O lugar do Brasil na equação climática global

O lugar do Brasil na equação climática global

Antes de 1992, quando o Rio de Janeiro sediou a ECO-92 e colocou o planeta numa mesma sala para discutir o que ainda chamávamos de “futuro”, o Brasil já era uma encruzilhada de destinos. Somos o país que abriga a maior biodiversidade terrestre do mundo: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal, Pampa. Biomas que não são paisagens, são reguladores do clima global, reservatórios de vida e de tempo. E mais: estamos atrás apenas da China em reservas de terras raras. No século XXI, o olhar do mundo pousa sobre nós. 

Mas o Brasil que pode liderar não se resume ao PIB do agronegócio ou ao portfólio de biocombustíveis e alternativas energéticas. É também, e sobretudo, o dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, que há séculos manejam territórios que a ciência agora corre para compreender. Cerca de 20% do território nacional sob gestão indígena apresenta índices de desmatamento significativamente menores do que áreas desprotegidas. Não por acaso, mas por conhecimento acumulado, transmitido e vivido. Ignorá-los na arquitetura das soluções climáticas não é apenas injusto, é ineficiente. 

Mais de três décadas depois da ECO-92 e vinte anos após a Rio+20, marcos que inauguraram a gramática da diplomacia climática moderna, o Rio de Janeiro volta a ser palco do debate sobre o futuro do planeta. Entre 1º e 6 de junho, a Rio Nature and Climate Week recoloca a cidade no centro das decisões que moldam o amanhã. No dia 3, a Uma Gota no Oceano, em parceria com o Global Methane Hub e a Presidência da COP30, realiza o Fórum Metano: Freio de Emergência Climática, um espaço onde o invisível ganha nome, dado e urgência. 

O metano (CH₄) atravessa tudo. Dialoga com a gestão de resíduos, que pode ser reinventada; com a agropecuária, que pode produzir mais emitindo menos; com a energia, que pode ser mais limpa e eficiente. Responsável por cerca de 30% do aquecimento global desde a Revolução Industrial e com um potencial de aquecimento mais de 80 vezes superior ao CO₂ em 20 anos, ele tem uma característica decisiva: pode ser reduzido agora. Diferente do carbono, que permanece por séculos na atmosfera, o metano se dissipa em pouco mais de uma década. Cortar suas emissões é a ação climática mais rápida, mais justa e com melhor custo-benefício disponível. E o Brasil – quinto maior emissor global de CH₄, com 21,1 milhões de toneladas em 2023 – ocupa um lugar onde responsabilidade e oportunidade são equivalentes. 

A agropecuária responde por cerca de 75% das emissões nacionais de metano e pode reduzir até 28% até 2035 com tecnologias já disponíveis. O setor de resíduos, responsável por 16%, tem potencial de redução de 36% até 2030 por meio de políticas estruturantes que também geram emprego, renda e dignidade, especialmente para os catadores, agentes climáticos que o país ainda insiste em subestimar. Estão previstos R$ 6,4 bilhões em investimentos em biometano até 2030. Os números são claros: a transição não é sacrifício. É projeto de país. 

Mas essa transição não acontece por inércia nem por um setor isolado. O poder público precisa transformar marcos legais em orçamento e política territorial. A iniciativa privada precisa ir além do greenwashing e assumir metas mensuráveis, auditáveis, conectadas a toda a cadeia produtiva. E o terceiro setor, sem tutela e sem ingenuidade, é o elo que traduz ciência em ação e ação em escala. Quando esses três vetores convergem, o Brasil deixa de prometer liderança e começa a exercê-la. 

Há, ainda, uma assimetria que o debate climático reluta em nomear: o que é dito em Berlim, Londres ou Washington chega com peso institucional; o que emerge de Belém, Salvador ou Manaus precisa disputar legitimidade, palavra por palavra. A Rio Nature and Climate Week é também uma resposta a essa hierarquia. 

O Sul Global não precisa de tradução para nomear o que vive. E, num momento em que o multilateralismo é sistematicamente tensionado e acordos voluntários como o Global Methane Pledge, assinado por mais de 150 países na COP26, ainda carecem de mecanismos robustos de responsabilização. O Brasil pode ser a voz que reorganiza o debate. Não por altruísmo, mas por posição: nossa sociobiodiversidade, nossa escala territorial e nossa capacidade de articular ciência, povo e política nos colocam em um lugar que nenhum outro país ocupa. 

O Fórum Metano: Freio de Emergência Climática não é apenas um evento. É o ponto em que governo, mercado e sociedade civil deixam de discutir os limites do problema e passam a assumir, de forma compartilhada, a responsabilidade pela solução. 

O Brasil carrega, há décadas, os elementos centrais dessa resposta: território, biodiversidade, ciência e saberes que atravessam gerações. Não se trata mais de reconhecer esse potencial, mas de decidir o que fazer com ele. 

Em junho, o Rio de Janeiro volta ao centro desse movimento, não como memória de um passado diplomático, mas como espaço de definição sobre o futuro que o país está disposto a liderar.

Transição energética pela ótica do direito internacional

Transição energética pela ótica do direito internacional

Terminou na noite de quarta-feira (29), em Santa Marta, na Colômbia, a 1ª Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, que reuniu representantes da sociedade civil e de governos de 57 países. O próximo encontro está marcado para o ano que vem, em Tuvalu, um pequeno país insular na Polinésia que corre o risco de desaparecer em decorrência das mudanças climáticas: o aumento do nível do mar pode fazer a nação submergir em cerca de 25 anos, caso não consigamos frear o aquecimento global.

Enquanto em Santa Marta cientistas, povos tradicionais, ambientalistas e autoridades discutiam os caminhos para abandonar o petróleo, o carvão e o gás natural — principais responsáveis pelas mudanças climáticas —, a guerra no Irã escancarava para o mundo as implicações dessa dependência. Para Romina Picolotti, presidente do Centro para os Direitos Humanos e o Meio Ambiente (CEDHA) e diretora de política climática do Instituto para Governança e Desenvolvimento Sustentável Institute for Governance & Sustainable Development (IGSD)a atual crise dos combustíveis recoloca a segurança energética no centro do debate global e expõe, mais uma vez, a instabilidade de um modelo de geração de energia baseado em fósseis.

Nesse contexto, segundo Romina, a discussão sobre transição energética avança também sob um novo ângulo: o jurídico. No ano passado, tribunais internacionais deixaram claro que os Estados têm a obrigação legal de lidar de forma eficaz com a emergência climática — e que a omissão constitui uma violação do direito internacional. Pareceres da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e da Corte Internacional de Justiça (CIJ) estabeleceram que o dever de proteger o clima não depende apenas da adesão a tratados, e abriram caminho para que países sejam responsabilizados mesmo fora de compromissos formais. Na prática, isso significa que mesmo aqueles que optem por não aderir a acordos específicos — como o Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis, centro dos debates em Santa Marta — podem ser punidos por ações ou omissões que agravem a crise climática e violem direitos fundamentais.

Ex-ministra do Meio Ambiente da Argentina, Romina foi uma das principais articuladoras da aceleração da eliminação dos HCFCs no âmbito do Protocolo de Montreal, liderando, em 2007, uma coalizão que antecipou em uma década o phase-outdesses gases — uma das medidas climáticas mais eficazes já adotadas, ao evitar emissões equivalentes a bilhões de toneladas de CO₂. No campo jurídico, ela foi pioneira ao conectar degradação ambiental a violações de direitos fundamentais por meio do CEDHA. Atuou ainda em casos emblemáticos como o da Comunidade Awas Tingni vs. Nicarágua, na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), no qual contribuiu para firmar o entendimento de que a degradação ambiental pode violar direitos como a vida e a identidade cultural, além de consolidar o dever de consulta prévia aos povos indígenas, e também liderou o caso do Rio Suquía, na Argentina, que levou ao reconhecimento da omissão estatal em saneamento como violação de direitos.

Na questão energética o timing é decisivo, diz Romina. Após a COP30 frustrar expectativas ao não incluir a transição para longe dos fósseis em seu documento final, o debate multilateral em Santa Marta foi estratégico, aponta. “A soberania nacional, nesse novo cenário, deixa de funcionar como escudo para a inação”, explica.

Esse dever não é abstrato. Requer ações concretas: roteiros críveis e com prazos definidos para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e o fim imediato do desperdício de gás por meio de reduções drásticas nas emissões de metano.

Conhecido como o “freio de emergência climático”, o metano é um superpoluente com potencial de aquecimento 80 vezes maior que o do CO₂ em um período de 20 anos e responde, sozinho, por um terço do aquecimento global desde a Revolução Industrial. Ao mesmo tempo, por ser um gás de “vida curta” na atmosfera — cerca de 12 anos, frente a séculos do dióxido de carbono —, sua mitigação é considerada pela ciência a estratégia mais rápida para desacelerar o aquecimento global ainda na próxima década.

A ciência é inequívoca: reduzir as emissões de metano é a alavanca mais rápida e eficaz que temos para desacelerar o aquecimento global no curto prazo. Nesse contexto, Santa Marta foi um passo importante para o cumprimento do direito internacional”, afirma Romina, que também desempenhou papel fundamental na aprovação da primeira Lei de Proteção de Geleiras do mundo.

Na disputa e nas vitórias, sempre em frente

Na disputa e nas vitórias, sempre em frente

Por Eloy Terena

Ministro dos Povos Indígenas do Brasil

Sou, com orgulho, um “filho da Constituição de 1988”. Nasci no mesmo ano em que o Estado brasileiro, após séculos de negação, reconheceu os direitos dos povos indígenas às suas terras tradicionalmente ocupadas e assegurou o direito à diferença em nossas línguas, culturas, formas de organização social e modos de vida. A chamada Constituição Cidadã inaugurou um novo marco na relação entre o país e seus povos originários.

Promulgada 488 anos após a invasão colonizadora, a Constituição representou um ponto de inflexão na afirmação da dignidade indígena. Pelo reconhecimento de direitos originários, foi determinado que todas as terras indígenas estivessem demarcadas no prazo de cinco anos, mas o que deveria ter sido concluído até 1993 permanece como uma tarefa inconclusa da democracia brasileira, e a transformação segue seu curso com avanços e recuos, próprios da alternância de poder.

Também chegamos a um momento histórico: o Brasil conta hoje com o Ministério dos Povos Indígenas, cuja criação é expressão concreta do protagonismo e resultado de décadas de articulação entre diferentes povos, além da formação de novas gerações aptas a ocupar espaços.

Na educação e no mundo do trabalho, iniciativas como a criação de uma Universidade Indígena, e a ampliação de mecanismos de inclusão no serviço público também fortalecem o empoderamento de novas gerações, cada vez mais presentes na formulação de políticas.

Em espaços internacionais como a COP30, os povos indígenas deixaram de ser apenas afetados pelas decisões globais e passaram a participar ativamente do debate. Programas como o Kuntari Katu e iniciativas como o Ciclo COParente ajudaram a estruturar essa presença. Em meio à emergência climática global, os povos indígenas ocupam posição de vanguarda: nossos territórios são historicamente os mais eficazes na proteção das florestas e concentram cerca de 80% da biodiversidade do planeta. Ao protegê-los, contribuímos de forma decisiva para a estabilidade climática e ambiental no Brasil e no mundo.

Mais de 3,2 milhões de hectares de terras indígenas foram homologados — uma extensão equivalente à de países como El Salvador ou Eslovênia. Outros 1,5 milhão de hectares avançam em processo de reconhecimento por meio de 21 portarias declaratórias. Soma-se a isso outros 7,5 milhões de hectares em terras delimitadas, de maneira que entre 2023 e abril de 2026 se concretizaram um avanço de 12 milhões de hectares em território indígena em alguma fase do processo de demarcação.

Destaco nesse processo a vitória emblemática na Terra Indígena Yanomami, onde foi possível debelar cerca de 98,77% do garimpo ilegal, com efeitos diretos sobre a proteção da vida, da floresta e da soberania nacional, gerando milhões de prejuízo para o crime organizado nas ações no território.

Isso não significa, entretanto, que as pressões tenham cessado. Ameaças como a grilagem de terras, a expansão desordenada das monoculturas, o agrotóxico, a mineração predatória e projetos de infraestrutura que desconsideram impactos sociais e ambientais persistem e, nesse contexto, ressurgem tensões em torno de direitos já reconhecidos, como no debate sobre o marco temporal, que segue mobilizando forças contrárias, mesmo após decisões do Supremo Tribunal Federal.

A história dos povos indígenas sempre foi marcada pela disputa — por terra, por direitos, por existir. Seguimos em frente, como sempre fizemos, com diálogo, firmeza e responsabilidade. A justiça histórica para os povos indígenas não é um favor: é uma condição para um Brasil mais democrático, sustentável e à altura de seu próprio futuro.

O texto que me atravessou e nunca mais me deixou

O texto que me atravessou e nunca mais me deixou

Por Maria Paula Fernandes

Este testemunho nasce de um gesto simples e profundo: o envio, pela jornalista Nádia Pontes, de uma reportagem escrita por ela para a Deutsche Welle, em agosto de 2010. Ao me reenviar aquele texto, Nadia — minha companheira de jornada desde então — ativou uma memória disruptiva: o instante em que fui atravessada, de forma irreversível, por uma luta que não começou comigo, mas passou a me incluir.

Reler aquela matéria é também reencontrar a trajetória da minha amiga Sonia Guajajara, então a primeira mulher a coordenar a Coiab . Ao longo dos anos, ela se afirmaria como liderança mundial, deputada federal e se tornaria a primeira mulher indígena a comandar um ministério de Estado no Brasil, à frente do inédito Ministério dos Povos Indígenas. Um caminho longo, improvável e profundamente inspirador.

Há nesse resgate algo muito poderoso: uma coerência rara e revigorante. Uma linha contínua entre a luta nos territórios, a articulação política e a presença institucional. Olhar para trás e ver essa história me traz uma certeza profunda: fiz a escolha certa ao caminhar ao lado dessa mobilização.

A mobilização indígena no Brasil é ancestral, contínua, anterior ao Estado e resistente ao apagamento. Em 2010, foi a mim que essa mobilização alcançou, por meio de lideranças indígenas em movimento e de um jornalismo sensível, rigoroso e profundamente comprometido com a vida.

Naquele tempo anterior às redes sociais e à comunicação instantânea, foi o jornalismo que rompeu distâncias geográficas e simbólicas. Trabalhos como o da Nadia permitiram que alguém do Sudeste compreendesse o que estava em jogo no Xingu, no Pará, na Amazônia — não como “progresso” abstrato, mas como conflito humano, violação de direitos e ameaça concreta aos modos de vida indígenas.

Dessa tomada de consciência nasceu, em 2011, a campanha do movimento Gota d’Água, que em apenas uma semana reuniu 1 milhão de assinaturas questionando a construção da usina de Belo Monte. Aquela mobilização deixou uma marca definitiva: informação consistente mobiliza. E letramento é, em si, um ato político.

Para mim, ali começou uma travessia sem volta. O que inicialmente era um tema tornou‑se propósito de vida. Com acolhimento, escuta e aprendizagem — oferecidos por lideranças indígenas, jornalistas, juristas, antropólogos, ativistas e procuradores — fui compreendendo que ampliar o alcance de uma causa exige muito mais do que indignação. Exige tradução, cuidado, constância e compromisso coletivo.

É dessa compreensão que nasce e se afirma a missão da Uma Gota no Oceano: irrigar informação consistente, independente e atraente para semear reflexão e colher transformação.

Essa missão é uma escolha ética e política. Porque defender os povos indígenas não é uma pauta setorial. É confrontar um modelo de desenvolvimento que expropria, silencia e destrói. É reconhecer os territórios como infraestrutura vital do planeta. É afirmar, sem concessões, que não há justiça climática sem justiça territorial.

Este texto é memória e presença. É testemunho e posição. E é um compromisso permanente de seguir em rede, seguir aprendendo e seguir irrigando consciência — porque hoje sabemos, com absoluta clareza, que defender os povos indígenas é defender a possibilidade da vida humana na Terra.

2025: Comunicação no centro da resposta climática 

2025: Comunicação no centro da resposta climática 

Em 2025, a crise climática deixou de ser apenas um alerta para se tornar um divisor de caminhos. Não se tratava mais de reconhecer sua gravidade – isso já era consenso -, mas de enfrentar escolhas complexas diante de um cenário global marcado por retrocessos ambientais e pressões econômicas crescentes sobre a Amazônia e outros biomas. 

Nesse contexto, a Gota reafirmou sua essência: irrigar informação consistente e independente para semear reflexão e colher transformação. Atuamos onde decisões são tomadas e onde seus impactos reverberam. A comunicação foi construída em diálogo com organizações, lideranças e territórios, respeitando protagonismos, ampliando alcances e influenciando os rumos da transição climática no Brasil e no mundo. 

COP30: A virada do protagonismo 

A COP30, realizada em Belém do Pará, entrou para a história como a COP dos Povos Indígenas e dos Povos Afrodescendentes.  

Em um contexto geopolítico adverso, o Brasil registrou a maior presença indígena já vista em uma conferência do clima: mais de 3,5 mil indígenas de mais de 100 povos foram acolhidos na Aldeia COP, e quase 900 indígenas foram credenciados para a Zona Azul onde acompanharam as negociações oficiais – entre eles, 30 diplomatas indígenas formados por meio do projeto Kuntari Katu. 

Essa presença marca uma inflexão histórica: os povos originários se afirmaram, de forma incontornável, como referências centrais nas soluções climáticas globais, e Belém se transformou em um território vivo de articulação e mobilização. 

A atuação da Gota na comunicação estratégica do Ministério dos Povos Indígenas foi decisiva para que esse protagonismo não se limitasse ao simbólico, mas se consolidasse institucionalmente.  

Em momentos de tensão, quando manifestações legítimas correram o risco de criminalização ou distorção, a comunicação atuou como ferramenta de proteção, reposicionamento e clareza. Ao final da COP, uma mensagem se impôs com força: não há resposta climática eficaz sem territórios demarcados, protegidos e reconhecidos como estratégicos. Esse entendimento se traduziu em anúncios concretos, como novas portarias declaratórias e homologações de Terras Indígenas. 

Quilombos, afrodescendência e justiça climática global 

Ao longo do ano, fortalecemos a comunicação quilombola como ferramenta de defesa de direitos. Produzimos conteúdos, estruturamos respostas rápidas a violações, apoiamos disputas territoriais e investimos na autonomia comunicativa dos movimentos. O Manual de Redação Quilombola, as oficinas de formação e a cobertura colaborativa da COP deixam um legado. 

Avançamos também em uma das conquistas mais estruturantes da nossa história: a inclusão inédita dos povos afrodescendentes nos documentos oficiais da UNFCCC, durante a COP30. Ao lado da CONAQ e da CITAFRO, a Gota contribuiu para transformar uma agenda historicamente invisibilizada em reconhecimento internacional, abrindo um novo capítulo na governança climática global. 

Casos como os dos quilombos do Curiaú (Amapá) e do Patuazinho (Pará) – ambos ameaçados por pressões urbanísticas, disputas fundiárias e sucessivas violações de direitos territoriais – evidenciaram, na prática, como a comunicação estratégica pode alterar correlações de força. Ao dar visibilidade qualificada às denúncias e sustentar a pressão pública, a comunicação contribuiu para frear retrocessos, fortalecer processos de defesa territorial e influenciar decisões administrativas e institucionais. 

Metano: nosso freio de emergência climática 

Outro eixo central do nosso trabalho em 2025 foi colocar o metano no centro da agenda climática, como aquilo que ele de fato é: um freio de emergência para o aquecimento global. Em parceria com o Global Methane Hub, traduzimos um tema técnico em linguagem acessível, sem abrir mão do rigor científico e da densidade do debate. 

O lançamento do novo relatório global de metano na COP30, a campanha Freio de Emergência Climática, o ABC do Metano, o personagem Super M. e os seminários realizados no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, e no Museu das Amazônias, em Belém, tiveram um objetivo comum: mostrar que reduzir metano agora é uma das formas mais rápidas e eficazes de evitar impactos climáticos ainda mais severos no curto prazo. 

Ao mesmo tempo, reforçamos a compreensão de que soluções como a economia circular – baseada na redução de desperdícios, na reutilização de materiais e na valorização de ciclos produtivos locais – não são apenas ambientais, mas também sociais, sanitárias e econômicas, especialmente relevantes para países do Sul Global. 

Aprendizados que moldam o futuro 

2025 reafirmou que não existe neutralidade na comunicação climática. Toda escolha narrativa reforça ou enfrenta desigualdades. Toda ausência de contexto pode legitimar violências. E toda estratégia bem construída pode abrir caminhos antes considerados impossíveis. 

Aprendemos que: 

  • A comunicação dos territórios precisa partir da escuta, do vínculo e do respeito aos seus tempos e saberes; 
  • Protagonismo se constrói com confiança, continuidade e reconhecimento de quem já está na linha de frente. 

 Os desafios que vêm pela frente 

O próximo ano nos desafia a sustentar e aprofundar as conquistas de 2025. 

  • O reconhecimento internacional precisa se transformar em implementação real; 
  • A inclusão de indígenas e afrodescendentes nos documentos da ONU precisa virar acesso a recursos, proteção territorial e políticas públicas efetivas; 
  • A centralidade dos povos indígenas e quilombolas precisa resistir às pressões do extrativismo, do racismo ambiental e das falsas soluções climáticas. 

Seguiremos apostando naquilo que sabemos fazer melhor: comunicação com densidade, compromisso ético e enraizamento nos territórios. Porque, em um mundo atravessado por disputas, escolher como contar as histórias é também escutar cada agente, cada ator social, cada indivíduo, cada comunidade. Vozes que ecoam atingem distâncias inimagináveis.

Permitir que o “Brasil profundo” seja ouvido e protegido é estruturar a narrativa que liga nosso passado e presente a um futuro possível: mais harmônico, sustentável e inclusivo. É seguir com a certeza de que o que construímos até aqui é só o começo!

 

 

 

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