Precisamos aprender a ouvir

Precisamos aprender a ouvir

Saber ouvir é questão de vida ou morte para quem mora na floresta; grandes predadores são furtivos, muitas vezes invisíveis aos seus olhos. “A natureza é o único livro que oferece um conteúdo valioso em todas as suas folhas”, escreveu o poeta alemão Goethe. Os povos originários brasileiros devoraram suas páginas e aprenderam a ler este idioma, que deveria ser universal.

Precisamos aprender a ouvir. É outra lição que poderíamos aprender com os indígenas, sobretudo na selva da internet, onde todos falam e ninguém escuta, e onde mentiras se camuflam de verdades.

Algumas autoridades parecem dar ouvidos apenas às vozes que dizem exatamente o que querem escutar. No último dia 12, por exemplo, o presidente vestiu cocar para falar em nome dos povos tradicionais, defendendo a abertura de seus territórios para mineração e geração de energia, em frente a uma pequena plateia. Aliás, não só em nome deles: “Os índios não querem ser isolados. Está aqui o exemplo claro. Tem muito indígena aqui que fala português igualzinho ao nosso, tem exatamente o mesmo sentimento nosso”. Nosso quem, cara-pálida? Belo Monte, que produz mais dor de cabeça que eletricidade, é a prova concreta que construir hidrelétrica na floresta é a maior roubada. Quem está disposto a bancar novos elefantes brancos? Dadas as denúncias de corrupção que cercam a obra, ela deve ter atendido aos interesses de alguém, mas certamente não aos da maioria.

Por outro lado, as reivindicações da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) – entidade que reúne associações presentes em todas as regiões do país e que teve sua representatividade jurídica reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ­– entram por um ouvido do Executivo e saem pelo outro. A maioria dos indígenas deixa claro que não quer hidrelétrica e mineradora matando seus rios – estes, sim, uma riqueza que não tem preço. Mas como o valor do ouro no mercado internacional disparou em desabalada carreira – aumentou 46% no primeiro semestre – o apetite das mineradoras cresceu em velocidade ainda maior.

Um estudo da Operação Amazônia Nativa (Opan), em parceria com o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), divulgado na semana passada, indica que os pedidos de autorização para o garimpo no Amazonas cresceram 342% em 2020 comparados à média dos 10 anos anteriores. São cerca de 3 mil requisições, que abrangem 120,8 mil km², o equivalente a 8% da área do maior estado da Região Norte. O Instituto Brasileiro de Mineração calcula que foram extraídas 48,5 toneladas de ouro no país no primeiro semestre, um aumento de 6% em relação ao mesmo período de 2020. Pode-se até argumentar que a atividade gera riqueza e empregos para o país; mas de boa parte desses benefícios não deixa nem o cheiro por aqui. De acordo com o Instituto Escolhas, 19 toneladas, o que equivale a 17% de nossa produção total, deixam o país de forma ilegal.

Além disso, a imensa maioria dos processos de lavra que chegam à Agência Nacional de Mineração (ANM), aproximadamente 90%, foi protocolada por cooperativas de garimpeiros, cuja atividade, teoricamente artesanal, é considerada de impacto ambiental baixo. Porém, muitas dessas associações têm usado a benevolência extrema de nossa legislação e os ouvidos de mercador do governo para tocar grandes empreendimentos. Essas requisições atingem 16 km² de terras indígenas, 110 km² de unidades de conservação de proteção integral e outros 138 km² de reservas extrativistas, áreas onde o garimpo é terminantemente proibido – como se a porteira estivesse prestes a ser aberta.

E, de fato, apesar de todas as cortinas de fumaça e alguns poucos interesses conflitantes, o Executivo tem na Câmara Federal, com a ascensão de Arthur Lira à sua presidência, uma aliada fiel naquilo que realmente lhe interessa. O deputado alagoano tem se mostrado muito mais competente que o ex-ministro do Meio Ambiente quando a tarefa é passar a boiada. Sob sua batuta, foram aprovados a última e desfigurada versão do Projeto de Lei 3.729/2004, um “liberou geral” do licenciamento ambiental, e o 2.633/2020, o “PL da Grilagem”, cujo apelido é autoexplicativo – espera-se que o Senado breque esses absurdos. Tudo à boca miúda e a toque de caixa. Enquanto Ricardo Salles era conhecido por se gabar de seus desfeitos, Lira age como siri na toca. Porém parece não haver nenhuma pressa para apreciar o PL 836/2021 que, segundo o Instituto Escolhas, seria a melhor solução para evitar o contrabando de ouro.

O próximo alvo de Lira é a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Editado em 1989 e ratificado pelo Brasil em 2002, o texto é uma salvaguarda aos direitos dos povos tradicionais. É ele que lhes garante o benefício do consentimento prévio, livre e informado sobre ações que possam impactá-los. O objetivo do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 177/2021 é tirar o país do tratado. O nome do Brasil na praça está mais sujo que dinheiro velho. Em junho, fomos citados pela primeira vez pelo Escritório para a Prevenção do Genocídio e a Responsabilidade de Proteger da Organização das Nações Unidas (ONU). A menção partiu de sua conselheira especial, a queniana Alice Wairimu Nderitu, na última sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Alice conhece muito bem o poder destrutivo da palavra: “Meu escritório é um ponto focal no sistema das Nações Unidas para o enfrentamento de discursos de ódio. Não há um único genocídio – o Holocausto, qualquer crime de guerra, crime contra a humanidade – que não tenha sido precedido de discursos de ódio”. E pensar que o país já foi referência no sentido contrário. “Durante alguns anos, o próprio Brasil conduziu os esforços para solucionar as falhas na implementação desse princípio na Líbia, na chamada iniciativa Responsabilidade de Proteger. É esse tipo de papel de liderança que eu encorajo as autoridades brasileiras a ocupar quando se trata de proteger a própria população”, lembrou a conselheira.

Uma mentira repetida mil vezes continua sendo uma mentira. O inciso XI do artigo 20 da Constituição afirma que as terras indígenas são bens da União – ou seja, pertencem a todos os brasileiros. O parágrafo primeiro do artigo 231 diz que “são terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições”. A mineração e a produção de energia são estranhas à cultura dos povos originários. Nossas escolhas definem o nosso futuro. E o futuro não está mais tão distante: é amanhã. Ouvir é interpretar.

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Efeito dominó

Efeito dominó

Um personagem recorrente no cinema-catástrofe é o cético que, por ignorância ou má-fé, recusa-se a se render às evidências. A ele, geralmente o roteirista dedica um desfecho cruel e exemplar. Não é diferente na vida real. Durante o incêndio Dixie, que reduziu a cinzas o povoado histórico de Greenville, na Califórnia, moradores se recusaram a deixar suas casas, chegando a ameaçar bombeiros com armas de fogo. O mais grave, porém, é que desavisados – ou, simplesmente, irresponsáveis – desse tipo costumam arrastar inocentes atrás de si. O último relatório do IPCC da ONU mostra, inequivocamente, que o mundo se encontra à beira do abismo. Guiado por uma figura que parece ter saído de má ficção, o Brasil se encontra um passo à frente. E o pior, está arrastando nossos vizinhos para o precipício também: o desmatamento na Amazônia está afetando diretamente a Argentina.

O “ClimateChange 2021: The Physical Science Basis”, que pautará as discussões da próxima conferência do clima das Nações Unidas, a COP-26, a ser realizada em novembro em Glasgow, na Escócia, é categórico: “É um fato estabelecido que a influência humana aqueceu o sistema climático e que mudanças climáticas generalizadas e rápidas ocorreram”. Se já não dava para fingir que a gente não tinha nada a ver com isso, agora se fazer de desentendido é passar vergonha. “Não houve nem um único país, durante os debates sobre aprovação do relatório, que tenha levantado dúvidas sobre essa questão. É um consenso, passamos dessa etapa. Agora é o que fazer, como fazer, quem paga a conta”, explica Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e membro do IPCC. O relatório foi compilado por 234 cientistas de 66 países, baseado em mais de 14 mil apontamentos.

As informações contidas no documento de 42 páginas são estarrecedoras – desculpem o mau jeito, mas não há palavra mais adequada. Os negacionistas mais delirantes já começam a recolher os cartazes de “O fim do mundo não está próximo”.

A temperatura média da Terra já subiu 1,1ºC desde 1850. E deve alcançar 1,5ºC acima do nível pré-industrial já na próxima década, uma antes do que era previsto. Inundações, secas, furacões e ondas de frio e de calor vão se tornar cada vez mais frequentes. Algumas consequências dessa catástrofe já são consideradas irreversíveis, como a subida do nível do oceano, que transformará cidades como Rio de Janeiro, Londres e Nova York em Atlântidas – o mar deve subir 2 metros até 2100 e mais 5 metros 50 anos depois. Outras mudanças chegarão bem mais cedo: para cada grau Celsius a mais, os temporais se tornarão 7% mais intensos e 30% mais frequentes; as ondas de calor, que já têm 2,8 vezes de chances a mais de ocorrerem e já são 1 °C mais fortes do que antes da Revolução Industrial, poderão acontecer 9,4 vezes mais e serão 5 °C mais quentes.

A política para o setor aqui só tende a piorar este cenário: “O negacionismo ambiental desse governo é muito parecido com o negacionismo na pandemia, que produziu quase 600 mil mortes. Esse negacionismo na saúde a gente está vendo o que gera. Frente ao meio ambiente, vemos escassez hídrica, aumento das emissões, produção de alimentos ficando mais cara”, diz Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.

O desastre causado pelo governo brasileiro mais cedo ou mais tarde vai se refletir em todo o planeta – com o desmatamento fora de controle, a Floresta Amazônica já emite mais CO₂ do que é capaz de absorver. Isso já está acontecendo num país vizinho, que está passando por uma crise hídrica sem precedentes. “Na Argentina, por exemplo, cerca de 70% da agricultura depende da água que vem dos rios voadores da Amazônia. A Argentina está sofrendo mais que o próprio Brasil, e a crise pode se mostrar mais severa lá antes mesmo do que aqui”, conta Philip M. Fearnside, doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus. E, se depender da sensatez de Bolsonaro, a grama do vizinho não será mesmo mais verdinha.

Recentemente, o presidente brasileiro preferiu não receber Alok Sharma, deputado conservador designado pelo governo britânico para presidir a COP-26. Apesar da descortesia, Sharma, que tem status de ministro de Estado, declarou-se encantado com técnicas desenvolvidas no país de agropecuária sustentável.

Outro dia também, Bolsonaro disse que grande parte dos indígenas “não sabe nem o que é dinheiro”. Na histórica carta que mandou para o presidente americano Franklin Pierce, em 1855, em resposta à oferta de compra das terras de seu povo, os Duwamish, o legendário Cacique Seattle questionava: “Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é-nos estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água. Como podes então comprá-los de nós?”. Os indígenas conhecem o real valor das coisas. E não deixa de ser irônico que o governo e seus aliados ainda pareçam viver nos tempos das pinturas rupestres, enquanto eles se aventuram no mercado da arte digital das NFTs. Sabedoria é coisa que vem de tempos imemoriais e se adapta com o passar dos anos. Os povos indígenas do Brasil são os protagonistas de nossa História; outros, meros coadjuvantes que, como na ficção, servem de mote para lição de moral.

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Entrando numa fria?

Entrando numa fria?

Deu no “The New York Times”, em julho de 1850: “Existe um excêntrico na cidade de Apalachicola, Flórida, que pensa poder fazer gelo tão bem quanto Deus Todo-Poderoso”. O referido excêntrico se chamava John Gorrie. A desconfiança do tradicional jornal americano era justificável na época, pois, crenças à parte, sua engenhoca era movida a vapor. Como assim? Usar o calor para gerar frio? A invenção de Gorrie foi aperfeiçoada, mas o seu princípio de funcionamento continua o mesmo – quem nunca botou roupa pra secar atrás da geladeira? Então é normal que o cidadão comum, que ainda está batendo os queixos de frio no sul e sudeste do país, se pergunte: mas que diabos de aquecimento global é esse? A descoberta de que o efeito estufa também poderia esfriar o tempo é razoavelmente recente. E a Ciência é como a Ofélia do Fernandinho – essa saiu do fundo do baú: só abre a boca quando tem certeza. Mas ao contrário dela, costuma ter razão.

Daí o termo ter sido trocado por mudanças climáticas, que é bem mais amplo e ajuda a evitar equívocos. Pois, diferentemente do Chacrinha – eita, daqui a pouco chamam a gente de cringe –, os cientistas vieram para explicar, não para confundir. Nos tempos de Lúcio Mauro, Sônia Mamede e Abelardo Barbosa, o Velho Guerreiro, nevar no Brasil era sonho de criança. Hoje, este fenômeno pode se tornar cada vez mais comum. O mar está esquentando e, com isso, acelerando a velocidade corrente de ar circular que paira sobre a Antártida, como um catavento sobre uma chama. E aí, já viu: ela espalha o frio para mais longe, como faz o ventilador com a sujeira e com as verdades inconvenientes.

Para quem não se lembra, até essa massa de ar polar chegar ao país o inverno estava, digamos, bem ameno – em Porto Alegre e São Paulo os termômetros beiravam os 30ºC. “Em função do aquecimento, os sistemas de circulação atmosférica são alterados. Massas de ar frias podem gerar extremos de temperatura mais baixas ou massas de ar muito mais úmidas podem gerar inundações, por exemplo”, explica Tércio Ambrizzi, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.

A friaca no Brasil, o calorão tropical do Canadá e as chuvas torrenciais na Alemanha e na China têm a mesmíssima origem, conforme esclarece Francisco de Assis, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet): “Isso está associado à alta variabilidade climática e aquecimento global, que causam esses extremos. Da mesma forma que o frio extremo aqui, vemos o forte calor no Hemisfério Norte”. Também segundo ele, a massa de ar frio que desembarcou por essas bandas será a terceira neste 2021. Em geral, só chegam uma ou duas com potência semelhante por ano.

A temperatura do planeta aumentou aproximadamente 1,2ºC desde o século XIX, com o início da Revolução Industrial, quando a gente acreditava que podia tudo. E deve continuar subindo, caso não reduzamos drasticamente as emissões de CO₂. É preciso deixar claro que, apesar do frio incomum que atingiu o Brasil, é no calor excessivo que mora o grande perigo. Ainda nesta década, algumas regiões do planeta devem se tornar inabitáveis. Além disso, causará prejuízos na produção de alimentos, o que deve resultar em fome numa escala jamais vista.

Podemos ter outro inverno fora do comum no Brasil no próximo ano, mas a tendência é que a média da temperatura anual aumente. E uma das consequências mais danosas desse fenômeno será a profusão de ventos climáticos extremos que vamos encarar daqui para frente no mundo inteiro: longas estiagens, inundações, tempestades, ondas de calor, furacões etc. “A circulação geral da atmosfera responde de forma extrema ao aumento de temperatura, causando eventos extremos também”, diz Tércio Ambrizzi.

Mas o assunto do momento é o frio, né? A garotada do sul se esbaldou com a neve, mas as temperaturas – que chegaram a baixar do zero em 75 cidades gaúchas – causaram prejuízos no campo. Isso depois de a região ser castigada por uma seca inclemente. A coisa só não ficou mais feia porque os agricultores locais combateram frio com frio: molharam as lavouras, para congelá-las. Assim como o calor pode esfriar, frio demais queima; congeladas, elas ficam mais protegidas. É o princípio dos iglus, que são feitos de gelo: água congelada atinge 0°C, temperatura superior à do ambiente – e, acreditem, faz uma diferença danada enfrentar 0°C ou -14°C.

Chegou a hora de usar tudo o que aprendemos desde a Revolução Industrial para sair dessa fria.

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A torneira está secando

A torneira está secando

A imensidão do mar dá a impressão de que a água é recurso ilimitado; afinal, ela cobre 70% do planeta. Mas a ilustração deste texto, baseada num modelo criado por pesquisadores do Serviço Geológico dos EUA, nos dá a real dimensão de sua finitude. A bolha azul maior representa toda água do mundo, seja doce ou salgada, líquida ou congelada, subterrânea ou à flor da terra. Ela tem um diâmetro nove vezes menor que a parte sólida. A outra bolha corresponde a toda água doce que temos. Seu diâmetro é de 272,8 quilômetros, 46 vezes menor que o da Terra. O planeta azul, como se vê, não é tão azul assim na prática.

Há ainda uma terceira bolha, que equivale a toda água disponível na superfície terrestre para o consumo, como rios e lagos. Mas ela é tão pequena diante do tamanho da Terra que precisaríamos de uma lupa para enxergá-la: são apenas 56 quilômetros de diâmetro – 226 vezes menor que o do planeta. Parece pouco, não parece? E é, alertam os pesquisadores. Para piorar, 40% das reservas hídricas da Terra podem desaparecer até 2030, segundo a ONG WaterResources. Repetindo: 2030. Daqui a 9 anos. Adivinhem quem está por trás desse embrulho? Acertou quem pensou nas mudanças climáticas.

O Brasil detém 13% de toda a água doce e 20% das reservas subterrâneas (chamadas aquíferos) do mundo. Ainda assim, o país enfrenta a maior crise hídrica dos últimos 90 anos: o fantasma do racionamento de energia volta a nos assombrar, duas décadas depois do anterior. A maior hidrelétrica brasileira, a Itaipu Binacional, que atende cerca de 10% da população, teve em 2021 a menor geração de energia dos últimos 27 anos e já precisou desligar oito de suas 20 turbinas. Na vizinha Argentina, a seca dos rios Paraguai, Paraná e Iguaçu, a maior em 77 anos, levou o governo a decretar emergência hídrica por 180 dias.

A falta de chuvas – que é a mais grave desde 1931 – levou o Operador Nacional do Sistema (ONS) a divulgar uma nota técnica na semana passada alertando para a dificuldade de atender a demanda de energia do país “com o esgotamento de praticamente todos os recursos no mês de novembro”. Quatro dias depois, o governo federal publicou uma chamada pública para contratar usinas térmicas como uma alternativa para a escassez de água nos reservatórios das hidrelétricas, que ainda respondem por 63% da geração de energia no Brasil.

A crise hídrica também vem provocando impactos na economia brasileira, com reflexos no aumento da inflação e, sobretudo, perda de produção rural e prejuízos na agricultura, que consome mais de 70% da água doce do Brasil – e desperdiça de 60% a 80% desse total por usar métodos de irrigação inadequados. A safra de milho, por exemplo, apesar de ter aumentado em 7% a área cultivada em 2021, deve cair 6% em relação a 2020, informa a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A mesma tendência deve se confirmar em outras culturas, como o feijão, a laranja, o café e também na pecuária.

E o aumento dos preços dos alimentos e da inflação não são os únicos impactos para o brasileiro, que está sentindo no bolso o preço dessa crise. Em junho, a Agência Nacional de Energia Elétrica aprovou um reajuste de 52% na bandeira tarifária vermelha, para custear o funcionamento de usinas térmicas, mais caras e poluentes. Mesmo assim, especialistas não descartam a possibilidade de um novo aumento em 2022, diante das previsões de chuvas abaixo da média e reservatórios secos. Especialmente em se mantendo os níveis de desperdício na distribuição de água no Brasil, onde 39% do que se produz é perdido em vazamentos e furtos na distribuição, segundo o Instituto Trata Brasil.

Se a geração de eletricidade está comprometida, para muitos brasileiros falta também o básico: água na torneira e saneamento. No Brasil, mais de 16% da população ainda não têm acesso a água tratada e cerca de 46% não contam com os serviços de coleta e tratamento de esgoto – mais de 100 milhões de pessoas. A baixíssima cobertura do saneamento básico, sobretudo em cidades da região Norte, onde apenas 57% da população têm acesso à rede de água e pouco mais de 10% têm o esgoto coletado, se reflete também na incidência de doenças como diarreia e infecções intestinais, que estão entre as principais causas de morte de crianças na região. Uma verdadeira tragédia brasileira. E, segundo a Organização Mundial de Saúde, para cada dólar investido em saneamento básico, deixa-se de gastar quatro com saúde pública.

E isso não é uma exclusividade nossa: em todo o mundo, 1,2 bilhão de pessoas (35% da população) não tem pleno acesso a água tratada e outras 2,1 bilhões não têm água potável em suas casas. O WaterResourcesGroup estima que, anualmente, cerca de 829 mil pessoas morrem de diarreia provocada pelo consumo de água não potável, ausência de saneamento básico e higiene inadequada em todo o mundo, sendo 300 mil delas crianças menores de 5 anos.

Com isso, a responsabilidade do governo brasileiro sobre a gestão de nossos recursos hídricos passa a ter uma relevância ainda maior: afinal, temos condições favoráveis para assumir um papel de liderança no enfrentamento à crise climática global. Só nos falta um líder.

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Nossa batata está assando

Nossa batata está assando

Dentre as muitas notícias fortes dos últimos dias relacionadas às mudanças climáticas, uma surpreendeu pelo inusitado. Cerca de um bilhão de mexilhões e ostras foram cozidos pelo calor numa praia. Ah, e isso aconteceu perto de Vancouver, no (outrora gelado) Canadá. Foi uma triste caldeirada. Também na semana passada, mais de 800 pessoas morreram na província da Columbia Britânica por causa das altas temperaturas – os termômetros canadenses chegaram a marcar 49,6°C na região. Enquanto isso, Alemanha e Bélgica foram atingidas por um temporal de escala amazônica, que deixou um rastro de destruição sem precedentes e, pelo menos, 196 mortos – ainda há centenas de desaparecidos. A China acaba de enfrentar tragédia parecida. Se moluscos acabaram cozidos no litoral canadense e caiu chuva tropical na Europa e na Ásia é porque estamos fritos em qualquer parte do planeta; e pulamos na frigideira por vontade própria. 

A impressão é de que a coisa está azedando mais rápido no Hemisfério Norte. Não à toa: o lado de lá concentra 87% da população e ocupa 67,3% do território terrestre. A densidade demográfica na Europa e em países asiáticos é altíssima – e, portanto, eles estão mais sujeitos a catástrofes com vítimas. Além disso, é a parte mais rica e industrializada do planeta. Mas os incêndios na Amazônia, no Pantanal e na Austrália, além da temperatura recorde de 18,3°C recentemente registrada na Antártida, são sinais de que o nosso caldo também já está entornando. A temperatura média da América do Sul pode aumentar em quatro graus até o fim do século, caso as emissões de gases de efeito estufa continuem nessa toada. A conclusão é de uma pesquisa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas, publicado na revista científica “Earth Systems and Environment”.  

“A América do Sul e, em particular, o Brasil já mostram sinais das mudanças climáticas, incluindo o aumento das temperaturas da superfície, mudanças nos padrões de precipitação, derretimento das geleiras andinas e elevação no número e intensidade de extremos climáticos. Essas variações nas características climáticas são precursoras do que pode estar por vir nas próximas décadas”, adverte Lincoln Muniz Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um dos autores do texto. Entretanto, o governo brasileiro continua fingindo que a casa não está pegando fogo – quando não bota mais lenha na fogueira. 

O desmatamento segue batendo recordes na Amazônia: em junho foram abaixo 926 km², de acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O novo relatório da entidade, divulgado nesta semana, mostra que no primeiro semestre de 2021 a floresta perdeu 4.014 km², a maior extensão da década para esse período. Enquanto isso, o Executivo se mantém fiel à sua política antiambiental. Um exemplo de que nada mudou com a saída do ministro Ricardo Salles está estampado em duas notícias recentes: segundo levantamento inédito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), desde que Bolsonaro assumiu, o total de pagamento de multas por crimes ambientais na Amazônia caiu 93%, em comparação aos quatro anos anteriores; ao mesmo tempo, o Ibama, que teve seu quadro de analistas ambientais reduzido a 26%, pretende preencher apenas 655 vagas das 2.348 existentes. De dez anos para cá, perdeu quase metade de seus funcionários. 

Matando a galinha dos ovos de ouro 

Lincoln Alves também alerta que, caso este cenário permaneça, as secas no sul da Amazônia vão se intensificar, o que afetará diretamente áreas que o próprio governo considera estratégicas: “Se antes chovia dez milímetros em um determinado mês, esse número caiu pela metade. Isso tem impactos nos setores agrícola e de geração de energia, por exemplo, que fazem seus planejamentos com base nos volumes de chuvas”. O mercado de commodities está fervendo, mas com sua fome insaciável o agronegócio pode acabar matando a galinha dos ovos de ouro.  

Outros estudos recentes avalizam o que diz o pesquisador do Inpe. O primeiro, que saiu em maio na revista “Nature Communications”, calculou que o setor deixa de ganhar US$ 1 bilhão por ano por causa da estiagem. O motivo é óbvio, mas não custa repetir: “Com menos árvores na floresta, há menos umidade no ar e menos chuvas. Logo, o avanço do desmatamento na Amazônia impacta a produtividade do agronegócio brasileiro”, explica um dos autores, o engenheiro florestal Argemiro Teixeira Leite Filho, da UFMG. O segundo, encabeçado pela engenheira ambiental Rafaela Flach, pesquisadora da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, acabou de ser publicado no periódico “World Development”. Segundo este, a indústria da soja perde US$ 3,55 bilhões por ano por causa do calor; quando os termômetros passam dos 30°C, a produtividade cai em até 5%.  

O que de pior poderia acontecer já está é realidade: a Amazônia tem emitido três vezes mais CO₂ do que absorvido, de acordo com uma pesquisa internacional, liderada pela pesquisadora do Inpe Luciana Vanni Gatti e publicada no último dia 14 na “Nature”. Entre 2010 e 2018 a Amazônia brasileira derramou na atmosfera 1,06 bilhão de toneladas de carbono por ano e só sugou 18% de volta. “A segunda má notícia é que os locais onde o desmatamento é de 30% ou mais apresentam emissões de carbono dez vezes maiores que onde o desmatamento é inferior a 20%”, diz Luciana. “Essas áreas esquentaram nas últimas quatro décadas quase 2,5°C. Para se ter uma ideia, o resto do mundo esquentou 1,2°C em 150 anos”, completa Claudio Angelo, coordenador de comunicação do Observatório do Clima e autor do livro “A espiral da morte”. 

Do outro lado da Linha do Equador a turma já se deu conta de que não dá para levar o problema em banho-maria: “Apenas se nos comprometermos de forma resoluta com a luta contra as mudanças climáticas poderemos controlar condições meteorológicas extremas como as que vivemos atualmente”, declarou o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier, que é conservador, sobre o desastre que se abateu sobre o seu país. Os europeus estão sentindo o gosto amargo de suas escolhas equivocadas. “As mudanças climáticas pararam de ser algo que ocorre em algum lugar distante, como o Ártico ou até a Amazônia, e passaram a ser algo que afeta diretamente a vida da população, matando mais de uma centena de pessoas num único evento”, explica a bióloga brasileira Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Oxford e Lancaster, no Reino Unido.  

É a tal história: farinha pouca, meu pirão primeiro. Ainda mais depois que a Agência Internacional de Energia (IEA) anunciou na terça-feira (20) que os recursos internacionais destinados à transição energética no pós-pandemia são insuficientes para reduzir as emissões globais de CO₂. Pior: segundo os seus cálculos, essas emissões vão disparar a partir de 2023, a não ser que o pessoal coce o bolso com vontade. “Desde o início da crise da Covid-19, muitos governos têm destacado como é importante reconstruir melhor, para um futuro mais saudável, mas muitos ainda têm que fazer o que dizem”, cutucou o diretor da IEA, Fatih Birol. Essa conta vai ficar ainda mais salgada, e a turma do Norte não vai querer pagar ela sozinha.  

A batata do Brasil está assando e a pressão não virá só de cima: “O ativismo de investidores pode ser uma força poderosa para o bem”, defendeu o “Financial Times”, uma das bíblias do mercado financeiro, num contundente editorial publicado no dia 14. O jornal inglês sugeriu que a turma do dinheiro puna o Brasil pelo desmatamento na Amazônia. “Pouca gente acredita que Bolsonaro, ligado a um ruidoso eleitorado de madeireiros, pecuaristas e evangélicos, mudará de comportamento em seus 18 meses finais de mandato”, diz o texto. “O Código Florestal, que parecia impressionante, está rapidamente se tornando letra morta, porque as agências que policiam sua aplicação tiveram seus orçamentos cortados severamente”, continua. A sociedade civil reage, pois nem sempre os governos trabalham pelo bem-comum. Precisamos nos mirar nesse exemplo se quisermos continuar sentados à mesa. 

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