Liderança climática em foco

Liderança climática em foco

junho 2026

O metano pode ser a medida da cooperação global nesta década 

Em 1987, ainda sob a sombra da Guerra Fria, representantes de 46 países reuniram-se em Montreal, no Canadá, quando havia poucas razões para acreditar que daria certo. O Protocolo de Montreal não nasceu do otimismo, mas da evidência científica clara, soluções disponíveis e uma percepção compartilhada de risco. O mundo decidiu agir. 

Quase quatro décadas depois, a camada de ozônio se recupera. O episódio se consolidou como um marco do multilateralismo ambiental, menos pelo contexto histórico e mais por aquilo que demonstrou: quando ciência, viabilidade e cooperação se alinham, é possível reverter trajetórias que pareciam irreversíveis. 

Hoje, o mundo se depara com uma janela semelhante. Desta vez, o desafio atende pelo nome de metano (CH₄). 

Responsável por cerca de 30% do aquecimento global, o metano possui um potencial de aquecimento até 80 vezes superior ao do dióxido de carbono (CO₂). Suas emissões estão distribuídas por setores centrais da economia: agropecuária, resíduos, produção de energia e, ainda assim, ele permanece um personagem secundário no debate público, raramente presente no noticiário. 

China, Estados Unidos, Índia, Rússia e Brasil estão entre os principais emissores de metano do planeta. Essa concentração de responsabilidade é, ao mesmo tempo, obstáculo e oportunidade: se esses atores avançarem de forma coordenada, cada tonelada capturada produz alívio climático imediato e mensurável. 

A boa notícia é que as soluções já existem e, em muitos casos, estão disponíveis em escala. A má notícia é que nenhuma delas prospera isoladamente. Todas exigem o que apenas a cooperação entre governos, setor privado, ciência e sociedade civil é capaz de construir: financiamento, transferência tecnológica e mercados que transformem conhecimento em ação, reduzam emissões e convertam desafios climáticos em oportunidades de desenvolvimento. 

O metano reúne características raras na agenda climática contemporânea. Pode se tornar um dos vetores mais promissores de recomposição do multilateralismo climático, não apenas por reduzir emissões, mas por oferecer algo essencial à cooperação internacional: resultados rápidos, mensuráveis e verificáveis, capazes de gerar confiança política. 

Em um cenário marcado por disputas geopolíticas, a cooperação se sustenta quando os benefícios da ação coletiva podem ser observados, medidos e compartilhados. É essa capacidade de transformar compromissos diplomáticos em resultados concretos que mantém países engajados, mesmo quando divergem em quase todo o restante. 

Eis o teste decisivo. 

A credibilidade da cooperação climática não será medida pelo número de compromissos anunciados, mas pela capacidade de transformá-los em resultados. Há um obstáculo que o avanço institucional, sozinho, não resolve: o abismo entre compromisso e implementação. 

Países assinam pledges. Metas são declaradas. E o metano continua escapando de aterros, da cadeia de petróleo e gás e da pecuária, na mesma velocidade. 

O desafio já não está em reconhecer o problema. Está em produzir resultados compatíveis com a escala e a urgência da crise. Porque a mudança do clima deixou de ser apenas uma questão ambiental. É, também, uma questão de segurança nacional, ligada à capacidade dos países de proteger seus territórios, sustentar suas economias e preservar sua autonomia em um mundo cada vez mais exposto a riscos climáticos. 

Para o Brasil, o desafio é maior: não apenas reduzir emissões, mas demonstrar que uma agenda climática pode gerar resultados concretos, impulsionar desenvolvimento, fortalecer cadeias econômicas historicamente desconectadas e ampliar a resiliência estratégica do país. 

É nesse contexto que se insere o Fórum Metano: Freio de Emergência Climática. 

Realizado em 3 de junho, durante a Rio Nature & Climate Week, o encontro não se propõe a oferecer consensos fáceis e é precisamente por isso que importa. Governos, setor privado, terceiro setor, sociedade civil e instituições de pesquisa se reúnem não para discutir cenários, mas para enfrentar uma pergunta direta: se sabemos onde estão as emissões, conhecemos as soluções e dispomos das tecnologias, por que ainda não avançamos na velocidade necessária? 

A mesa de encerramento do Fórum sintetiza, por si só, algumas das principais forças da agenda climática global. 

Participam do painel Marina Silva, reconhecida internacionalmente com mais de 50 prêmios e homenagens por sua atuação em defesa da Amazônia e do desenvolvimento sustentável. Entre eles, o Goldman Environmental Prize, considerado o Nobel do Meio Ambiente, e o Champions of the Earth, principal reconhecimento ambiental das Nações Unidas. Sua trajetória também levou o jornal britânico The Guardian a incluí-la entre as 50 personalidades capazes de influenciar decisivamente o futuro do planeta. Foi vereadora, deputada estadual e federal, senadora, Ministra do Meio Ambiente e candidata à Presidência da República, percorrendo praticamente todas as escalas da política brasileira. Sua trajetória é marcada pela capacidade de atravessar diferentes momentos políticos sem abandonar os compromissos de 40 anos de atuação pública. 

Sonia Guajajara, deputada federal, foi a primeira Ministra dos Povos Indígenas do Brasil, escolhida pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Agora em maio, após ter retornado à Câmara dos Deputados, ela  Sua trajetória simboliza uma mudança relevante na forma como o mundo passou a discutir clima foi eleita copresidenta do Grupo Parlamentar sobre os Direitos das Mulheres e Meninas Indígenas do ParlAmericas, organização que reúne parlamentos de 35 países das Américas e do Caribe., biodiversidade e desenvolvimento. Da Terra Indígena Araribóia, no Maranhão, aos principais fóruns internacionais, representa a presença crescente dos povos originários em espaços onde decisões sobre seus territórios foram historicamente tomadas sem sua participação. 

Ana Toni carrega a responsabilidade de traduzir em realidade os compromissos assumidos na COP30, que recolocou o Brasil no centro da diplomacia climática internacional. Ao longo de mais de três décadas, atuou em organizações centrais para a agenda ambiental, como o Instituto Clima e Sociedade (iCS), a Fundação Ford e a ActionAid. Sua trajetória acompanha a evolução do debate climático: da construção de consensos globais ao desafio contemporâneo de transformar metas em ação concreta. 

Essa convergência reúne elementos sem os quais nenhum desafio planetário pode ser enfrentado: a experiência dos territórios, a capacidade institucional de implementação e a cooperação internacional necessária para acelerar soluções. A história mostra que avanços acontecem quando essas forças operam na mesma direção. 

O metano não resolverá sozinho a crise climática. Mas é, hoje, o nosso freio de emergência, a estratégia capaz de gerar alívio imediato enquanto as respostas estruturais seguem travadas. 

Em um cenário assim, o que sustenta a cooperação não são promessas, são resultados. 

Calendários eleitorais mudam. Mandatos terminam. A física da atmosfera não espera. 

A questão já não é o que fazer. É se vamos agir a tempo. 

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