) a Miritituba (PA) representa, na prática, um projeto de alto risco socioambiental: ameaça de desmatamento em larga escala, invasão de territórios e contaminação dos rios amazônicos. Às vésperas da COP30 em Belém, a discussão sobre a Ferrogrão expõe a contradição entre o discurso climático do Brasil e os interesses do agronegócio. No artigo publicado originalmente em O Globo, Alessandra Munduruku e Renata Utsunomiya analisam como o projeto pode se transformar em um verdadeiro atalho para o colapso climático e agrícola.

Ferrogrão é atalho para o colapso

Ferrovia é vendida como solução logística, mas, na prática, significa mais desmatamento, invasões e veneno

Por Renata Utsunomiya e Alessandra Munduruku*

Na beira do Rio Tapajós, onde barcaças de soja e minério já rasgam malhadeiras e deixam peixes mortos, vemos uma amostra do que a Ferrogrão pode multiplicar. A ferrovia de 933 quilômetros entre Sinop (MT) e Miritituba (PA) é vendida como solução logística, mas, na prática, significa mais desmatamento, invasões e veneno sobre territórios e florestas.

Defensores dizem que a Ferrogrão reduziria as emissões em relação ao transporte rodoviário. Mas a conta não fecha: os impactos cumulativos — desmatamento, monocultura e agrotóxicos — mostram que não basta comparar combustíveis. Estudos da UFMG apontam que os municípios afetados concentram 9,8 milhões de hectares de florestas e savanas ainda intactas, sob risco de conversão em lavouras, fragilizando o equilíbrio das bacias dos rios Xingu e Tapajós.

O povo mundurucu já sente esses impactos. Nas terras Praia do Índio e Praia do Mangue, em Itaituba (PA), portos de soja contaminam a água e restringem a pesca. Se a ferrovia avançar, o transporte de grãos pelo Tapajós poderá aumentar sete vezes, agravando esse cenário.

Nem a lógica econômica sustenta o projeto. Estudo do Amazônia 2030 mostra que o retorno financeiro realista é até sete vezes menor que o projetado, significando mais subsídios pagos pela população para beneficiar Cargill, Bunge e Amaggi. Além disso, o mercado internacional exige rastreabilidade e desmatamento zero; produtos ligados à destruição podem ser barrados, inviabilizando o escoamento que o agronegócio diz querer facilitar.

A Ferrogrão é a espinha dorsal de um corredor que transforma a Amazônia em rota de commodities e condena o país a papel subalterno. Arrasta consigo mais portos e a conversão dos rios em hidrovias.

Em agosto, o governo incluiu os rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização, permitindo que grandes empresas os transformem em hidrovias. No Tocantins, querem explodir o Pedral do Lourenção, berço de peixes e espécies únicas. Tudo em flagrante violação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que garante a consulta livre, prévia e informada. E, às vésperas da COP30 em Belém, esse retrocesso fragiliza a credibilidade do Brasil diante do mundo.

É nesse contexto que o STF julgará a ADI 6.553 (sobre o trajeto da Ferrogrão) em 1º de outubro. A decisão não trata apenas de uma ferrovia, mas da autoridade da Constituição e da capacidade do país de limitar a pressão do agronegócio.

A ciência e a ancestralidade advertem que o desmatamento já compromete os “rios voadores” que sustentam as chuvas no Centro-Sul e que, sem floresta em pé, não há agricultura que sobreviva. E, com rios mortos, como veias abertas para os lucros do agro, qualquer futuro e soberania se esvai.

Mas há alternativas. Com regularização fundiária, demarcação e titulação de territórios, podemos garantir floresta viva, renda e equilíbrio climático. Em vez de beneficiar empresas estrangeiras, devemos fortalecer economias locais, diversificar a produção e valorizar a sociobiodiversidade. A Ferrogrão não é solução. É um atalho para o colapso climático, agrícola, alimentar e econômico do Brasil.

*Alessandra Korap Munduruku , líder indígena do Médio Tapajós, é presidente da Associação Indígena Pariri e vencedora do Prêmio Goldman

*Renata Utsunomiya , analista de políticas públicas de transporte na Amazônia do Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental, é doutora em ciência ambiental pela Universidade de São Paulo

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