Sarna na Cabeça do Cachorro

Sarna na Cabeça do Cachorro

Há alguns dias, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) divulgou um estudo associando o uso indiscriminado de ivermectina ao risco de surto de sarna — infestação humana pelo ácaro. Como se sabe, o próprio governo federal receitava a utilização do medicamento contra a Covid-19 e o distribuía à população. O negacionismo tem razões que a sua própria falta de razão desconhece.

Infestações de invasores em terras indígenas também costumam ser precedidas por sintomas que vêm do Executivo e de seus aliados no Congresso. Senado e Câmara ameaçam votar a qualquer momento os PLs do Licenciamento Ambiental e da Grilagem, além de tentar mudar o Código de Mineração; enquanto isso, Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI), dá o seu aval a projetos de pesquisa de ouro na Cabeça do Cachorro — como é conhecida a região no extremo noroeste do Amazonas.

Querem botar um outro tipo de sarna na Cabeça do Cachorro. A diferença é que uma infestação do ácaro é um efeito colateral indesejado, enquanto o parasitismo de terras indígenas parece ser claro no resultado pretendido.

Na prática, essas ações são vistas como um sinal verde pelos aventureiros de sempre — entre os pedidos autorizados por Heleno há os de empresas autuadas pelo Ibama. O ex-general também foi, durante seis anos, o braço-direito de Carlos Arthur Nuzman, ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), condenado a 30 anos e 11 meses de prisão no fim do mês passado por corrupção e organização criminosa. No mínimo, pode-se concluir que o chefão do GSI, aquele que deveria ser o homem mais bem-informado da República, deixa passar muita coisa debaixo de seu nariz.

Augusto Heleno deveria saber, por exemplo, que os indígenas daquela região não querem ouro e muito menos sarna para se coçar. O preço a pagar é muito alto: Yanomami e Munduruku carregam mercúrio no sangue por causa do garimpo, e o ouro também atrai o crime organizado. Com 109.181.245 km² de área, São Gabriel da Cachoeira é o terceiro maior município brasileiro em tamanho — é maior, inclusive, do que estados como Rio de Janeiro e Santa Catarina, e países como Coreia do Sul, Hungria e Portugal. A Cabeça do Cachorro, onde está localizado, é uma das áreas mais preservadas da Amazônia. Não por acaso, já que é o lar de 23 diferentes povos, que vivem em mais de 700 comunidades, e a cada dez de seus 47.031 habitantes, nove são indígenas. São mais de 40 mil guardiões.

O atual ministro do GSI talvez não saiba, mas os municípios que mais desmatam na Amazônia são os menos desenvolvidos da região, segundo um estudo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado no último dia 6. Como é bem informada, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), que representa as 23 etnias da região, tem entre seus principais objetivos o incentivo a programas de desenvolvimento sustentável, voltados para a comercialização de produtos nativos e o turismo. O outro é o monitoramento ambiental e climático da Bacia do Rio Negro — que, ao se juntar ao Solimões, forma o Amazonas. É uma responsabilidade do tamanho do maior rio do mundo.

O ex-general é igualmente conhecido por sua falta de trato com minorias e povos tradicionais. No ano passado, no ápice da pandemia, ordenou o despejo de 792 famílias (mais de 2 mil pessoas) de 27 comunidades quilombolas em Alcântara, no Maranhão, para ampliação da base espacial local. Foi também comandante militar da Amazônia e um crítico feroz da política indigenista adotada pelo país no pós-democratização.

É curioso pensar que o maior temor dos militares, diante do reconhecimento dos direitos dos indígenas às suas terras pela Constituição de 1988, era comprometer a integridade do território nacional. Por isso, o artigo 20 diz que elas são bens da União e que não podem ser vendidas. O próprio presidente Bolsonaro, ainda deputado, tentou reverter a homologação da Terra Indígena Yanomami. A alegação é que, sendo área de fronteira, facilitaria invasões. A Cabeça do Cachorro é colada com Colômbia e Venezuela. Heleno concedeu as autorizações de pesquisa exercendo o outro cargo que ocupa no Executivo, o de secretário-executivo do Conselho de Defesa, órgão colegiado que aconselha o presidente em assuntos de soberania e defesa. Não fica uma pulga atrás da orelha?

 

Observação: O texto foi originalmente publicado citando o surto de sarna em Pernambuco, referência que foi retirada uma hora depois. A Secretaria Executiva de Vigilância em Saúde do Recife divulgou, no mesmo dia, que investiga se o motivo para a infestação local pode ser o contato com um tipo de mariposa. O estudo da Ufal faz, de fato, relação entre o uso da ivermectina e a escabiose, mas não se pode afirmar que é o caso do exemplo recente de Pernambuco.  

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Esticando a corda

Esticando a corda

Há mais de uma forma de cometer genocídio; às vezes, nem é questão de matar: basta não deixar nascer. “A gente não quer ter mais filhos, porque temos mercúrio no sangue. Nós estamos contaminadas”, lamentou na última sexta-feira a cineasta indígena Aldira Akai Munduruku. A invasão de balsas no Rio Madeira na semana passada é uma imagem impactante, mas somente a ponta do iceberg. O garimpo em terras indígenas (TIs), por exemplo, aumentou 500% em dez anos. E, segundo estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), todos os moradores da TI Sawré Muybu, no Pará, foram afetados, sendo que 60% deles têm taxas do metal no organismo acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O mercúrio passa de mãe para filho e pode levar à malformação do feto ou até à morte. Um extermínio sem violência aparente. Lento, invisível, doloroso, cruel.

O garimpo ilegal na TI Yanomami também vem aumentando em velocidade assustadora desde o início de 2021. Só no primeiro trimestre o desmatamento foi o equivalente a cerca de 10% de toda a destruição da última década. A continuar nessa batida, este ano pode vir abaixo o correspondente à metade de toda área desmatada até 2019. No mês passado, duas crianças morreram, sugadas por uma draga de mineração. Um estudo realizado pela Fiocruz constatou presença de mercúrio em 56% das mulheres e crianças Yanomami da região de Maturacá, no Amazonas. A fundação foi proibida pela Funai de fazer uma nova pesquisa este mês.

A Constituição tem bem mais que quatro linhas e quais o governo atual escolheu respeitar é um grande mistério. Só de ações de inconstitucionalidade ajuizadas por partidos políticos no Supremo Tribunal Federal (STF), Jair Bolsonaro já passou dos 180 em dois anos de mandato — deixando na poeira seus antecessores, Michel Temer , Dilma Rousseff  e Luiz Inácio Lula da Silva que, juntos, responderam por 144. Com seus 250 artigos, a Cidadã é a segunda maior do mundo, perdendo apenas para a indiana. O que o presidente não tenta mudar, por meio de medidas provisórias e decretos, ele simplesmente ignora. Os direitos específicos dos povos originários mereceram um capítulo à parte (“Dos Índios”), que ocupa pouco mais de dez linhas.

É negligência que chama?

Não vamos esquecer que foi preciso que a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) entrasse com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no STF para que o governo ao menos simulasse proteger os povos originários durante a pandemia de Covid-19. Tá lá na Constituição, no Decreto 3.156, de 27 de agosto de 1998: “a atenção à saúde indígena é dever da União”. Mesmo sob a ameaça do novo coronavírus, o orçamento para a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) despencou, passando de R$ 1,1 milhão em 2018 para R$ 494 mil em 2019 e para R$ 200 mil no ano passado. É negligência que chama?

Enquanto tenta passar no Congresso o Projeto de Lei 191/20, que regulamentaria a exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em TIs, Bolsonaro faz vista grossa para o artigo 231, que diz que “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”.

Por sua vez, as ações e omissões do governo atraem para as terras indígenas toda sorte de aventureiro — até mesmo a milícia e o narcotráfico podem estar envolvidos. Todos os males das grandes cidades parecem estar migrando para a floresta. ​​ Até quando vão continuar a esticar a corda do negacionismo? Além de milhares de satélites no espaço, existe uma coisa chamada Lei de Acesso à Informação. Será que depois do vexame da COP o governo brasileiro ainda não se tocou que não há mais como esconder cadáveres no armário?

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Sitiados

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Dizem que o mundo está menor. De fato, a tecnologia aproximou as pessoas e encurtou as distâncias. Mas será que todo mundo quer fazer parte dessa aldeia global? E quando essa impressão de encolhimento se torna realidade? O mundo dos últimos Piripkura está diminuindo a olhos vistos. Isso não é uma metáfora: Baita e Tamandua, tio e sobrinho que vivem isolados na Amazônia mato-grossense, viram invasores avançarem mais de 10 quilômetros para dentro de seu território nos últimos dois anos. Depois que o último Piripkura se for, terá deixado o derradeiro rastro de seu povo, perseguido até o fim, no planeta. Que seja em seu solo ancestral. É o mínimo. Mas até esse direito pode lhe ser negado. Além da questão humanitária, a Terra Indígena (TI) Piripkura fica na entrada da Amazônia. Sem ela, escancara-se mais uma porteira para a aniquilação da floresta.

A Terra Indígena (TI) Piripkura ainda não foi homologada e está protegida somente por uma portaria da Funai, que vence em março de 2022. Baita e Tamandua não lutam sozinhos. O tema da redação do Enem deste ano, “Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil”, pode ser desenvolvido a partir das conquistas do movimento indígena nas últimas três décadas. Ao garantirem os mesmos direitos e deveres que qualquer cidadão brasileiro, na Constituição de 1988, os povos originários se apropriaram e estão fazendo bom uso deles — sem deixarem de afirmar sua origem e cultura, muito pelo contrário. Sua união vem dando um novo significado à palavra cidadania. Assim como uma parcela da população indígena assimilou as novas tecnologias, usando-as para se organizar e ampliar o alcance e a pluralidade de suas vozes, e defender inclusive aqueles que optaram por se manter isolados. Não fossem elas, dificilmente ficaríamos sabendo do drama dos últimos Piripkura.

Quantos povos, como os Piripkura, foram extintos sem que soubéssemos? Quantas tragédias parecidas ainda podemos evitar? No Brasil, há referência de pelo menos 114 grupos isolados, de acordo com a Funai. Outras TIs com presença de isolados também terão sua proteção expirada em breve: a Pirititi, em Roraima, (em 5 de dezembro), a Jacareúba/Katawixi, no Amazonas (8 de dezembro) e a Ituna/Itatá, no Pará, (9 de janeiro de 2022). E o pior é que eles são os que mais inspiram cuidados no momento, mas os indígenas como um todo estão sob ataque cerrado. Segundo o recém-lançado “Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2020”, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), números preocupantes dispararam entre 2019 e o ano passado: os assassinatos aumentaram em 61% (182 e 113); as invasões, de 256 para 263 e conflitos relativos a direitos territoriais aumentaram 174%.

Essa investida vem se intensificando. Nas últimas semanas, houve casos que envolveram até mesmo forças do Estado. A mais grave aconteceu no último dia 16, quando pelo menos seis indígenas da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, foram feridos durante uma ação da Polícia Militar e do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Por ordem da Justiça estadual, os policiais estiveram na aldeia Tabatinga para destruir postos de vigilância construídos pelos indígenas para monitorar seu território. O pedido partiu da Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima, entidade que defende a abertura das TIs para a mineração. Dois agravantes: a PM não tinha mandato e só a Polícia Federal pode atuar em terras demarcadas.

Os últimos dados sobre o desmatamento na Amazônia e a desconfiança de que já eram conhecidos pelo Ministério do Meio Ambiente e foram omitidos na COP26 minaram ainda mais boa fé internacional no governo brasileiro. Não à toa, as lideranças indígenas estiveram o evento inteiro sob os holofotes, enquanto o ministro Joaquim Leite cometia gafes dignas de seu antecessor, Ricardo Salles. Essa visibilidade acabou gerando reações violentas: após chamar atenção ao fazer um forte discurso na abertura da conferência, Txai Suruí e seus pais, que vivem em Rondônia, foram ameaçados de morte. No Pará, Alessandra Munduruku teve a casa invadida — não é a primeira vez que a liderança, que ganhou o prêmio Robert F. Kennedy de Direitos Humanos, sofre um atentado do gênero. E Glicélia Tupinambá denunciou duas situações de risco após voltar para a sua região, na Serra do Padeiro (BA). É a reação inconformada e covarde de uma parcela da sociedade que pensa pequeno, porque não respeita direitos adquiridos pela Constituição e acaba jogando contra o país. Sejamos grandes como o oceano.

 

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Epidemia de daltonismo

Epidemia de daltonismo

Estão acusando o Reino Unido de querer reescrever o Acordo de Paris. Argumentam que o país quer sair bem na foto da COP26 enquanto os outros queimam seus filmes. Motivações políticas à parte, não era essa a ideia? Rever os números do tratado criado em 2015, diante dos números estarrecedores do último relatório do IPCC? Então por que os líderes globais continuaram agindo como se pudessem resolver problemas os empurrando com a barriga borda do planeta afora? Ou numa fé cega de que a ciência poderá adiar o fim indefinidamente? — fala-se de máquinas fantásticas que poderiam sugar o CO₂ da atmosfera e até de ressuscitar a ideia de construir mais usinas nucleares. Não é terraplanismo. Eles conhecem as causas e as consequências.

O IPCC alertou que a meta acordada para cortar pela metade as emissões globais de gases de efeito estufa até 2030 não só eram insuficientes, como as aumentariam em 16%. Ou seja, precisávamos reduzi-las drasticamente. Porém, as novas metas divulgadas em Glasgow as aumentarão em 13,7%, conforme adverte a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Ou seja, mesmo que sejam cumpridas, só vão fazer o problema crescer um tiquinho a menos. Não faz cosquinha nem na consciência.

O grupo de pesquisa Climate Action Tracker (CAT, na sigla em inglês) já havia alertado que se todos os planos para 2030 saíssem do papel, a temperatura subiria mais 2,4°C até 2100. Como não saíram até agora, estamos a caminho dos 2,7ºC – mas pode chamar de fim do mundo, como o conhecemos. Caso os termômetros ultrapassem o 1,5°C , o número de pessoas submetidas a estresse térmico extremo – uma mistura de calor e umidade que pode levar à morte – pode aumentar até 15 vezes. Cerca de 1 bilhão será severamente impactado pelo calor caso a temperatura média suba mais 2ºC. O Brasil será um dos países mais afetados.

Mudou o titular, mas o Ministério do Meio Ambiente ainda acredita que a COP é festa do peão de boiadeiro. No pavilhão oficial do país, Joaquim Leite recebia delegações estrangeiras sob as bênçãos da Confederação Nacional da Agricultura, que pautou uma vasta programação de seminários sobre o tema. “A agricultura brasileira com certeza será parte da solução”, dizia o ministro. Para o seu azar, um estudo internacional divulgado no evento, com base em dados de 2019 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mostrou que a pegada de carbono da atividade cresceu 17% nos últimos 30 anos e que, no quesito, o Brasil só fica atrás de China e Índia – países com populações quase sete vezes maiores que a nossa.

A agropecuária responde por 31% das emissões globais. A causa principal é o desmatamento – para abertura de pasto e lavoura. O Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 877 km² sob alerta, um aumento de 5% em relação a 2020 e o recorde para o mês de outubro. “Onde existe muita floresta também existe muita pobreza”, disse o ministro Joaquim Leite, parecendo querer competir com as frases infelizes de seu antecessor no cargo. Diversos estudos desmentem sua afirmação: são justamente as áreas desmatadas que concentram os maiores bolsões de miséria. “Onde existe floresta, existe riqueza. Sem a Amazônia, o regime de chuva no Brasil teria acabado. É da floresta que você pode tirar frutos, fármacos, cosméticos, uma indústria de tecnologia, de pesquisa”, disse o secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini.

“Nos envergonha muito um ministro de Estado compreender a Amazônia deste jeito, principalmente perante à Conferência da ONU sobre o clima. O ministro Joaquim Leite precisa conhecer a Amazônia brasileira, seus valores e suas riquezas, ele está no lugar errado para tratar de um bem tão precioso para o mundo e para a vida”, indignou-se Francisco Piyãko, coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ).

É tão óbvio que dá até para acreditar que vivemos numa epidemia de daltonismo.

 

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Na COP26, verde é a cor mais jovem

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Geralmente cautelosa, a ONU, compreensivelmente abalada com os resultados do último relatório do IPCC, fez soar este ano as trombetas do apocalipse: botou o dinossauro (de computação gráfica) Frankie para anunciar a COP26, dizendo que o fim está próximo. O vídeo fez o maior sucesso; mas, incrivelmente, a extinção da Humanidade não foi um tema capaz de sensibilizar todo mundo. Com sinceridade rara, o primeiro-ministro britânico, o conservador Boris Johnson, resumiu o porquê, no discurso de abertura do evento: “Caros líderes, todos aqui falamos o que faremos em 2050 0u 2060, mas metade da população do mundo tem menos de 30 anos, enquanto a média de idade das pessoas presentes a este encontro é de mais de 60 anos”. Os sete últimos anos foram os mais quentes já registrados.

É duro, mas é verdade: a geração anterior quer legar a vocês, jovens, a responsabilidade de salvar um mundo em frangalhos para a próxima – se ainda der tempo. Como generais que mandam garotos para a guerra. Enquanto eles aproveitam o fim de festa, vocês herdam o rabo de foguete. “Estamos a um minuto da meia-noite e precisamos agir mais. Se não fizermos nada hoje, será muito tarde para os nossos filhos fazerem algo no futuro. Se não formos sérios a respeito da mudança climática hoje, será tarde demais para nossos filhos fazê-lo amanhã”, acrescentou Johnson, dando uma dimensão ainda mais exata do tamanho do problema. Ele terá 96 anos em 2060.

O presidente do Brasil, que tem 64 anos, preferiu não ir a Glasgow. Na abertura da COP, o país foi  representado por uma jovem indígena de Rondônia, que se apresentou assim: “Meu nome é Txai Suruí, eu tenho só 24, mas meu povo vive há pelo menos 6 mil anos na Floresta Amazônica. Meu pai, o grande cacique Almir Suruí, me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a Lua, o vento, os animais e as árvores. Hoje o clima está esquentando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo, nossas plantações não florescem como antes. A Terra está falando. Ela nos diz que não temos mais tempo”.

Por trás de sua aparente calma, os indígenas têm a exata noção da urgência da situação; quando também são jovens, têm menos travas na língua. “Precisamos tomar outro caminho com mudanças corajosas e globais. Não é 2030 ou 2050, é agora!”, emendou Txai. Relembrando a primeira vez que viu a fumaça dos incêndios na Austrália chegarem ao seu território ancestral, a neozelandesa India Logan-Riley, do povo Maori, discursou no mesmo microfone usado pela brasileira e Boris Johnson: “Naquele momento, nossa vida foi afetada pelos impactos da mudança do clima em outro país”. Vanessa Nakate, jovem ativista de Uganda, lembrou que quem menos polui, paga mais caro: “Historicamente, a África é responsável por apenas 3% das emissões globais e ainda assim os africanos estão sofrendo alguns dos impactos mais brutais da crise climática”.

É um sentimento global, que não é exclusivo dos povos tradicionais: “São 30 anos de blá-blá-blá”, discursou em Milão, na Itália, a ativista sueca Greta Thunberg, para um grupo de 400 jovens de 200 países. Eles foram selecionados pela ONU para elaborarem um documento dirigido aos líderes mundiais, em evento paralelo à COP. O Fridays For Future, movimento inspirado em Greta, promoveu sua já tradicional passeata em Glasgow. Os jovens também eram a maioria entre as mais de 100 mil pessoas que enfrentaram o frio, o vento e a chuva para protestar contra a inércia dos governantes na Marcha pela Justica Climática, que aconteceu no sábado (6/11) na cidade escocesa. Não esperamos meias-palavras. Mais jovem também pode significar mais verde.

O governo brasileiro continua agindo como o comerciante espertalhão que dobra o valor da mercadoria para vendê-la pela metade do preço no dia da liquidação. Tropeçou na pedalada climática, mas se bobear a ausência do presidente acabou sendo benéfica para o país, que assinou importantes acordos multilaterais – o de zerar o desmatamento até 2030 e o de reduzir em 30% as emissões de metano, via pecuária, também até 2030 –, que ao menos servirão de âncoras até a próxima rodada de negociações. Também serviu para abrir novos canais de interlocução; na falta de Bolsonaro, o príncipe Charles marcou encontro com governadores brasileiros, por exemplo.

O presidente parece viver no mundo das mil e uma noites, enquanto o Reino Unido está entre os países que acreditam que poderão lucrar com a transição energética – sim, eles não fazem isso só porque são bonzinhos. O famoso biólogo americano Thomas Lovejoy, que criou o termo “biodiversidade”, dizia em 2016 que o Brasil poderia ser “a maior potência ambiental do planeta”. O cientista se dizia impressionado com o que o país havia feito nos 40 anos que o conhecia: “Existia apenas uma floresta nacional. Hoje, 57% da Amazônia está sob algum tipo de proteção”, dizia ele. De lá para cá, porém, o desmatamento vem crescendo em ritmo vertiginoso – a ponto de fazer o país seguir na direção inversa do resto do mundo, aumentando suas emissões de CO₂ durante a pandemia. Em nome de que estão abrindo mão de garantir um futuro melhor para as novas gerações? Por que o jovem brasileiro vai pagar esse pato?

Preservar as florestas tem custado muitas vidas também. Segundo o mais recente relatório da ONG Global Witness, nunca tantos ativistas ambientais foram assassinados como no ano passado: 228. Segundo o Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2020, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), os assassinatos entre indígenas no país cresceram 61%: foram registrados 182. Em debate realizado em Gasglow na quinta-feira (4/11), Juma Xipaia, uma das lideranças indígenas que lutaram contra a hidrelétrica de Belo Monte no Pará, foi firme: “Nunca nenhum povo indígena chegou impondo ou destruindo o lar de vocês, pelo contrário, nós defendemos o lar, a vida. Então respeitem a nossa existência”. Txai Suruí deu um exemplo concreto: “Enquanto vocês estão fechando os olhos para a realidade, o guardião da floresta Ari Uru-Eu-Wau-Wau, meu amigo de infância, foi assassinado por proteger a natureza”. Ari tinha só 32 anos e foi encontrado morto em 18 de abril de 2020.

Os povos tradicionais de todo o mundo cuidam de 80% da biodiversidade da Terra, mas só controlam 1% do orçamento global para a preservação. Ao menos esta distorção começou a ser corrigida nesta COP. Reino Unido, Noruega, Alemanha, EUA, Holanda e 17 doadores americanos se comprometeram em criar um fundo de US$ 1,7 bilhão até 2025 a ser administrado por indígenas. “É o princípio da proteção ao nosso povo, mas ele precisa de mais apoio. Não há solução para os problemas da natureza sem que os indígenas estejam no centro”, disse a ativista filipina Vitória Tauli-Corpuz, do povo Kankana-ey Igorot, ex-relatora especial da ONU para os direitos dos povos indígenas. Este é o ponto: é preciso que eles decidam. Para isso, precisam de toda ajuda possível. A Amazônia é importante para o mundo, mas é ainda mais importante para o Brasil. Sem ela não tem chuva, nem agricultura. É um tesouro que nos pertence e devemos deixar para as próximas gerações.

 

* Na foto: Juma Xipaia, Txai Suruí, Maria Gadu e Alice Pataxó. Crédito: Alice Pataxó.

 

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