fevereiro 2021 | Amazônia, Catástrofe ambiental, Desmatamento, Povos Tradicionais
Amazônia e mineração ilegal são como álcool e direção: não combinam. O último exemplo vem de Uiramutã, a 290 quilômetros de Boa Vista, em Roraima. Pontos turísticos conhecidos pela água cor de esmeralda, as cachoeiras Sete Quedas e Urucá apareceram cheias de um líquido marrom em fotos divulgadas pela Folha de São Paulo esta semana. Motivo: a exploração irregular de minérios na região, que fica dentro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Indiferente a isso, o governador sancionou na segunda-feira uma lei que libera o garimpo nas terras do estado. Por trás da confusão, há uma pergunta que o Brasil ainda não respondeu: vale a pena pôr a floresta em risco em troca de dinheiro?
O incentivo à mineração na Amazônia é uma das obsessões de Bolsonaro mais difíceis de entender. O tema voltou à pauta no último dia 3, quando o presidente da república apresentou a liberação da atividade em terras indígenas como uma de suas prioridades ao deputado federal Arthur Lira, novo presidente do congresso. Para começo de conversa, 86% dos brasileiros são contra a exploração de minérios nestas áreas, segundo o Datafolha. Elaborado pelo Governo Federal para regulamentar a atividade, o projeto de lei 191/20 prevê a permissão para lavra garimpeira em terras indígenas – algo vetado pela Constituição.
Além disso, os próprios indígenas não estão muito interessados no assunto. “A nossa relação com a terra é totalmente diferente, é de preservação da terra e dos recursos naturais”, disse Luiz Eloy Terena, advogado da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Por sua vez, as mineradoras também não querem explorar estes locais. “Se é complexo e moroso trabalhar numa área sem esse tipo de conflito, imagina dentro de uma área dessas”, explicou o empresário Luiz Maurício Azevedo, empresário e presidente da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa Mineral (ABPM).
Sem o interesse dos indígenas e com as companhias fora do páreo, aventureiros que atuam na mineração sem compromisso com a natureza são os únicos beneficiados pela medida defendida por Bolsonaro.
Mas por que o filme da mineração anda tão queimado? É fácil entender. Você sabia que, para cada quilo de ouro produzido, 1,3 quilo de mercúrio é liberado no meio ambiente? A lista de problemas não para por aí. O cientista americano Philip Fearnside identificou um padrão nas regiões amazônicas que abrigam a atividade. Quando o minério acaba, os trabalhadores viram posseiros e o desmatamento dispara. Só entre 2005 e 2015, mais de 11 mil quilômetros quadrados de floresta foram abaixo por conta disso, segundo estudo publicado na Nature.
As complicações continuam. Lugar com gente precisa de estradas. Elas valorizam as terras às suas margens e são outro motor de destruição da mata. Uma análise do WWF apontou que 75% do desmatamento da Amazônia se deu perto de rodovias e, de acordo com estimativas publicadas na revista PNAS, 2,4 milhões de hectares de floresta poderiam vir abaixo se 12 mil quilômetros de vias previstos para região saíssem do papel.
Toda esta destruição ambiental gera consequências. As árvores mortas e cortadas viram combustível para incêndios. Só no ano passado, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais contou 103.161 casos na Amazônia – um aumento de 16% em relação a 2019. Com as mudanças climáticas, as secas estão mais frequentes, o que potencializa o fogo. A estação seca hoje já é quatro semanas maior do que era no sul e sudeste da Amazônia na década de 1980, segundo o cientista Carlos Nobre.
Este calor todo vai matando a vegetação e, aos poucos, transformando a floresta tropical em savana. Se isso acontecer, não teremos uma mera mudança na paisagem. Doenças hoje restritas à mata podem se tornar mais comuns. Aliás, cerca de 70% dos últimos surtos epidêmicos vividos pela humanidade começaram assim, de acordo com María Neira, diretora de Saúde Pública e Meio Ambiente da Organização Mundial da Saúde. Para ela, preservar a floresta não é uma questão de ecologia, mas de saúde pública. “O planeta, nós o estamos destruindo, mas ele vai encontrar uma maneira de sobreviver; os humanos, não”, adverte.
Este processo pode ser freado? A boa notícia é que sim. E nós até sabemos o que fazer. Em um passado recente, medidas como o bloqueio de empréstimos de bancos públicos a empresas com multas pendentes em órgãos ambientais já surtiram efeito e ajudaram na preservação da floresta. Além disso, ideias como a bioeconomia podem ajudar o garimpeiro a trocar o papel de inimigo do meio ambiente por conta da falta de oportunidades pelo de amigo da natureza. Um hectare de soja rende, em média, R$ 604 por ano – contra R$ 12,4 mil de uma área do mesmo tamanho dedicada ao cultivo de espécies nativas, como o açaí e a castanha do pará. Detalhe: é dinheiro que vem sem que nenhuma árvore se vá.
Divulgada nesta semana, uma pesquisa do Ibope indicou que 77% dos brasileiros consideram preservar a meio ambiente é o mais importante, ainda que isso signifique menor crescimento econômico e geração de empregos. Nós estamos com a faca e o queijo na mão. Salvar a floresta é o interesse de maioria, o melhor para nosso futuro e, de quebra, o que rende mais dinheiro.
Em nome de que fazer o contrário?
#Amazônia #Mineração #Garimpo #MeioAmbiente #Economia #UmaGotaNoOceano #CadaGotaConta
Saiba mais:
Folha – Incentivado pelo senador da cueca, garimpo ilegal emporcalha cachoeiras em terra indígena
Jornal Nacional – Governador de Roraima libera garimpo no estado e com uso de mercúrio
O eco – Mineração em Terras Indígenas, regularização fundiária e mais, entenda as prioridades de Bolsonaro para 2021
Folha – Maioria dos brasileiros rejeita abrir mineração em terras indígenas
Valor – Mineradoras descartam explorar áreas indígenas
National Geographic – Imagens aéreas mostram o impacto da mineração na Amazônia
Amazonia Real – O Desmatamento da Amazônia Brasileira: 8 – Lavagem de dinheiro, exploração madeireira e mineração
O eco – Em 10 anos, mineração causou 9% de desmatamento na Amazônia
Nature – Mining drives extensive deforestation in the Brazilian Amazon
WWF – Maior parte do desmatamento da região está concentrado nas rodovias
Mongabay – Projetos de estradas na Amazônia podem desmatar 2,4 milhões de hectares nos próximos 20 anos
Inpe – Queimadas
Valor – “Savanização da Amazônia já está ocorrendo”, diz Nobre
El País – Diretora de Meio Ambiente da OMS: “70% dos últimos surtos epidêmicos começaram com o desmatamento”
Amazônia Real – O Desmatamento da Amazônia Brasileira: 6 – Commodities e governança
Revista Globo Rural – Açaí, cacau e castanha são mais rentáveis que pecuária e soja na Amazônia, diz Carlos Nobre
Ibope/ITS – Percepção climática
fevereiro 2021 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Desenvolvimento Sustentável, Desmatamento, Mudanças Climáticas
Caro Mercado Financeiro,
Eu, Meio Ambiente, sempre tive com você uma relação difícil. Por isso, foi com imensa alegria que recebi a última carta que Larry Fink, CEO do fundo BlackRock, enviou a seus investidores – assim como os comentários que vi no Fórum Econômico Mundial. Com a pandemia, ninguém pôde ir a Davos e as conversas tiveram de ser virtuais. Mas tudo indica que o verde vai finalmente se entender com as verdinhas. Não foi sem alguma vaidade que li Mr. Fink dizer que seus clientes perguntam sobre o risco climático todos os dias. Também fiquei lisonjeado quando o fotógrafo Sebastião Salgado falou, na abertura do Fórum, que “podemos viver em paz com o meio ambiente“. E aí, vamos ficar de bem ou seguir nos desentendendo?
Assim como você, estou muito esperançoso com o maior interesse das empresas pelo selo ESG, concedido por consultorias e outras instituições. Ter companhias preocupadas com Environment, Social e Governance (ou natureza, iniciativas sociais e governança corporativa em bom português) é a chance que eu esperava há séculos para mostrar que também tenho meu valor. O fato de as ações das firmas com este selo terem sido mais procuradas ao longo de 2020 mostra que não sou o único que pensa assim.
Como dizia o economista Milton Friedman, “não existe almoço grátis” e cuidar de mim até que é um preço justo, tendo em vista o bom retorno que proporciono. Por exemplo, a cada segundo, 33 mil litros de água são distribuídos pelo Sistema Cantareira e outros 43 mil litros são captados no Rio Guandu. Isso permite que as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro sigam sem sede (apesar da geosmina no caso carioca). Já pensou se estes valores oscilassem como os papéis da bolsa? Este é o cenário que você evita quando me preserva.
É como se, da noite para o dia, todos descobrissem o meu potencial. Em 2020, foram investidos US$ 288 bilhões em ativos sustentáveis, o dobro do verificado no ano anterior. Um levantamento da empresa Morning Star apontou que só no primeiro semestre do ano passado, 23 fundos compostos apenas por ações de empresas ESG foram lançados nos Estados Unidos. Das 20 maiores corporações do mundo, 19 já se comprometeram a zerar suas emissões de gases de efeito estufa na atmosfera nos próximos anos. A única exceção é uma estatal de petróleo saudita. Até o bilionário Jeff Bezos, todo-poderoso da Amazon, anunciou esta semana que vai deixar o comando da varejista para poder dar mais atenção a iniciativas como o fundo Bezos Earth, que financia soluções criadas por comunidades tradicionais para preservar o meio ambiente.
Outra pesquisa, do Itaú BBA, perguntou a investidores qual das 3 letrinhas da sigla eles consideravam a mais importante. Nela, o E deu um banho no S e no G. Sou a prioridade de 90% dos estrangeiros e 50% dos brasileiros, entre os quais a moda está começando a pegar. Já tem banco com projeto de preservação da Amazônia, loja de roupa que só trabalha com algodão certificado e operadora de celular que recolhe lixo eletrônico. Tudo para ter o bendito selinho e sair bem na foto. O primeiro fundo ESG do Brasil foi criado em 31 de agosto do ano passado. Em menos de 6 meses, surgiram, pelo menos, outros seis, que já acumulam R$ 700 milhões, segundo a Anbima. Parece muito, mas é só 0,13% do dinheiro investido em fundos no país, o que mostra que ainda há espaço para crescer.
É muito bom ver tantas coisas caminhando. Mas confesso que alguns pontos ainda me preocupam. Vice-presidente do Brasil, o general Hamilton Mourão afirmou no Fórum Econômico Mundial que depende do apoio da iniciativa privada para preservar a Amazônia após a pandemia. Segundo ele, o governo não terá mais dinheiro para investir em ciência. Mas Eric Pedersen, executivo do fundo Nordea, pontuou que é importante que os Estados forneçam uma estrutura regulatória que encoraje os investimentos, por exemplo. E o governo do Brasil, no último ano, não aplicou nenhuma multa ambiental.
Já Jan Saugestad, do fundo Storebrand, lembrou que, para quem quer preservar o meio ambiente, não faz sentido investir num país onde o desmatamento cresce e nada acontece. Enquanto isso, a proposta de orçamento do governo brasileiro para fiscalização ambiental em 2021 é a menor deste século, segundo o Observatório do Clima. “Os povos indígenas desempenham um papel crucial na proteção das florestas”, afirmaram por meio de nota representantes do grupo Diálogo de Política de Investidores sobre Desmatamento. Isso logo depois de termos Bolsonaro, presidente da república, denunciado por lideranças indígenas ao Tribunal Penal Internacional por crimes ambientais. É como se o Brasil fosse um investimento de altíssimo risco e baixíssimo rendimento. Não dá mais nem para alugar, como propôs o Raul. Em relação a isso, o naturalista inglês David Attenborough disse numa entrevista recente: “Será maravilhoso quando o Brasil entender que é economicamente melhor deixar a floresta em pé do que derrubá-la”.
Se o desespero quase sempre paralisa, a esperança tem a vantagem de nos tranquilizar e, às vezes, até resultar em algo bom. E não faltam motivos para eu ter esperança. Um estudo da Ember e da Agora Energiewende mostrou que, em 2020, a Europa produziu mais energia a partir de fontes renováveis do que de combustíveis fósseis pela primeira vez. Nos Estados Unidos, Joe Biden recolocou o país no Acordo de Paris e anunciou a meta de tornar sua economia livre de carbono até 2050. Sondagens da BlackRock com investidores de 27 países indicaram que eles pretendem dobrar a fatia das ESGs em suas carteiras de investimento até 2025. Há quem diga até que, no futuro, o selo vá deixar de ser um diferencial para se tornar uma pré-condição.
Despeço-me com uma citação de Carlos Abras, coordenador de negócios e mobilização de recursos da Fundação SOS Mata Atlântica, que resume o que penso sobre o assunto: “Existe um custo ambiental para produzir nesse planeta e devolver a ele parte das receitas é uma atitude ética“.
Um abraço,
Meio Ambiente
#MeioAmbiente #Economia #ESG #Davos #Sustentabilidade #UmaGotaNoOceano #CadaGotaConta
BlackRock – Carta do Larry Fink aos CEOs
Jamil Chade (Uol) – Premiado por Davos, Sebastião Salgado defende “paz com meio ambiente”
Você S/A – A mão invisível do ESG
Sabesp – De onde vem?
Cedae – ETA Guandu
Rosana Jatobá (Uol) – No oceano de discursos virtuais de Davos, a onda verde veio com tudo
Tasso Azevedo (O Globo) – Emissão zero e o novo normal
Amazon – Email from Jeff Bezos to employees
The Soluction Project – Bezos Earth Fund
Miriam Leitão (O Globo) – Na agenda do clima, mudança de eixo nos afeta diretamente
Folha – Fundo estrangeiro rebate Mourão, vê diálogo vazio e cobra política ambiental
Uol – Ação ambiental é insatisfatória, dizem investidores após reunião com Mourão
Observatório do Clima – Fakebook.eco newsletter
Uol – Cacique Raoni denuncia Bolsonaro no Tribunal de Haia por crimes ambientais
Veja – O planeta é vulnerável, diz o naturalista David Attenborough
Folha – Biden ambiental
Nexo – O papel das empresas na preservação do meio ambiente
janeiro 2021 | Desenvolvimento Sustentável
Já passou da hora de fazer uma faxina caprichada no Brasil, daquelas de lavar até a alma. É muita sujeira: o país produz quase 80 milhões de toneladas de lixo por ano; ficamos atrás apenas de EUA, China e Índia, e à frente de Indonésia e Paquistão, países mais populosos. Segundo um estudo da Associação Brasileira de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), de 2010 a 2019 a nossa pilha de lixo cresceu 18,8%, indo de 67 milhões de toneladas anuais para 79,6 milhões. No mesmo período, a população cresceu 8,7%, conforme estima o IBGE. Ou seja, estamos ficando mais desleixados – e olha que nessa conta ainda não entrou o caminhão da pandemia, com seus equipamentos de segurança descartáveis, sacolas de entrega em domicílio etc.
Pior que a gente não só suja, como não limpa direito. Desserviço completo. O lixo jogado fora de forma inadequada aumentou de 25 para 29 milhões de toneladas por ano. “Temos no país uma deficiência na coleta. Cerca de 6 milhões de toneladas sequer são coletadas”, diz Carlos Silva Filho, diretor-presidente da Abrelpe. E somente 4% do lixo recolhido é reaproveitado; o resto penetra no solo, contaminando lençóis freáticos; vira poeira tóxica ou gás do efeito estufa – contribuindo com as mudanças climáticas –; ou chega ao oceano. Além disso, afeta diretamente a saúde de quem vive perto dessa herança medieval: “A gente sabe que resíduo descartado de forma inadequada é um criador propício para vetores de várias doenças. Embalagens que acumulam água são criadoras de mosquito da dengue, entulho é criador para rato, cobra, escorpião”, explica Ronan Cleber Contrera, professor da Escola Politécnica da USP.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída em 2010, previa a erradicação dos lixões a céu aberto em todos o território nacional até 2014. Bom, isso não só ainda não aconteceu como a aprovação do novo marco do saneamento básico, em julho de 2020, postergou ainda mais este prazo: capitais e regiões metropolitanas têm até o próximo dia 2 de agosto para acabar com os lixões, enquanto cidades com mais de 100 mil moradores têm até agosto do ano que vem; as menores podem esperar até 2024. Haja barriga para empurrar tanto entulho. Cerca 3.000 dos 5.570 municípios brasileiros ainda mantêm lixões a céu aberto, segundo a Abrelpe.
As alternativas já existem e estão disponíveis. O lixo pode ser acomodado em aterros sanitários, por exemplo, menos poluentes e mais seguros. Mas o ideal é não desperdiçar, ou reaproveitar. Detritos orgânicos podem virar adubo natural em usinas de compostagem ou servirem como matéria-prima para a produção de biogás. Hoje, a produção nacional é de 1,5 bilhão de metros cúbicos por ano. Isso dá menos de 4% da produção de combustíveis fósseis, mas a Associação Brasileira do Biogás (Abiogás) estima que o nosso potencial é de 40 bilhões de metros cúbicos por ano.
Além de fazerem mal ao meio ambiente, os lixões ainda concentram uma grave questão social. Em dezembro, Pedro Guimarães, presidente da Caixa, ficou boquiaberto ao descobrir que havia pessoas vivendo neles: “Há três semanas, visitamos alguns lixões. E o que a gente viu é algo que eu nunca tinha pensado que existisse. Pessoas morando nos lixões e vivendo no chorume”, disse ele. Milhares de brasileiros ainda sobrevivem nessas condições sub-humanas – embora permaneçam invisíveis.
Será que Guimarães não assistiu à novela “Avenida Brasil”, com a memorável Mãe Lucinda? Mas, como essas histórias estão longe de serem ficção, recomendamos o premiado documentário “Estamira” (2004), de Marcos Prado, como ponto de partida. Ele conta a história de uma senhora que vivia no extinto Lixão de Gramacho, no Rio de Janeiro. É um grito de socorro. Gramacho foi fechado oficialmente em 2012 e era o maior lixão da América Latina. Centenas de famílias dependiam dele para sua subsistência. Outro filme brasileiro sobre este lugar é “Lixo extraordinário” (2011), que foca na relação do artista visual brasileiro Vik Muniz com catadores de lá. Além de documentar essa parceria, o documentário registra a união desses trabalhadores em sua busca por alternativas de trabalho. Afinal, o que é lixo para uns pode valer ouro para outros.
O Brasil reciclou apenas 3,7% da sujeira que produziu em 2019, segundo o Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (Islu), e a Abrelpe alerta que perdemos R$ 14 bilhões por ano por causa disso. Nem parece o mesmo país que reaproveita 97,6% das latinhas que consome de cerveja e refrigerante, liderando o ranking mundial na modalidade. Nem o coronavírus segurou nossos bravos catadores: de acordo com a Associação Brasileira do Alumínio (Abal) e a Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas (Abralatas), foram coletadas 45 mil toneladas a mais do que em 2018, um aumento de 14,7%. Como diz a frase grafitada pelo artista visual Mundano nos carrinhos da galera de São Paulo, “Um catador faz mais do que um ministro do Meio Ambiente”.
#Lixo #Sustentabilidade #Menos1Lixo #DescarteConsciente #UmaGotaNoOceano #CadaGotaConta
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janeiro 2021 | Biodiversidade, Mudanças Climáticas, Oceanos
Não se iluda com a água gelada da próxima vez que for à praia. Organizado por 20 cientistas de 13 instituições, um estudo divulgado este mês na publicação científica Advances in Atmospheric Sciences apontou que, em 2020, os oceanos registraram as temperaturas mais altas desde 1955. Sabe-se que os mares estão esquentando há, pelo menos, 70 anos. Acontece que o processo acelera como um tsunami que se aproxima da costa.
Entre 1986 e 2020, o aumento médio do calor acumulado nos mares foi 8 vezes maior que o verificado entre 1958 e 1985. E ganha uma estrela-do-mar dourada quem acertar qual dos cinco foi o oceano que mais esquentou no período. Sim, ele mesmo, o seu, o meu, o nosso Atlântico. Será que não é hora de darmos uma atenção maior a isso?
Oceanos não esquentam do nada. No caso em questão, pesquisadores como Lijing Cheng, da Academia Chinesa de Ciências, apontam o efeito estufa como origem do problema. “Mais de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global é absorvido pelos oceanos“, afirma ele. Há outros números de tirar o fôlego. Entre 1995 e 2020, nossos mares incorporaram uma quantidade de calor equivalente à explosão de 3,6 bilhões de bombas de Hiroshima. É muita energia para um período relativamente pequeno.
Como os oceanos têm ligação direta com o clima, as consequências começam a aparecer. No ano passado, o Atlântico registrou 29 tempestades, um recorde inédito. A umidade que alimentou furacões no Caribe e no sul dos Estados Unidos foi a mesma que fez falta na Amazônia e se traduziu em uma temporada de incêndios na floresta, segundo a Nasa. Ou seja, o aquecimento das águas já está bagunçando nosso regime climático. Só não vê quem não quer.
Como no começo do filme Tubarão, muita gente já começa a olhar preocupada para a confusão logo ali além da areia. A diferença é que, na vida real, ainda há o que ser feito. Um exemplo é a ONU, que vai celebrar entre 2021 e 2030 a Década Internacional do Oceano. Assim mesmo, no singular, para promover a ideia de que todos os mares são, na verdade, um só e devem ser preservados. Afinal, eles nos prestam bons serviços.
Você sabia que o habitat de algas, sardinhas e golfinhos absorveu 7 gigatoneladas de carbono só em 2019? O dado é do Global Carbon Project. Se todo este volume tivesse sido lançado na atmosfera, nosso planeta teria ficado muito mais quente. Por outro lado, este porre de CO2 está deixando o mar de ressaca. Nos últimos 2 séculos, a acidez das águas subiu cerca de 30%, o que afetou animais marinhos sensíveis a esta variação. Não é exatamente o tipo de problema que se resolve só com um antiácido.
Os impactos das mudanças do clima nos oceanos não param por aí. Com o calor, o gelo dos polos derrete e o aumento do nível do mar é outro fenômeno que tira o sono de muitos. As medições indicam uma subida média de 24 centímetros entre 1850 e 2010. Já para os próximos 79 anos, são esperados acréscimos entre 48 e 56 centímetros, segundo a WWF. Na primeira hipótese, 46 milhões de pessoas seriam afetadas; Na segunda, 49 milhões. Com 50 milhões de habitantes distribuídos por 9 mil quilômetros de litoral, o Brasil deveria estar mais atento a isso, não é? Não podemos deixar que a continental costa brasileira e toda sua biodiversidade deixem de ser um dos nossos maiores patrimônios e se tornem um problema.
Este calor todo também terá impacto nos animais. Se nada for feito, a tendência é que 90% dos corais do planeta estejam mortos até 2050, por exemplo. Mais quentes, os oceanos retêm menos oxigênio. A taxa de gás dissolvido na água já caiu 2% entre 1960 e 2010. Se nada mudar, pode cair 4% até o fim deste século. Se você gosta de iguarias como um bom atum, a boa é já começar a se despedir, porque neste cenário elas desapareceriam do mapa. Quer dizer, da água.
Como o protagonista do clássico O Velho e o Mar, não devemos nos desesperar na busca por nossos objetivos. Se o ser humano conseguiu desenvolver uma vacina eficaz contra um vírus letal em menos de 1 ano, ele é capaz de usar sua inteligência para reverter os riscos iminentes à vida marinha. De acordo com especialistas, o mais urgente é reduzir as emissões de CO2 para derrubar o volume de calor armazenado pelo mar. Não foi à toa que a volta dos Estados Unidos ao Acordo de Paris foi anunciada por Joe Biden, o novo presidente americano, assim que assumiu seu posto na Casa Branca. Cuidar do assunto é algo, literalmente, para ontem. Se o Brasil quiser fazer sua parte, vai precisar mudar de atitude, já que as metas para 2030 anunciadas em dezembro soaram, no mínimo, acanhadas.
Outro esforço necessário é a criação de unidades de conservação marinha. É uma caminhada longa, na qual o país ainda está em seus primeiros passos. Em 2018, aumentamos de 1,5% para 26,4% a fatia de áreas protegidas na nossa Zona Econômica Exclusiva. Mas ainda há muito por fazer. Para além disso, é preciso prestigiar o papel desempenhado por pescadores e outras populações tradicionais na preservação do litoral – assim como as pesquisas de ponta desenvolvidas pelo Observatório do Clima. Composta por mais de 50 organizações (inclusive Uma Gota no Oceano), a rede criou um grupo para estudar a relação entre o mar e o clima, de onde bebemos muitos dos dados aqui apresentados.
Como diz a canção, quem é do mar não enjoa. Cada um é responsável por arregaçar as mangas e construir um futuro diferente.
#Oceanos #MudançasClimáticas #AcordoDeParis #C02 #EmissõesDeCO2 #UmaGotaNoOceano #CadaGotaConta
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Nasa – Conditions Ripe for Active Amazon Fire, Atlantic Hurricane Seasons
ONU – UN designates 2021-2030 ‘Decade of Ocean Science’
Global Carbon Project – Global Carbon Budget 2019
IUCN – Ocean deoxygenation: Everyone’s problem
G1 – Retorno dos EUA ao Acordo de Paris e OMS estão entre primeiros atos do presidente Joe Biden
Uma Gota no Oceano – Cordão de Isolamento
janeiro 2021 | Povos Tradicionais
Há mais de uma década a gente vem desperdiçando energia para resolver os problemas gerados por Belo Monte. Em 2021 eles chegaram cedo: logo no dia 5, o Ibama foi obrigado a tomar mais uma providência para tentar reduzir impactos socioambientais no Rio Xingu. A medida, um ajuste na vazão de água liberada de sua barragem, vai custar caro para todos nós: segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a usina pode deixar de gerar até 21,18 mil MW entre janeiro e julho, o bastante para abastecer as regiões Sudeste e Centro-Oeste durante 15 dias. Para suprir essa demanda, a ONS seria forçada a acionar termelétricas que, além de mais poluentes, são ainda mais dispendiosas. O preço do MW/h de eletricidade produzido no país poderia aumentar em R$ 40 em seis meses, o que se refletiria na sua conta de luz – hoje, ele é estimado em aproximadamente R$ 187. Você pode morar bem longe do Xingu, mas vai sentir o baque assim mesmo.
O episódio deixa ainda mais evidentes as falhas no projeto da hidrelétrica, apontados ainda no papel por cientistas, organizações sociais e povos tradicionais. Esses alertas nos levaram a criar, há 10 anos, o Movimento Gota D’Água, que deu origem a Uma Gota No Oceano. Belo Monte é um projeto gestado na ditadura que veio à luz de parto forçado em pleno período democrático. Queríamos ser ouvidos, mas fomos atacados por governo e oposição na época. O tempo foi senhor da razão das ponderações daqueles que eram contrários à construção. Nenhum de nós, porém, tem o dom da profecia: tudo foi baseado na ciência, na sabedoria ancestral – daqueles que, como hoje se sabe, cultivaram a Amazônia – e na experiência de vida dos que fazem da floresta e dos rios a sua casa.
A hidrelétrica foi inaugurada em novembro de 2019. Hoje, Altamira, a cidade mais próxima, é a mais violenta do país, e o seu crescimento desordenado fez do Xingu um esgoto a céu aberto nas suas redondezas; muita gente que perdeu a casa ainda não foi devidamente indenizada; o comércio ilegal de madeira e as invasões de áreas protegidas dispararam; e o modo de vida dos indígenas da região foi comprometido de forma desumana – fala-se, inclusive, em etnocídio. Recentemente, o Ministério Público Federal (MPF) chamou a atenção para “evidências científicas de que um ‘ecocídio’ fulminará um dos ecossistemas da Amazônia de maior biodiversidade”.
“Belo Monte trouxe para a juventude, os crimes e as drogas, nada de projetos sociais”, diz Antônia Melo, coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre. Os peixes, alimento essencial e fonte de renda da população local, sumiram assim que começaram as obras. “Esse barramento aí acabou, isso ficou um lago. As piracemas, um igarapé, uma grota, que é o lugar onde os peixes desovam, acabaram. As ilhas, não se veem mais”, conta o ribeirinho Dario Batista de Almeida, o Seu Pivela.
Em nome de quê? A usina nunca entregou o que prometeram. A capacidade nominal de geração de energia da hidrelétrica é de 11.233 MW por mês, o suficiente para atender a 60 milhões de pessoas; mas só 4.571 MW chegam na tomada – na casa de Seu Pivela não chegou nenhum ainda. O orçamento inicial da obra era de R$16 bilhões, mas calcula-se que R$ 40 bilhões saíram pelo ladrão.
O enguiço da vez tem a ver com um troço chamado “hidrograma de consenso”. É este dispositivo que determina a quantidade de água a ser liberada pela barragem da usina e foi a principal proposta apresentada pela concessionária Norte Energia para amenizar os efeitos provocados pela diminuição do volume de água na Volta Grande do Xingu. Acontece que “de consenso” esse hidrograma só tem o nome: foi arbitrado pela própria companhia, quando a obra foi licenciada pelo governo em 2009, mesmo debaixo de protestos do Ibama na época. O órgão agora quer que sejam adotadas novas normas, baseadas nos impactos já causados no rio. Um “hidrograma ecológico”, que privilegie o meio ambiente e o modo de vida dos moradores da região.
Ainda assim, Belo Monte continuará sendo um elefante branco. Deveria ser visto por todos como um monumento à incompetência, à arrogância, à inconsequência e ao autoritarismo, para que erro igual não se repita jamais. O governo atual aposta no mesmo modelo desenvolvimentista anacrônico, que inevitavelmente vira um manancial de corrupção. Só que com uma diferença importante: o presidente não faz a menor questão de esconder seu pouco apreço pela democracia. Isso pode ser uma vantagem na hora de juntar forças nos próximos 10 anos de luta que dificilmente deixaremos de ter pela frente.
#BeloMonte #Xingu #MeioAmbiente #Água #Energia #CadaGotaConta #EmNomedeQuê
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