Em nossas mãos

Em nossas mãos

A Conferência do Clima da ONU 2019 (COP-25) foi para a prorrogação: os trabalhos se estenderam até domingo (15/12), dois dias depois do tempo regulamentar esgotado. Mas apesar da hora extra e de o documento final se chamar “Chile-Madri, hora de agir”, as decisões mais urgentes foram novamente postergadas. Entre elas, a razão principal do encontro, a regulamentação do chamado mercado de carbono. Prevista desde 2105 pelo Acordo de Paris, a medida vai permitir que países que emitiram menos possam vender créditos de CO₂ aos maiores emissores.

Também foi adiada para a COP-26, em Glasgow, na Escócia, a apresentação de metas mais ambiciosas para a redução de emissões de gases do efeito estufa (GEE). Segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente (Pnuma), elas precisariam cair 7,6% ao ano para evitar que o aumento da temperatura média global ultrapasse 1,5° C até o fim do século. Mas há dois anos as emissões vem subindo – este ano já aumentaram 0,6%, de acordo com o balanço anual do Global Carbon Project (GCP) – e em 2018 o nível de concentração na atmosfera bateu recorde.

Os cientistas acreditam que se medidas realmente efetivas não forem tomadas nos próximos 10 anos, o aquecimento do planeta atingirá um ponto irreversível – e quanto mais a gente demorar para agir, mais drásticas terão de ser essas ações. Na velocidade atual, a temperatura mundial poderá estar 4°C ou 5°C maior em 2100 em comparação com a era pré-industrial. Mas se os líderes mundiais têm se mostrado hesitantes, há quem tenha cansado de esperar e esteja fazendo a sua parte. A sociedade civil começa a se mexer: 177 multinacionais já se comprometeram a tomar ações para combater às mudanças climáticas. Elas atuam em 36 países – 18 delas no Brasil – e, juntas, suas emissões anuais equivalem às da França.

O presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, mas, ainda assim, o país está cumprindo aproximadamente 70% das metas que se comprometeu no tratado. Há dois anos foi criada a US Climate Alliance, uma coalizão bipartidária de 25 governadores, e um estudo liderado pela Universidade de Maryland já aponta resultados nos esforços do setor privado, dos estados e dos municípios. Graças a ações como essa, as emissões do país podem cair até 37% em 2030, em relação a 2005 – enquanto a meta era de 25%. O Brasil permanece no acordo, mas deve ficar 2% acima do que comprometeu para 2020. O país sempre teve papel de destaque nas conferências do clima, mas sua atual política ambiental tem feito com que perca o protagonismo. E o pior, pela primeira vez o Brasil ganhou o infame prêmio Fóssil Colossal, dedicado aos vilões do clima.

E temos feito por onde: segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento na Floresta Amazônica foi 104% maior em novembro do que no mesmo mês em 2018. Os números foram divulgados no dia 13, que seria o último dia da COP. Depois de fazer pouco-caso do Fundo Amazônia, o Brasil chegou à Madri passando o chapéu, sem mostrar resultados, e voltou de bolso vazio. Em carta aberta publicada em 3 de dezembro, um grupo de 87 empresas europeias já haviam cobrado a redução no desmatamento para manter negócios com país. Enquanto isso, nossa vizinha Colômbia, que reduziu em 10% o desmate entre 2017 e 2018 na região, vai receber US$ 360 milhões da Alemanha, Noruega e Reino Unido.

Bolsonaro chegou a ameaçar seguir os passos de Trump e tirar o Brasil do Acordo de Paris. Ainda que tenha permanecido, aqui começa a acontecer um fenômeno semelhante: parlamentares, prefeitos e governadores decidiram entrar nas negociações, à revelia do governo federal. Um consórcio formado pelos nove estados da Amazônia Legal aproveitou a COP 25 para fechar um acordo com a França pela preservação da floresta. Se o caminho principal tem se mostrado tortuoso, o jeito é comer as mudanças climáticas pelas beiradas. E a sociedade civil é fundamental para construir esse atalho.

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De volta a Altamira: a realidade depois de Belo Monte

De volta a Altamira: a realidade depois de Belo Monte

O ano era 2011, carros de som passavam pelas ruas de Altamira fazendo ecoar: “Belo Monte está chegando, cidadão altamirense. Você é contra ou a favor?” Desde então, mais de cem mil pessoas passaram por lá, saindo de vários cantos do país em busca de empregos ligados à construção da usina hidrelétrica. A população aumentou, o índice de empregados caiu e a criminalidade disparou. O que antes era uma pacata cidade do interior do Pará hoje é o segundo município mais violento do país.

Também foi em 2011 que uma campanha fez com que artistas falassem o que até então cientistas, povos tradicionais e ativistas repetiam exaustivamente: a construção de Belo Monte custaria bilhões aos bolsos dos brasileiros e o plano governamental de criar dezenas de hidrelétricas na Amazônia traria danos socioambientais irrecuperáveis. O vídeo “É a Gota D’Água” viralizou, levando a toda a população brasileira aquela pergunta que ecoava em Altamira. Em 10 dias, um milhão de assinaturas foram recolhidas. Ao final da campanha, já eram 2,5 milhões. E da interlocução entre os diferentes grupos envolvidos na gravação nasceu o Movimento Gota D’Água, que deu origem a Uma Gota no Oceano.

Oito anos (de muito trabalho) depois, Altamira recebe o evento “Amazônia: Centro do Mundo”. A reunião promove conversas sobre a crise climática, as grandes obras de infraestrutura, as queimadas ilegais e o avanço do desmatamento. Uma Gota no Oceano participa deste evento, dando continuidade à missão de levar informação consistente, independente e atraente para que cada pessoa possa exercer sua cidadania. Agora que a obra está feita, voltamos a uma pergunta: valeu a pena?

É preciso uma pausa aqui para deixar claro: o histórico de críticas à construção de Belo Monte é muito maior que estes oito anos. O projeto da usina nasce em 1975, em pleno regime de ditadura militar, e desde então os povos indígenas da região se opõem à construção. Em 1989, um ano após a assinatura da Constituição, divergências sobre o impacto socioambiental levam ao corte do financiamento da obra. Em 1994, o governo federal faz uma revisão: tenta manter a obra, mas diminuir a área inundada e garantir que terras indígenas não fossem afetadas. Sendo impossível atender à demanda, o projeto volta à gaveta. Oito anos depois, em 2002, novos levantamentos são feitos, mas o Ministério Público paralisa o processo em um movimento apoiado pela Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

É em julho de 2008 que começa a escalada pela concretização do projeto da usina: o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) define Belo Monte como o único potencial hidrelétrico a ser explorado no Rio Xingu. E em abril de 2010 é realizado o leilão que escolheu o consórcio Norte Energia como encarregado pela construção de Belo Monte. E o plano não parava por aí, como alertou o ator Malvino Salvador em “É a Gota D’Água”: “Esta é a primeira de dezenas de hidrelétricas que o governo pretende construir na Amazônia”.

O resultado pode ser visto em Altamira. A cidade viu dobrar os índices de roubos, furtos, acidentes de trânsito e episódios de violência doméstica e vivenciou um aumento de 150% no índice de homicídios na última década. Mas tem um índice que permanece baixo: segundo o IBGE, apenas 17% dos cidadãos altamirenses têm emprego. Não à toa, além das compensações ambientais, a Norte Energia se comprometeu a investir R$ 125 milhões na segurança pública da região, dinheiro que deveria ser investido em equipamentos, reformas, veículos, câmeras e uma unidade prisional. O Complexo Penitenciário de Vitória do Xingu deveria ter ficado pronto em 2015, sua inauguração foi no início deste mês.

Segundo a própria Norte Energia, “3.850 famílias foram reassentadas para a implementação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte”. Os ribeirinhos foram tirados de suas casas e transferidos para reassentamentos, novos bairros periféricos em Altamira, onde há altos índices de violência e pobreza. Em entrevista ao programa Profissão Repórter veiculada na semana passada, irmã Inês Wenzel, fundadora do movimento Xingu Vivo, resume a história “jogaram centenas e centenas de famílias aqui, abandonadas do centro, longe dos trabalhos, longe das escolas”.

Oito anos (e muitas confirmações) depois, o plano de expansão das hidrelétricas pela Amazônia é o mesmo de antes, mas Altamira já não é mais a mesma e o Brasil também não é aquele de 2011. Por sorte, também o grupo de pessoas que se reúne esta semana não é mais aquele que se reuniu em frente a uma câmera. Hoje somos mais numerosos que antes. Novos rostos são vistos por aqui entre os já conhecidos protetores do Xingu. E temos a certeza de que muitos outros ainda estão por chegar.

#ÉaGotaDágua #XinguVivo #Xingu #BeloMonte #CadaGotaConta #UmaGotaNoOceano

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Programação do evento “Amazônia: Centro do Mundo”

Cronologia de Belo Monte – Norte Energia

Estudos para construção de Belo Monte começaram na década de 70 – Agência Senado

Bolsonaro retoma plano de erguer grandes hidrelétricas na Amazônia

Com massacre em presídio e desemprego, Altamira (PA) é o 2° município mais violento do Brasil – Profissão Repórter, 13 de novembro de 2019

Usina de Belo Monte causa impactos ambientais e sociais em Altamira (PA) – Profissão Repórter, 20 de julho de 2016

Altamira ganhou mais de 30 mil habitantes em dez anos – Profissão Repórter, 20 de novembro de 2012 

Belo Monte forjou o massacre de Altamira: Novo presídio nuca entregue era obrigação da Norte Energia – The Intercept Brasil

Belo Monte põe em risco peixes raros do rio Xingu – Estadão

Turbinas de Belo Monte devem ser paralisadas após a morte de uma tonelada de peixes no PA

Belo Monte instala grades em turbinas para evitar morte de peixes

 

A empatia é contagiosa

A empatia é contagiosa

Ser ativista é ter vontade de abraçar o mundo com as mãos. É ser movido pela empatia, por saber que estamos todos no mesmo barco, e que ele é frágil. Que a dor que aflige o outro pode lhe afligir. Também é ter a consciência de que não basta pensar apenas no presente, é preciso deixar um legado para as futuras gerações, assim como nos deixaram as anteriores. Como plantar tamareiras: a gente sabe de antemão que não vai viver tempo o suficiente para comer dos seus frutos. Sentir-se como uma gota que ajuda a formar o oceano.

Os ativistas ajudaram a dar fim à escravidão e a guerras, e foram fundamentais na conquista do voto universal. Desde meados do século passado, porém, nos defrontamos com outro desafio, quando a questão ambiental bateu à porta. É a causa principal desta era.
É uma atividade arriscada, especialmente no Brasil. Pelo segundo ano consecutivo o país foi apontado como o que mais mata ativistas ambientais . De acordo com a Global Witness, foram 57 pessoas assassinadas em 2017 – os números referentes a 2018 ainda não foram divulgados. Dá 28% do total de 207 pessoas no mundo inteiro.

Como a ONG britânica trabalha com dados oficiais, a quantidade de mortos pode ser ainda maior. Muitos desses crimes sequer são descobertos. A Justiça também pode ser lenta e ineficiente, até em casos de grande repercussão, como o de Dorothy Stang.
Ela foi assassinada em 2005 e em 2010 o mandante do crime, o fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão, condenado a 30 anos de reclusão. Graças a recursos da lei, ele ficou solto de 2012 a 2017. O criminoso voltou à prisão em abril deste ano, mas os antigos colaboradores da missionária americana ainda se sentem ameaçados.

Mas são muitos os sonhos de quem se dedica a defender causas justas. Por isso, eles sobrevivem às suas vidas, seguindo adiante até se tornarem realidade. A empatia é um sentimento contagioso. Esta semana perdemos Rogério Daflon, a quem este texto é dedicado. Daflon era um jornalista apaixonado e usava da atividade para exercitar seu ativismo apaixonante. Um guerreiro terno.

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Chega de agrotóxicos

Chega de agrotóxicos

O glifosato conseguiu unir social-democratas, liberais e extrema-direita na Áustria: o parlamento local aprovou em 2 de julho uma lei que proíbe qualquer tipo de uso do herbicida. É o primeiro país da Europa a bani-lo totalmente. Em 2015 a Organização Mundial da Saúde alertava que o agrotóxico poderia causar câncer. A fabricante Monsanto foi condenada em maio pela Justiça da Califórnia a pagar uma indenização de US$ 2 bilhões a um casal de idosos.

Mas o prejuízo é geral: além de causar mal à nossa saúde, o glifosato também está matando as abelhas. O produto enfraquece o sistema imunológico desses insetos polinizadores, dos quais dependem 73% das espécies vegetais do planeta. Só que enquanto os austríacos tomam suas providências, nós tomamos mais veneno. Além de o glifosato ser o agrotóxico mais usado no Brasil, nunca se liberou tantos produtos novos no país em tão pouco tempo. De janeiro para cá, foram 239. Só no dia 24 de junho foram 42. A gente ainda paga por isso: os incentivos fiscais para agrotóxicos podem passar de R$ 14 bilhões por ano.

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Entre dezembro de 2018 e março de 2019 mais de meio bilhão de abelhas foram encontradas mortas em diversas regiões do país. Mesmo que não nos mate de câncer todo esse veneno pode nos matar de fome: mais da metade as 141 espécies de plantas cultivadas no Brasil precisa de insetos polinizadores para se reproduzir. Pode matar o agronegócio também: Mercosul e União Europeia estão firmando um acordo comercial, que depende de condicionantes sanitários e ambientais para ser implantado definitivamente; e só entre os produtos liberados este ano, 43% são altamente ou extremamente tóxicos e 31% deles, proibidos na UE. O europeu não está disposto a importar nosso veneno.

Há 538 novos pedidos de registro em andamento. Governo e ruralistas argumentam que o excesso de zelo e de burocracia estava emperrando a liberação de novos agrotóxicos. Então a gente vai dar uma sugestão para agilizar esse andamento e evitar imbróglios com nossos parceiros comerciais: que tal riscar logo da lista os produtos proibidos na Europa? Depois a gente parte para a aprovação da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA).

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