Sem confundir solução com combustão
No editorial “A commodity climática que o Brasil insiste em chamar de lixo”, publicado anteriormente, recorremos à Suécia como exemplo de país que teria transformado resíduos em ativo energético. A ideia central permanece correta: o Brasil ainda trata resíduos como passivo, quando eles podem ser parte de uma estratégia de redução de emissões, geração de energia e democratização do acesso energético, especialmente via biogás e biometano.
Mas é preciso reconhecer: ao citar a experiência sueca de forma ampla, corremos o risco de trocar alhos por bugalhos.
A Suécia, de fato, praticamente eliminou o envio de resíduos a aterros. Mas fez isso, em grande medida, apostando na incineração em larga escala — um modelo que hoje está longe de ser consenso, inclusive dentro da própria Europa.
O problema não é apenas tecnológico. É estrutural.
A lógica construída ao longo das últimas décadas foi simples: encarecer o aterro para tornar mais competitivo o envio de resíduos para usinas de recuperação energética. Na prática, isso deslocou materiais recicláveis e reaproveitáveis para a queima. O que poderia voltar à cadeia produtiva passou a alimentar fornos.
Como aponta análise recente do Instituto Pólis ,essa dependência cria um paradoxo: quanto mais eficiente é o sistema de reciclagem e redução de resíduos, menos matéria-prima existe para manter economicamente viáveis as usinas de incineração. O resultado? Uma infraestrutura cara, que precisa ser continuamente abastecida, inclusive com lixo importado.
A conta ambiental também é controversa. Mesmo com avanços tecnológicos, a incineração segue associada a emissões relevantes e à geração de poluentes persistentes, além de tensionar políticas de economia circular ao competir diretamente com a reciclagem.
Não por acaso, o próprio debate europeu vem mudando de tom. Relatórios ligados à Comissão Europeia e à Delegação para Economia Circular da Suécia alertam para os limites de um modelo que, ao priorizar a queima, acaba desincentivando a redução, a triagem e o reaproveitamento de materiais.
Ou seja: o mundo que está na fronteira do debate já não discute apenas como transformar lixo em energia. Discute como evitar que o lixo exista e, quando inevitável, como reintegrá-lo de forma inteligente à economia.
É nesse ponto que a generalização da experiência sueca se torna imprecisa. Não se trata de negar seus avanços, mas de reconhecer suas contradições e, sobretudo, de evitar importar soluções que já começam a ser revistas por quem as implementou.
E aqui está a oportunidade brasileira.
O Brasil ainda enterra sua oportunidade climática junto com seus resíduos. O metano liberado por lixões e aterros é um dos gases de efeito estufa mais potentes no curto prazo — e sua captura representa justamente o tipo de “alívio imediato” que pode ganhar tempo enquanto se ajustam sistemas energéticos mais complexos.
Mas o caminho mais promissor não passa pela dependência da queima.
Experiências locais já indicam outra direção: ampliação da compostagem, fortalecimento da reciclagem, inclusão de catadores e, principalmente, produção de biogás e biometano a partir da fração orgânica dos resíduos. Trata-se de uma rota que combina redução de emissões, geração de energia descentralizada e inclusão socioeconômica — algo que modelos baseados na incineração dificilmente entregam.
Casos como Florianópolis, com metas de lixo zero, e projetos de aproveitamento energético por rota biológica demonstram que o país pode, sim, construir uma trajetória própria — mais alinhada à economia circular, à justiça climática e à lógica de transição ecológica que o mundo começa a consolidar.
Assumir o erro, portanto, é também refinar o argumento.
Resíduos seguem sendo tratados no Brasil como algo a ser enterrado, quando deveriam ocupar papel estratégico na agenda climática e energética. Mas a solução não está em confundir valorização com combustão.
Transformar lixo em energia não pode significar queimar valor.
Se o objetivo é ganhar tempo diante da emergência climática, a escolha do caminho importa. E, neste caso, insistir em atalhos pode custar mais do que o próprio problema que se pretendia resolver.
Para leitura completa do artigo de Victor Hugo Argentino de Morais Vieira e Rafael Eudes , do Instituto Pólis, acesse: Correio Braziliense – “O lixo nosso de cada dia: futuro dos resíduos não está nas chaminés”.