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Epidemia de daltonismo

16 de novembro de 2021

Estão acusando o Reino Unido de querer reescrever o Acordo de Paris. Argumentam que o país quer sair bem na foto da COP26 enquanto os outros queimam seus filmes. Motivações políticas à parte, não era essa a ideia? Rever os números do tratado criado em 2015, diante dos números estarrecedores do último relatório do IPCC? Então por que os líderes globais continuaram agindo como se pudessem resolver problemas os empurrando com a barriga borda do planeta afora? Ou numa fé cega de que a ciência poderá adiar o fim indefinidamente? — fala-se de máquinas fantásticas que poderiam sugar o CO₂ da atmosfera e até de ressuscitar a ideia de construir mais usinas nucleares. Não é terraplanismo. Eles conhecem as causas e as consequências.

O IPCC alertou que a meta acordada para cortar pela metade as emissões globais de gases de efeito estufa até 2030 não só eram insuficientes, como as aumentariam em 16%. Ou seja, precisávamos reduzi-las drasticamente. Porém, as novas metas divulgadas em Glasgow as aumentarão em 13,7%, conforme adverte a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Ou seja, mesmo que sejam cumpridas, só vão fazer o problema crescer um tiquinho a menos. Não faz cosquinha nem na consciência.

O grupo de pesquisa Climate Action Tracker (CAT, na sigla em inglês) já havia alertado que se todos os planos para 2030 saíssem do papel, a temperatura subiria mais 2,4°C até 2100. Como não saíram até agora, estamos a caminho dos 2,7ºC – mas pode chamar de fim do mundo, como o conhecemos. Caso os termômetros ultrapassem o 1,5°C , o número de pessoas submetidas a estresse térmico extremo – uma mistura de calor e umidade que pode levar à morte – pode aumentar até 15 vezes. Cerca de 1 bilhão será severamente impactado pelo calor caso a temperatura média suba mais 2ºC. O Brasil será um dos países mais afetados.

Mudou o titular, mas o Ministério do Meio Ambiente ainda acredita que a COP é festa do peão de boiadeiro. No pavilhão oficial do país, Joaquim Leite recebia delegações estrangeiras sob as bênçãos da Confederação Nacional da Agricultura, que pautou uma vasta programação de seminários sobre o tema. “A agricultura brasileira com certeza será parte da solução”, dizia o ministro. Para o seu azar, um estudo internacional divulgado no evento, com base em dados de 2019 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mostrou que a pegada de carbono da atividade cresceu 17% nos últimos 30 anos e que, no quesito, o Brasil só fica atrás de China e Índia – países com populações quase sete vezes maiores que a nossa.

A agropecuária responde por 31% das emissões globais. A causa principal é o desmatamento – para abertura de pasto e lavoura. O Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 877 km² sob alerta, um aumento de 5% em relação a 2020 e o recorde para o mês de outubro. “Onde existe muita floresta também existe muita pobreza”, disse o ministro Joaquim Leite, parecendo querer competir com as frases infelizes de seu antecessor no cargo. Diversos estudos desmentem sua afirmação: são justamente as áreas desmatadas que concentram os maiores bolsões de miséria. “Onde existe floresta, existe riqueza. Sem a Amazônia, o regime de chuva no Brasil teria acabado. É da floresta que você pode tirar frutos, fármacos, cosméticos, uma indústria de tecnologia, de pesquisa”, disse o secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini.

“Nos envergonha muito um ministro de Estado compreender a Amazônia deste jeito, principalmente perante à Conferência da ONU sobre o clima. O ministro Joaquim Leite precisa conhecer a Amazônia brasileira, seus valores e suas riquezas, ele está no lugar errado para tratar de um bem tão precioso para o mundo e para a vida”, indignou-se Francisco Piyãko, coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ).

É tão óbvio que dá até para acreditar que vivemos numa epidemia de daltonismo.

 

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