A energia que vem do “lixo”

A energia que vem do “lixo”

A commodity climática que o Brasil insiste em chamar de lixo

O país que discute transição energética ainda enterra uma de suas fontes mais acessíveis de energia 

O El Niño que se aproxima não encontra o mesmo planeta de décadas atrás. Encontra oceanos mais quentes, eventos extremos mais frequentes e cidades cada vez mais expostas a enchentes, secas e colapsos urbanos. A Ásia já sente esses impactos, e o Brasil, como tantas vezes, parece disposto a esperar para sentir também.

Nesse cenário, chama atenção a forma como seguimos tratando um dos elementos mais decisivos da crise climática. O Brasil é hoje o quinto maior emissor de metano do mundo, e os resíduos já representam sua segunda maior fonte de emissão. O país gera cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mas reaproveita apenas 1,3% dos materiais que consome, segundo o Circularity Gap Report 2026. Ainda assim, o tema permanece à margem do debate público, como se fosse um detalhe técnico e não uma escolha estrutural.

Talvez o problema comece na forma como enxergamos — e nomeamos — aquilo que produzimos todos os dias. No Brasil, o metano nasce majoritariamente do lixo, e o lixo continua sendo tratado como destino final, não como recurso. Seguimos operando sob uma lógica que atravessou décadas quase intacta: produzir, consumir, descartar e enterrar. Enquanto isso, cerca de três mil lixões permanecem ativos no país, como um lembrete silencioso de que diferentes tempos convivem no mesmo território.

Mas o que insistimos em enterrar não desaparece, apenas muda de forma. Vira metano, vira calor, vira pressão sobre cidades que já operam no limite. E vira também algo que ainda não reconhecemos como deveria: energia. O gás gerado pela decomposição dos resíduos poderia ser capturado e transformado em biogás e biometano, capazes de gerar eletricidade, substituir combustíveis fósseis e abastecer cadeias urbanas. Mais do que isso, poderia chegar onde a rede ainda é precária, irregular ou simplesmente ausente, ampliando o acesso à energia e criando novas dinâmicas econômicas locais.

Em um país continental como o Brasil, isso ganha outra escala. Na Amazônia Legal, por exemplo, quase 3 milhões de pessoas ainda dependem de combustíveis fósseis para ter acesso à energia, segundo dados consolidados pela rede Uma Concertação pela Amazônia e pelo IEMA, com base em informações da Empresa de Pesquisa Energética. Nesse contexto, transformar resíduos em biometano deixa de ser apenas uma agenda climática e passa a ser também uma estratégia concreta de democratização energética.

Não se trata de uma promessa distante, mas de uma possibilidade real, que já começa a aparecer em iniciativas pontuais, ainda insuficientes para alterar o sistema. E talvez esteja aí o ponto central: o que falta não é tecnologia, nem conhecimento, nem sequer financiamento disponível. Falta tratar resíduos como parte da infraestrutura energética do país e não apenas como algo a ser retirado do campo de visão.

Há, aliás, algo de revelador na facilidade com que seguimos enterrando. Porque enterrar ainda é mais simples, mais imediato e, muitas vezes, mais barato do que transformar. O custo real dessa escolha, no entanto, apenas muda de lugar: reaparece sob a forma de enchentes, doenças, perda de produtividade e pressão sobre o gasto público. A má gestão de resíduos custa ao Brasil cerca de R$ 97 bilhões por ano, considerando impactos ambientais, climáticos e de saúde pública, segundo levantamento da consultoria S2F Partners com base em metodologia do PNUMA. O país esconde o problema no solo e redistribui suas consequências na superfície.

Nesse contexto, a diferença entre lixo e commodity não é técnica, mas política. Nenhum recurso nasce pronto; ele se torna estratégico quando há infraestrutura, regulação e investimento. Foi assim com o petróleo, com o etanol e com tantos outros setores que estruturam a economia brasileira. O lixo continua sendo tratado como lixo porque ainda não decidimos tratá-lo de outra forma.

Enquanto isso, o mundo começa, ainda que de forma desigual, a reposicionar os resíduos dentro de suas estratégias energéticas. Países como Suécia, Holanda e Dinamarca já operam sistemas capazes de transformar lixo em eletricidade, aquecimento urbano e insumos industriais. A Suécia desvia cerca de 99% dos resíduos dos aterros, e chegou a importar 3,86 milhões de toneladas de lixo de outros países em 2024 para abastecer suas usinas. O que antes era passivo passa a ser ativo; o que era problema passa a ser insumo. No Brasil, seguimos em outra etapa — uma etapa em que a transição energética convive, sem muito constrangimento, com a prática de enterrar uma fonte energética já disponível e distribuída pelo território.

Talvez por isso o metano revele tanto sobre o momento atual. Poucas agendas são ao mesmo tempo tão urgentes e tão viáveis. Reduzir suas emissões produz efeito climático no curto prazo, e fazê-lo a partir dos resíduos permite, simultaneamente, gerar energia, renda e inclusão.

A enorme quantidade de lixo produzida diariamente no Brasil não pode mais ser vista apenas como um passivo a ser administrado. Ela precisa ser reconhecida como aquilo que já é: um ativo com potencial energético relevante, capaz de reduzir emissões agora e ampliar o acesso à energia — especialmente para quem ainda vive fora ou à margem do sistema.

E, no fundo, talvez este seja o ponto de convergência que ainda tratamos como exceção: usar tecnologia para enfrentar desafios climáticos enquanto colocamos o bem-estar das pessoas no centro não é uma contradição — é justamente a síntese do que se convencionou chamar de Sociedade 5.0. Traduzir essa ideia em prática, no caso brasileiro, pode começar por algo menos abstrato do que parece: parar de tratar o lixo como fim e começar a reconhecê-lo como parte da infraestrutura energética do país.

Para aprofundar esse debate, o tema estará no centro do Fórum Freio de Emergência Climática, no próximo dia 3 de junho, durante a Rio Nature & Climate Week.

O lixo nosso de cada dia

O lixo nosso de cada dia

O lixo nosso de cada dia: futuro dos resíduos não está nas chaminés

Por Victor H. Argentino de M. Vieira, Coordenador de Resíduos Sólidos no Instituto Pólis e Rafael Eudes, assessor da área de Resíduos Sólidos no Pólis

Proibir incineração é passo essencial para transformar cidades em espaços de economia circular e justiça ambiental. Florianópolis, reconhecida pela ONU como exemplo, mostra que coleta seletiva, compostagem e educação ambiental são caminhos a serem seguidos. 

O Plano Nacional de Resíduos Sólidos, instituído em 2022, prevê a eliminação dos lixões e o aumento da reciclagem no Brasil. No entanto, mais de 3 mil depósitos de lixo a céu aberto continuam ativos e, ao mesmo tempo em que o chorume se infiltra no solo, podendo alcançar lençóis freáticos e cursos d’água, a decomposição da matéria orgânica libera metano (CH4) para a atmosfera, um gás de efeito estufa responsável por cerca de um terço do aquecimento global.  

Dados do relatório de 2025 do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) mostram que em 2024 o país gerou mais de 88 milhões de toneladas de resíduos sólidos. Do total coletado, 26% tiveram como destino lixões a céu aberto ou aterros controlados que não impermeabilizam o solo para evitar o vazamento do chorume. Se por um lado é flagrante o risco de comprometer a água que abastece inúmeras comunidades, os satélites do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) também detectaram que as emissões resultantes dos resíduos respondem por cerca de 15% do metano emitido pelo Brasil. 

Recentemente, a ONU homenageou 20 cidades do mundo que implementaram soluções alinhadas ao conceito de resíduo zero. A única escolhida na América Latina foi Florianópolis, pioneira ao assumir, por lei, o compromisso de alcançar lixo zero até 2030. Nada feito por meio de soluções mágicas, mas por compromissos claros com a economia circular. 

Em um momento em que o Brasil tem sido palco para um intenso debate sobre tecnologias de incineração de resíduos, promovidas por meio de Usinas de Recuperação Energética (UREs), Florianópolis aponta outro caminho: o futuro está na redução da geração, na coleta seletiva, na reciclagem e na compostagem. A cidade desviou 14% dos resíduos orgânicos dos aterros; aumentou a compostagem de alimentos de 1.175 toneladas, em 2020, para 6.002 toneladas no ano passado; e cerca de 200 famílias garantem renda através da triagem de recicláveis. O compromisso com a economia circular se consolidou na Lei Municipal nº 10.574, que proíbe o envio de resíduos a aterros sanitários e à incineração, priorizando a reciclagem e a compostagem como destinos ambientalmente adequados. 

Enquanto algumas cidades voltam a considerar, sob novas narrativas, a queima de resíduos como resposta rápida ao fechamento de lixões e à escassez de aterros, vale lembrar que a incineração carrega um histórico conhecido de impactos ambientais e à saúde. Em São Paulo, por quatro décadas, três incineradores anunciados como tecnologia de “última geração”, importados da Alemanha, operaram emitindo substâncias cancerígenas e desreguladores endócrinos sem controle ou monitoramento adequados. O legado não foi a solução da gestão de resíduos, mas impactos ambientais e sociais duradouros, frequentemente esquecidos quando o discurso da “energia a partir do lixo” retorna com verniz de modernidade. 

Mesmo nos chamados “melhores padrões mundiais”, a incineração segue levantando alertas – inclusive pela própria ONU, que chama a atenção para a falta de fiscalização adequada e controle efetivo das emissões das UREs nos países em desenvolvimento. Monitoramentos conduzidos pela Zero Waste Europe e ToxicWatch indicam que países notórios pelo controle ambiental, como a França, registram emissões de poluentes orgânicos persistentes acima de níveis considerados seguros e 407 cidades receberam comunicados para evitar o consumo de ovos locais devido à contaminação por dioxinas, substâncias cancerígenas associadas à operação de incineradoras. 

Dados econômicos também evidenciam que há alternativas mais vantajosas à incineração, cujo custo de implantação pode ser até oito vezes maior que o da energia solar fotovoltaica, com eficiência elétrica limitada a 20%–25%. Na Europa, a experiência revelou outro impasse: a Suécia importa resíduos para manter incineradores ativos, e a União Europeia passou a priorizar a reciclagem através de mudanças nas suas legislações e programas de financiamento público.  

O contraste entre os caminhos é evidente: de um lado, políticas públicas que apostam em ciclos regenerativos, inclusão social e fortalecimento de economias locais – reduzir, reutilizar e reciclar-, de outro, modelos caros, poluentes e insustentáveis, que não enfrentam a raiz do problema e apenas o transformam em cinzas, gases e passivos ambientais. Florianópolis mostra que o futuro se constrói com inteligência e cuidado, e não nas chaminés do passado.

O lugar do Brasil na equação climática global

O lugar do Brasil na equação climática global

Antes de 1992, quando o Rio de Janeiro sediou a RIO-92 e colocou o planeta numa mesma sala para discutir o que ainda chamávamos de “futuro”, o Brasil já era uma encruzilhada de destinos. Somos o país que abriga a maior biodiversidade terrestre do mundo: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal, Pampa. Biomas que não são paisagens, são reguladores do clima global, reservatórios de vida e de tempo. E mais: estamos atrás apenas da China em reservas de terras raras. No século XXI, o olhar do mundo pousa sobre nós. 

Mas o Brasil que pode liderar não se resume ao PIB do agronegócio ou ao portfólio de biocombustíveis e alternativas energéticas. É também, e sobretudo, o dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, que há séculos manejam territórios que a ciência agora corre para compreender. Cerca de 20% do território nacional sob gestão indígena apresenta índices de desmatamento significativamente menores do que áreas desprotegidas. Não por acaso, mas por conhecimento acumulado, transmitido e vivido. Ignorá-los na arquitetura das soluções climáticas não é apenas injusto, é ineficiente. 

Mais de três décadas depois da RIO-92 e vinte anos após a Rio+20, marcos que inauguraram a gramática da diplomacia climática moderna, o Rio de Janeiro volta a ser palco do debate sobre o futuro do planeta. Entre 1º e 6 de junho, a Rio Nature and Climate Week recoloca a cidade no centro das decisões que moldam o amanhã. No dia 3, a Uma Gota no Oceano, em parceria com o Global Methane Hub e a Presidência da COP30, realiza o Fórum Metano: Freio de Emergência Climática, um espaço onde o invisível ganha nome, dado e urgência. 

O metano (CH₄) atravessa tudo. Dialoga com a gestão de resíduos, que pode ser reinventada; com a agropecuária, que pode produzir mais emitindo menos; com a energia, que pode ser mais limpa e eficiente. Responsável por cerca de 30% do aquecimento global desde a Revolução Industrial e com um potencial de aquecimento mais de 80 vezes superior ao CO₂ em 20 anos, ele tem uma característica decisiva: pode ser reduzido agora. Diferente do carbono, que permanece por séculos na atmosfera, o metano se dissipa em pouco mais de uma década. Cortar suas emissões é a ação climática mais rápida, mais justa e com melhor custo-benefício disponível. E o Brasil – quinto maior emissor global de CH₄, com 21,1 milhões de toneladas em 2023 – ocupa um lugar onde responsabilidade e oportunidade são equivalentes. 

A agropecuária responde por cerca de 75% das emissões nacionais de metano e pode reduzir até 28% até 2035 com tecnologias já disponíveis. O setor de resíduos, responsável por 16%, tem potencial de redução de 36% até 2030 por meio de políticas estruturantes que também geram emprego, renda e dignidade, especialmente para os catadores, agentes climáticos que o país ainda insiste em subestimar. Estão previstos R$ 6,4 bilhões em investimentos em biometano até 2030. Os números são claros: a transição não é sacrifício. É projeto de país. 

Mas essa transição não acontece por inércia nem por um setor isolado. O poder público precisa transformar marcos legais em orçamento e política territorial. A iniciativa privada precisa ir além do greenwashing e assumir metas mensuráveis, auditáveis, conectadas a toda a cadeia produtiva. E o terceiro setor, sem tutela e sem ingenuidade, é o elo que traduz ciência em ação e ação em escala. Quando esses três vetores convergem, o Brasil deixa de prometer liderança e começa a exercê-la. 

Há, ainda, uma assimetria que o debate climático reluta em nomear: o que é dito em Berlim, Londres ou Washington chega com peso institucional; o que emerge de Belém, Salvador ou Manaus precisa disputar legitimidade, palavra por palavra. A Rio Nature and Climate Week é também uma resposta a essa hierarquia. 

O Sul Global não precisa de tradução para nomear o que vive. E, num momento em que o multilateralismo é sistematicamente tensionado e acordos voluntários como o Global Methane Pledge, assinado por mais de 150 países na COP26, ainda carecem de mecanismos robustos de responsabilização. O Brasil pode ser a voz que reorganiza o debate. Não por altruísmo, mas por posição: nossa sociobiodiversidade, nossa escala territorial e nossa capacidade de articular ciência, povo e política nos colocam em um lugar que nenhum outro país ocupa. 

O Fórum Metano: Freio de Emergência Climática não é apenas um evento. É o ponto em que governo, mercado e sociedade civil deixam de discutir os limites do problema e passam a assumir, de forma compartilhada, a responsabilidade pela solução. 

O Brasil carrega, há décadas, os elementos centrais dessa resposta: território, biodiversidade, ciência e saberes que atravessam gerações. Não se trata mais de reconhecer esse potencial, mas de decidir o que fazer com ele. 

Em junho, o Rio de Janeiro volta ao centro desse movimento, não como memória de um passado diplomático, mas como espaço de definição sobre o futuro que o país está disposto a liderar.

Metano: rumo ao fim dos combustíveis fósseis

Metano: rumo ao fim dos combustíveis fósseis

Metano: ponto de partida do Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis

Por Carlos Nobre*

O último relatório da Organização Mundial de Meteorologia (Estado do Clima Global 2025), divulgado recentemente, não deixa margem para dúvidas: vivemos os 11 anos mais quentes da história da humanidade entre 2015 e 2025. Nos últimos três anos o planeta atingiu a marca de 1,5°C de aquecimento acima dos níveis pré-industriais – definida como limite pelo Acordo de Paris.

Para quem estuda o clima há décadas, o que vemos agora não é apenas uma estatística; é a confirmação de inúmeros alertas e previsões que se concretizam por meio do recorde de incêndios, secas e tempestades batendo à nossa porta todos os dias. É neste cenário de urgência que o mundo se volta para Santa Marta, na Colômbia, onde acontece a Conferência do Tratado Internacional de Combustíveis Fósseis, no fim de abril.

Lá, daremos um passo fundamental na construção do TAFF (Transition Acceleration Fossil Fuel), o Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis. Este roteiro, iniciado na COP30 sob liderança do Brasil, ainda está sendo desenhado e passará por diversas etapas e negociações ao longo deste ano. Embora o destino final e os prazos exatos para o abandono do carvão, petróleo e gás ainda não tenham entrado na mesa de negociação, a ciência nos impõe uma condição inegociável: qualquer caminho viável precisa, obrigatoriamente, passar pela redução drástica do metano.

A razão é física. O metano é um gás da família dos superpoluentes que responde por cerca de um terço do aquecimento global atual. Isso porque, embora o gás carbônico (CO2) permaneça na atmosfera por mais de 150 anos, o metano é 80 vezes mais poderoso para reter calor no curto prazo, dissipando-se em cerca de 12 anos. Isso significa que reduzir o metano agora é a única forma de “frear” o aquecimento ainda nesta década, enquanto enfrentamos a transição mais complexa do setor de energia, que responde por 75% das emissões globais. Não é à toa, afinal, que ele recebeu a alcunha de ‘freio de emergência climática’.

Essa urgência na mitigação do metano é reforçada pela instabilidade geopolítica. A guerra dos EUA e Israel no Irã gera o risco real de que países acelerem o uso de fósseis para suprir necessidades imediatas, o que seria um desastre após os recordes de emissões batidos em 2025.

Para oferecer o suporte técnico necessário a esse desafio, lançaremos, em Santa Marta, o Painel Científico para a Transição Energética Global. Esta ferramenta ajudará a otimizar os resultados do TAFF, apontando como eliminar emissões de gases de efeito estufa – entre eles o metano – e transformar sistemas produtivos.

No Brasil, esse olhar para o metano também deve ser minucioso. Precisamos enfrentar as emissões da pecuária — nossa maior fonte de metano — e modernizar urgentemente a gestão de resíduos sólidos nas cidades, setor que é o segundo maior emissor de metano no país. Somado a isso, o fim do desmatamento e a recuperação de biomas são vitais para estancar o desequilíbrio climático e garantir nossa resiliência como potência ambiental.

Não se sabe ainda quantas paradas o Mapa do Caminho do TAFF exigirá, nem quão tortuosa será a diplomacia até o final do ano, quando a presidência brasileira da COP30 deve entregar o plano à presidência da COP31. Mas uma coisa é certa: a mitigação do metano precisa ser a primeira parada obrigatória dessa jornada. Sem priorizar esse superpoluente agora, o Mapa não nos levará a lugar nenhum a tempo de evitar o colapso. Santa Marta é o momento de garantir que o primeiro passo seja dado.

O freio de emergência da crise climática tem nome: metano

O freio de emergência da crise climática tem nome: metano

Ignorar superpoluente de maior impacto no curto prazo enfraquece o TAFF Roadmap e compromete a chance de estabilizar o clima nas próximas décadas

💧

Por Henrique Bezerra

 A proposta liderada pelo Brasil para construir um Mapa Global da Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, o TAFF Roadmap, inaugura um novo patamar no debate climático internacional. Pela primeira vez, os países começam a enfrentar a pergunta que sempre foi evitada: em que ordem devemos abandonar petróleo, gás e carvão, e com base em quais critérios científicos? Para transformar ambição em ação concreta, é essencial incluir nesse cálculo aquilo que hoje é o fator mais negligenciado e, paradoxalmente, mais poderoso da política climática: o metano (CH4).

Responsável por mais de um terço do aquecimento global, o metano é um superpoluente de vida curta e impacto climático explosivo. Em um horizonte de 20 anos, pode aquecer o planeta cerca de 80 vezes mais que o carbono (CO₂). Mas permanece na atmosfera por pouco mais de uma década, o que significa reduzir suas emissões produz efeitos quase imediatos na desaceleração da temperatura, ou seja: não existe trajetória plausível para manter viva a meta de 1,5°C sem cortes rápidos e profundos do metano, sobretudo no setor de combustíveis fósseis

Esse gás, que deveria ser capturado e aproveitado, escapa da infraestrutura de petróleo e gás em volumes massivos por vazamentos crônicos, queima ineficiente ou ventilação deliberada. E aqui está uma realidade pouco compreendida fora dos círculos técnicos: nem todo combustível fóssil tem a mesma pegada climática. Há campos que operam com perdas mínimas, fruto de tecnologia atualizada, regulação rígida e monitoramento constante. Outros liberam quantidades gigantescas de metano por equipamentos envelhecidos, pressões instáveis do reservatório, ausência de programas de detecção e reparo de vazamentos, falta de manutenção preventiva ou simples inexistência de normas obrigatórias.

Ignorar essa assimetria compromete a credibilidade de qualquer planejamento global de transição. Se queremos um TAFF Roadmap racional e alinhado ao 1,5°C, os ativos com maiores emissões de metano precisam ser os primeiros a sair de operação. É esse tipo de critério técnico, objetivo, transparente e cientificamente embasado que transforma diretrizes diplomáticas em política climática real.

Ao mesmo tempo, os campos remanescentes precisam imediatamente adotar soluções já disponíveis e de baixo custo: programas obrigatórios de detecção e reparo de vazamentos; eliminação da ventilação rotineira; substituição de equipamentos pneumáticos alimentados por gás; captura e aproveitamento do gás associado para evitar flaring; e monitoramento contínuo com sensores e satélites. Em muitos casos, a mitigação é não apenas barata, mas economicamente vantajosa, pois recupera o gás que antes era desperdiçado.

O principal freio de emergência que ainda temos para desacelerar o aquecimento global está na mitigação imediata do metano. Cortes agressivos desse superpoluente nos próximos anos são uma das poucas ações capazes de produzir impacto dentro da janela crítica que ainda resta.

A Conferência de Santa Marta, na Colômbia, no fim de abril, será um momento crucial para consolidar esse entendimento. A articulação com o Acordo Global do Metano — que move países para cortar emissões em todos os setores — pode dar a musculatura necessária para que o desenho do TAFF Roadmap se converta em implementação real. E se o Brasil conseguir harmonizar esses elementos até a COP31, poderá entregar ao mundo algo que ainda não existe: um caminho de transição organizado, transparente e alinhado à ciência.

Henrique Bezerra, especialista em mercado de energia, é líder regional do programa da Global Methane Hub no Brasil.

#freiodeemergênciaclimática

Link: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-freio-de-emergencia-da-crise-climatica-tem-nome-metano.ghtml?giftId=823f9859f0baf87&utm_source=Whatsapp&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilharmateria

Foto da ilustração baseada da foto original do Fernando Frazão/Agência Brasil

Translate »