maio 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, COP30, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política, poluição
A commodity climática que o Brasil insiste em chamar de lixo
O país que discute transição energética ainda enterra uma de suas fontes mais acessíveis de energia
O El Niño que se aproxima não encontra o mesmo planeta de décadas atrás. Encontra oceanos mais quentes, eventos extremos mais frequentes e cidades cada vez mais expostas a enchentes, secas e colapsos urbanos. A Ásia já sente esses impactos, e o Brasil, como tantas vezes, parece disposto a esperar para sentir também.
Nesse cenário, chama atenção a forma como seguimos tratando um dos elementos mais decisivos da crise climática. O Brasil é hoje o quinto maior emissor de metano do mundo, e os resíduos já representam sua segunda maior fonte de emissão. O país gera cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mas reaproveita apenas 1,3% dos materiais que consome, segundo o Circularity Gap Report 2026. Ainda assim, o tema permanece à margem do debate público, como se fosse um detalhe técnico e não uma escolha estrutural.
Talvez o problema comece na forma como enxergamos — e nomeamos — aquilo que produzimos todos os dias. No Brasil, o metano nasce majoritariamente do lixo, e o lixo continua sendo tratado como destino final, não como recurso. Seguimos operando sob uma lógica que atravessou décadas quase intacta: produzir, consumir, descartar e enterrar. Enquanto isso, cerca de três mil lixões permanecem ativos no país, como um lembrete silencioso de que diferentes tempos convivem no mesmo território.
Mas o que insistimos em enterrar não desaparece, apenas muda de forma. Vira metano, vira calor, vira pressão sobre cidades que já operam no limite. E vira também algo que ainda não reconhecemos como deveria: energia. O gás gerado pela decomposição dos resíduos poderia ser capturado e transformado em biogás e biometano, capazes de gerar eletricidade, substituir combustíveis fósseis e abastecer cadeias urbanas. Mais do que isso, poderia chegar onde a rede ainda é precária, irregular ou simplesmente ausente, ampliando o acesso à energia e criando novas dinâmicas econômicas locais.
Em um país continental como o Brasil, isso ganha outra escala. Na Amazônia Legal, por exemplo, quase 3 milhões de pessoas ainda dependem de combustíveis fósseis para ter acesso à energia, segundo dados consolidados pela rede Uma Concertação pela Amazônia e pelo IEMA, com base em informações da Empresa de Pesquisa Energética. Nesse contexto, transformar resíduos em biometano deixa de ser apenas uma agenda climática e passa a ser também uma estratégia concreta de democratização energética.
Não se trata de uma promessa distante, mas de uma possibilidade real, que já começa a aparecer em iniciativas pontuais, ainda insuficientes para alterar o sistema. E talvez esteja aí o ponto central: o que falta não é tecnologia, nem conhecimento, nem sequer financiamento disponível. Falta tratar resíduos como parte da infraestrutura energética do país e não apenas como algo a ser retirado do campo de visão.
Há, aliás, algo de revelador na facilidade com que seguimos enterrando. Porque enterrar ainda é mais simples, mais imediato e, muitas vezes, mais barato do que transformar. O custo real dessa escolha, no entanto, apenas muda de lugar: reaparece sob a forma de enchentes, doenças, perda de produtividade e pressão sobre o gasto público. A má gestão de resíduos custa ao Brasil cerca de R$ 97 bilhões por ano, considerando impactos ambientais, climáticos e de saúde pública, segundo levantamento da consultoria S2F Partners com base em metodologia do PNUMA. O país esconde o problema no solo e redistribui suas consequências na superfície.
Nesse contexto, a diferença entre lixo e commodity não é técnica, mas política. Nenhum recurso nasce pronto; ele se torna estratégico quando há infraestrutura, regulação e investimento. Foi assim com o petróleo, com o etanol e com tantos outros setores que estruturam a economia brasileira. O lixo continua sendo tratado como lixo porque ainda não decidimos tratá-lo de outra forma.
Enquanto isso, o mundo começa, ainda que de forma desigual, a reposicionar os resíduos dentro de suas estratégias energéticas. Países como Suécia, Holanda e Dinamarca já operam sistemas capazes de transformar lixo em eletricidade, aquecimento urbano e insumos industriais. A Suécia desvia cerca de 99% dos resíduos dos aterros, e chegou a importar 3,86 milhões de toneladas de lixo de outros países em 2024 para abastecer suas usinas. O que antes era passivo passa a ser ativo; o que era problema passa a ser insumo. No Brasil, seguimos em outra etapa — uma etapa em que a transição energética convive, sem muito constrangimento, com a prática de enterrar uma fonte energética já disponível e distribuída pelo território.
Talvez por isso o metano revele tanto sobre o momento atual. Poucas agendas são ao mesmo tempo tão urgentes e tão viáveis. Reduzir suas emissões produz efeito climático no curto prazo, e fazê-lo a partir dos resíduos permite, simultaneamente, gerar energia, renda e inclusão.
A enorme quantidade de lixo produzida diariamente no Brasil não pode mais ser vista apenas como um passivo a ser administrado. Ela precisa ser reconhecida como aquilo que já é: um ativo com potencial energético relevante, capaz de reduzir emissões agora e ampliar o acesso à energia — especialmente para quem ainda vive fora ou à margem do sistema.
E, no fundo, talvez este seja o ponto de convergência que ainda tratamos como exceção: usar tecnologia para enfrentar desafios climáticos enquanto colocamos o bem-estar das pessoas no centro não é uma contradição — é justamente a síntese do que se convencionou chamar de Sociedade 5.0. Traduzir essa ideia em prática, no caso brasileiro, pode começar por algo menos abstrato do que parece: parar de tratar o lixo como fim e começar a reconhecê-lo como parte da infraestrutura energética do país.
Para aprofundar esse debate, o tema estará no centro do Fórum Freio de Emergência Climática, no próximo dia 3 de junho, durante a Rio Nature & Climate Week.
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O lixo nosso de cada dia: futuro dos resíduos não está nas chaminés
Por Victor H. Argentino de M. Vieira, Coordenador de Resíduos Sólidos no Instituto Pólis e Rafael Eudes, assessor da área de Resíduos Sólidos no Pólis
Proibir incineração é passo essencial para transformar cidades em espaços de economia circular e justiça ambiental. Florianópolis, reconhecida pela ONU como exemplo, mostra que coleta seletiva, compostagem e educação ambiental são caminhos a serem seguidos.
O Plano Nacional de Resíduos Sólidos, instituído em 2022, prevê a eliminação dos lixões e o aumento da reciclagem no Brasil. No entanto, mais de 3 mil depósitos de lixo a céu aberto continuam ativos e, ao mesmo tempo em que o chorume se infiltra no solo, podendo alcançar lençóis freáticos e cursos d’água, a decomposição da matéria orgânica libera metano (CH4) para a atmosfera, um gás de efeito estufa responsável por cerca de um terço do aquecimento global.
Dados do relatório de 2025 do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) mostram que em 2024 o país gerou mais de 88 milhões de toneladas de resíduos sólidos. Do total coletado, 26% tiveram como destino lixões a céu aberto ou aterros controlados que não impermeabilizam o solo para evitar o vazamento do chorume. Se por um lado é flagrante o risco de comprometer a água que abastece inúmeras comunidades, os satélites do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) também detectaram que as emissões resultantes dos resíduos respondem por cerca de 15% do metano emitido pelo Brasil.
Recentemente, a ONU homenageou 20 cidades do mundo que implementaram soluções alinhadas ao conceito de resíduo zero. A única escolhida na América Latina foi Florianópolis, pioneira ao assumir, por lei, o compromisso de alcançar lixo zero até 2030. Nada feito por meio de soluções mágicas, mas por compromissos claros com a economia circular.
Em um momento em que o Brasil tem sido palco para um intenso debate sobre tecnologias de incineração de resíduos, promovidas por meio de Usinas de Recuperação Energética (UREs), Florianópolis aponta outro caminho: o futuro está na redução da geração, na coleta seletiva, na reciclagem e na compostagem. A cidade desviou 14% dos resíduos orgânicos dos aterros; aumentou a compostagem de alimentos de 1.175 toneladas, em 2020, para 6.002 toneladas no ano passado; e cerca de 200 famílias garantem renda através da triagem de recicláveis. O compromisso com a economia circular se consolidou na Lei Municipal nº 10.574, que proíbe o envio de resíduos a aterros sanitários e à incineração, priorizando a reciclagem e a compostagem como destinos ambientalmente adequados.
Enquanto algumas cidades voltam a considerar, sob novas narrativas, a queima de resíduos como resposta rápida ao fechamento de lixões e à escassez de aterros, vale lembrar que a incineração carrega um histórico conhecido de impactos ambientais e à saúde. Em São Paulo, por quatro décadas, três incineradores anunciados como tecnologia de “última geração”, importados da Alemanha, operaram emitindo substâncias cancerígenas e desreguladores endócrinos sem controle ou monitoramento adequados. O legado não foi a solução da gestão de resíduos, mas impactos ambientais e sociais duradouros, frequentemente esquecidos quando o discurso da “energia a partir do lixo” retorna com verniz de modernidade.
Mesmo nos chamados “melhores padrões mundiais”, a incineração segue levantando alertas – inclusive pela própria ONU, que chama a atenção para a falta de fiscalização adequada e controle efetivo das emissões das UREs nos países em desenvolvimento. Monitoramentos conduzidos pela Zero Waste Europe e ToxicWatch indicam que países notórios pelo controle ambiental, como a França, registram emissões de poluentes orgânicos persistentes acima de níveis considerados seguros e 407 cidades receberam comunicados para evitar o consumo de ovos locais devido à contaminação por dioxinas, substâncias cancerígenas associadas à operação de incineradoras.
Dados econômicos também evidenciam que há alternativas mais vantajosas à incineração, cujo custo de implantação pode ser até oito vezes maior que o da energia solar fotovoltaica, com eficiência elétrica limitada a 20%–25%. Na Europa, a experiência revelou outro impasse: a Suécia importa resíduos para manter incineradores ativos, e a União Europeia passou a priorizar a reciclagem através de mudanças nas suas legislações e programas de financiamento público.
O contraste entre os caminhos é evidente: de um lado, políticas públicas que apostam em ciclos regenerativos, inclusão social e fortalecimento de economias locais – reduzir, reutilizar e reciclar-, de outro, modelos caros, poluentes e insustentáveis, que não enfrentam a raiz do problema e apenas o transformam em cinzas, gases e passivos ambientais. Florianópolis mostra que o futuro se constrói com inteligência e cuidado, e não nas chaminés do passado.
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Antes de 1992, quando o Rio de Janeiro sediou a RIO-92 e colocou o planeta numa mesma sala para discutir o que ainda chamávamos de “futuro”, o Brasil já era uma encruzilhada de destinos. Somos o país que abriga a maior biodiversidade terrestre do mundo: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal, Pampa. Biomas que não são paisagens, são reguladores do clima global, reservatórios de vida e de tempo. E mais: estamos atrás apenas da China em reservas de terras raras. No século XXI, o olhar do mundo pousa sobre nós.
Mas o Brasil que pode liderar não se resume ao PIB do agronegócio ou ao portfólio de biocombustíveis e alternativas energéticas. É também, e sobretudo, o dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, que há séculos manejam territórios que a ciência agora corre para compreender. Cerca de 20% do território nacional sob gestão indígena apresenta índices de desmatamento significativamente menores do que áreas desprotegidas. Não por acaso, mas por conhecimento acumulado, transmitido e vivido. Ignorá-los na arquitetura das soluções climáticas não é apenas injusto, é ineficiente.
Mais de três décadas depois da RIO-92 e vinte anos após a Rio+20, marcos que inauguraram a gramática da diplomacia climática moderna, o Rio de Janeiro volta a ser palco do debate sobre o futuro do planeta. Entre 1º e 6 de junho, a Rio Nature and Climate Week recoloca a cidade no centro das decisões que moldam o amanhã. No dia 3, a Uma Gota no Oceano, em parceria com o Global Methane Hub e a Presidência da COP30, realiza o Fórum Metano: Freio de Emergência Climática, um espaço onde o invisível ganha nome, dado e urgência.
O metano (CH₄) atravessa tudo. Dialoga com a gestão de resíduos, que pode ser reinventada; com a agropecuária, que pode produzir mais emitindo menos; com a energia, que pode ser mais limpa e eficiente. Responsável por cerca de 30% do aquecimento global desde a Revolução Industrial e com um potencial de aquecimento mais de 80 vezes superior ao CO₂ em 20 anos, ele tem uma característica decisiva: pode ser reduzido agora. Diferente do carbono, que permanece por séculos na atmosfera, o metano se dissipa em pouco mais de uma década. Cortar suas emissões é a ação climática mais rápida, mais justa e com melhor custo-benefício disponível. E o Brasil – quinto maior emissor global de CH₄, com 21,1 milhões de toneladas em 2023 – ocupa um lugar onde responsabilidade e oportunidade são equivalentes.
A agropecuária responde por cerca de 75% das emissões nacionais de metano e pode reduzir até 28% até 2035 com tecnologias já disponíveis. O setor de resíduos, responsável por 16%, tem potencial de redução de 36% até 2030 por meio de políticas estruturantes que também geram emprego, renda e dignidade, especialmente para os catadores, agentes climáticos que o país ainda insiste em subestimar. Estão previstos R$ 6,4 bilhões em investimentos em biometano até 2030. Os números são claros: a transição não é sacrifício. É projeto de país.
Mas essa transição não acontece por inércia nem por um setor isolado. O poder público precisa transformar marcos legais em orçamento e política territorial. A iniciativa privada precisa ir além do greenwashing e assumir metas mensuráveis, auditáveis, conectadas a toda a cadeia produtiva. E o terceiro setor, sem tutela e sem ingenuidade, é o elo que traduz ciência em ação e ação em escala. Quando esses três vetores convergem, o Brasil deixa de prometer liderança e começa a exercê-la.
Há, ainda, uma assimetria que o debate climático reluta em nomear: o que é dito em Berlim, Londres ou Washington chega com peso institucional; o que emerge de Belém, Salvador ou Manaus precisa disputar legitimidade, palavra por palavra. A Rio Nature and Climate Week é também uma resposta a essa hierarquia.
O Sul Global não precisa de tradução para nomear o que vive. E, num momento em que o multilateralismo é sistematicamente tensionado e acordos voluntários como o Global Methane Pledge, assinado por mais de 150 países na COP26, ainda carecem de mecanismos robustos de responsabilização. O Brasil pode ser a voz que reorganiza o debate. Não por altruísmo, mas por posição: nossa sociobiodiversidade, nossa escala territorial e nossa capacidade de articular ciência, povo e política nos colocam em um lugar que nenhum outro país ocupa.
O Fórum Metano: Freio de Emergência Climática não é apenas um evento. É o ponto em que governo, mercado e sociedade civil deixam de discutir os limites do problema e passam a assumir, de forma compartilhada, a responsabilidade pela solução.
O Brasil carrega, há décadas, os elementos centrais dessa resposta: território, biodiversidade, ciência e saberes que atravessam gerações. Não se trata mais de reconhecer esse potencial, mas de decidir o que fazer com ele.
Em junho, o Rio de Janeiro volta ao centro desse movimento, não como memória de um passado diplomático, mas como espaço de definição sobre o futuro que o país está disposto a liderar.
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Terminou na noite de quarta-feira (29), em Santa Marta, na Colômbia, a 1ª Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, que reuniu representantes da sociedade civil e de governos de 57 países. O próximo encontro está marcado para o ano que vem, em Tuvalu, um pequeno país insular na Polinésia que corre o risco de desaparecer em decorrência das mudanças climáticas: o aumento do nível do mar pode fazer a nação submergir em cerca de 25 anos, caso não consigamos frear o aquecimento global.
Enquanto em Santa Marta cientistas, povos tradicionais, ambientalistas e autoridades discutiam os caminhos para abandonar o petróleo, o carvão e o gás natural — principais responsáveis pelas mudanças climáticas —, a guerra no Irã escancarava para o mundo as implicações dessa dependência. Para Romina Picolotti, presidente do Centro para os Direitos Humanos e o Meio Ambiente (CEDHA) e diretora de política climática do Instituto para Governança e Desenvolvimento Sustentável Institute for Governance & Sustainable Development (IGSD)a atual crise dos combustíveis recoloca a segurança energética no centro do debate global e expõe, mais uma vez, a instabilidade de um modelo de geração de energia baseado em fósseis.
Nesse contexto, segundo Romina, a discussão sobre transição energética avança também sob um novo ângulo: o jurídico. No ano passado, tribunais internacionais deixaram claro que os Estados têm a obrigação legal de lidar de forma eficaz com a emergência climática — e que a omissão constitui uma violação do direito internacional. Pareceres da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e da Corte Internacional de Justiça (CIJ) estabeleceram que o dever de proteger o clima não depende apenas da adesão a tratados, e abriram caminho para que países sejam responsabilizados mesmo fora de compromissos formais. Na prática, isso significa que mesmo aqueles que optem por não aderir a acordos específicos — como o Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis, centro dos debates em Santa Marta — podem ser punidos por ações ou omissões que agravem a crise climática e violem direitos fundamentais.
Ex-ministra do Meio Ambiente da Argentina, Romina foi uma das principais articuladoras da aceleração da eliminação dos HCFCs no âmbito do Protocolo de Montreal, liderando, em 2007, uma coalizão que antecipou em uma década o phase-outdesses gases — uma das medidas climáticas mais eficazes já adotadas, ao evitar emissões equivalentes a bilhões de toneladas de CO₂. No campo jurídico, ela foi pioneira ao conectar degradação ambiental a violações de direitos fundamentais por meio do CEDHA. Atuou ainda em casos emblemáticos como o da Comunidade Awas Tingni vs. Nicarágua, na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), no qual contribuiu para firmar o entendimento de que a degradação ambiental pode violar direitos como a vida e a identidade cultural, além de consolidar o dever de consulta prévia aos povos indígenas, e também liderou o caso do Rio Suquía, na Argentina, que levou ao reconhecimento da omissão estatal em saneamento como violação de direitos.
Na questão energética o timing é decisivo, diz Romina. Após a COP30 frustrar expectativas ao não incluir a transição para longe dos fósseis em seu documento final, o debate multilateral em Santa Marta foi estratégico, aponta. “A soberania nacional, nesse novo cenário, deixa de funcionar como escudo para a inação”, explica.
“Esse dever não é abstrato. Requer ações concretas: roteiros críveis e com prazos definidos para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e o fim imediato do desperdício de gás por meio de reduções drásticas nas emissões de metano.”
Conhecido como o “freio de emergência climático”, o metano é um superpoluente com potencial de aquecimento 80 vezes maior que o do CO₂ em um período de 20 anos e responde, sozinho, por um terço do aquecimento global desde a Revolução Industrial. Ao mesmo tempo, por ser um gás de “vida curta” na atmosfera — cerca de 12 anos, frente a séculos do dióxido de carbono —, sua mitigação é considerada pela ciência a estratégia mais rápida para desacelerar o aquecimento global ainda na próxima década.
“A ciência é inequívoca: reduzir as emissões de metano é a alavanca mais rápida e eficaz que temos para desacelerar o aquecimento global no curto prazo. Nesse contexto, Santa Marta foi um passo importante para o cumprimento do direito internacional”, afirma Romina, que também desempenhou papel fundamental na aprovação da primeira Lei de Proteção de Geleiras do mundo.
fevereiro 2024 | Direitos indígenas, Marco Temporal, Povos indígenas, Povos Tradicionais, Quilombola
Se é verdade que o ano no Brasil só começa depois do Carnaval, ainda bem que este caiu no início de fevereiro, pois temos muito a fazer. O bloco da Bancada do Fim do Mundo não está nem aí para estourar o tempo do desfile – leia-se o prazo para tomarmos medidas definitivas contra o avanço das mudanças climáticas e o ponto de não retorno da Amazônia –, como se não houvesse amanhã. Fora que o seu repertório parece inesgotável, embora seja só variações sobre os mesmos temas. E aqui estamos nós, com 30 anos de atraso – a Constituição diz que todas as terras indígenas deveriam estar demarcadas até 1993, bem como determinou a titulação dos quilombos –, falando de “marco temporal”. Um enredo do século passado.A Unidos do Ruralismo tem em mãos uma ala quase imbatível, a maioria do Congresso mais antivida que já tivemos. Em 21 de setembro de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu, por nove votos a dois, a inconstitucionalidade da tese, que põe barreiras quase intransponíveis para que novos territórios originários sejam homologados – e ainda ameaça muitos já demarcados. A despeito de a maior Corte do país considerá-la inconstitucional, os ruralistas aprovaram, ainda em setembro, o PL 2.903/2023, que institui o marco temporal.
O projeto foi vetado pelo presidente Lula em outubro, mas os congressistas derrubaram o veto. Seu nome agora é Lei 14.701/2023. Coube a uma deputada federal indígena liderar uma nova luta no Supremo, agora pela inconstitucionalidade da lei. Inacreditavelmente, o judiciário terá que julgar novamente um caso que já deu por resolvido. Anotem na agenda: o STF julga este ano duas Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) e enfrenta a pressão dos lobbies do agronegócio e da mineração. O relator será Gilmar Mendes.
Também dormita na Câmara o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 177/2021, cujo objetivo é retirar o Brasil da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Na prática, ela liberaria geral a mineração, o agronegócio e a construção de obras de impacto em terras indígenas. Ou seja, mais do mesmo. A Escola de Samba Salgueiro levou à avenida o enredo Hutukara, que conta a história da luta Yanomami. Sim, luta. O próprio Davi Kopenawa, uma de suas mais proeminentes lideranças, pediu que a escola não tratasse os Yanomami como coitadinhos e, sim, como são de fato: guerreiros. A invasão de sua terra por garimpeiros remonta aos anos 1980, mas eles vêm resistindo bravamente.
Só que já passou da hora de encontrar uma solução rápida e definitiva. No início do ano, o governo federal anunciou que vai investir R$ 1,2 bilhão numa operação permanente contra o garimpo ilegal. É preciso que os povos indígenas participem da coordenação dessas ações e fiscalizem para onde vai esse dinheiro. Sabe-se que membros das Forças Armadas que têm simpatia pelo garimpo sabotaram missões no território – isso sem contar os políticos da região, que têm políticas francamente anti-indígenas. É agente da “abin paralela” pra todo lado.
Os garimpeiros não trabalham para si próprios, mas para muitos dos ocupantes das cadeiras do Congresso ou empresários que os apoiam financeiramente – e este ano tem eleições municipais. É preciso escolher candidatos comprometidos com a defesa da vida e ficar nos seus pés depois de eleitos. Cada anúncio de obra do PAC na Amazônia merece atenção redobrada. Uma estrada asfaltada, hidrovias, pistas de pouso e ferrovias serviriam para facilitar a vida dos invasores e para desviar dinheiro que poderia desenvolver a bioeconomia e ações de conservação. Tapetes vermelhos para o crime por cima do verde.
Outro desafio que não pode esperar mais um Carnaval é o desmatamento no Cerrado. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), enquanto houve uma redução de 50% do desmatamento na Amazônia, no segundo maior bioma do Brasil ele cresceu 43%. Foram abaixo 7,8 mil km² de vegetação nativa em 2023. Não tem tanto segredo porque a causa é basicamente uma: o avanço sem trégua do monopólio da soja.
A solução mais prática e óbvia nos leva ao início do artigo: o aumento de áreas protegidas. A Amazônia tem mais de 40% de seu território coberto, enquanto no Cerrado essa proporção fica entre 12% e 14%. É preciso demarcar mais terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação. E, claro, cortar os subsídios dos desmatadores. A marchinha favorita dessa turma é “Me dá um dinheiro aí”.
Como diz o pensador acadêmico da ABL Ailton Krenak, “até quando as pessoas vão ficar olhando o povo indígena defender sozinho a floresta?”. O escritor também disse que não quer “salvar os indígenas, mas evitar a extinção da espécie humana”. Tem enredo melhor que esse? É hora de a sociedade civil puxar esse samba.
Saiba mais:
ACNUDH manifesta-se contra retirada do Brasil da Convenção 169 da OIT
https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm/noticias/acnudh-manifesta-se-contra-retirada-do-brasil-da-convencao-169-da-oit
Não adianta chorar sobre o cerrado derrubado
https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2024/01/nao-adianta-chorar-sobre-o-cerrado-derrubado.shtml
Congresso derruba veto de Lula ao marco temporal das terras indígenas
https://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2023/12/congresso-derruba-veto-de-lula-ao-marco-temporal-das-terras-indigenas
Marco temporal volta ao STF com três ações diferentes e Gilmar Mendes relator; entenda
https://www.brasildefato.com.br/2024/01/04/marco-temporal-volta-ao-stf-com-tres-acoes-diferentes-e-gilmar-mendes-relator-entenda
PP, Republicanos e PL acionam o STF para validar o marco temporal de terras indígenas
https://www.jota.info/justica/pp-republicanos-e-pl-acionam-o-stf-para-validar-o-marco-temporal-de-terras-indigenas-28122023