Mudar é preciso

Mudar é preciso

O novo coronavírus nos trouxe muita dor e duras lições. Escancarou a realidade e indicou uma luz no fim do túnel: ainda que por um instante, quando fomos obrigados a nos recolher, o ar que respiramos se tornou mais puro, rios e mares ficaram mais limpos, os animais selvagens se sentiram mais livres. Até a Terra ficou mais silenciosa. Logo, duas coisas ficaram claras para todo mundo: que tínhamos responsabilidade direta sobre a enrascada em que nos metemos, mas que também ainda havia tempo de sair dela. Quer dizer, para quase todo mundo. Depois de três meses consecutivos de queda no desmatamento da Amazônia, ele voltou a disparar em outubro. E, diferentemente de previsões iniciais, foi ainda maior em 2020 que em 2019. O Brasil está girando ao contrário do resto do planeta?

Mais de 11 mil km² de floresta foram abaixo entre agosto de 2019 e julho deste ano, 9,5% maior que no mesmo período anterior, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É a maior devastação desde 2008, quando 12.911 km² de verde foram perdidos. Aquele ano foi um ponto fora da curva do período em que o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) reduziu em 83% – entre 2004 e 2012. O vice-presidente Hamilton Mourão, com o conhecimento de causa de quem ora preside o Conselho Nacional da Amazônia, reconheceu: “Podia ser pior ainda”. Sua expectativa era a de um aumento de 20%, o que daria 12.154,8 km² de floresta a menos; ou seja, um número ainda mais próximo da área desmatada em 2008. A diferença é que naquela época houve reação e ele foi reduzido para 7.464 km² em 2009, e continuou caindo nos anos seguintes. E o que há de concreto para o próximo ano é um orçamento ainda mais apertado. As previsões de Mourão para 2020 podem se concretizar em 2021.

O desmatamento corresponde a 44% de nossas emissões de CO₂. Enquanto outros países precisam se virar nos 30 para cumprir suas metas ambientais, o Brasil poderia se dar ao luxo de ficar de boas, bastava não derrubar árvores desnecessariamente. Mas o governo tem agido ao contrário quando deixa ruir a política ambiental do país – afrouxando a regulamentação, enfraquecendo os órgãos de fiscalização, tratando criminosos com excessiva compreensão, deixando a boiada passar. Enquanto aumentou a destruição da floresta, as multas do Ibama caíram 42%. O ministro do Meio Ambiente parece encarar os cortes no orçamento de sua pasta como uma bênção.

O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, já anunciou que o país vai retomar o caminho do desenvolvimento sustentável. Na última reunião do G20, a União Europeia se comprometeu em promover uma reforma sustentável na Organização Mundial do Comércio (OMC). “Estamos trabalhando para fazer respeitar o Acordo de Paris como parte essencial de todos os futuros acordos comerciais”, disse o belga Charles Michel, presidente do Conselho Europeu. Em 2009, o Brasil se comprometeu em reduzir o desmatamento na Amazônia Legal a 3 mil km² em 2020. Entregamos quatro vezes a mais do que isso. Já foi provado que mudar é possível. O governo brasileiro tem de se convencer de que é preciso.

#Desmatamento #MeioAmbiente #UmaGotaNoOceano #CadaGotaConta

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Boi-bombeiro e Boitatá

Boi-bombeiro e Boitatá

O conto varia de um lugar para o outro, mas a essência da história é a mesma: um espírito incandescente toma conta das matas e espanta aqueles que nelas querem atear fogo ou causar destruição. O Boitatá muda de forma, mas a mais comum é a de uma grande cobra feita de chamas com brilho azulado. Ele persegue aqueles que fazem mal à natureza, cegando-lhes. O primeiro registro escrito da lenda é do jesuíta José de Anchieta, em uma carta assinada por ele em 1560. O folclore se relaciona a um fenômeno natural explicado pela ciência: fogo-fátuo é uma chama azulada e efêmera produzida pela combustão espontânea de gás metano em pântanos ou lugares úmidos onde há muita concentração de matéria orgânica em decomposição.

Praticamente cinco séculos depois de padre Anchieta está difícil para o Boitatá vencer a concorrência. Hoje outros mitos tomam conta do Brasil. Há quem acredite que a Amazônia não está sendo desmatada e que o Pantanal não está em chamas. Numa cegueira seletiva, fingem não ver o encolhimento do Cerrado ou o desequilíbrio climático que afeta todo o planeta. Falando nele, há os que dizem ser plano. Nega-se o racismo estrutural enraizado em nossa história. E, diante das imagens de covas comunitárias, há até mesmo os que relativizam a gravidade da pandemia de Covid-19. É tanto negacionismo que a gente chega a questionar a própria existência.

Em Brasília, as dúvidas se aprofundam. Ainda mais quando o assunto é meio ambiente. Existe uma política pública para cuidar da natureza (ou seria lenda)? Em 2019, o Ministério do Meio Ambiente tinha à disposição mais de R$ 10 milhões para combate às mudanças climáticas, mas só 13% foram usados; e dos R$ 3 milhões que iriam para a conservação e o uso sustentável de nossa biodiversidade, apenas 14% se converteram em ações concretas. Os dados são do relatório anual da Controladoria-Geral da União.

O ano virou e as proporções se tornaram ainda menores, segundo aponta o Observatório do Clima, em levantamento feito a partir dos dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento. Nos primeiros oito meses de 2020, o ministério tinha à disposição cerca de R$ 26,5 milhões para ações de prevenção, mas só usou 0,4% do dinheiro disponível. Do montante de R$ 1,388 milhão que deveria ser usado para cuidar de nossa biodiversidade, 96,4% permaneceram intocados; e dos mais de R$ 6 milhões que deveriam ser utilizados em fomento a pesquisas relacionadas às mudanças climáticas, nem um único tostão foi investido. O dinheiro está lá, mas não se converte em ações práticas. Seria este o orçamento de Schrödinger?

A justificativa oficial foi que “o ministério alterou seu planejamento estratégico, sua estrutura e suas prioridades orçamentárias, com prioridade para recursos destinados aos programas de Qualidade Ambiental Urbana: resíduos sólidos, saneamento e qualidade do ar”. Se buscamos qualidade ambiental urbana acima de tudo, porque só 6% dos R$ 6,5 milhões disponíveis para a área foram investidos?
Outro que parece nunca ter existido é o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). Mas não é lenda. No início deste século, nossa voracidade em relação ao verde tinha chegado a níveis pantagruélicos. Em 2004, inacreditáveis 27.772 km² de floresta foram abaixo. O plano se concretizou e o Brasil conseguiu reduzir em 83% a devastação na região entre aquele ano e 2012. Isso só foi possível porque houve um esforço em conjunto da sociedade brasileira, agronegócio incluído.

Já se sabia naquela época e repetimos hoje: preservar a natureza não é gasto, é investimento. Só em outubro de 2020 foram destruídos 7.899 km² de Amazônia, 50% a mais que no mesmo mês do ano passado, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Pagaremos muito mais caro depois.

Se não há investimento, então o que se propõe como solução prática para controlar o fogo? Uma das propostas é aumentar o espaço de criação de gado nos limites das reservas naturais para “reduzir o acúmulo de massa orgânica”. É claro! É só transformar a floresta em pasto que não tem mais incêndio, dizem eles. Não é assim que funciona? Respondemos: Não, não é.

Vejamos o Pantanal como exemplo. Há dois pontos que mostram a falácia. O primeiro é que o rebanho bovino no Pantanal cresceu nos últimos anos. Ou seja, se o boi é bombeiro, ele não está fazendo bem o seu trabalho, porque o número de focos de incêndio também aumentou. O segundo ponto é a conclusão da perícia na Reserva Natural do Sesc Pantanal: a causa do incêndio foi dada como queima intencional de vegetação desmatada para criação de área de pasto para gado em uma fazenda na região que entrou para a área da reserva. Mais uma vez, a ciência derruba a lenda.

O boi-bombeiro o boitatá às avessas. Não afasta os homens que querem destruir a natureza, antes pelo contrário, ele mesmo traz consigo o desmatamento. Aonde chegaremos se levarmos mitos ao pé da letra?

#Pantanal #Amazônia #Desmatamento #Queimadas #MeioAmbiente #MudançasClimáticas #UmaGotaNoOceano #CadaGotaConta

Saiba mais:
G1 – Por que a teoria do ‘boi bombeiro’ no Pantanal, citada pela ministra da Agricultura, é mito

Estadão – Bolsonaro volta a defender o ‘boi-bombeiro’ para apagar fogo do Pantanal

Governo de Mato Grosso – Perícia constata que incêndio em reserva no Pantanal foi provocado por ação humana

O Globo – Governo gastou, em 2019, cerca de 70% a menos com ações de combate ao racismo em relação ao ano anterior

G1 – Ministério deixa de usar maior parte da verba para preservação ambiental, diz CGU

G1 – Ministério do Meio Ambiente não gastou nem 1% da verba para preservação, diz levantamento

Valor Econômico – Política ambiental, o que o orçamento mostra e promete

BBC Brasil – Ibama paralisa combate a incêndios alegando falta de caixa, mas 15% do orçamento não foi usado

El País – Dióxido de carbono na atmosfera baterá novo recorde em 2020 apesar da pandemia

Valor Econômico – UE dirá no G-20 que quer reforma “verde” na OMC

Folha de São Paulo – Brasil trava preparo do acordo de biodiversidade da ONU

G1 – Novo site do Ministério do Meio Ambiente não tem informações sobre áreas protegidas

O Globo – ‘Não esperamos nada de positivo do governo, mas jamais vamos desistir’, diz líder indígena brasileira que recebeu prêmio Robert F. Kennedy de Direitos Humanos

A chama que não se apaga

A chama que não se apaga

Depois da tempestade vem a bonança. Infelizmente, na vida real, as coisas nem sempre saem como no ditado. O exemplo mais recente é o caso dos quilombolas do Amapá: após um incêndio na principal subestação de energia do estado, no último dia 3, eles viram o já precário fornecimento de luz se tornar ainda pior. Catorze dias depois, um novo blecaute agravou a situação. Tudo isso no mês da consciência negra, que celebra a importância de pretos e pardos para o país e propõe uma reflexão em relação ao racismo que resiste em nossa sociedade.

Se antes os quilombos do Amapá chegavam a sofrer no mesmo mês até quatro blecautes que duravam alguns dias, a escuridão desta vez se prolongou por uma semana em lugares como Conceição do Macacoari. As 40 famílias que vivem na comunidade foram forçadas a fazer uma viagem no tempo. Trocaram lâmpada por lamparina e água encanada por água de poço. Diante deste cenário, a Anistia Internacional lançou uma mobilização exigindo que autoridades dos governos tomem providências em relação a esta situação.

Um ingrediente pode tornar especialmente devastador o efeito do apagão nestas comunidades: a pandemia. O Amapá só perde para Rio de Janeiro e Pará em número de quilombolas mortos por Covid-19. Quando a comparação é feita entre municípios, Macapá (com 15 casos) só fica atrás da capital fluminense, que tem 30. Os números são da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), que mantém por conta própria um monitoramento. Entretanto, a organização admite que a quantidade de infectados é bem maior. “Quando adoece uma pessoa, não tem serviço de testagem ampla para a gente saber, naquele raio, quem mais se contaminou”, explica a educadora Givânia da Silva em vídeo compartilhado pela entidade no Instagram.

Um estudo da Universidade Federal do Amazonas apontou que a taxa de mortalidade do novo coronavírus entre os quilombolas de 5 estados da região é de 11,5%. É quase quatro vezes a média de 3% verificada pelo Ministério da Saúde em todo o território nacional. Um olhar menos atento poderia entender que se trata de um vírus racista. Porém, não precisa ser um expert para saber que microrganismos infecciosos desconhecem tons de pele.

De acordo com a pesquisa, na prática, é a desigualdade gerada por racismo que favorece a maior propagação do Sars-Cov-2. Esta desigualdade se reflete na dificuldade de acesso à água tratada, na falta de uma rede de esgoto e ou de coleta de lixo, na deficiência de políticas de prevenção e atenção, e mesmo na distância dos centros urbanos que, no passado, protegeu esses territórios e hoje pode atrapalhar. A distorção afeta até a distribuição da ajuda, quando ela existe. Sem energia e internet, muitos quilombolas não conseguiram pedir auxílio emergencial, por exemplo.

Os problemas não se limitam ao Amapá. Em todo o Brasil, 4.635 casos de Covid-19 foram contabilizados pela Conaq em 19 estados até o último dia 11. São histórias com nome e sobrenome, como Cirilo Araújo Brito, patriarca da comunidade do Grotão, em Goiás, que morreu no último dia 23.

Numa entrevista concedida em 2017, Cirilo contou que, na sua infância, as crianças tinham obrigação de acompanhar a conversa dos mais velhos para que pudessem passá-las adiante. Este hábito deixou de ser comum e revela um dos impactos da perda de anciãos nestas comunidades. Quando um deles morre, um pouco da trajetória de cada povo some junto. “A história quilombola e a indígena, ela é muito oral, é muito da memória. Então, a gente perdeu a pessoa, perdeu a história e perdeu parte da memória daquela comunidade”, lembra Givânia.

Entre os especialistas, o clima é de preocupação. A negligência em relação aos territórios durante a pandemia “pode vir a representar o maior genocídio da população quilombola no Brasil desde o período escravocrata”, escreveu Eduardo Rodrigues Santos, sociólogo da Universidade Nacional de Brasília, no artigo “Necropolítica, coronavírus e o caso das comunidades quilombolas brasileiras”.

Com quase 500 anos de luta, os quilombolas já não esmorecem mais diante de ameaças como a redução no reconhecimento de territórios por parte do governo federal. Em 2018, foram 144 áreas reconhecidas. Já no ano passado, só 70. O que as comunidades têm feito é buscar novas estratégias, como a eleição de um prefeito, um vice-prefeito e 54 vereadores em 2020. Para quem se define a partir de um espaço que é fruto da busca pela liberdade, a coragem nunca foi uma qualidade – mas sempre um pré-requisito.

#Amapá #Coronavírus #Covid19 #Apagão #Energia #Quilombos #PovosTradicionais #Racismo

Saiba mais:

Anistia Internacional – Amapá pede socorro! Pressione as autoridades

G1 – Laudo inicial descarta que raio tenha causado incêndio que provocou apagão no Amapá

Folha – Macapá pode ficar até 15 dias sem luz após incêndio em subestação

G1 – Amapá tem novo apagão total

Portal Cultura – Dia da Consciência Negra: entenda o significado da data

Portal Geledés – O que é Consciência Negra?

Folha – Com apagão no Amapá, quilombolas perdem carne, peixe e polpa de fruta

Conaq e ISA – Quilombo sem Covid-19

Conaq (instagram) – Covid-19 nos quilombos

Ufam – Amazônia concentra recorde de mortes de quilombolas por covid-19

Ministério da Saúde – Painel Coronavírus

Conaq (instagram) – Cirilo Araújo Brito

Universidade Federal do Tocantins – A formação socioterritorial da comunidade remanescente de quilombo Grotão

Revista do CEAM – Necropolítica, coronavírus e o caso das comunidades quilombolas brasileiras

Nexo – A covid-19 nos quilombos. E a cobrança por ações do governo

O Globo – Quilombolas elegeram 56 representantes na eleição de ontem em dez estados — um recorde

A natureza do voto

A natureza do voto

Se a eleição é a festa da democracia, com que roupa a gente vai? Atualmente, muitos ainda não sabem o que vão vestir. É o que aponta um levantamento do Datafolha. Em cidades como Rio de Janeiro, a pesquisa revela que quase um terço dos eleitores não tinha um candidato favorito a cinco dias da votação. Esta indefinição não é privilégio do cenário eleitoral. Ela se repete em relação à preservação do meio ambiente. Divulgado em 05 de novembro, um levantamento da Confederação Nacional da Indústria indicou que só metade dos brasileiros se veem diretamente afetados pelos problemas ambientais, que poderão ter diferentes desdobramentos de acordo com os prefeitos e vereadores mais votados nestas eleições.

Apesar do cardápio variado de recursos à disposição, os governantes ainda saem mal na foto quando o assunto é preservação de ecossistemas. Dados de 2018 do Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento (SNIS) apontavam que 50 milhões de brasileiros não tinham acesso a um serviço de recolhimento de lixo e 100 milhões viviam em municípios que não contavam com rede de esgoto.

São problemas que estão literalmente batendo na porta das autoridades e já passaram da hora de serem resolvidos. “Hoje, se você olhar as principais cidades do Brasil e do mundo, elas estão de costas para o rio. É como se o rio deixasse de ter importância e passasse a ser algo secundário na vida das pessoas”, já comentou sobre o tema o biólogo João Paulo Capobianco, presidente do Instituto Democracia e Sustentabilidade, em 2018, no Dia Mundial da água, durante o lançamento da campanha “Em nome de quê?”, desenvolvida por Uma Gota no Oceano em parceria com a Operação Amazônia Nativa (Opan). Você já parou para avaliar qual importância seus candidatos dão à natureza de seu município? E sabe o que eles podem fazer por ela?

Vereador e prefeito são como os 2 ponteiros de um mesmo relógio. O trabalho de um não faz sentido sem a colaboração do outro. Enquanto a Câmara elabora as leis e fiscaliza as ações do prefeito, o gestor aprova ou veta as regras propostas pelos legisladores e define onde serão aplicados os recursos. Desta colaboração saem decisões com alto impacto em nossas vidas e que podem ajudar a proteger (ou a destruir) a natureza. Elas vão dos projetos de agricultura familiar da prefeitura ao tipo de merenda servida nas escolas da cidade.

Se um município cuida de seus mananciais, evita que a paisagem seja alterada e dá a destinação adequada a seu lixo, o meio ambiente prospera e a qualidade de vida da população aumenta. Um estudo da Universidade da Califórnia mostrou, por exemplo, que morar perto de áreas verdes gera benefícios para saúde mental de adultos e adolescentes. Ideias do tipo estão por trás da chamada Economia Verde, que propõe o uso consciente dos recursos naturais e já inspira alguns governantes. Em São José dos Campos, por exemplo, um programa criado em 2012 paga a quem mantém e restaura a vegetação na região do Rio do Peixe. Assim, o local alcançou a conservação de 500 hectares de floresta e o plantio de mais de 80 mil mudas.

Da mesma forma, quando uma cidade vai na contramão e atropela a natureza, a vida selvagem não é a única prejudicada. Nós também somos afetados, já que nossa sobrevivência está diretamente ligada ao contexto a nossa volta. O maior exemplo disso é a pandemia de Covid-19, doença que bateu a marca de 50 milhões de pessoas contaminadas em todo o mundo e que teve origem atribuída à degradação ambiental, segundo a ONU.

“Quando se desmata e se perde a biodiversidade, o vírus, que tinha o seu hospedeiro natural, vai procurar outro organismo para viver e se adaptar. Na falta de outras espécies, eles chegam até os humanos”, explicou em entrevista Rubens Benini, líder da estratégia de restauração florestal da ONG The Nature Conservancy. Só no Brasil, o Ministério da Saúde já repassou cerca de R$ 17 bilhões às prefeituras nos esforços para atender os doentes.

Mais do que apenas protegerem ecossistemas, as políticas ambientais têm efeitos positivos para todos os setores. E é importante lembrar que não falamos apenas de áreas urbanas. Na região rural dos municípios da Amazônia, cada hectare dedicado ao cultivo de açaí, cacau ou castanha rende hoje US$ 12.400 por ano, valor 20 vezes maior que o verificado em uma área do mesmo tamanho dedicada à pecuária. A grande diferença é que as plantações demandam menos espaço e não exigem a derrubada da floresta. Já no Centro-Oeste, um estudo apontou que fazendas de soja poderiam economizar R$ 1,24 milhão por safra se mantivessem a vegetação nativa do Cerrado e, com isso, diminuiriam os gastos com erosão.

Ao contrário do que muitos ainda pensam, conservação do meio ambiente e crescimento econômico não concorrem entre si. Se forem capazes de enxergar isso, os próximos prefeitos e vereadores prestarão um imenso serviço não só à natureza, mas à sociedade brasileira.

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Leia mais:
Folha – Paes amplia vantagem sobre Crivella, que tem 62% de rejeição no Rio, mostra Datafolha

Estadão – Desafio brasileiro ainda é ligar preservação do meio ambiente à rotina

Ministério do Desenvolvimento Regional – Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (2018)

Uma Gota no Oceano – Em nome de quê? | Desafio para preservação dos nossos rios

Tribunal Superior Eleitoral – Eleições 2020: você sabe o que faz um prefeito?

Tribunal Superior Eleitoral – Vereador: conheça o papel e as funções desse representante político

Aliança Pela Alimentação Adequada e Saudável – É dever da prefeitura e Câmara Municipal garantir que as escolas da cidade sejam ambientes livres de ultraprocessados

Instituto Centro Vida – Quais perguntas você deve fazer para seu candidato?

Ipea – Economia verde e o desenvolvimento sustentável

ScienceDirect – Green space and serious psychological distress among adults and teens: A population-based study in California

Programa Internacional de Cooperação Urbana – Programa Pagamento por Serviços Ambientais

Uol – Mundo ultrapassa 50 milhões de casos confirmados de covid-19

UN Environment Programme – Surto de coronavírus é reflexo da degradação ambiental, afirma PNUMA

Veja – Dia do Meio Ambiente: pandemia reforçou necessidade de proteger a natureza

Ministério da Saúde – Transferências financeiras do Ministério da Saúde para os estados e municípios, no âmbito do combate à COVID-19

Açaí, cacau e castanha são mais rentáveis que pecuária e soja na Amazônia, diz Carlos Nobre

Manter vegetação nativa no cerrado gera economia de R$ 1,24 milhão por safra, diz estudo

O rio morreu

O rio morreu

Quando a natureza fala, os indígenas escutam. No fim de outubro de 2015, todos os anciões das aldeias Krenak ficaram doentes ao mesmo tempo. O acontecimento veio acompanhado da mudez de grilos e sapos, percebida pelos ouvidos mais atentos. “Sabíamos que aquele silêncio significava algo”, contou tempos depois a liderança e escritora Shirley Djukurnã krenak. Eram sinais claros, como relâmpagos antes da tempestade. Por volta de 15h30 de 5 de novembro daquele ano, o rompimento da barragem da Vale, em Mariana, originou uma onda de resíduos do tamanho do Pão de Açúcar, que matou 19 pessoas e afetou a vida de 500 mil cidadãos que viviam às margens do Rio Doce. O desastre teve um significado a mais para os Krenak. Este povo acredita que o crime ambiental fez o espírito daquelas águas ir para o alto da montanha. Para os Krenak, desde então, o Watu, o rio sagrado, está morto.

Um rio espiritualmente morto é uma ideia que não faz sentido para o pensamento ocidental. Em uma reunião com representantes de uma mineradora, Dejanira Krenak, liderança e matriarca do povo Krenak, perguntou: “De que forma você traz um morto à vida?”. Foi uma boa maneira de traduzir o dilema para quem não o compreendia. Por quatro dias, um tsunami de lama percorreu os 400 quilômetros entre os municípios de Mariana e Resplendor, onde vivem os Krenak. À medida que avançava, a onda diluía na água rejeitos que impediriam que a luz chegasse ao fundo do rio por 6 meses e causariam a morte de quase 30 mil peixes. Mas os impactos não pararam por ali. Para se ter uma ideia, só no primeiro ano após o rompimento, todas as 26 espécies de peixe sumiram do Rio Doce.

Assim como a pandemia impôs um novo normal a grande parte do planeta em 2020, o desastre de Mariana mudou a vida dos Krenak há cinco anos. Cerca de 140 famílias foram forçadas a se readaptar para sobreviver. Pais que aprenderam a nadar no Rio Doce, uma tradição de várias gerações, se viram forçados a ensinar seus filhos a mergulhar em caixas d’água sem nenhuma correnteza. Hoje, cada Krenak tem direito a 5 litros de água mineral por dia para beber. Prioridade entre as ações mitigatórias, o novo sistema de abastecimento ainda não está pronto. Diante de um quadro tão chocante, muitos morreram de depressão.

Até setembro de 2020, as empresas responsáveis pela barragem haviam pago mais de R$ 250 milhões em ações mitigatórias e compensatórias aos Krenak, aos Guarani e aos Tupiniquim, os 3 povos atingidos pelo desastre. O valor é pequeno diante do que foi perdido. “Não tem casa, não tem dinheiro ou qualquer coisa que pague o que fizeram com o rio”, afirmou em 2017 uma liderança Krenak sobre a situação. Dinheiro algum é capaz de devolver um espírito a um rio e os séculos de relação com o território não se contabilizam em cifras.

A história dos Krenak em Minas é antiga e bonita. Há registros do século XVIII da presença do povo na região. No passado, chegaram a ocupar uma extensão de mais de 800 quilômetros. Eles estão em Resplendor desde, pelo menos, 1910 – quando um espaço de 4 mil hectares na margem esquerda do Rio Doce foi reservado para eles. A demarcação definitiva só veio na década de 1980 e hoje a Terra Indígena conta com 7 aldeias que abrigam 540 pessoas. Antes do desastre de Mariana, os Krenak já sofriam com problemas como a desertificação do solo por conta da exploração excessiva de empresas da região. Com o rompimento da barragem, as dificuldades só aumentaram, mas não foram suficientes para enfraquecer o vínculo que existe entre o povo e a terra. Há mais de 15 anos, os Krenak pedem a incorporação de parte do Parque Estadual Sete Salões ao território. Mesmo com o crime de 2015, eles mantêm aceso o desejo de voltar às cavernas sagradas que existem neste local.

“Estamos muito tristes em ver a impunidade que reina hoje”, afirmou Geovani Krenak, liderança, em 2018 sobre o caso de Mariana. Dois anos depois, o cenário não mudou muito. Até hoje segue sem conclusão o processo no qual 4 empresas e 22 executivos foram denunciados como responsáveis pelo desastre. A denúncia foi feita pelo Ministério Público Federal em 2016.

Desde julho, tramita em Manchester, na Inglaterra, um novo processo com pedidos de indenizações a uma das mineradoras envolvidas no desastre. Em entrevista ao Estado de Minas, os advogados dos atingidos relataram que a ação é fruto direto da lentidão do sistema judiciário brasileiro em avaliar o caso de Mariana.

A demora em se fazer justiça é denunciada também em protestos realizados pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Para marcar a data de 5 anos de injustiça na bacia do rio Doce, atingidos por barragens de Minas Gerais e do Espírito Santo organizaram atos que denunciaram a falta de reparação para a população afetada. O objetivo principal foi chamar a atenção da Justiça para as pessoas que perderam suas casas, os empregos, e sofrem com desabastecimento de água limpa, problemas de saúde e aumento da violência por conta do maior crime ambiental brasileiro.

O estrago foi feito em curto espaço de tempo. Foram quinze dias para a lama tóxica se mover da barragem de Fundão, em Minas Gerais, à foz do rio Doce, no Espírito Santo. Já a cura vai se dar a longo prazo: estima-se que deve levar mais de 20 anos para os rios e nascentes da região afetada pelo rompimento da barragem se recuperarem. É uma previsão desanimadora para muitos, mas que não deve assustar os Krenak, acostumados a grandes desafios ao longo de sua trajetória. Removidos de suas terras pelo Estado Brasileiro em 1957, eles voltaram a Resplendor dois anos depois, após uma caminhada que durou três meses. Pouco mais de quinze anos depois, a Funai determinou uma nova remoção em 1972, revertida por meio de uma nova caminhada, em 1980, que demorou 95 dias. Desta vez, o caminho pode ser mais longo e a caminhada, mais demorada. Mas o objetivo dos Krenak segue o mesmo: viver em harmonia com a natureza no lugar que consideram sagrado.

Leia mais:

BBC – Após dois anos, impacto ambiental do desastre em Mariana ainda não é totalmente conhecido (05/11/2020)

Lama faz índios Krenaks depender de água mineral 04/11/2020

Dom Total -‘De que forma você traz um morto à vida?’, diz indígena krenak sobre Rio Doce (30/10/2019)

Elástica – “Envenenam a Terra por não acreditar que ela é um organismo vital” (20/07/2020)

Época – ‘Lutamos contra a mineração há 200 anos’, diz indígena que vive às margens do Rio Doce’ (15/08/2019)

Bom Dia Brasil – Rio Doce, da nascente à foz (29/09/2017)

G1 – Após a lama, tribo Krenak deixou de fazer rituais e festas no Rio Doce (28/10/2016)

Istoé – Três anos após desastre de Mariana, indígenas Krenak pedem justiça (05/11/2018)

Fiocruz – Povo indígena Krenak segue lutando por reconhecimento e demarcação total de seu território tradicional (04/08/2018)

Ramboll – Relatório sobre proteção e recuperação da qualidade de vida dos povos indígenas (Setembro de 2020)

O Globo – Desastre ambiental em Mariana afeta cultura dos índios krenaks (31/10/2017)

Uma Gota no Oceano – Mariana: dois anos como um dia (07/11/2017)

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