setembro 2025 | Desenvolvimento Sustentável
O arquiteto chinês Kongjian Yu nos deixou recentemente, mas seu legado segue vivo e necessário. Criador do conceito das “cidades-esponja”, ele mostrou ao mundo que é possível repensar a urbanização em harmonia com a água e com a natureza. No artigo a seguir, publicado originalmente em O Globo, o arquiteto Miguel Pinto Guimarães relembra a genialidade de Yu e a força transformadora de suas ideias.
O legado de Kongjian Yu, criador das ‘cidades-esponja’
Morto em um acidente aéreo no Brasil na noite de terça-feira (23), arquiteto colaborou para o manuseio dos fluxos hídricos nas metrópoles chinesas
Por Miguel Pinto Guimarães especial para O GLOBO*
Em tempos de jornalismo instantâneo, a notícia da morte do arquiteto chinês Kongjian Yu em um acidente aéreo no Brasil, ocorrido na noite de terça-feira (23), já correu o mundo. O arquiteto ficou conhecido como criador do conceito das “cidades-esponja”. Para além desta expressão, que hoje está estampada em todas as manchetes da imprensa mundial, me proponho, com humildade e admiração, a analisar neste artigo a singularidade de seu trabalho e a importância de seu legado.
A palavra que define a sua obra é adaptação. E uma de suas fundamentais características é o reconhecimento do poder da natureza e da insignificância do homem ao confrontá-la.
Sua brilhante ideia foi tão simples quanto não tentar conter a incontrolável potência hídrica, mas apenas regê-la, renaturalizando áreas urbanizadas, verdejando centros densamente povoados, definido cidades resilientes.
As metrópoles chinesas, que sempre foram marcadas pelo manejo populacional, hoje, por causa do trabalho de Kongjian Yu, são conhecidas pelo manuseio dos fluxos hídricos. O que não é uma ideia nova, muito pelo contrário. A importância geopolítica da água definiu a história da urbanidade desde os primeiros assentamentos na Mesopotâmia. O engenhoso domínio de seus cursos definiu os impérios do Oriente e seus grandes centros urbanos, mais precisamente no Delta do Ganges e na própria China, ambas as regiões irrigadas pelas monções e pelo degelo do Himalaia. O domínio das águas favoreceu o desenvolvimento do império Khmer, que reinou no Sudeste Asiático por 500 anos. A necessidade de controlar a origem dos seus principais rios, que nascem no Planalto Tibetano, foi uma das principais razões para a anexação do Tibete pela mesma China, então de Mao Tsé-Tung.
São milênios de conhecimentos adquiridos, reinterpretados e aplicados, em tempos recentes, em benefício da melhor cidade.
Os parques criados por Kongjian Yu, e incentivados por Xi Jinping a partir de 2013, nos lembram que a água é a nossa principal riqueza disponível. Geradora de energia renovável, meio de transporte limpo e eficiente, mantenedora da vida. Seus projetos nos indicam que é preciso reflorestar e desocupar as margens dos rios, desadensar as encostas e permeabilizar o solo urbano. Suas estruturas captam, armazenam e dão uso ao excedente das grandes tempestades, defendendo suas regiões de enchentes e dos efeitos catastróficos dos extremos climáticos.
O grande mérito de Kongjian Yu foi retirar a venda e os antolhos da urbanidade para o óbvio: a natureza é soberana. Existia muito antes e vai sobreviver à Humanidade. A arquitetura, e o mercado que a comanda, devem ser reverentes, respeitosos e simplesmente… não atrapalhar. Essa revisão holística e tardia da forma com que nos propusemos a construir desde a Revolução Industrial exige, ou pelo menos indica, que produzamos novos edifícios que se mimetizem ao ambiente natural. Que deixem fluir a vista, os ventos, os fluxos. Edifícios que sejam abraçados pela Natureza e que sejam aceitos por ela. Arquitetura e paisagismo nunca deveriam andar dissociados. Por onde andar o homem, a arquitetura será parte integrante e definidora da paisagem.
Sua obra é um manifesto de desespetacularização da arquitetura oriental, efeito positivo de um mundo pós-pandêmico, evidenciado pela escolha do burkinense Francis Kéré para receber o Pritzker Prize, considerado o Nobel da arquitetura, em 2022. Yu, assim como Kéré, nos lembra que a boa arquitetura dispensa o rótulo “sustentável”. Ela apenas é. A boa arquitetura deve ser uma ponte entre o futuro e o passado. Deve transpor para novos sítios os conhecimentos empíricos adquiridos em séculos ou até mesmo milênios pela experiência de habitar e conviver. Kongjian Yu nos mostrou, em sua encurtada trajetória, que a boa arquitetura aliada a novas práticas ambientais podem ser o passaporte para um futuro saudável, sustentável e principalmente possível.
*Miguel Pinto Guimarães é arquiteto e urbanista
outubro 2023 | Amazon, Amazonas, Amazônia, Biodiversidade, Biodiversidade, Catástrofe ambiental, catastrophe ambiental, Climate change, Crise hídrica, Deforestation, Deforestation, Direitos humanos, Extinção de espécies, Floresta, human rights, Mudanças Climáticas
Por Vinícius Leal e Monica Prestes
Focos de queimadas por todo lado, fumaça encobrindo florestas e cidades, rios secando em uma velocidade nunca antes registrada, provocando a mortandade de animais, com recordes de temperatura dentro e fora da água. No desidratado lago de Tefé, no Médio Solimões, interior do Amazonas, onde mais de 120 botos morreram desde a semana passada, a água chegou a 40°C, oito acima da média. Enquanto isso, os termômetros em Manaus bateram o recorde histórico três vezes em uma semana.
Fenômenos naturais que ensinaram as populações amazônidas a serem resilientes, como as ‘terras caídas’, erosão nas margens dos rios provocada pela vazante, este ano estão ganhando dimensões e contornos dramáticos, com desbarrancamentos engolindo casas e ruas, tragédia que aconteceu em Beruri, no interior do Amazonas, e que ameaça outras comunidades às margens dos rios Purus, Amazonas e Solimões.
Cidades inteiras, cujo acesso só se dá pelos rios, correm o risco de ficar isoladas – 40 dos 62 municípios do Amazonas já decretaram emergência. Único meio de transporte em muitas delas, barcos e balsas estão encalhados nos leitos dos rios, carregados com alimentos, mantimentos e medicamentos que, em breve, devem faltar na mesa dos mais pobres e pesar no bolso de quem ainda puder pagar por eles. E sabe o que já está faltando? Água potável. Na maior bacia hidrográfica do mundo.
Um cenário apocalíptico que é resultado das mudanças climáticas somadas ao aquecimento anormal do Atlântico, e que ainda devem receber o reforço do El Niño nos próximos meses. Fórmula que transformou a tragédia, antes anunciada, numa rotina, com uma sucessão de notícias e cenas estarrecedoras, que chocam até quem é da região e convive com o ciclo das águas todos os anos, e trazem um alerta: a Amazônia está entrando em colapso.
De 2009 pra cá, a Amazônia vem enfrentando sucessivos recordes de cheias. As enchentes extremas do Rio Negro – quando seu nível ultrapassou a marca de 29 metros –, que aconteceram três vezes entre 1989 e 2008, triplicaram nos últimos 15 anos. Apesar dos inegáveis impactos das cheias, é a vazante dos rios que mais castiga a Amazônia. E os intervalos entre as secas extremas também vêm diminuindo.
Desde 1902, quando a medição do Rio Negro começou a ser feita no porto de Manaus, a cota mínima só ficou abaixo de 15 metros nove vezes. Em duas dessas ocasiões – 2010, ano da maior seca já registrada, e 1963 – o Negro chegou a menos de 13 metros. O diferencial de 2023 é que em nenhuma dessas secas a vazante se deu num ritmo tão intenso: desta vez, o rio chegou a baixar mais de 30 centímetros por dia durante duas semanas consecutivas.
Com o rio em 14,90 metros, esta vazante já é a 9ª maior em 121 anos e o rio deve seguir baixando até meados de novembro. Com chuvas abaixo da média nos próximos três meses, os impactos podem se estender até 2024 e os rios ‘podem não se recuperar’ nem no próximo ciclo de cheia, alertam pesquisadores. Se as previsões se confirmarem, os rios Negro, Solimões, Purus, Madeira e Amazonas devem ter a maior seca da história, afetando milhões de vidas, humanas e não humanas – a fauna é extremamente sensível, dependente das águas. Só no Amazonas já são mais de 257 mil pessoas afetadas e podemos chegar a 500 mil em toda a região.
O cenário é dramático também na bacia do Rio Branco, no Acre, onde há falta de água potável e a produção rural despencou. Em Rondônia, a vazante do Rio Madeira levou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a suspender as operações na Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, a quarta maior do país – mesmo risco de paralisação que vem sendo monitorado nas hidrelétricas do Amapá.
Até o principal vetor de desmatamento da Amazônia está sendo afetado: no sudeste do Pará, o pasto morreu e produtores de gado não têm como alimentar os animais. Mais de 100 já morreram de fome, numa estiagem que castiga há meses as calhas dos rios Araguaia e Tocantins. Segundo o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), 79 municípios da Região Norte tiveram mais de 80% de suas áreas agrícolas impactadas pela seca. E quando os ‘rios voadores’, que alimentam o agronegócio do Centro-Oeste, também secarem?
Especialistas alertam que essa tragédia sem precedentes que assola a região é uma pequena amostra do que pode acontecer quando a Amazônia atingir o ponto de não retorno. O que, pelos cálculos da ciência, está bem perto de se concretizar. Já desmatamos 19% da floresta e o ponto de inflexão se dará quando atingirmos entre 20% e 25% de desmatamento no bioma.
Confirmando as previsões da ciência, indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhos estão entre as primeiras populações afetadas. É o que chamam de racismo ambiental: apesar de serem responsáveis pela proteção de 80% da biodiversidade do planeta e de mais de um terço das florestas do Brasil, os povos tradicionais seguem à margem dos debates e decisões políticas que os impactam.
Foi assim com o Projeto de Lei (PL) 2903, proposta recheada de inconstitucionalidades que abre as terras indígenas, últimas barreiras contra o desmatamento, para o agronegócio e mineradoras – o que deve agravar ainda mais as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e os impactos das mudanças climáticas. O projeto de lei, que passou pelo Senado e foi enviado para sanção presidencial em uma velocidade maior do que a vazante dos rios, teve o apoio da maioria da bancada da Amazônia no Senado: apenas seis dos 27 senadores dos estados da Amazônia Legal votaram contra a proposta, que foi rechaçada pelos movimentos indígena, quilombola e extrativista, que apoiaram a eleição de Lula e agora esperam que ele vete integralmente o texto.
Outra ameaça que pode agravar a crise ambiental na Amazônia é a decisão do governo federal de explorar petróleo no Amapá, que vai de encontro às metas assumidas pelo Brasil no Acordo de Paris e a todos os alertas do IPCC e da Agência Internacional de Energia para evitar o aumento da temperatura média global.
A demarcação e proteção de terras de povos tradicionais, a elaboração de planos de mitigação baseados na justiça climática, a promoção de uma transição energética sustentável e a construção de um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia que considere direitos e conhecimentos dos povos tradicionais são parte da solução. Mas é preciso agir rápido, pois a roda do fim do mundo parece já ter começado a girar. Sem água e sufocada, – não pela falta de oxigênio, como na pandemia, mas pela fumaça das florestas em chamas – até quando a Amazônia terá fôlego para resistir?
março 2023 | Biodiversidade, Educação ambiental, Mudanças Climáticas, Oceanos
O Mar é o ventre da Terra e se mantém não só gerando vida, mas também sustentando as condições para que continuemos existindo no planeta – desde produzir mais da metade do oxigênio que respiramos até regular o clima. Embora nossos ancestrais, organismos ainda muito primitivos, tenham se instalado em terra firme há bilhões de anos, continuamos umbilicalmente ligados a ele.
Para franceses e romenos, mar é uma palavra feminina; nada mais adequado para quem, mesmo exausta, ainda é esta mãe para todos. Um deles, o Homem, parece ter esquecido disso há séculos e é o principal responsável por essa fadiga. De tanto a natureza nos alertar nossa responsabilidade, parece que, dessa vez, nós finalmente entendemos o recado: o filho ingrato tomou uma importante decisão para proteger àquela a quem tudo deve.
Com a adesão de mais de uma centena de países, foi assinada, no último dia 4, na sede da ONU, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. É o acordo ambiental mais radical – no bom sentido – que se tem notícia: estabelece o aumento, até 2030, de 1,2% para 30% de áreas de proteção contra a mineração, a pesca industrial e o tráfego de embarcações. Finalmente a ficha caiu e foi dentro d’água.
O primeiro encontro a discutir o assunto aconteceu na Jamaica, em 1982, mas só começou a vigorar a partir de 1994. O alto-mar, área do Oceano que equivale a quase metade da superfície da Terra, é a região que fica a mais de 370 km da costa de cada país; é uma terra (sic) de ninguém, onde quase tudo é permitido – os nordestinos vão lembrar do vazamento de petróleo de um navio grego que contaminou seu litoral em 2019 e 2020.
De acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza, 10% das espécies marinhas correm risco de extinção. É preciso proteger essa biodiversidade; por causa disso, uma de suas principais metas é não atrapalhar as migrações anuais de cetáceos, diversas espécies de peixes e tartarugas marinhas. É bom lembrar que baleias são grandes depósitos vivos de carbono.
O Greenpeace arrecadou mais de 5.5 milhões de assinaturas em todo o mundo em apoio ao tratado. “O relógio ainda está correndo para entregarmos a meta 30×30. Nos resta meia década e não podemos ser complacentes”, disse a finlandesa Laura Meller, Conselheira Polar Nórdica da ONG. Do Mar viemos e ao Mar parte do planeta retornará – já que a subida do nível do Oceano já é fato consumado, devido às mudanças climáticas.
O acordo prevê, ainda, a criação de um novo órgão para administrar a preservação da vida no Oceano e estabelece regras de avaliação do impacto ambiental de atividades comerciais marítimas, como pesca e turismo. Que noruegueses, islandeses e japoneses, povos reconhecidamente disciplinados e avançados em outras áreas, se convençam que caçar baleias e golfinhos é coisa de bárbaro.
A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, porém, não contempla um problemão ao qual a gente não vem dando a devida atenção: a poluição por plástico. Na semana passada, a revista de divulgação científica “PLOS ONE” publicou um estudo internacional que calcula que há mais de 170 trilhões de partículas do material flutuando no Mar – o equivalente a 2 milhões de toneladas.
Em 2021, um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), lançado às vésperas da COP26, já alertava que, caso não sejam tomadas medidas drásticas e urgentes para reduzir a produção de plástico, esse número deve aumentar cerca de 2,6 vezes até 2040. Você pode até impedir a entrada de navios em áreas protegidas do alto-mar, mas não há como barrar a passagem desses fragmentos microscópicos que prejudicam a fauna e a flora marinha, e aumentam a temperatura e a acidez das águas oceânicas.
Com a disposição demonstrada pelo atual governo em retomar o caminho da preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável – com volta de Marina Silva, nome respeitado no mundo inteiro, ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima – temos uma excelente oportunidade para recuperar o posto de farol ambiental, que suamos tanto para conquistar. Isso em terra firme, pois em se tratando do Oceano, ainda lembramos uma nau sem rumo.
A vitória da Marinha na batalha naval contra o Ibama, no recente episódio do afundamento do porta-aviões São Paulo, que pode causar sérios danos ao ventre da Terra – incluindo a liberação de mais microplásticos, metais pesados e de poluentes que podem prejudicar a Camada de Ozônio –, foi um mau sinal. Se temos a ambição de ser os timoneiros dessa jornada por um Mar mais limpo e saudável, precisamos fazer uma correção de rota.
Saiba mais:
ONU chega a acordo histórico para proteção da biodiversidade dos oceanos
Após quase duas décadas, mundo ganha acordo histórico por proteção dos oceanos; entenda o que está em jogo
Entenda a importância do acordo da ONU para proteger a vida marinha
Tratado histórico para a proteção global dos oceanos é acordado na ONU
Decreto Nº 1.530, de 22 de junho de 1995
Decreto Nº 99.165, de 12 de março DE 1990
Marinha afunda o porta-aviões desativado São Paulo, após meses de impasse
A growing plastic smog, now estimated to be over 170 trillion plastic particles afloat in the world’s oceans—Urgent solutions required
Infestação plástica
From Pollution to Solution: A global assessment of marine litter and plastic pollution
março 2021 | Desenvolvimento Sustentável
Meu nome é D’Água, Gota D’Água. Mas pode me chamar só de Gota, que nós já temos intimidade para isso. Aqui em casa, a família é grande. Sou irmã do Pingo D’Água, aquele em que, de vez em quando, você dá um nó, e prima do Zé Gotinha, que agora voltou ao estrelato após um tempo esquecido. Como o próprio nome indica, eu sou feita inteiramente de… água. É a mesma substância que compõe 70% de você. E, por ser assim tão presente, a água até ganhou um dia só para chamar de seu: 22 de março, o Dia Mundial da Água. Mas, se a água está em todas, é bem verdade também que você anda em falta com ela. Eu poderia lhe passar um sabão por isso, mas seria chover no molhado. Por isso, prefiro lhe convidar a refletir.
Não somos apenas nós dois que somos feitos praticamente só de água. Ela cobre 2/3 da superfície do nosso planeta, chega à atmosfera na forma de vapor e está dentro de coisas tão diferentes como melancias e elefantes. Com a água, não tem tempo feio. Ela flui pelos rios, deságua no mar, viaja nas correntes oceânicas e vira gelo nos polos. Enfim, não para. E, nesse vai e vem, desempenha um papel essencial para vida na Terra. Não satisfeita, a água até dança, quando vibra em sintonia com o ritmo dos sons da natureza ou com alguma música que esteja tocando. A água é o espelho da vida, a criação mais simples – e, por isso mesmo, mais sofisticada – de toda a natureza.
Sendo assim, camarada, eu lhe pergunto: em nome de que, então, tratá-la com tanto descuido, hein? Em nome de que fazer de oceano, lagos e rios depósitos de lixo? Por que aprisioná-la em barragens ou contaminá-la com mercúrio ou agrotóxicos? É como diz aquele antigo samba: “Na hora da sede, você pensa em mim”. Se você não vive sem ela, qual o sentido de liquidá-la? Pode ser que eu esteja sendo muito árida, muito seca. Mas realmente não consigo entender. Agredi-la é como agredir a si mesmo.
Sejamos justos: não são todos da sua espécie que tratam mal a água. Dá gosto de ver o carinho dos povos indígenas, o afeto dedicado pelos quilombolas e o amor verdadeiro de ribeirinhos, pescadores, lavadeiras, surfistas, entre outros e outras pessoas. Se você é uma delas, eu me desculpo desde já. E aproveito para lhe pedir um favor: se puder, convença mais gente da importância da nossa causa. Com outros como você, nossa chance de fazer a diferença será bem maior. Não espere por mim – a Gota D’Água – para fazer este copo transbordar.
Eu não entendo quando vocês, humanos, dizem que o mar é traiçoeiro, ficam tristes em dias de chuva e têm outras reações negativas relacionadas à água. É verdade sim que ela pode destruir, mas é certo também que não tem vontade própria. Se o nível do mar está subindo, por exemplo, a causa é o crescimento das emissões de gases do efeito estufa. E, até onde eu sei, a água não anda de carro nem derruba floresta, não é? Tudo é uma questão de compreendê-la e respeitá-la. Isso é tão claro como… água. Mais cedo ou mais tarde, você compreenderá que, ok, água demais mata a planta, mas não tem jeito: todo rio corre para o mar. Cuidar da água do nosso planeta é cuidar de nós mesmos. Pode demorar, mas eu sei que vão entender. É a tal história: água mole em pedra dura…
Até lá, a água vai continuar lhe prestando os serviços que você nem imagina que ela já faz. Você sabia que mais da metade do oxigênio do planeta vem do mar? O oceano é o verdadeiro pulmão da Terra e nós o queremos bem e respirando. O impávido Bruce Lee desferiu um golpe certeiro: “Quando você põe água num copo, ela se torna o copo, quando bota na garrafa, ela vira a garrafa”. Ou seja, precisamos nos adaptar às circunstâncias. A Humanidade está num momento crucial e o seu futuro – ou não futuro – depende das escolhas que você fará agora. Não é preciso fazer tempestade em copo d’água. Eu posso ser só uma gota, mas junto de minhas iguais formo um oceano. Você também não está sozinho. Junte-se aos outros e inunde o planeta de bom senso. Tratem com amor aquela a quem vocês devem tudo.
#Água #Oceanos #Rios #Lagos #DiaMundialDaÁgua #MeioAmbiente #Floresta #Indígenas #Quilombolas #Natureza #Preservação
A água para o desenvolvimento sustentável justo e igual
A água nos une – No Dia Mundial da Água, que seja um instrumento de cidadania e inclusão
Mudanças climáticas elevam temperatura do Rio Tietê, que passa de 30 graus pela primeira vez em três décadas
Belo Monte: comunidades indígenas sentem os impactos da redução da vazão do Xingu
Mais de 5 milhões de brasileiros não têm água potável nas 100 maiores cidades do país
Qualidade da água é regular em 73% dos rios brasileiros
Apesar de reunir 97% da água do planeta, 90% do oceano ainda são um mistério
março 2020 | Mudanças Climáticas
Já parou para pensar que quem se manifesta contra a democracia está se manifestando contra o direito de se manifestar?
Que quem admite a tortura admite ser torturado?
Que ninguém é imune à injustiça ou à prova de bala perdida?
A democracia existe para defender as minorias, não para fazer prevalecer a vontade da maioria – até porque, se a gente parar para pensar, vai chegar à conclusão de que todo mundo pertence a uma minoria. Hoje cassam o direito de alguém que você discorda; amanhã podem cassar o seu. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi criada, principalmente, para defender o cidadão dos desmandos do Estado. Um dos direitos assegurados por ela é o direito à segurança. Você está disposto a abrir mão deste direito também?
Democracia também pressupõe diversidade de opiniões e de fontes de informação. Regimes totalitários sempre impuseram sua própria versão dos fatos: os nazistas tinham o “Völkischer Beobachter” e os mandachuvas da União Soviética, o “Pravda”. Vamos nos tornar reféns voluntários das redes sociais oficiais das autoridades e de seus aplicativos de mensagens?
Sem democracia também não há defesa do meio ambiente e dos direitos humanos. Que mundo deixaremos para nossos filhos e netos? Em nome de que abrir mão do direito de lutar pelo que acreditamos ser o certo? Somos todos gotas no oceano. Não só fazemos parte do mundo em que vivemos, como também ajudamos a construí-lo. Quando decidimos nos empenhar na luta contra a construção da Usina de Belo Monte, pensamos não só no impacto que traria às populações locais, mas à floresta como um todo, ao nosso país e mesmo ao planeta. Quando defendemos o direito dos povos da floresta a preservá-la, estamos ajudando a preservar nossas próprias vidas. Defender a democracia é defender a nossa sobrevivência.
#éagotadágua #umagotanooceano #democracia #cadagotaconta