Hidrovias e o futuro da credibilidade brasileira

Hidrovias e o futuro da credibilidade brasileira

Sem salvaguardas ambientais e consulta qualificada, a logística perde o que promete entregar: previsibilidade, acesso a mercados e estabilidade de longo prazo.

Por Paula Fernandes e Monica Prestes

Onde a água pulsa, pulsa a vida. Nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, o Brasil escuta o compasso do seu próprio coração. A discussão sobre hidrovias não cabe numa prancheta técnica: ela atravessa pessoas, culturas, energia e clima. Ao riscar novas rotas sobre os rios, redesenhamos futuros. E, nesse território, infraestrutura deixa de ser obra e passa a ser política pública — especialmente numa região em que a ciência já nos alerta para a proximidade de pontos de inflexão da floresta, limiares a partir dos quais o equilíbrio ecológico pode se perder de forma rápida e irreversível, com consequências profundas para o país e para o mundo.

A promessa de acelerar cargas encurta distâncias, mas também mexe nas estruturas do território: comprime ecossistemas, desloca economias locais e afeta o pulso hídrico que mantém a floresta em equilíbrio. Essa pressa se soma a um novo desenho do licenciamento ambiental: o PL 2.159/2021, aprovado entre polêmicas e vetos presidenciais, virou a Lei nº 15.190/2025 e afrouxou a guarda para unidades de conservação e direitos de comunidades tradicionais.

A ciência também diz que, se a Moratória da Soja ceder, até 10 milhões de hectares desmatados desde 2008 podem virar lavoura, dissolvendo o ganho climático atribuído ao modal hidroviário e forçando a floresta rumo a limites perigosos. A conta chega na forma de chuva rareando, agricultura instável e maior vulnerabilidade hídrica — um prejuízo silencioso que dura décadas.

E tudo isso acontece quando o planeta entra na estação da falência hídrica: lagos minguam, aquíferos baixam e zonas úmidas desaparecem. Decidir dragagens e derrocagens sem dados abertos, sem avaliação cumulativa por bacia e antes de concluir um Plano Nacional de Logística (PNL 2050) que organize prioridades é entregar o leme à correnteza justamente quando precisamos de âncora e carta náutica.

Há, também, o que não cabe em tabelas. Para os Munduruku, Arapiun, Tupinambá, Kayapó, Panará, Borari, Kumaruara, Tupaiu, Tapuia, Maytapu, Jaraky e tantos outros povos, o rio não é corredor: é casa, caminho, alimento e memória. Incorporar esse saber é reconhecer uma verdade econômica e científica: esses povos prestam serviços ecossistêmicos — protegem a água, regulam o clima, conservam a biodiversidade e mantêm cadeias de valor possíveis. Nosso maior diferencial se chama sociobiodiversidade.

Nesse mesmo compasso, a Consulta Livre, Prévia e Informada é dever e, sobretudo, inteligência institucional. A consulta bem-feita previne contenciosos, reduz incertezas e oferece algo raro em tempos turbulentos: previsibilidade.

Intervir na Amazônia, nosso grande legado dos povos ancestrais, começa por planejar: dados hidrológicos e climáticos à luz do dia, avaliação por bacia para enxergar o mosaico inteiro, decisões alinhadas a um Plano Nacional de Logística que exista como guia. Implica, ainda, aplicar o licenciamento com rigor e densidade técnica. A agilidade do novo marco só será virtude se vier acompanhada de crivo qualificado — especialmente em empreendimentos de alto impacto. A Amazônia não tolera superfícialidade; exige profundidade.

No fim, não estamos diante de progresso versus atraso, mas de responsabilidade versus improviso. A pergunta que ecoa pelo Tapajós, pelo Madeira e pelo Tocantins — e que retorna à mesa de decisões em Brasília, nos estados e nas empresas — é simples e definitiva: em nome de quem, e de quê, vamos decidir? Porque o que está em jogo não é só como chegamos mais rápido, mas quem chega junto e o que permanece de pé — e se, no futuro, ainda teremos floresta suficiente para continuar existindo.

*Paula Fernandes é diretora da Uma Gota No Oceano e Monica Prestes é jornalista correspondente na Amazônia

Os rios são artérias do planeta

Os rios são artérias do planeta

Os rios são as artérias do planeta. Sem rios saudáveis, não há futuro sustentável.

É por isso que os debates atuais sobre infraestrutura na Amazônia importam muito além do Brasil.

Por Paula Fernandes – diretora da Gota

Desde 2016, acompanho de perto a luta do povo Munduruku em defesa do seu modo de vida e de seus territórios. Desde 2018, a Uma Gota no Oceano atua diretamente com os Munduruku na campanha “Em nome de quê?”, ancorada em uma mensagem simples e profunda: os rios são as artérias do planeta. Eles precisam correr livres e saudáveis para garantir nosso modo de vida no futuro. Naquele momento, essa mensagem já era urgente. Hoje, ela é incontornável.

Essa visão está materializada no “mapa da vida” que os Munduruku construíram sobre o Tapajós: um mapeamento feito a partir de seus saberes, no qual o rio é território vivo, não linha de navegação. Ali estão locais sagrados, áreas de pesca, rotas, histórias e memórias que sustentam a vida física, cultural e espiritual de um povo. O mapa revela o que muitos projetos de infraestrutura insistem em não ver: para esses povos o rio é vida, não ativo logístico.

Ao longo desses anos, vimos as comunidades resistindo à exploração ilegal de madeira e aos impactos devastadores do garimpo. Mas algo mudou de forma decisiva: entramos na era das mudanças climáticas. Eventos extremos deixaram de ser exceção e sistemas naturais operam no limite. Isso altera completamente o contexto de qualquer decisão pública ou privada.

Nesse cenário, preocupam propostas que seguem tratando rios amazônicos como infraestrutura a ser moldada às demandas da exportação. O debate em torno do Decreto nº 12.600 é emblemático: fala-se em eficiência e modernização, mas, na prática, abrem-se caminhos para intervenções que adaptam rios vivos às demandas da economia, em vez de adaptar a economia aos limites da vida.

Esse não é apenas um debate técnico ou jurídico. É um debate sobre qual economia faz sentido num planeta em aquecimento. A IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade) aponta o ponto cego: seguimos chamando de “crescimento” processos que destroem as bases da economia: florestas, solos e água. É a contradição de um sistema que depende da natureza, mas premia sua erosão em métricas como o PIB. Como lembra Paul Polman, se uma empresa destruísse seus próprios ativos e chamasse isso de crescimento, seria má prática. É o que fazemos quando degradamos florestas, solos e água e chamamos isso de PIB.

Na Amazônia, rios garantem água potável, alimento, mobilidade, identidade cultural e regulação climática. Comprimir suas “artérias” para transformá-las em corredores logísticos compromete todas essas funções. Consulta prévia e licenciamento são essenciais, mas a pergunta é mais profunda: por que ainda tomamos decisões sem considerar impactos de médio e longo prazo em plena crise climática?

Crescimento que fragiliza os sistemas que sustentam a vida não é desenvolvimento, é aceleração do colapso. Se a economia depende da natureza, a economia precisa mudar. Proteger rios e pessoas não é entrave; é a condição de qualquer futuro viável.

Já vivemos os impactos das mudanças climáticas. A janela para agir está se fechando e as decisões que tomarmos agora definirão o mundo em que viveremos.

Que nossas escolhas honrem essa responsabilidade.

A Dança dos Signos em Ano Eleitoral

A Dança dos Signos em Ano Eleitoral

A Dança dos Signos em Ano Eleitoral

O sentido nasce onde a palavra encontra quem a lê e é dessa relação afetiva que a política se faz.

Por Paula Fernandes – diretora da Gota

Quando a floresta vira “ativo”, o rio vira “recurso” e o animal vira “proteína”, a devastação já começou. Ainda que só no discurso. Antes da motosserra, vem a palavra. Antes da erosão da terra, a erosão do sentido.

Em ano eleitoral, quem controla a linguagem sai na frente. A disputa climática de 2026 não será apenas sobre metas, políticas públicas ou promessas de campanha. Será uma disputa simbólica: sobre como nomeamos o mundo; sobre quem define o que é progresso, quem vira obstáculo e o que pode ser sacrificado em nome do “desenvolvimento”.

Para quem comunica causas socioambientais, ignorar isso é um erro estratégico.

Foi exatamente por reconhecer a centralidade dessa disputa que a Gota decidiu investir tempo, reflexão e método em um assunto frequentemente tratado de forma superficial: como os sentidos são criados, disputados e distorcidos na comunicação. Para isso, convidamos Alexandre Shirmer Kieling, pesquisador e professor de comunicação, pós-doutor pela UnB e docente da Universidade Católica de Brasília, para conduzir com nosso time de jornalistas uma conversa intitulada “A Dança dos Sentidos – O que fazemos com os signos?”.

A escolha não foi casual. Em um ambiente saturado de fórmulas prontas, slogans vazios e respostas automáticas, quisemos alguém que ajudasse a pensar, não a simplificar. Alguém capaz de conectar linguagem, política, tecnologia e imaginário social com rigor e senso de urgência.

A conversa começou com uma pergunta incômoda:

Se o que dizemos não é o que o outro entende, quem está perdendo essa disputa?

A resposta é clara: estamos todos perdendo.

Vivemos em um ambiente digital que recompensa o choque, a simplificação e a reação imediata. Algoritmos não privilegiam nuance. Plataformas não foram feitas para sustentar pensamento complexo. Em ano eleitoral, esse cenário se agrava: bolhas se fecham, posições se radicalizam e qualquer tentativa de mediação passa a ser tratada como suspeita

Mas comunicar não é gritar mais alto, é organizar sentidos.

E organizar sentidos, hoje, exige ir contra a lógica da aceleração permanente. Exige desacelerar, contextualizar e criar pontes onde o ambiente digital só oferece trincheiras.

Ao longo da aula, ficou evidente que essa disputa acontece no imaginário coletivo. É ali que se decide se povos tradicionais serão reconhecidos como guardiões do futuro ou reduzidos a estereótipos convenientes. É ali que a Amazônia pode ser entendida como território vivo ou como fronteira de exploração. É ali que o planeta pode aparecer como um sistema do qual fazemos parte ou como um estoque a ser exaurido.

Nada disso é neutro.

Nada disso é ingênuo.

Quando trocamos “vida” por “produto”, “natureza” por “recurso” e “território” por “ativo”, não estamos apenas mudando palavras. Estamos estreitando o campo do possível. Estamos treinando a sociedade para aceitar o inaceitável.

A linguagem prepara o terreno da política.

Por isso, quem comunica causas ambientais precisa assumir sua responsabilidade: cada palavra é uma escolha ética. Cada narrativa fortalece ou enfraquece determinados mundos.

No ambiente digital, essa responsabilidade cresce. O sentido não está apenas no que se diz, mas no modo como é lido – filtrado por experiências, emoções e algoritmos. Por isso, a mesma frase pode gerar empatia ou conflito, dependendo de onde e como circula.

Mediar hoje é um ato de resistência. Resistir ao ruído, à automatização do pensamento, à captura emocional permanente. A inteligência artificial pode acelerar processos, mas não substitui discernimento, escuta e responsabilidade humana.

Também não substitui os saberes que seguem vivos fora da lógica das plataformas – os saberes ancestrais, os tempos longos, os vínculos profundos com a terra. Modos de imaginar o mundo que não viralizam, mas sustentam a vida.

Atravessar 2026 vai exigir mais do que boas campanhas, mas método, intenção e posicionamento. Será preciso disposição de olhar para cada projeto e se perguntar que imaginário ele ativa? Quem deixa de fora?  Em que ponto o sentido corre o risco de ser sequestrado?

Precisaremos aprender a dançar com os signos. Não para controlá-los, mas para não sermos engolidos por eles. E, quem sabe, reconstruir os vínculos que ainda nos mantêm vivos.

Em ano eleitoral, isso não é detalhe técnico. É responsabilidade política.

O Pacto pela vida

O Pacto pela vida

É a Gota D’água: pacto pela vida 

Entre a escassez de água no mundo e a devastação da floresta, o Brasil carrega um destino inadiável: assumir a liderança ecológica que o planeta exige. 

 

Por Paula Fernandes — Diretora da Gota 

Às vezes parece que vivemos em um tempo suspenso, cheio de incertezas e rearranjos inesperados. O impasse no acordo Europa-Mercosul, as ameaças sobre a Groenlândia, os sinais de colapso climático em diferentes regiões – tudo isso compõe uma configuração instável, quase caótica, que nos obriga a repensar nosso lugar no mundo. É nesse cenário que a água e a floresta se revelam não apenas como recursos, mas como destino. 

Nesta semana, a Universidade das Nações Unidas lançou um alerta inédito: o mundo já vive um estado de “falência hídrica”. Aquíferos subterrâneos em colapso, lagos encolhendo e bilhões de pessoas sem acesso à água suficiente mostram que não estamos diante de uma crise temporária, mas de uma nova realidade. O Brasil detém cerca de 12% da água doce superficial do mundo. Grande parte dessa riqueza está concentrada na Amazônia, cuja bacia hidrográfica responde por cerca de 20% da descarga fluvial mundial — o maior fluxo de água doce do planeta. Essa abundância hídrica nos coloca entre os países mais privilegiados do mundo, com vantagem estratégica para agricultura e abastecimento urbano. Como lembra João Moreira Salles em Arrabalde, “a periferia se tornou o verdadeiro centro, e o centro, a periferia. É a Amazônia que nos põe e nos tira da cena internacional”. 

Em paralelo a esse diagnóstico global, Sergio Leitão resgata em seu artigo para o Correio Braziliense “Por um pacto político que resolva a questão fundiária na Amazônia” uma condição histórica que nos persegue: a ausência de destinação clara para terras públicas perpetua o desmatamento e compromete diretamente os sistemas naturais que regulam o ciclo da água. O que a ONU mostra como colapso planetário, Leitão revela como prática cotidiana no Brasil: a destruição da floresta e a fragilidade da governança fundiária corroem nossa capacidade de proteger o recurso mais estratégico que temos. 

Foi diante dessas preocupações que surgiu a Uma Gota no Oceano. Em 2011, lançamos a campanha Movimento Gota D’água, que denunciava os impactos socioambientais da construção da Usina de Belo Monte, símbolo da exploração desregrada dos recursos hídricos e da falta de debate público sobre seus efeitos. Em 2013, nos estruturamos como organização de comunicação estratégica voltada para questões socioambientais, incorporando em nosso trabalho o fortalecimento dos direitos dos povos tradicionais, indígenas e quilombolas, reconhecidos como guardiões mais eficientes do nosso patrimônio natural. Em 2018, lançamos a campanha Em nome de quê?, lembrando que os rios são as artérias do planeta e precisam correr livres e saudáveis para garantir nosso modo de vida. E, desde o ano passado, temos colocado o metano no centro do nosso radar, mostrando que reduzir suas emissões é a estratégia imediata mais eficaz para ganhar tempo na corrida contra as mudanças climáticas. 

Neste ano de eleições e de turbulência internacional, nosso desafio é mediar olhares e narrativas com consistência, independência e clareza, para que, em meio ao excesso de notícias e à pressão da desinformação, a sociedade perceba que a resposta está em proteger o nosso patrimônio natural e valorizar a nossa IA — Inteligência Ancestral. Por milênios, partes desta floresta vêm sendo manipuladas por mãos indígenas, em trabalhos de seleção de plantas e construção de solos férteis que revelam um conhecimento profundo das interações entre plantas, animais, fungos, micro-organismos, chuva e vento. A floresta que conhecemos hoje é fruto dessa notável inteligência ecológica. 

Permitir que a Amazônia seja degradada não seria apenas um erro político ou econômico: seria um colapso moral, uma traição ao futuro. A sabedoria dos povos indígenas e quilombolas é a nossa bússola, capaz de orientar o Brasil e o mundo em direção à sobrevivência. Nossa relevância internacional não se mede em cifras ou poder bélico, mas naquilo que nos torna singulares: a maior floresta tropical do planeta e os povos que sabem como cuidar dela. O destino nos chama: esta é a primeira, e talvez a única, oportunidade de o Brasil assumir protagonismo no avanço global rumo a uma nova economia verde. 

Lições do Rio Grande do Sul para repensar o desenvolvimento

Lições do Rio Grande do Sul para repensar o desenvolvimento

Por Sérgio Guimarães

Secretário executivo do GT Infraestrutura e Justiça Socioambiental

As recentes catástrofes no Rio Grande do Sul nos lembram brutalmente das consequências da negligência ambiental e da falta de infraestrutura adequada do nosso país. Enquanto enfrentamos esta dolorosa realidade, outro drama, por enquanto mais silencioso, mas potencialmente tão devastador, se desenrola na Amazônia e no Cerrado: o desmatamento descontrolado – que ameaça não só a biodiversidade local, a disponibilidade de água e as comunidades que delas dependem, mas também o equilíbrio climático global.

Há tempos os cientistas são unânimes em alertar que estamos nos aproximando do ponto de “não retorno” que, uma vez ultrapassado, desencadeará processos irreversíveis, comprometendo a capacidade de regeneração da floresta e intensificando eventos climáticos extremos por todo o Brasil — secas severas, inundações devastadoras, como vimos recentemente no Rio Grande do Sul, tragédias que poderiam ser mitigadas com políticas públicas mais robustas e conscientes.

Grandes projetos de infraestrutura, como rodovias e hidrelétricas, continuam entre os principais fatores que levam ao desmatamento. A história mostra que desde a construção da BR-364, que impulsionou a ocupação de Rondônia, a BR-230, conhecida como Transamazônica, até a BR-163; todas se constituíram no fator decisivo do processo de devastação na região, especialmente pela crônica falta de governança mesmo quando haviam medidas construídas coletivamente para evitar os impactos socioambientais como o plano BR-163 Sustentável que foi totalmente abandonado.

Da mesma forma, hidrelétricas como Tucuruí no rio Tocantins, Belo Monte no rio Xingu, Santo Antônio e Jirau no rio Madeira e quatro barragens construídas simultaneamente no  rio Teles Pires (afluente do Tapajós); além dos impactos diretos na floresta, na fauna aquática, no regime hídrico de grandes rios e nas comunidades ribeirinhas, também contribuem para o desmatamento, emissões de metano e outros gases de efeito estufa e para a ocupação desordenada da região, incentivando a migração para cidades que já padecem pelo déficit de infraestrutura básica.

É preciso assumir que essas atividades não estão precedidas por estudos suficientes para uma tomada de decisão com base técnica e, muitas vezes, são definidas a partir de interesses políticos e de setores econômicos diretamente envolvidos e que aprofundam o processo de desmatamento na região. Exemplos mais recentes como a Ferrogrão (um projeto de ferrovia de 933 km² de extensão, entre Sinop (MT) e Santarém (PA), hidrelétricas no Rio Madeira, hidrovia no Tocantins e a proposta de Corredores de Integração Sul-Americana também têm sido sinônimo de devastação ambiental.

Também é necessário lembrar que o Brasil foi um dos países signatários da Declaração do uso de Florestas e Terra dos Líderes de Glasgow da COP26, em 2021, que firma o compromisso total com o reflorestamento e a preservação florestal até 2030. Na COP27, no Egito, o presidente Lula reafirmou o compromisso com o acordo internacional. No entanto, as promessas ainda estão distantes da realidade no território, com isso o desmatamento avança e os impactos socioambientais se agravam.

Diante deste cenário, é imperativo intensificar e diversificar as ações para proteger a Amazônia e o Cerrado. É essencial promover um diálogo constante entre o governo, organizações da sociedade, movimentos sociais e outros atores, para criar políticas públicas eficazes e mecanismos de decisão transparentes e inclusivos.

Uma estratégia de atuação efetiva deve ter em vista a proteção da floresta, dos sistemas hídricos e, ao mesmo tempo, respeitar as comunidades e beneficiar a economia regional e a vida no planeta em termos de biodiversidade e equilíbrio climático.

É necessário ainda que as decisões sejam precedidas de estudos robustos de riscos socioambientais, viabilidade econômica, e de análises de alternativas de custo-benefício social, ambiental e econômico. Alternativas que devem considerar, prioritariamente, as necessidades de fortalecimento de uma economia regional sustentável e as necessidades das pessoas, em especial dos grupos mais vulneráveis. Também urge uma comunicação simplificada e bem direcionada, que consiga chegar nos diversos segmentos da sociedade, para que assim, a população possa contribuir com o processo de tomada de decisão.

A tragédia no Rio Grande do Sul deve servir como um alerta para todo o Brasil: é hora de repensar nossos modelos de desenvolvimento e infraestrutura. Não podemos permitir que a busca por progresso econômico imediato continue a sacrificar o meio ambiente e a segurança das atuais e futuras gerações. Agir agora é fundamental para evitar que as cenas de destruição que chocaram o país se tornem cada vez mais comuns.

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