Por Maria Paula Fernandes
Este testemunho nasce de um gesto simples e profundo: o envio, pela jornalista Nádia Pontes, de uma reportagem escrita por ela para a Deutsche Welle, em agosto de 2010. Ao me reenviar aquele texto, Nadia — minha companheira de jornada desde então — ativou uma memória disruptiva: o instante em que fui atravessada, de forma irreversível, por uma luta que não começou comigo, mas passou a me incluir.
Reler aquela matéria é também reencontrar a trajetória da minha amiga Sonia Guajajara, então a primeira mulher a coordenar a Coiab . Ao longo dos anos, ela se afirmaria como liderança mundial, deputada federal e se tornaria a primeira mulher indígena a comandar um ministério de Estado no Brasil, à frente do inédito Ministério dos Povos Indígenas. Um caminho longo, improvável e profundamente inspirador.
Há nesse resgate algo muito poderoso: uma coerência rara e revigorante. Uma linha contínua entre a luta nos territórios, a articulação política e a presença institucional. Olhar para trás e ver essa história me traz uma certeza profunda: fiz a escolha certa ao caminhar ao lado dessa mobilização.
A mobilização indígena no Brasil é ancestral, contínua, anterior ao Estado e resistente ao apagamento. Em 2010, foi a mim que essa mobilização alcançou, por meio de lideranças indígenas em movimento e de um jornalismo sensível, rigoroso e profundamente comprometido com a vida.
Naquele tempo anterior às redes sociais e à comunicação instantânea, foi o jornalismo que rompeu distâncias geográficas e simbólicas. Trabalhos como o da Nadia permitiram que alguém do Sudeste compreendesse o que estava em jogo no Xingu, no Pará, na Amazônia — não como “progresso” abstrato, mas como conflito humano, violação de direitos e ameaça concreta aos modos de vida indígenas.
Dessa tomada de consciência nasceu, em 2011, a campanha do movimento Gota d’Água, que em apenas uma semana reuniu 1 milhão de assinaturas questionando a construção da usina de Belo Monte. Aquela mobilização deixou uma marca definitiva: informação consistente mobiliza. E letramento é, em si, um ato político.
Para mim, ali começou uma travessia sem volta. O que inicialmente era um tema tornou‑se propósito de vida. Com acolhimento, escuta e aprendizagem — oferecidos por lideranças indígenas, jornalistas, juristas, antropólogos, ativistas e procuradores — fui compreendendo que ampliar o alcance de uma causa exige muito mais do que indignação. Exige tradução, cuidado, constância e compromisso coletivo.
É dessa compreensão que nasce e se afirma a missão da Uma Gota no Oceano: irrigar informação consistente, independente e atraente para semear reflexão e colher transformação.
Essa missão é uma escolha ética e política. Porque defender os povos indígenas não é uma pauta setorial. É confrontar um modelo de desenvolvimento que expropria, silencia e destrói. É reconhecer os territórios como infraestrutura vital do planeta. É afirmar, sem concessões, que não há justiça climática sem justiça territorial.
Este texto é memória e presença. É testemunho e posição. E é um compromisso permanente de seguir em rede, seguir aprendendo e seguir irrigando consciência — porque hoje sabemos, com absoluta clareza, que defender os povos indígenas é defender a possibilidade da vida humana na Terra.