O verde e as verdinhas

O verde e as verdinhas

Caro Mercado Financeiro,

Eu, Meio Ambiente, sempre tive com você uma relação difícil. Por isso, foi com imensa alegria que recebi a última carta que Larry Fink, CEO do fundo BlackRock, enviou a seus investidores – assim como os comentários que vi no Fórum Econômico Mundial. Com a pandemia, ninguém pôde ir a Davos e as conversas tiveram de ser virtuais. Mas tudo indica que o verde vai finalmente se entender com as verdinhas. Não foi sem alguma vaidade que li Mr. Fink dizer que seus clientes perguntam sobre o risco climático todos os dias. Também fiquei lisonjeado quando o fotógrafo Sebastião Salgado falou, na abertura do Fórum, que “podemos viver em paz com o meio ambiente“. E aí, vamos ficar de bem ou seguir nos desentendendo?

Assim como você, estou muito esperançoso com o maior interesse das empresas pelo selo ESG, concedido por consultorias e outras instituições. Ter companhias preocupadas com Environment, Social e Governance (ou natureza, iniciativas sociais e governança corporativa em bom português) é a chance que eu esperava há séculos para mostrar que também tenho meu valor. O fato de as ações das firmas com este selo terem sido mais procuradas ao longo de 2020 mostra que não sou o único que pensa assim.

Como dizia o economista Milton Friedman, “não existe almoço grátis” e cuidar de mim até que é um preço justo, tendo em vista o bom retorno que proporciono. Por exemplo, a cada segundo, 33 mil litros de água são distribuídos pelo Sistema Cantareira e outros 43 mil litros são captados no Rio Guandu. Isso permite que as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro sigam sem sede (apesar da geosmina no caso carioca). Já pensou se estes valores oscilassem como os papéis da bolsa? Este é o cenário que você evita quando me preserva.

É como se, da noite para o dia, todos descobrissem o meu potencial. Em 2020, foram investidos US$ 288 bilhões em ativos sustentáveis, o dobro do verificado no ano anterior. Um levantamento da empresa Morning Star apontou que só no primeiro semestre do ano passado, 23 fundos compostos apenas por ações de empresas ESG foram lançados nos Estados Unidos. Das 20 maiores corporações do mundo, 19 já se comprometeram a zerar suas emissões de gases de efeito estufa na atmosfera nos próximos anos. A única exceção é uma estatal de petróleo saudita. Até o bilionário Jeff Bezos, todo-poderoso da Amazon, anunciou esta semana que vai deixar o comando da varejista para poder dar mais atenção a iniciativas como o fundo Bezos Earth, que financia soluções criadas por comunidades tradicionais para preservar o meio ambiente.

Outra pesquisa, do Itaú BBA, perguntou a investidores qual das 3 letrinhas da sigla eles consideravam a mais importante. Nela, o E deu um banho no S e no G. Sou a prioridade de 90% dos estrangeiros e 50% dos brasileiros, entre os quais a moda está começando a pegar. Já tem banco com projeto de preservação da Amazônia, loja de roupa que só trabalha com algodão certificado e operadora de celular que recolhe lixo eletrônico. Tudo para ter o bendito selinho e sair bem na foto. O primeiro fundo ESG do Brasil foi criado em 31 de agosto do ano passado. Em menos de 6 meses, surgiram, pelo menos, outros seis, que já acumulam R$ 700 milhões, segundo a Anbima. Parece muito, mas é só 0,13% do dinheiro investido em fundos no país, o que mostra que ainda há espaço para crescer.

É muito bom ver tantas coisas caminhando. Mas confesso que alguns pontos ainda me preocupam. Vice-presidente do Brasil, o general Hamilton Mourão afirmou no Fórum Econômico Mundial que depende do apoio da iniciativa privada para preservar a Amazônia após a pandemia. Segundo ele, o governo não terá mais dinheiro para investir em ciência. Mas Eric Pedersen, executivo do fundo Nordea, pontuou que é importante que os Estados forneçam uma estrutura regulatória que encoraje os investimentos, por exemplo. E o governo do Brasil, no último ano, não aplicou nenhuma multa ambiental.

Já Jan Saugestad, do fundo Storebrand, lembrou que, para quem quer preservar o meio ambiente, não faz sentido investir num país onde o desmatamento cresce e nada acontece. Enquanto isso, a proposta de orçamento do governo brasileiro para fiscalização ambiental em 2021 é a menor deste século, segundo o Observatório do Clima. “Os povos indígenas desempenham um papel crucial na proteção das florestas”, afirmaram por meio de nota representantes do grupo Diálogo de Política de Investidores sobre Desmatamento. Isso logo depois de termos Bolsonaro, presidente da república, denunciado por lideranças indígenas ao Tribunal Penal Internacional por crimes ambientais. É como se o Brasil fosse um investimento de altíssimo risco e baixíssimo rendimento. Não dá mais nem para alugar, como propôs o Raul. Em relação a isso, o naturalista inglês David Attenborough disse numa entrevista recente: “Será maravilhoso quando o Brasil entender que é economicamente melhor deixar a floresta em pé do que derrubá-la”.

Se o desespero quase sempre paralisa, a esperança tem a vantagem de nos tranquilizar e, às vezes, até resultar em algo bom. E não faltam motivos para eu ter esperança. Um estudo da Ember e da Agora Energiewende mostrou que, em 2020, a Europa produziu mais energia a partir de fontes renováveis do que de combustíveis fósseis pela primeira vez. Nos Estados Unidos, Joe Biden recolocou o país no Acordo de Paris e anunciou a meta de tornar sua economia livre de carbono até 2050. Sondagens da BlackRock com investidores de 27 países indicaram que eles pretendem dobrar a fatia das ESGs em suas carteiras de investimento até 2025. Há quem diga até que, no futuro, o selo vá deixar de ser um diferencial para se tornar uma pré-condição.

Despeço-me com uma citação de Carlos Abras, coordenador de negócios e mobilização de recursos da Fundação SOS Mata Atlântica, que resume o que penso sobre o assunto: “Existe um custo ambiental para produzir nesse planeta e devolver a ele parte das receitas é uma atitude ética“.

Um abraço,
Meio Ambiente

#MeioAmbiente #Economia #ESG #Davos #Sustentabilidade #UmaGotaNoOceano #CadaGotaConta

BlackRock – Carta do Larry Fink aos CEOs

Jamil Chade (Uol) – Premiado por Davos, Sebastião Salgado defende “paz com meio ambiente”

Você S/A – A mão invisível do ESG

Sabesp – De onde vem?

Cedae – ETA Guandu

Rosana Jatobá (Uol) – No oceano de discursos virtuais de Davos, a onda verde veio com tudo

Tasso Azevedo (O Globo) – Emissão zero e o novo normal

Amazon – Email from Jeff Bezos to employees

The Soluction Project – Bezos Earth Fund

Miriam Leitão (O Globo) – Na agenda do clima, mudança de eixo nos afeta diretamente

Folha – Fundo estrangeiro rebate Mourão, vê diálogo vazio e cobra política ambiental

Uol – Ação ambiental é insatisfatória, dizem investidores após reunião com Mourão

Observatório do Clima – Fakebook.eco newsletter

Uol – Cacique Raoni denuncia Bolsonaro no Tribunal de Haia por crimes ambientais

Veja – O planeta é vulnerável, diz o naturalista David Attenborough

Folha – Biden ambiental

Nexo – O papel das empresas na preservação do meio ambiente

Hora da faxina

Hora da faxina

Já passou da hora de fazer uma faxina caprichada no Brasil, daquelas de lavar até a alma. É muita sujeira: o país produz quase 80 milhões de toneladas de lixo por ano; ficamos atrás apenas de EUA, China e Índia, e à frente de Indonésia e Paquistão, países mais populosos. Segundo um estudo da Associação Brasileira de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), de 2010 a 2019 a nossa pilha de lixo cresceu 18,8%, indo de 67 milhões de toneladas anuais para 79,6 milhões. No mesmo período, a população cresceu 8,7%, conforme estima o IBGE. Ou seja, estamos ficando mais desleixados – e olha que nessa conta ainda não entrou o caminhão da pandemia, com seus equipamentos de segurança descartáveis, sacolas de entrega em domicílio etc.

Pior que a gente não só suja, como não limpa direito. Desserviço completo. O lixo jogado fora de forma inadequada aumentou de 25 para 29 milhões de toneladas por ano. “Temos no país uma deficiência na coleta. Cerca de 6 milhões de toneladas sequer são coletadas”, diz Carlos Silva Filho, diretor-presidente da Abrelpe. E somente 4% do lixo recolhido é reaproveitado; o resto penetra no solo, contaminando lençóis freáticos; vira poeira tóxica ou gás do efeito estufa – contribuindo com as mudanças climáticas –; ou chega ao oceano. Além disso, afeta diretamente a saúde de quem vive perto dessa herança medieval: “A gente sabe que resíduo descartado de forma inadequada é um criador propício para vetores de várias doenças. Embalagens que acumulam água são criadoras de mosquito da dengue, entulho é criador para rato, cobra, escorpião”, explica Ronan Cleber Contrera, professor da Escola Politécnica da USP.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída em 2010, previa a erradicação dos lixões a céu aberto em todos o território nacional até 2014. Bom, isso não só ainda não aconteceu como a aprovação do novo marco do saneamento básico, em julho de 2020, postergou ainda mais este prazo: capitais e regiões metropolitanas têm até o próximo dia 2 de agosto para acabar com os lixões, enquanto cidades com mais de 100 mil moradores têm até agosto do ano que vem; as menores podem esperar até 2024. Haja barriga para empurrar tanto entulho. Cerca 3.000 dos 5.570 municípios brasileiros ainda mantêm lixões a céu aberto, segundo a Abrelpe.

As alternativas já existem e estão disponíveis. O lixo pode ser acomodado em aterros sanitários, por exemplo, menos poluentes e mais seguros. Mas o ideal é não desperdiçar, ou reaproveitar. Detritos orgânicos podem virar adubo natural em usinas de compostagem ou servirem como matéria-prima para a produção de biogás. Hoje, a produção nacional é de 1,5 bilhão de metros cúbicos por ano. Isso dá menos de 4% da produção de combustíveis fósseis, mas a Associação Brasileira do Biogás (Abiogás) estima que o nosso potencial é de 40 bilhões de metros cúbicos por ano.

Além de fazerem mal ao meio ambiente, os lixões ainda concentram uma grave questão social. Em dezembro, Pedro Guimarães, presidente da Caixa, ficou boquiaberto ao descobrir que havia pessoas vivendo neles: “Há três semanas, visitamos alguns lixões. E o que a gente viu é algo que eu nunca tinha pensado que existisse. Pessoas morando nos lixões e vivendo no chorume”, disse ele. Milhares de brasileiros ainda sobrevivem nessas condições sub-humanas – embora permaneçam invisíveis.

Será que Guimarães não assistiu à novela “Avenida Brasil”, com a memorável Mãe Lucinda? Mas, como essas histórias estão longe de serem ficção, recomendamos o premiado documentário “Estamira” (2004), de Marcos Prado, como ponto de partida. Ele conta a história de uma senhora que vivia no extinto Lixão de Gramacho, no Rio de Janeiro. É um grito de socorro. Gramacho foi fechado oficialmente em 2012 e era o maior lixão da América Latina. Centenas de famílias dependiam dele para sua subsistência. Outro filme brasileiro sobre este lugar é “Lixo extraordinário” (2011), que foca na relação do artista visual brasileiro Vik Muniz com catadores de lá. Além de documentar essa parceria, o documentário registra a união desses trabalhadores em sua busca por alternativas de trabalho. Afinal, o que é lixo para uns pode valer ouro para outros.

O Brasil reciclou apenas 3,7% da sujeira que produziu em 2019, segundo o Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (Islu), e a Abrelpe alerta que perdemos R$ 14 bilhões por ano por causa disso. Nem parece o mesmo país que reaproveita 97,6% das latinhas que consome de cerveja e refrigerante, liderando o ranking mundial na modalidade. Nem o coronavírus segurou nossos bravos catadores: de acordo com a Associação Brasileira do Alumínio (Abal) e a Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas (Abralatas), foram coletadas 45 mil toneladas a mais do que em 2018, um aumento de 14,7%. Como diz a frase grafitada pelo artista visual Mundano nos carrinhos da galera de São Paulo, “Um catador faz mais do que um ministro do Meio Ambiente”.

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Um mergulho sem refresco

Um mergulho sem refresco

Não se iluda com a água gelada da próxima vez que for à praia. Organizado por 20 cientistas de 13 instituições, um estudo divulgado este mês na publicação científica Advances in Atmospheric Sciences apontou que, em 2020, os oceanos registraram as temperaturas mais altas desde 1955. Sabe-se que os mares estão esquentando há, pelo menos, 70 anos. Acontece que o processo acelera como um tsunami que se aproxima da costa.

Entre 1986 e 2020, o aumento médio do calor acumulado nos mares foi 8 vezes maior que o verificado entre 1958 e 1985. E ganha uma estrela-do-mar dourada quem acertar qual dos cinco foi o oceano que mais esquentou no período. Sim, ele mesmo, o seu, o meu, o nosso Atlântico. Será que não é hora de darmos uma atenção maior a isso?

Oceanos não esquentam do nada. No caso em questão, pesquisadores como Lijing Cheng, da Academia Chinesa de Ciências, apontam o efeito estufa como origem do problema. “Mais de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global é absorvido pelos oceanos“, afirma ele. Há outros números de tirar o fôlego. Entre 1995 e 2020, nossos mares incorporaram uma quantidade de calor equivalente à explosão de 3,6 bilhões de bombas de Hiroshima. É muita energia para um período relativamente pequeno.

Como os oceanos têm ligação direta com o clima, as consequências começam a aparecer. No ano passado, o Atlântico registrou 29 tempestades, um recorde inédito. A umidade que alimentou furacões no Caribe e no sul dos Estados Unidos foi a mesma que fez falta na Amazônia e se traduziu em uma temporada de incêndios na floresta, segundo a Nasa. Ou seja, o aquecimento das águas já está bagunçando nosso regime climático. Só não vê quem não quer.

Como no começo do filme Tubarão, muita gente já começa a olhar preocupada para a confusão logo ali além da areia. A diferença é que, na vida real, ainda há o que ser feito. Um exemplo é a ONU, que vai celebrar entre 2021 e 2030 a Década Internacional do Oceano. Assim mesmo, no singular, para promover a ideia de que todos os mares são, na verdade, um só e devem ser preservados. Afinal, eles nos prestam bons serviços.

Você sabia que o habitat de algas, sardinhas e golfinhos absorveu 7 gigatoneladas de carbono só em 2019? O dado é do Global Carbon Project. Se todo este volume tivesse sido lançado na atmosfera, nosso planeta teria ficado muito mais quente. Por outro lado, este porre de CO2 está deixando o mar de ressaca. Nos últimos 2 séculos, a acidez das águas subiu cerca de 30%, o que afetou animais marinhos sensíveis a esta variação. Não é exatamente o tipo de problema que se resolve só com um antiácido.

Os impactos das mudanças do clima nos oceanos não param por aí. Com o calor, o gelo dos polos derrete e o aumento do nível do mar é outro fenômeno que tira o sono de muitos. As medições indicam uma subida média de 24 centímetros entre 1850 e 2010. Já para os próximos 79 anos, são esperados acréscimos entre 48 e 56 centímetros, segundo a WWF. Na primeira hipótese, 46 milhões de pessoas seriam afetadas; Na segunda, 49 milhões. Com 50 milhões de habitantes distribuídos por 9 mil quilômetros de litoral, o Brasil deveria estar mais atento a isso, não é? Não podemos deixar que a continental costa brasileira e toda sua biodiversidade deixem de ser um dos nossos maiores patrimônios e se tornem um problema.

Este calor todo também terá impacto nos animais. Se nada for feito, a tendência é que 90% dos corais do planeta estejam mortos até 2050, por exemplo. Mais quentes, os oceanos retêm menos oxigênio. A taxa de gás dissolvido na água já caiu 2% entre 1960 e 2010. Se nada mudar, pode cair 4% até o fim deste século. Se você gosta de iguarias como um bom atum, a boa é já começar a se despedir, porque neste cenário elas desapareceriam do mapa. Quer dizer, da água.

Como o protagonista do clássico O Velho e o Mar, não devemos nos desesperar na busca por nossos objetivos. Se o ser humano conseguiu desenvolver uma vacina eficaz contra um vírus letal em menos de 1 ano, ele é capaz de usar sua inteligência para reverter os riscos iminentes à vida marinha. De acordo com especialistas, o mais urgente é reduzir as emissões de CO2 para derrubar o volume de calor armazenado pelo mar. Não foi à toa que a volta dos Estados Unidos ao Acordo de Paris foi anunciada por Joe Biden, o novo presidente americano, assim que assumiu seu posto na Casa Branca. Cuidar do assunto é algo, literalmente, para ontem. Se o Brasil quiser fazer sua parte, vai precisar mudar de atitude, já que as metas para 2030 anunciadas em dezembro soaram, no mínimo, acanhadas.

Outro esforço necessário é a criação de unidades de conservação marinha. É uma caminhada longa, na qual o país ainda está em seus primeiros passos. Em 2018, aumentamos de 1,5% para 26,4% a fatia de áreas protegidas na nossa Zona Econômica Exclusiva. Mas ainda há muito por fazer. Para além disso, é preciso prestigiar o papel desempenhado por pescadores e outras populações tradicionais na preservação do litoral – assim como as pesquisas de ponta desenvolvidas pelo Observatório do Clima. Composta por mais de 50 organizações (inclusive Uma Gota no Oceano), a rede criou um grupo para estudar a relação entre o mar e o clima, de onde bebemos muitos dos dados aqui apresentados.

Como diz a canção, quem é do mar não enjoa. Cada um é responsável por arregaçar as mangas e construir um futuro diferente.

#Oceanos #MudançasClimáticas #AcordoDeParis #C02 #EmissõesDeCO2 #UmaGotaNoOceano #CadaGotaConta

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Liga das Mulheres pelo Oceano – Recorde de calor no oceano em 2020. E eu com isso?

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ONU – UN designates 2021-2030 ‘Decade of Ocean Science’

Global Carbon Project – Global Carbon Budget 2019

IUCN – Ocean deoxygenation: Everyone’s problem

G1 – Retorno dos EUA ao Acordo de Paris e OMS estão entre primeiros atos do presidente Joe Biden

Uma Gota no Oceano – Cordão de Isolamento

Consenso de voz única

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Há mais de uma década a gente vem desperdiçando energia para resolver os problemas gerados por Belo Monte. Em 2021 eles chegaram cedo: logo no dia 5, o Ibama foi obrigado a tomar mais uma providência para tentar reduzir impactos socioambientais no Rio Xingu. A medida, um ajuste na vazão de água liberada de sua barragem, vai custar caro para todos nós: segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a usina pode deixar de gerar até 21,18 mil MW entre janeiro e julho, o bastante para abastecer as regiões Sudeste e Centro-Oeste durante 15 dias. Para suprir essa demanda, a ONS seria forçada a acionar termelétricas que, além de mais poluentes, são ainda mais dispendiosas. O preço do MW/h de eletricidade produzido no país poderia aumentar em R$ 40 em seis meses, o que se refletiria na sua conta de luz – hoje, ele é estimado em aproximadamente R$ 187. Você pode morar bem longe do Xingu, mas vai sentir o baque assim mesmo.

O episódio deixa ainda mais evidentes as falhas no projeto da hidrelétrica, apontados ainda no papel por cientistas, organizações sociais e povos tradicionais. Esses alertas nos levaram a criar, há 10 anos, o Movimento Gota D’Água, que deu origem a Uma Gota No Oceano. Belo Monte é um projeto gestado na ditadura que veio à luz de parto forçado em pleno período democrático. Queríamos ser ouvidos, mas fomos atacados por governo e oposição na época. O tempo foi senhor da razão das ponderações daqueles que eram contrários à construção. Nenhum de nós, porém, tem o dom da profecia: tudo foi baseado na ciência, na sabedoria ancestral – daqueles que, como hoje se sabe, cultivaram a Amazônia – e na experiência de vida dos que fazem da floresta e dos rios a sua casa.

A hidrelétrica foi inaugurada em novembro de 2019. Hoje, Altamira, a cidade mais próxima, é a mais violenta do país, e o seu crescimento desordenado fez do Xingu um esgoto a céu aberto nas suas redondezas; muita gente que perdeu a casa ainda não foi devidamente indenizada; o comércio ilegal de madeira e as invasões de áreas protegidas dispararam; e o modo de vida dos indígenas da região foi comprometido de forma desumana – fala-se, inclusive, em etnocídio. Recentemente, o Ministério Público Federal (MPF) chamou a atenção para “evidências científicas de que um ‘ecocídio’ fulminará um dos ecossistemas da Amazônia de maior biodiversidade”.

“Belo Monte trouxe para a juventude, os crimes e as drogas, nada de projetos sociais”, diz Antônia Melo, coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre. Os peixes, alimento essencial e fonte de renda da população local, sumiram assim que começaram as obras. “Esse barramento aí acabou, isso ficou um lago. As piracemas, um igarapé, uma grota, que é o lugar onde os peixes desovam, acabaram. As ilhas, não se veem mais”, conta o ribeirinho Dario Batista de Almeida, o Seu Pivela.

Em nome de quê? A usina nunca entregou o que prometeram. A capacidade nominal de geração de energia da hidrelétrica é de 11.233 MW por mês, o suficiente para atender a 60 milhões de pessoas; mas só 4.571 MW chegam na tomada – na casa de Seu Pivela não chegou nenhum ainda. O orçamento inicial da obra era de R$16 bilhões, mas calcula-se que R$ 40 bilhões saíram pelo ladrão.

O enguiço da vez tem a ver com um troço chamado “hidrograma de consenso”. É este dispositivo que determina a quantidade de água a ser liberada pela barragem da usina e foi a principal proposta apresentada pela concessionária Norte Energia para amenizar os efeitos provocados pela diminuição do volume de água na Volta Grande do Xingu. Acontece que “de consenso” esse hidrograma só tem o nome: foi arbitrado pela própria companhia, quando a obra foi licenciada pelo governo em 2009, mesmo debaixo de protestos do Ibama na época. O órgão agora quer que sejam adotadas novas normas, baseadas nos impactos já causados no rio. Um “hidrograma ecológico”, que privilegie o meio ambiente e o modo de vida dos moradores da região.

Ainda assim, Belo Monte continuará sendo um elefante branco. Deveria ser visto por todos como um monumento à incompetência, à arrogância, à inconsequência e ao autoritarismo, para que erro igual não se repita jamais. O governo atual aposta no mesmo modelo desenvolvimentista anacrônico, que inevitavelmente vira um manancial de corrupção. Só que com uma diferença importante: o presidente não faz a menor questão de esconder seu pouco apreço pela democracia. Isso pode ser uma vantagem na hora de juntar forças nos próximos 10 anos de luta que dificilmente deixaremos de ter pela frente.

#BeloMonte #Xingu #MeioAmbiente #Água #Energia #CadaGotaConta #EmNomedeQuê

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Um mar de plástico

Um mar de plástico

O mar é o maior leva-e-traz. A ONU decretou que 2021 daria início à Década da Ciência Oceânica, e ele mandou logo o seu recado: no quarto dia do ano, a Praia de São Conrado, no Rio de Janeiro, foi tomada por um tsunami de plástico. As imagens ganharam o mundo e denunciaram que, mesmo que tenhamos problemas muito sérios para nos preocupar no momento – o coronavírus e as mudanças climáticas –, não podemos nos descuidar de outros tão graves quanto. Oito toneladas de plástico vão parar no oceano anualmente – o equivalente a um caminhão de lixo por minuto. Os mares absorvem 1/3 do CO₂ gerado pela atividade humana, produzem mais de 55% do oxigênio que respiramos, ajudam a equilibrar o clima e dão sustento a mais de 3 bilhões de pessoas. A vida nasceu no mar e sem mar, não há vida. E nós o estamos sufocando – e não só a ele.

Em março passado, uma baleia foi encontrada morta na costa da Escócia com 100 kg de plástico no estômago. Mas animais marinhos que morrem ao ingerir ou asfixiados pelo material são só a parte visível dessa tragédia. Uma baleia absorve a mesma quantidade de carbono que 35 mil árvores, mas somente sob o microscópio se tem a verdadeira dimensão dela. Quem faz a maior parte do trabalho são os chamados fitoplânctons, flora marinha invisível a olho nu, via fotossíntese; já microplásticos são fragmentos minúsculos produzidos na fabricação e durante a decomposição de resíduos. E, segundo um relatório da ONG Center of International Environmental Law, essas partículas podem ter entrado na cadeia alimentar desse ecossistema microscópico e vital, com consequências ainda imprevisíveis. Enquanto isso, uma pesquisa do Boston Consulting Group, da WWF e da Fundação Ellen MacArthur alerta que o volume de plástico que chega ao oceano deve triplicar nos próximos 20 anos.

O mar deu o alerta, mas o problema não é só dele. A produção mundial tem crescido – em 2020 houve um aumento excepcional, causado pela necessidade de se produzir equipamento de proteção contra a Covid-19, mas a curva já era ascendente – e apenas 9% do que sai das fábricas por ano é reciclado. Se você acordou com gosto de cabo de guarda-chuva na boca depois das festas de fim de ano, é possível que não tenha exagerado na dose: podia ter plástico na sua cerveja. Micropartículas do material já entraram para o nosso cardápio, ainda que a contragosto. Ingerimos – ou inalamos – até 120 mil fragmentos por ano. Um estudo da Universidade de Victoria, no Canadá, concluiu que, entre as substâncias analisadas, a água engarrafada, a cerveja e o ar que respiramos eram as mais contaminadas. Pesquisadores encontraram microplástico no Everest, a mais de 8 mil metros de altura. Respirar é aspirar plástico.

Até quem ainda não nasceu está sendo afetado – e não estamos nos referindo às gerações futuras. Cientistas italianos identificaram a presença de microplásticos na placenta de mulheres grávidas. Eles temem que isso possa afetar a formação do bebê. “Uma vez que o papel da placenta é crucial no desenvolvimento do feto, a presença de materiais potencialmente nocivos é um motivo de grande preocupação”, diz o relatório. As partículas encontradas podem ter vindo de cosméticos ou produtos de higiene usados pelas mulheres ou de embalagens que manusearam. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os microplásticos podem conter elementos químicos tóxicos, reter e acumular micro-organismos que causam doenças. O útero materno é o nosso oceano particular.

A parte que nos cabe: o Brasil é o maior fabricante de plástico na América Latina, com 6,67 milhões de toneladas por ano. A fatia desse montante não é reutilizada e nem recolhida, e quase 5% vai parar no Atlântico – o que dá 325 mil toneladas. Os dados são da ONG Oceana Brasil. A legislação no país é frouxa. “Fica conveniente transferir essa responsabilidade de tratamento e descarte só para o consumidor e os municípios, ignorando o fato daquilo que é colocado por toda a indústria no mercado. É preciso se voltar, também, para o início do problema, com o objetivo de reduzir a quantidade de plástico descartável produzida na fonte”, diz Lara Iwanicki, cientista da organização. não se trata de punir a indústria, mas de procurar soluções criativas. “Incentivar a criação de outras alternativas de embalagens, por exemplo, tem o poder de impulsionar inovação, criar novos mercados para soluções criativas. Tem uma economia nova atrás disso”, lembra Lara.

Nossas escolhas definem o nosso futuro.

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