Metano: as soluções já estão à mesa

Metano: as soluções já estão à mesa

O freio de emergência climática já está ao nosso alcance

O desafio agora é fazê-lo ganhar escala. 

Editorial

Se quisermos manter viva a possibilidade de limitar o aquecimento global a 1,5°C, não podemos ignorar o metano. Ao contrário do dióxido de carbono, que dura séculos, ele permanece menos tempo na atmosfera – cerca de 12 anos –, o que faz da sua mitigação uma das formas mais rápidas de desacelerar o aquecimento global. 

Por isso, o metano vem sendo chamado de freio de emergência climática. 

A boa notícia é que o Brasil não precisa esperar por uma tecnologia milagrosa para acioná-lo. 

Já conhecemos as principais fontes das emissões e dispomos de tecnologias, experiências e soluções capazes de gerar resultados concretos.  

É justamente isso que mostra o Caderno de Soluções para Redução das Emissões de Metano no Brasil, produzido pelo SEEG, iniciativa do Observatório do Clima, com coordenação técnica de ICLEI, IEMA, Imaflora e IPAM. 

Mais do que um diagnóstico, a publicação oferece uma agenda de ação. São 37 soluções distribuídas entre agropecuária, resíduos, energia e mudança do uso da terra, muitas delas disponíveis hoje, com benefícios que vão além da redução das emissões: aumento da produtividade, redução de desperdícios, geração de renda, melhoria da qualidade do ar e fortalecimento da resiliência dos territórios. 

Se as soluções existem, a pergunta é inevitável: por que as emissões continuam crescendo? 

Desde 2020, as emissões de metano da agropecuária aumentaram 8,2% e as de resíduos 3,1%. Juntos, esses dois setores responderam por quase 92% das emissões brasileiras em 2024. 

O mérito do Caderno é mostrar que o principal obstáculo já não está na falta de conhecimento sobre o problema. O desafio está em transformar soluções conhecidas em prática corrente. 

Nas cidades brasileiras, por exemplo, existem experiências bem-sucedidas em compostagem, captura de biogás, coleta seletiva e organização de cooperativas. Na agropecuária, há tecnologias e práticas de manejo capazes de reduzir emissões e aumentar eficiência. No setor de energia, reduzir vazamentos significa diminuir emissões e evitar perdas econômicas. Nos cenários de maior ambição apresentados pelo SEEG, soluções como essas podem contribuir para que a redução nas emissões de metano até 2035 cheguem a 28% na agropecuária, 29,3% nos resíduos, 82% em mudança de uso da terra e florestas e 93,1% na energia, em relação a 2020. 

Mas experiências bem-sucedidas nem sempre se transformam em políticas públicas, investimentos ou padrões de mercado. 

É aí que entra uma dimensão frequentemente negligenciada da ação climática: a capacidade de compartilhar conhecimento, conectar experiências e acelerar a adoção do que já funciona. 

Uma solução que dá certo em um município deveria inspirar outros. Um projeto-piloto de sucesso deveria orientar novos investimentos. Aprendizados acumulados deveriam reduzir custos, evitar erros e encurtar o caminho entre intenção e implementação. 

Nesse sentido, o Caderno cumpre um papel particularmente relevante. Ao reunir soluções, evidências e exemplos concretos, ele ajuda a reduzir a distância entre saber e fazer. E o Brasil já sabe o que precisa fazer. O que está em jogo agora é o tempo. 

Afinal, não estamos falando de um tema secundário. O metano tem potencial de aquecimento 80 vezes maior que o CO2 em um período de 20 anos e responde por cerca de um terço do aumento da temperatura global, e poucas agendas oferecem uma oportunidade tão clara de desacelerar a emergência climática no curto prazo. 

As soluções para reduzir as emissões de metano já estão à mesa. O desafio agora é criar as condições para que elas sejam adotadas na velocidade e na escala que a emergência climática exige. 

O freio de emergência climática está ao nosso alcance. Quanto mais demorarmos para acioná-lo, mais difícil e mais caro será conter o aquecimento global dentro de limites que ainda nos permitem construir um futuro seguro. A janela de oportunidade está aberta, mas não permanecerá assim por muito tempo. 

Resíduos: destruir valor ou gerar riqueza?

Resíduos: destruir valor ou gerar riqueza?

Por Suely Araújo e Victor Hugo Argentino

O Brasil produz cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mas reaproveita apenas 4,2% dos materiais que consome. Em um país que ainda desperdiça tamanho potencial econômico, faz sentido investir bilhões para queimar aquilo que poderia voltar à cadeia produtiva, gerar empregos, renda e novos negócios?

Essa é a escolha estratégica que o país começa a enfrentar na gestão de resíduos. De um lado, um modelo linear baseado na queima de resíduos para geração de energia. De outro, soluções alinhadas à economia circular, capazes de preservar recursos, reduzir emissões e transformar materiais descartados em novos ativos econômicos.

O debate ganha urgência diante do avanço dos projetos de incineração — ou recuperação energética, como são chamados os empreendimentos de tratamento térmico de resíduos — e da tramitação, no Congresso Nacional, do Projeto de Lei 3.311/2025, que cria o Programa Nacional do Metano Zero. Embora tenha como objetivo reduzir emissões de gases de efeito estufa, a proposta inclui entre suas diretrizes a recuperação energética de resíduos sólidos não recicláveis, categoria que abrange as chamadas Unidades de Recuperação Energética (UREs).

O problema é que o Brasil ainda não consegue aproveitar sequer o valor econômico dos materiais que descarta. Papel, plástico, vidro, metais e resíduos orgânicos que poderiam retornar à cadeia produtiva ou gerar novos insumos industriais acabam enterrados ou destinados a tecnologias que eliminam seu valor material.

Essa é a principal questão econômica do debate. A incineração transforma um recurso em combustível de uso único. A economia circular busca exatamente o oposto: manter materiais em circulação pelo maior tempo possível, extraindo deles sucessivas camadas de valor. Em termos econômicos, trata-se da diferença entre gerar valor uma única vez ou multiplicá-lo ao longo de sucessivos ciclos produtivos.

Há ainda um aspecto frequentemente negligenciado: o risco de travamento tecnológico. Incineradores são ativos concebidos para operar durante décadas e amortizar investimentos elevados. Quanto maior a dependência dessa infraestrutura, menor a flexibilidade para incorporar avanços tecnológicos, novas metas de reciclagem ou futuras exigências regulatórias. Em um contexto de rápida evolução da economia circular, isso pode representar custos adicionais para governos e consumidores.

A conta financeira também pesa. Dados do Instituto Pólis e da Global Alliance for Incinerator Alternatives (GAIA) indicam que os custos de capital para usinas de incineração variam entre R$ 14.500 e R$ 27 mil por quilowatt instalado, enquanto a energia solar apresenta custos entre R$ 2.500 e R$ 5 mil por quilowatt. Na prática, investimentos equivalentes em outras fontes renováveis podem gerar muito mais energia com menor custo.

A própria ONU classifica a tecnologia waste-to-energy como a alternativa mais cara entre as opções de tratamento de resíduos urbanos e destaca suas limitações diante de estratégias de redução, reutilização e reciclagem.

O custo, porém, não está apenas na construção das plantas. Está também no modelo econômico que elas criam. Incineradores dependem de um fluxo constante de resíduos para operar e, por isso, competem diretamente com cadeias de reciclagem pelos mesmos materiais. Quando municípios firmam contratos de longo prazo para abastecer fornos, reduzem os incentivos para ampliar sistemas ancorados na economia circular.

Experiências internacionais evidenciam esse risco. Na Suécia, frequentemente citada como referência na gestão de resíduos, a expansão da incineração esteve associada à estagnação das taxas de reciclagem e levou o país a importar resíduos para manter suas usinas operando. Na Noruega, o aumento da capacidade instalada coincidiu com uma década de estagnação da reciclagem e crescimento das emissões de CO₂. Nos Estados Unidos, dezenas de incineradores foram desativados nas últimas décadas, enquanto a China enfrenta problemas de sobrecapacidade e insuficiência de resíduos para alimentar suas plantas.

Os impactos sociais também entram nessa equação. Em locais onde sistemas de reciclagem dependem fortemente do trabalho dos catadores, a retirada de materiais recicláveis para abastecer incineradores pode reduzir renda, enfraquecer cadeias produtivas existentes e limitar oportunidades de inclusão social.

O Brasil possui alternativas mais alinhadas à sua vocação energética e industrial. A ampliação da reciclagem, da compostagem, da biodigestão e da produção de biogás e biometano permite reduzir emissões, gerar energia renovável e criar novas oportunidades econômicas a partir dos resíduos. Num contexto em que cadeias globais exigem cada vez mais conteúdo reciclado e menor pegada de carbono, ampliar a recuperação de materiais também significa ampliar competitividade industrial.

A União Europeia, por exemplo, vem ampliando exigências relacionadas ao conteúdo reciclado em diversos setores produtivos, enquanto investidores e empresas incorporam critérios ambientais cada vez mais rigorosos em suas cadeias de suprimento. Desperdiçar materiais recicláveis significa também abrir mão de oportunidades em mercados que tendem a valorizar cada vez mais a circularidade.

A agenda é igualmente estratégica do ponto de vista climático. O metano gerado pela decomposição de resíduos em aterros possui potencial de aquecimento cerca de 80 vezes superior ao do dióxido de carbono em um horizonte de 20 anos. Capturá-lo e transformá-lo em energia ou combustível renovável reduz emissões e substitui fontes fósseis.

Experiências brasileiras já apontam nessa direção. Projetos de compostagem, biodigestão e produção de biometano demonstram que resíduos podem deixar de ser tratados apenas como problema ambiental para se transformar em ativos econômicos. Estudos também indicam que a expansão da reciclagem, da compostagem e da inclusão produtiva dos catadores pode reduzir significativamente as emissões do setor.

O debate, portanto, não deveria se limitar à forma de eliminar aquilo que descartamos. A questão central é como recuperar o valor econômico, energético e climático dos materiais que ainda podem ser aproveitados.

A decisão não é apenas tecnológica. É uma escolha sobre como gerar valor. O Brasil pode investir recursos escassos em uma infraestrutura que depende de resíduos para sobreviver ou em uma economia circular capaz de transformar resíduos em riqueza, emprego, inovação e competitividade. Em um país que ainda recupera tão pouco do que descarta, a pergunta permanece: faz sentido gastar bilhões para queimá-los?

Suely Araújo é coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.

Victor Hugo Argentino é coordenador de Resíduos Sólidos do Instituto Pólis e membro da Aliança Resíduo Zero Brasil.

Biometano e a economia circular

Biometano e a economia circular

Biometano: energia limpa ou armadilha para a economia circular?
O desafio do biometano não é a escala. É a direção.

Com enorme potencial energético, o biometano só cumprirá sua promessa se vier acompanhado de um modelo circular que estenda os benefícios para além dos fatores energéticos e climáticos.

Por Alessandro Sanches Pereira e Victor Hugo Argentino

Segundo a Associação Brasileira de Biogás (ABiogás), os resíduos que o Brasil já produz diariamente, do esgoto das cidades aos dejetos da pecuária e às sobras da agroindústria, poderiam gerar uma quantidade de gás renovável equivalente a cerca de 70% do diesel consumido no país. No entanto, o Brasil aproveita menos de 6% do seu potencial de produção dessa fonte de energia, segundo o Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás).

Mas a expansão do biometano traz uma questão central para a transição energética brasileira: produzir mais energia não significa, automaticamente, gerar desenvolvimento nem maximizar seus benefícios climáticos e sociais.

O biogás surge da decomposição controlada de matéria orgânica. Após passar por um processo de purificação, transforma-se em biometano, um combustível com características semelhantes às do gás natural, capaz de utilizar a mesma infraestrutura e abastecer os mesmos equipamentos. Seu potencial é especialmente relevante em setores nos quais a eletrificação ainda enfrenta limitações econômicas ou tecnológicas, como o transporte pesado e alguns processos industriais.

Há também um ganho climático decisivo. Quando resíduos orgânicos se decompõem de forma descontrolada, liberam metano, um gás que aquece a atmosfera cerca de 80 vezes mais que o dióxido de carbono nos primeiros 20 anos após sua emissão. Capturar esse metano e transformá-lo em energia significa reduzir emissões, mas seu verdadeiro potencial está em combinar mitigação climática com uma gestão mais eficiente dos resíduos.

O biometano não terá o mesmo papel em todos os contextos. Ele tende a ser mais relevante onde há geração contínua de resíduos inevitáveis, alta demanda energética e poucas alternativas de descarbonização. Em outras situações, seu papel será complementar ou de transição.

A recuperação do gás de aterros, por exemplo, é necessária para reduzir as emissões de um passivo já existente, mas não pode servir de justificativa para perpetuar um modelo baseado no descarte. É mais importante evitar que os resíduos orgânicos cheguem ao aterro.

Nas cidades, a política pública deve começar pela prevenção do desperdício, pela separação dos resíduos na origem e pela recuperação dos recicláveis. Para a fração orgânica, compostagem e biodigestão podem atuar de forma complementar, conforme a infraestrutura disponível e as características locais. O biometano urbano fortalece a economia circular quando integra essa lógica. Se sua viabilidade depender da manutenção de grandes volumes de resíduos enviados aos aterros, passa a competir com estratégias mais vantajosas, como a redução da geração de resíduos, a reciclagem de nutrientes e soluções descentralizadas de tratamento. O resultado pode ser o travamento do avanço de sistemas mais circulares e com maiores cobenefícios, como geração de emprego, recuperação de solos e menor demanda de transporte.

No campo, os critérios também precisam ser claros. A prioridade deve recair sobre dejetos animais, efluentes e resíduos inevitáveis da agroindústria. Culturas energéticas dedicadas não podem competir com a produção de alimentos, pressionar o uso da terra ou incentivar a conversão de vegetação nativa.

São Paulo exemplifica tanto a oportunidade quanto a necessidade de planejamento. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) estima que 181 plantas podem entrar em operação no curto prazo para atender parcela relevante do consumo estadual de gás natural ou diesel. O estado reúne condições para liderar uma nova fronteira energética baseada em aproveitamento sustentável de resíduos.

Mas esse potencial só se concretizará com planejamento capaz de definir, em cada território, onde instalar as plantas, quais resíduos utilizar e quem consumirá o combustível. Assim, evita-se reproduzir problemas relacionados ao uso da terra e à destinação de resíduos.

Os instrumentos regulatórios e os incentivos econômicos precisam evoluir para considerar o desempenho climático dos projetos. A redução de emissões deve ser comprovada ao longo de toda a cadeia, da origem da matéria-prima ao destino do digestato; sem esse critério, corre-se o risco de remunerar apenas o volume produzido, sem garantir uma redução efetiva das emissões.

Esse debate é especialmente relevante para o Sul Global, onde a crescente discussão sobre energia a partir de resíduos tem levado cidades a projetos de recuperação energética e incineração, soluções que podem comprometer o avanço da coleta seletiva, da reciclagem e de estratégias mais alinhadas à economia circular.

O biometano tem o potencial de ser a rota de aproveitamento energético complementar a um modelo circular.

O valor do biometano não está apenas na substituição do gás fóssil. Quando bem planejado, ele pode combinar saneamento, gestão de resíduos, mitigação de metano, produção de biofertilizantes, segurança energética, segurança alimentar, geração de renda e desenvolvimento local. Mas isso exige modelos compatíveis com realidades marcadas por limitações institucionais, financeiras e de infraestrutura.

Em última instância, o debate sobre o biometano é um debate sobre o modelo de desenvolvimento que queremos construir. O desafio é garantir que a descarbonização não reproduza, sob a etiqueta de “CO2 neutro”, as mesmas lógicas lineares e exploratórias que estão na origem da crise ambiental.

Alessandro Sanches Pereira é diretor-executivo do Instituto 17 e membro do Conselho de Engenheiros para a Transição Energética do Secretário-Geral das Nações Unidas.

Victor Hugo Argentino é coordenador de Resíduos Sólidos do Instituto Pólis e membro da Aliança Resíduo Zero Brasil.

Banquete e jejum

Banquete e jejum

Quando a água deixa de seguir os ciclos que organizavam a vida humana 

Editorial

Durante muito tempo, povos indígenas, quilombolas, populações rurais e sociedades urbanas organizaram suas vidas a partir da observação dos ciclos da natureza. O tempo de plantar. A época da colheita. Antes de qualquer boletim meteorológico, havia o céu, os ventos e os sinais da terra. Esse conhecimento não eliminava as incertezas do clima, mas oferecia referências para tomar decisões. E funcionava. 

Na Índia, essa relação entre natureza e organização da vida tem um nome mais preciso: a monção de verão. Durante séculos, ela chegava em junho e recuava a partir de setembro. Mais do que chuva, organizava a agricultura, o comércio e a vida de um país inteiro. Cerca de metade das áreas agrícolas indianas ainda depende diretamente de suas águas. A revista The Economist observa que essa lógica está mudando. Não porque a monção tenha desaparecido, mas porque seus ciclos passaram a alternar extremos: momentos em que a água chega de uma só vez, em volume que os solos e as cidades não conseguem absorver, e longos períodos de estiagem. A água continua chegando, mas já não chega quando e como se espera. 

No outro extremo do planeta, a Inglaterra enfrenta um problema aparentemente oposto. Pela segunda vez consecutiva, metade do país entrou em seca severa. Em texto recente, o jornal britânico The Guardian sustenta que a crise hídrica também revela escolhas políticas: ao longo de anos, a privatização do setor permitiu a distribuição de bilhões em lucros enquanto redes, reservatórios e sistemas de tratamento envelheciam sem os investimentos necessários. A seca não foi criada pela privatização, mas expôs os limites de um modelo que adiou investimentos essenciais. Quando um recurso indispensável passa a depender de decisões orientadas pelo curto prazo, a adaptação às mudanças climáticas tende a chegar tarde demais. 

À primeira vista, Índia e Inglaterra parecem viver crises opostas. Uma tem água demais; a outra, de menos. Mas ambas contam a mesma história: perderam a previsibilidade. 

Essa discussão também precisa ganhar centralidade no debate brasileiro. O novo marco legal do saneamento colocou no centro da agenda a expansão da cobertura e a atração de investimentos privados. É uma discussão importante. Mas a crise climática exige acrescentar outra pergunta: esses investimentos estão sendo planejados para um país cujo regime de chuvas será diferente daquele que orientou a construção de nossas cidades? Universalizar o acesso é necessário. Adaptar essa infraestrutura a um clima menos previsível é o desafio que se impõe agora. 

Durante muito tempo, eventos extremos foram percebidos como tragédias localizadas ou problemas do futuro. Hoje, já interferem na vida cotidiana de milhões de pessoas. Interrompem o abastecimento de água, fecham estradas, pressionam o preço dos alimentos, afetam a geração de energia, agravam riscos à saúde pública e produzem impactos econômicos em cadeia. A crise climática deixou de ser uma preocupação exclusivamente ambiental para se tornar uma experiência concreta da vida contemporânea. 

O Brasil é um país de abundância hídrica. Concentramos cerca de 12% da água doce superficial do planeta e abrigamos algumas das maiores reservas de água doce do mundo. Porém, abundância nunca significou segurança. O Rio Grande do Sul alterna enchentes históricas e estiagens prolongadas. Na Amazônia, onde o ciclo anual das águas sempre organizou a vida, a navegação, a construção das casas e o calendário das comunidades, secas inéditas mostram que até essa regularidade deixou de ser previsível. No Semiárido, agricultores acostumados a ler o céu já não reconhecem seus sinais. 

Graciliano Ramos, em Vidas Secas, mostrou que a seca nunca foi apenas um fenômeno natural: ela revela desigualdades e limita escolhas. Quase 90 anos depois, o desafio parece outro. Não é apenas conviver com a seca ou com as enchentes, mas com um clima que deixou de respeitar seus próprios ritmos. 

A crise climática está rompendo o acordo que, durante gerações, sustentou nossa relação com a água. Construímos cidades, sistemas de abastecimento, plantações e economias supondo que os ciclos do passado continuariam a orientar o futuro. Esse pressuposto já não se sustenta. 

Em alguns lugares, a água desaparece. Em outros, chega de uma vez, destrói e vai embora. O problema não é apenas a escassez ou o excesso. É a perda da previsibilidade que permitia às sociedades se preparar, planejar e prosperar. 

Banquete e jejum. E, entre um extremo e outro, a difícil tarefa de aprender a viver num mundo em que a água continua presente, mas já não segue os ciclos que conhecíamos. 

O arroz e a crise climática

O arroz e a crise climática

 O que o arroz pode nos ensinar sobre a crise climática 

Editorial

Há uma silenciosa ironia no fato de que um dos alimentos mais essenciais da humanidade também esteja no centro de um dos maiores desafios do nosso tempo. O arroz, presença quase diária em nossas refeições, parece apenas um hábito. O problema não está no grão, mas no cultivo: os solos alagados impedem a entrada de oxigênio no solo, e é nessa decomposição que o metano é liberado. Esse gás responde por cerca de um terço do aquecimento global. Parte desse desafio passa, literalmente, pelo prato de quem lê este texto. 

Essa relação entre o arroz e a crise climática não se resume às emissões. Em 2024, as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% da produção nacional de arroz, nos forçaram a olhar para esse estado. Aquela tragédia também revelou outro desafio: proteger a produção de um alimento que sustenta mais da metade da população mundial. Isso significa ir além de produzir arroz apesar da crise climática. Significa produzir melhor: com mais resiliência, menos emissões e maior segurança alimentar. 

A urgência desse debate não terminou com as enchentes de 2024. Dois anos depois, enquanto este texto é escrito, o estado enfrenta novas enchentes. Milhares de pessoas fora de casa, municípios em alerta, os rios transbordando outra vez.  

Paralelamente à tragédia, há quem trabalhe para evitar que o futuro repita o passado. Pesquisadores e agricultores gaúchos têm buscado transformar as lições da crise em soluções para uma produção de arroz mais resiliente e com menor emissão. Esse esforço, começou muito antes das enchentes: nas últimas quatro décadas, a intensidade das emissões da rizicultura gaúcha caiu de 84 para 37 quilos de metano por tonelada de arroz produzida. 

As enchentes ocupam as manchetes com razão, mas as soluções para reduzir emissões raramente permanecem no debate público. E elas já mostram resultados. Em 2024, o Brasil colheu 12,8 milhões de toneladas de arroz, a quarta maior safra da história. Segundo o Imaflora, se as boas práticas consolidadas no Sul fossem levadas ao resto do país, poderíamos deixar de emitir cerca de 300 mil toneladas de metano até 2035, sem perder produtividade. Um dos exemplos mais emblemáticos dessa transformação também está no Rio Grande do Sul. 

No assentamento Filhos de Sepé, localizado em uma Área de Proteção Ambiental do Banhado Grande, famílias organizadas em cooperativas cultivam 1.600 hectares de arroz orgânico. É hoje a maior área contínua de produção de arroz orgânico da América Latina. 

As soluções existem. Entre os vídeos que seguem, do painel “Menos Metano, Mais Futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz”, realizado durante a 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, está a voz de quem pesquisa o solo, de quem produz, organiza comunidades inteiras em torno da terra, e de quem traduz tudo isso em dados. São vozes de dentro do IRGA (Instituto Rio Grandense de Arroz), do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra), três formas diferentes de mostrar que é possível produzir arroz, alimentando mais da metade da população mundial, com menos metano, mais renda, justiça social e resiliência climática. 

Acompanhe trecho da fala da painelista Mara Grohs, pesquisadora do IRGA, durante gravação do painel da Uma Gota no Oceano “Menos Metano, Mais Futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz”, na 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre. 

Para acompanhar outros cortes do painel, além da discussão na íntegra, acesse o canal do Youtube da Uma Gota no Oceano 

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