julho 2024 | Cerrado, Quilombola, Quilombolas
Titulação já para os quilombos do Cerrado |
Uma perspectiva quilombola |
*Por Sandra Braga e Antonio Oviedo
A luta ancestral pelo direito à terra e ao espaço para viver de acordo com preceitos seculares envolve resistir à volúpia capitalista da monocultura agrícola, que engole trechos cada vez maiores dos rincões brasileiros. A batalha se dá em boa parte do país – da Amazônia ao Pampa, do Pantanal à Caatinga – e é particularmente intensa no Cerrado.
Pesadas ameaças ambientais espreitam as populações quilombolas em Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Piauí. Nada menos que 19 territórios (um quarto de todos naquele pedaço do Brasil) estão sob alta vulnerabilidade, um quadro alarmante que até hoje não recebeu a devida atenção das autoridades.
O Instituto Socioambiental dimensiona o tamanho do problema em estudo sobre a vulnerabilidade socioambiental dos territórios quilombolas no Cerrado. Pioneiro ao adaptar o modelo criado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para investigar os perigos que cercam os quilombos, o levantamento aponta que todos os territórios em Mato Grosso, uma das mais cobiçadas fronteiras do agronegócio, estão em alta vulnerabilidade. Outros estados com muitos territórios em situação dramática são Tocantins (75%), Minas Gerais (62,5%) e Goiás (55,6%).
A não titulação dos territórios quilombolas potencializa os riscos de maneira contundente. Os territórios sem titulação concluída apresentam níveis (ou graus) de vulnerabilidade maiores, com o consequente risco para os ecossistemas locais e, sobretudo, as populações que os preservam.
Os indicadores das pressões nos territórios são aferidos por mudanças na cobertura vegetal e atividades econômicas venenosas, tais como mineração, cadastro ambiental de imóveis rurais (CAR) ou obras de infraestrutura planejadas. De outro lado, o indicador de capacidade adaptativa inclui o status do reconhecimento do território e a cobertura remanescente de vegetação nativa, além da população residente no território.
Em meio a mudanças climáticas cada vez mais dramáticas, ameaças reais à continuação da vida humana no planeta, as comunidades quilombolas dão aulas cotidianas de sustentabilidade. Manejam seus territórios por meio de conhecimentos tradicionais, sedimentados no respeito à terra, às águas, aos animais e aos encantados, a partir de saberes africanos e em diálogo com o conhecimento indígena. Conjugam cuidado e simplicidade, para apresentar resultados incontestáveis.
Exemplo educativo para entender o valor do jeito afrobrasileiro de fazer está no Quilombo Kalunga, um dos 63 do Cerrado e o maior do país em extensão (262 mil hectares). Por lá, a vegetação está preservada em 83% do território – no resto de Goiás, o bioma sobrevive em irrisórios 30% da cobertura original. Vizinho ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, o santuário quilombola há 200 anos toca a vida em sintonia precisa com o meio ambiente. Apenas 10% do território teve a titulação concluída até o momento.
As comunidades quilombolas no Cerrado e seus territórios são essenciais na luta pela sustentabilidade. O empoderamento das suas populações beneficiará a gestão territorial; assim, o combate e controle de atividades ilegais dentro e ao redor daquelas comunidades precisam se tornar política permanente e incansável do Estado.
O cancelamento de requerimentos minerários e cadastros de imóveis rurais sobrepostos aos territórios, a adequada consulta pública para o licenciamento de obras de infraestrutura e o fortalecimento das políticas de gestão territorial devem ser inegociáveis, em nome de reduzir a vulnerabilidade socioambiental dos territórios – e da defesa do meio ambiente.
É para os quilombolas – e para todos nós.
*Sandra Braga é coordenadora executiva da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ)
Antonio Oviedo é Pesquisador do Instituto Socioambiental (ISA)
maio 2024 | Amazônia, Cerrado, Climate change, Desmatamento, Direitos humanos, Direitos indígenas, Mudanças Climáticas, Rio Grande do Sul
Por Sérgio Guimarães
Secretário executivo do GT Infraestrutura e Justiça Socioambiental
As recentes catástrofes no Rio Grande do Sul nos lembram brutalmente das consequências da negligência ambiental e da falta de infraestrutura adequada do nosso país. Enquanto enfrentamos esta dolorosa realidade, outro drama, por enquanto mais silencioso, mas potencialmente tão devastador, se desenrola na Amazônia e no Cerrado: o desmatamento descontrolado – que ameaça não só a biodiversidade local, a disponibilidade de água e as comunidades que delas dependem, mas também o equilíbrio climático global.
Há tempos os cientistas são unânimes em alertar que estamos nos aproximando do ponto de “não retorno” que, uma vez ultrapassado, desencadeará processos irreversíveis, comprometendo a capacidade de regeneração da floresta e intensificando eventos climáticos extremos por todo o Brasil — secas severas, inundações devastadoras, como vimos recentemente no Rio Grande do Sul, tragédias que poderiam ser mitigadas com políticas públicas mais robustas e conscientes.
Grandes projetos de infraestrutura, como rodovias e hidrelétricas, continuam entre os principais fatores que levam ao desmatamento. A história mostra que desde a construção da BR-364, que impulsionou a ocupação de Rondônia, a BR-230, conhecida como Transamazônica, até a BR-163; todas se constituíram no fator decisivo do processo de devastação na região, especialmente pela crônica falta de governança mesmo quando haviam medidas construídas coletivamente para evitar os impactos socioambientais como o plano BR-163 Sustentável que foi totalmente abandonado.
Da mesma forma, hidrelétricas como Tucuruí no rio Tocantins, Belo Monte no rio Xingu, Santo Antônio e Jirau no rio Madeira e quatro barragens construídas simultaneamente no rio Teles Pires (afluente do Tapajós); além dos impactos diretos na floresta, na fauna aquática, no regime hídrico de grandes rios e nas comunidades ribeirinhas, também contribuem para o desmatamento, emissões de metano e outros gases de efeito estufa e para a ocupação desordenada da região, incentivando a migração para cidades que já padecem pelo déficit de infraestrutura básica.
É preciso assumir que essas atividades não estão precedidas por estudos suficientes para uma tomada de decisão com base técnica e, muitas vezes, são definidas a partir de interesses políticos e de setores econômicos diretamente envolvidos e que aprofundam o processo de desmatamento na região. Exemplos mais recentes como a Ferrogrão (um projeto de ferrovia de 933 km² de extensão, entre Sinop (MT) e Santarém (PA), hidrelétricas no Rio Madeira, hidrovia no Tocantins e a proposta de Corredores de Integração Sul-Americana também têm sido sinônimo de devastação ambiental.
Também é necessário lembrar que o Brasil foi um dos países signatários da Declaração do uso de Florestas e Terra dos Líderes de Glasgow da COP26, em 2021, que firma o compromisso total com o reflorestamento e a preservação florestal até 2030. Na COP27, no Egito, o presidente Lula reafirmou o compromisso com o acordo internacional. No entanto, as promessas ainda estão distantes da realidade no território, com isso o desmatamento avança e os impactos socioambientais se agravam.
Diante deste cenário, é imperativo intensificar e diversificar as ações para proteger a Amazônia e o Cerrado. É essencial promover um diálogo constante entre o governo, organizações da sociedade, movimentos sociais e outros atores, para criar políticas públicas eficazes e mecanismos de decisão transparentes e inclusivos.
Uma estratégia de atuação efetiva deve ter em vista a proteção da floresta, dos sistemas hídricos e, ao mesmo tempo, respeitar as comunidades e beneficiar a economia regional e a vida no planeta em termos de biodiversidade e equilíbrio climático.
É necessário ainda que as decisões sejam precedidas de estudos robustos de riscos socioambientais, viabilidade econômica, e de análises de alternativas de custo-benefício social, ambiental e econômico. Alternativas que devem considerar, prioritariamente, as necessidades de fortalecimento de uma economia regional sustentável e as necessidades das pessoas, em especial dos grupos mais vulneráveis. Também urge uma comunicação simplificada e bem direcionada, que consiga chegar nos diversos segmentos da sociedade, para que assim, a população possa contribuir com o processo de tomada de decisão.
A tragédia no Rio Grande do Sul deve servir como um alerta para todo o Brasil: é hora de repensar nossos modelos de desenvolvimento e infraestrutura. Não podemos permitir que a busca por progresso econômico imediato continue a sacrificar o meio ambiente e a segurança das atuais e futuras gerações. Agir agora é fundamental para evitar que as cenas de destruição que chocaram o país se tornem cada vez mais comuns.
abril 2024 | Amazon, Amazônia, Área de preservação ambiental, Biodiversidade, Povos indígenas
por Toya Manchineri*
No coração da maior floresta tropical do mundo, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) celebra 35 anos de resistência e comprometimento com a defesa de nossos territórios e culturas. À medida que nos preparamos para a COP-30 em Belém, refletimos sobre as conquistas e os desafios que persistem. Comemoramos as vitórias do passado, mas estamos de olho no futuro, com o pé no presente. “Demarcação, já!” é nosso lema; mas apenas demarcar já não é mais suficiente. Nesse sentido, a história da Terra Indígena Yanomami é exemplar. Homologada em 1992, ela continua sendo constantemente ameaçada por invasões. Este não é um problema isolado; é uma realidade enfrentada por muitas comunidades. Os que invadem nossas terras são apoiados por poderes econômicos e políticos.
Representamos cerca de 860 mil indígenas de 180 povos diferentes, falantes de 160 línguas. Nossa diversidade é nossa força, mas enfrentamos adversidades significativas. É crucial intensificar esforços para proteger o que é sagrado e vital para a sobrevivência de toda espécie humana. Os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), também chamados de Planos de Vida, são elaborados pelos próprios povos, que conhecem as particularidades de suas terras e suas necessidades, e sabem a melhor forma de preservar o meio ambiente local. Não paramos no tempo: unimos nossos saberes ancestrais, acumulados ao longo de 12 mil anos de manejo da floresta, com a ciência moderna.
Não poderíamos falar de COIAB sem citar o papel fundamental das mulheres em sua criação e consolidação. Um exemplo marcante é o da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn), cujo apoio contínuo desde os primeiros dias foi essencial para o desenvolvimento e fortalecimento da COIAB. Entre os nomes que compuseram a coordenação executiva da COIAB, podemos citar a pioneira Maria do Carmo Serra Wanano, a ministra dos Povos Indígenas Sonia Bone Guajajara e Nara Baré, a primeira mulher eleita como coordenadora-geral. Para nós, o planeta onde vivemos e a que tudo devemos tem nome e sobrenome femininos: Mãe Terra.
Enfrentamos perigos imediatos. Políticos mal-intencionados querem que a sociedade brasileira aceite a tese do “marco temporal” – mais de uma vez declarado inconstitucional pelo STF –, e buscam criar atalhos para a entrada de desmatadores na Amazônia, como a Ferrogrão e o asfaltamento da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho; e a exploração de gás no Maranhão e de potássio no Território Mura. É uma luta desigual: enquanto temos apenas uma representante no Congresso, a bancada ruralista conta com 374.
Conclamamos a sociedade brasileira e os cidadãos do mundo a se juntarem a nós nesta luta, não apenas dos povos indígenas, mas de todos que valorizam a vida e a justiça ambiental. Essa não é uma luta só de 860 mil indígenas, mas de todos os 8 bilhões de habitantes da Terra. É o recado que queremos dar ao mundo em Belém, em 2025. A COIAB foi fundada num 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, e à medida que avançamos para a COP-30, carregamos as esperanças e os sonhos de nossos ancestrais, comprometidos em proteger nossa Mãe Terra para as futuras gerações.
* Toya Manchineri é coordenador executivo da COIAB.
março 2024 | Biodiversidade, Catástrofe ambiental
O bicho está pegando: se a gente continuar maltratando a Terra, a sexta grande extinção em massa vai passar o rodo. Periga até sobrar para o bicho-homem. As cinco primeiras foram causadas por fenômenos naturais. O próprio ser humano quase foi dessa pra melhor há 900 mil anos – restaram só 1.280 indivíduos, segundo uma pesquisa publicada na “Nature Communications”. O motivo? Mudanças climáticas. A diferença é que daquela vez não tínhamos culpa e, hoje, as evidências apontam para nós. A boa notícia é que ainda dá tempo de impedir que a vida seja peça de museu.
É bom lembrar que a mocinha desse filme-catástrofe é brasileira: a Amazônia, que guarda a maior biodiversidade do mundo, cerca de 10% de todas as espécies de animais e plantas conhecidas. Cabe a nós salvá-la. A União Internacional para a Conservação da Natureza aponta que 28% das espécies da Terra correm o risco de sumirem do mapa. Em 2019, foi declarado que o Melomys rubicola se foi para sempre. O roedor era endêmico de uma ilhota na Austrália, que submergiu com o aumento do nível do mar; ou seja, foi o primeiro mamífero extinto por causa das alterações no clima causadas pelo homem.
Em janeiro deste ano, a Universidade Charles Darwin anunciou que a arraia Java stingaree foi o primeiro peixe a desaparecer da face da Terra por culpa nossa, devido à pesca predatória. Um estudo publicado na revista científica Nature Communications diz que somos responsáveis por levar 1.500 espécies de aves à extinção nos últimos 126 mil anos; já a revista indiana científica “Down to Earth” calcula que, de 1500 a 2022, 73 vertebrados desapareceram. A velocidade das extinções está 35 vezes maior: a Academia Nacional de Ciências dos EUA concluiu que, se não fosse o homem, espécies que sumiram nos últimos cinco séculos continuariam a existir por mais 18 mil anos. Qual é a tua, bicho-homem?
E o Brasil, como fica? O mundo acredita que podemos salvar o planeta – só de Fundo Amazônia, o país tem em caixa R$ 3 bilhões, e o Japão acabou de se juntar ao clube. Lamentavelmente, não estamos fazendo jus a essa confiança. Mais uma vez, abraçamos uma política desenvolvimentista irresponsável, que pode reduzir drasticamente a biodiversidade do bioma mais rico do mundo.
Segundo o IBGE, o Brasil tem 20% de espécies de animais e plantas ameaçadas, das mais de 21 mil examinadas. O desmatamento, a caça e pesca ilegais, a crise climática, a poluição do ar, do mar e dos rios, e o uso excessivo de agrotóxicos são as causas mais evidentes, mas há uma menos óbvia: a morte de animais atropelados em rodovias e ferrovias que cortam áreas protegidas.
Na BR-262, que liga Espírito Santo a Mato Grosso do Sul, morrem mais de 2 mil animais todos os anos, entre lobos-guará, antas e cachorros-do-mato. O Brasil também é o segundo país com mais acidentes envolvendo atropelamento de primatas em estradas. E só na Estrada de Ferro Carajás, na Amazônia, morrem 10 mil sapos-cururu por ano. Junto com as abelhas, os anfíbios são os bichos mais importantes para a nossa sobrevivência. E mais de 40% de rãs e sapos estão ameaçados. Existem mais de 8.400 espécies, sendo que 1.188 são brasileiras. Sem eles, o número de insetos transmissores de doenças vai aumentar exponencialmente. Não haverá vacina contra dengue que dê jeito.
Já 75% das culturas agrícolas dependem de animais polinizadores. Enquanto isso, 35% das abelhas e borboletas e 17% dos morcegos correm o risco de desaparecer. As abelhas são vítimas, principalmente, da destruição de seus habitats, das mudanças climáticas e do uso de pesticidas pelo agronegócio.
Não é tão complicado assim resolver esses problemas: basta parar de desmatar e de usar agrotóxicos proibidos no resto do mundo e planejar com mais cuidado obras de infraestrutura, construindo travessias para animais nas estradas.
Mas o que faz o Congresso brasileiro? Nos empurra o PL do Veneno, que flexibiliza ainda mais o uso de agrotóxicos, e quer fazer passar o PL da Devastação, que trata do licenciamento ambiental e, na prática, libera geral. Asfaltar uma BR-319 ou construir uma Ferrogrão não causa apenas danos diretos ao meio ambiente, também serve de entrada para as espécies invasoras mais perigosas: madeireiros ilegais, grileiros, garimpeiros e outros criminosos.
Geralmente, a mocinha é salva no final nesse gênero cinematográfico. Mas o Brasil vai trocar o papel de herói da fita pelo de vilão? Com que cara o país vai sair na foto da COP-30, em Belém? Este ano tem eleições municipais: votemos em candidatos comprometidos com a vida, e não contra ela. Ou nosso filme, que já anda queimado, pode virar cinzas.
Saiba mais
Como a humanidade pode evitar sexta onda de extinção em massa
https://www.dw.com/pt-br/como-humanidade-pode-evitar-sexta-onda-de-extin%C3%A7%C3%A3o-em-massa/a-68447930
Peixe da Indonésia se torna o 1º a ser extinto por causa dos humanos
https://gizmodo.uol.com.br/peixe-da-indonesia-se-torna-o-1o-a-ser-extinto-por-causa-dos-humanos/
Estudo revela que a humanidade quase foi extinta há cerca de 900 mil anos
https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2023/09/07/estudo-revela-que-a-humanidade-quase-foi-extinta-ha-cerca-de-900-mil-anos.ghtml
IBGE aponta que 9 espécies foram extintas em 8 anos
https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/meio-ambiente/audio/2023-05/ibge-aponta-que-9-especies-foram-extintas-em-8-anos
Extinção em massa?
https://noticias.unb.br/artigos-main/6465-extincao-em-massa
Nova extinção em massa? Humanos aceleram em 35 vezes desaparecimento de espécies
https://umsoplaneta.globo.com/biodiversidade/noticia/2023/09/19/nova-extincao-em-massa-humanos-aceleram-em-35-vezes-desaparecimento-de-especies.ghtml
Pesquisa revela que mais de 40% dos anfíbios do mundo estão ameaçados de extinção
https://www.ufms.br/pesquisa-revela-que-mais-de-40-dos-anfibios-do-mundo-estao-ameacados-de-extincao/
Qual a dimensão da biodiversidade da região amazônica
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2022/12/11/qual-a-dimensao-da-biodiversidade-da-regiao-amazonica
Plantas para o Futuro
https://antigo.mma.gov.br/biodiversidade/conservacao-e-promocao-do-uso-da-diversidade-genetica/plantas-para-o-futuro.html
Espécies ameaçadas na Amazônia aumentaram em mais de 65% nos últimos 10 anos
https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2023/05/especies-ameacadas-na-amazonia-aumentaram-em-mais-de-65-nos-ultimos-10-anos
Pessoas, não o clima, causaram extinção de animais gigantes, diz estudo
https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/pessoas-nao-o-clima-causaram-extincao-de-animais-gigantes-diz-estudo/
Nova pesquisa aponta para risco da sexta extinção em massa na Terra
https://climainfo.org.br/2023/09/24/nova-pesquisa-aponta-para-risco-da-sexta-extincao-em-massa-na-terra/
Humanos são responsáveis por levar 1.500 espécies de aves à extinção, aponta estudo da Nature
https://umsoplaneta.globo.com/biodiversidade/noticia/2023/12/20/humanos-sao-responsaveis-por-levar-1500-especies-de-aves-a-extincao-aponta-estudo-da-nature.ghtml
Primeira espécie de mamífero oficialmente extinta devido às mudanças climáticas
https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2019/02/primeira-especie-de-mamifero-oficialmente-extinta-devido-mudancas-climaticas
Japão promete primeira doação para Fundo Amazônia
https://forbes.com.br/forbesesg/2024/02/japao-promete-primeira-doacao-para-fundo-amazonia/
Viadutos para animais silvestres começam a ser implantados no Brasil
https://brasil.mongabay.com/2020/10/viadutos-para-animais-silvestres-comecam-a-ser-implantados-no-brasil/
Atropelamento de animais em ferrovias: impacto ainda desconhecido no Brasil
https://brasil.mongabay.com/2022/08/atropelamento-de-animais-em-ferrovias-impacto-ainda-desconhecido-no-brasil/
A rodovia que mata mais de 2 mil animais silvestres por ano
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cxxy6jgpj6go
Entenda como aconteceram as extinções em massa e como será a próxima
https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/entenda-como-aconteceram-as-extincoes-em-massa-e-como-sera-a-proxima/
Campeão em biodiversidade, Brasil luta para salvar abelhas, vítimas de agrotóxicos
https://www.brasildefato.com.br/2023/05/22/campeao-em-biodiversidade-brasil-luta-para-salvar-abelhas-vitimas-de-agrotoxicos
Dia Mundial da Abelha alerta sobre medidas contra declínio e perda de biodiversidade
https://news.un.org/pt/story/2023/05/1814617
Sociedade civil lança plataforma de pressão contra ‘PL da Devastação’
https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/sociedade-civil-lanca-plataforma-de-pressao-contra-pl-da-devastacao
Por que gatos extinguiram mais espécies que qualquer outro predador
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c6p16xpgygzo
março 2024 | Amazônia, Catástrofe ambiental, Desmatamento, Direitos humanos, Ferrogrão, Povos indígenas
Alessandra Korap Munduruku e Eliane Xunakalo*
Brasil e Estados Unidos, os dois grandes produtores e exportadores de soja do mundo, foram surpreendidos com a decisão da China, sua maior freguesa, de reduzir a importação da oleaginosa. Os chineses estão aumentando sua produção interna ou reduzindo o uso de seu farelo como ração para animais. No ano passado, foram 9 milhões de toneladas a menos em relação a 2022, uma redução de 13%. Então para que insistir na Ferrogrão? Periga ser uma estrada de ferro sem mercadoria para transportar; um elefante branco do tamanho de Belo Monte. Ainda mais se levarmos em conta que a obra levaria pelo menos 10 anos para ficar pronta.
Chamada oficialmente de EF-170, se for levada adiante, ela terá 933 km de extensão e ligará Sinop, em Mato Grosso, a um porto em Miritituba, no Pará, a um custo de R$ 34 bilhões. Depois, a soja seguiria por uma hidrovia a ser construída no Tapajós, entraria Rio Amazonas adentro e chegaria aos portos marítimos paraenses para exportar quase que exclusivamente soja. Para quem?
Ainda que os chineses, por acaso, mudem seus planos, as perdas serão muito altas: segundo a Universidade Federal de Minas Gerais, a área desmatada poderá chegar a 49 mil km², 64% maior que a taxa recorde da Amazônia, de 2022. Um território superior ao de países como Eslováquia, Dinamarca e Holanda. E nem falamos que outra seca como a de 2023 pode inviabilizar o transporte fluvial na região – e a ciência já alertou que ela deve se repetir.
Essa destruição vai causar a emissão de 75 milhões de toneladas de CO2 que, traduzidos em dinheiro, dariam um prejuízo de cerca de R$ 9,2 bilhões. Em 2020, a própria Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) admitia que a ferrovia impactará 48 terras indígenas e áreas de proteção ambiental. Os prejuízos que causarão aos povos da floresta são imensuráveis: invasores indesejáveis de todo tipo, de grileiros a contrabandistas de madeira e garimpeiros. Sem falar no desrespeito ao direito à consulta prévia e informada, que vem sendo atropelado nesse processo. Ou seja, a Ferrogrão é uma ferrovia que vai andar em marcha à ré.
Por que, então, não investir em projetos verdadeiramente sustentáveis de retorno garantido? Por que insistir nesse modelo predatório? A palavra-chave todos conhecem: bioeconomia. Disso, nós, indígenas, entendemos muito bem. Vivemos da e com a Amazônia, sem lhe causar mal. Entretanto, enquanto isso, a Terra Sawré Muybu, uma das que serão mais atingidas por essa obra dispensável e danosa, foi reconhecida pela Funai em 2015 e aguarda sua homologação até hoje.
A Amazônia presta serviços ambientais, como estocar carbono e produzir chuva, que geram US$ 20 bilhões ao ano. Esses préstimos são usufruídos, principalmente, pelo agronegócio. Logo, o desmatamento gerado para a construção da Ferrogrão pode refletir em perdas para o próprio agronegócio no Centro-Oeste brasileiro – incluída a produção de soja. Se o Brasil não quiser perder o bonde da História e estiver disposto a ajudar o planeta a sair da crise climática e a fazer justiça social, é melhor esquecer de projetos de desenvolvimento ultrapassados e andar para frente. O futuro é verde e indígena.
*Alessandra Korap é liderança indígena do médio Tapajós e coordenadora da Associação Indígena Pariri; Eliane Xunakalo é presidenta da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt)