Metano: rumo ao fim dos combustíveis fósseis

Metano: rumo ao fim dos combustíveis fósseis

Metano: ponto de partida do Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis

Por Carlos Nobre*

O último relatório da Organização Mundial de Meteorologia (Estado do Clima Global 2025), divulgado recentemente, não deixa margem para dúvidas: vivemos os 11 anos mais quentes da história da humanidade entre 2015 e 2025. Nos últimos três anos o planeta atingiu a marca de 1,5°C de aquecimento acima dos níveis pré-industriais – definida como limite pelo Acordo de Paris.

Para quem estuda o clima há décadas, o que vemos agora não é apenas uma estatística; é a confirmação de inúmeros alertas e previsões que se concretizam por meio do recorde de incêndios, secas e tempestades batendo à nossa porta todos os dias. É neste cenário de urgência que o mundo se volta para Santa Marta, na Colômbia, onde acontece a Conferência do Tratado Internacional de Combustíveis Fósseis, no fim de abril.

Lá, daremos um passo fundamental na construção do TAFF (Transition Acceleration Fossil Fuel), o Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis. Este roteiro, iniciado na COP30 sob liderança do Brasil, ainda está sendo desenhado e passará por diversas etapas e negociações ao longo deste ano. Embora o destino final e os prazos exatos para o abandono do carvão, petróleo e gás ainda não tenham entrado na mesa de negociação, a ciência nos impõe uma condição inegociável: qualquer caminho viável precisa, obrigatoriamente, passar pela redução drástica do metano.

A razão é física. O metano é um gás da família dos superpoluentes que responde por cerca de um terço do aquecimento global atual. Isso porque, embora o gás carbônico (CO2) permaneça na atmosfera por mais de 150 anos, o metano é 80 vezes mais poderoso para reter calor no curto prazo, dissipando-se em cerca de 12 anos. Isso significa que reduzir o metano agora é a única forma de “frear” o aquecimento ainda nesta década, enquanto enfrentamos a transição mais complexa do setor de energia, que responde por 75% das emissões globais. Não é à toa, afinal, que ele recebeu a alcunha de ‘freio de emergência climática’.

Essa urgência na mitigação do metano é reforçada pela instabilidade geopolítica. A guerra dos EUA e Israel no Irã gera o risco real de que países acelerem o uso de fósseis para suprir necessidades imediatas, o que seria um desastre após os recordes de emissões batidos em 2025.

Para oferecer o suporte técnico necessário a esse desafio, lançaremos, em Santa Marta, o Painel Científico para a Transição Energética Global. Esta ferramenta ajudará a otimizar os resultados do TAFF, apontando como eliminar emissões de gases de efeito estufa – entre eles o metano – e transformar sistemas produtivos.

No Brasil, esse olhar para o metano também deve ser minucioso. Precisamos enfrentar as emissões da pecuária — nossa maior fonte de metano — e modernizar urgentemente a gestão de resíduos sólidos nas cidades, setor que é o segundo maior emissor de metano no país. Somado a isso, o fim do desmatamento e a recuperação de biomas são vitais para estancar o desequilíbrio climático e garantir nossa resiliência como potência ambiental.

Não se sabe ainda quantas paradas o Mapa do Caminho do TAFF exigirá, nem quão tortuosa será a diplomacia até o final do ano, quando a presidência brasileira da COP30 deve entregar o plano à presidência da COP31. Mas uma coisa é certa: a mitigação do metano precisa ser a primeira parada obrigatória dessa jornada. Sem priorizar esse superpoluente agora, o Mapa não nos levará a lugar nenhum a tempo de evitar o colapso. Santa Marta é o momento de garantir que o primeiro passo seja dado.

O freio de emergência da crise climática tem nome: metano

O freio de emergência da crise climática tem nome: metano

Ignorar superpoluente de maior impacto no curto prazo enfraquece o TAFF Roadmap e compromete a chance de estabilizar o clima nas próximas décadas

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Por Henrique Bezerra

 A proposta liderada pelo Brasil para construir um Mapa Global da Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, o TAFF Roadmap, inaugura um novo patamar no debate climático internacional. Pela primeira vez, os países começam a enfrentar a pergunta que sempre foi evitada: em que ordem devemos abandonar petróleo, gás e carvão, e com base em quais critérios científicos? Para transformar ambição em ação concreta, é essencial incluir nesse cálculo aquilo que hoje é o fator mais negligenciado e, paradoxalmente, mais poderoso da política climática: o metano (CH4).

Responsável por mais de um terço do aquecimento global, o metano é um superpoluente de vida curta e impacto climático explosivo. Em um horizonte de 20 anos, pode aquecer o planeta cerca de 80 vezes mais que o carbono (CO₂). Mas permanece na atmosfera por pouco mais de uma década, o que significa reduzir suas emissões produz efeitos quase imediatos na desaceleração da temperatura, ou seja: não existe trajetória plausível para manter viva a meta de 1,5°C sem cortes rápidos e profundos do metano, sobretudo no setor de combustíveis fósseis

Esse gás, que deveria ser capturado e aproveitado, escapa da infraestrutura de petróleo e gás em volumes massivos por vazamentos crônicos, queima ineficiente ou ventilação deliberada. E aqui está uma realidade pouco compreendida fora dos círculos técnicos: nem todo combustível fóssil tem a mesma pegada climática. Há campos que operam com perdas mínimas, fruto de tecnologia atualizada, regulação rígida e monitoramento constante. Outros liberam quantidades gigantescas de metano por equipamentos envelhecidos, pressões instáveis do reservatório, ausência de programas de detecção e reparo de vazamentos, falta de manutenção preventiva ou simples inexistência de normas obrigatórias.

Ignorar essa assimetria compromete a credibilidade de qualquer planejamento global de transição. Se queremos um TAFF Roadmap racional e alinhado ao 1,5°C, os ativos com maiores emissões de metano precisam ser os primeiros a sair de operação. É esse tipo de critério técnico, objetivo, transparente e cientificamente embasado que transforma diretrizes diplomáticas em política climática real.

Ao mesmo tempo, os campos remanescentes precisam imediatamente adotar soluções já disponíveis e de baixo custo: programas obrigatórios de detecção e reparo de vazamentos; eliminação da ventilação rotineira; substituição de equipamentos pneumáticos alimentados por gás; captura e aproveitamento do gás associado para evitar flaring; e monitoramento contínuo com sensores e satélites. Em muitos casos, a mitigação é não apenas barata, mas economicamente vantajosa, pois recupera o gás que antes era desperdiçado.

O principal freio de emergência que ainda temos para desacelerar o aquecimento global está na mitigação imediata do metano. Cortes agressivos desse superpoluente nos próximos anos são uma das poucas ações capazes de produzir impacto dentro da janela crítica que ainda resta.

A Conferência de Santa Marta, na Colômbia, no fim de abril, será um momento crucial para consolidar esse entendimento. A articulação com o Acordo Global do Metano — que move países para cortar emissões em todos os setores — pode dar a musculatura necessária para que o desenho do TAFF Roadmap se converta em implementação real. E se o Brasil conseguir harmonizar esses elementos até a COP31, poderá entregar ao mundo algo que ainda não existe: um caminho de transição organizado, transparente e alinhado à ciência.

Henrique Bezerra, especialista em mercado de energia, é líder regional do programa da Global Methane Hub no Brasil.

#freiodeemergênciaclimática

Link: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-freio-de-emergencia-da-crise-climatica-tem-nome-metano.ghtml?giftId=823f9859f0baf87&utm_source=Whatsapp&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilharmateria

Foto da ilustração baseada da foto original do Fernando Frazão/Agência Brasil

A água que falta começa no lixo que sobra

A água que falta começa no lixo que sobra

Reduzir metano é também proteger rios, lagos e aquíferos e garantir um futuro que não seque antes de chegar

Por Paula Fernandes e Mônica Prestes  

Na Semana do Dia Mundial da Água, enquanto o mundo reconhece a gravidade da crise hídrica, o Brasil precisa admitir que um dos seus maiores desafios está do lado de casa e segue ignorado por sucessivos governos. 

Não está escondido nos confins da Amazônia, nem nos gráficos climáticos internacionais. Está nos arredores das nossas cidades, nas bordas dos centros urbanos, nos morros improvisados de resíduos que a vista já deixou de estranhar. Os mais de 3 mil lixões ainda ativos no país são feridas abertas que sangram metano para a atmosfera e chorume para o solo. São gatilhos simultâneos da crise climática e da crise hídrica. A água que falta começa no lixo que sobra. 

Sob toneladas de resíduos, o chorume infiltra-se silenciosamente pelo solo até alcançar lençóis freáticos e cursos d’água, carregando toxinas que contaminam mananciais inteiros. Na superfície, a decomposição da matéria orgânica libera metano – um superpoluente com poder de aquecimento 80 vezes maior que o CO₂ nas primeiras duas décadas. É esse gás invisível que acelera as secas, agrava a falta de chuvas, derruba reservatórios a níveis críticos e empurra cidades inteiras para o racionamento. Ele intensifica enchentes, amplia extremos e desestabiliza o clima de forma que não poupa nem quem mora à beira do rio, nem quem depende da represa que abastece a torneira – quando a água chega, porque cada vez mais ela simplesmente não chega. O que sai dos lixões não fica nos lixões: ele volta pelo ar, volta pelo clima e, cedo ou tarde, volta pela rede de abastecimento.  

Não por acaso, a ONU descreve o mundo como vivendo uma “falência hídrica global”. Metade dos grandes lagos do planeta já perdeu volume desde os anos 1990. Sete em cada dez dos principais aquíferos estão em declínio. O Brasil não é exceção. O MapBiomas mostra que enfrentamos oito dos dez anos mais secos desde 1985 apenas na última década. E, em 2023, o país viu desaparecer, em superfície de água, uma área do tamanho do Distrito Federal. Enquanto nossos corpos hídricos encolhem, nossas montanhas de lixo crescem. Em 2024, o país gerou mais de 80 milhões de toneladas de resíduos urbanos, e 40% do que foi coletado teve destino inadequado: lixões ou aterros que não impermeabilizam o solo. Estamos tentando matar a sede com a água que ajudamos a envenenar. 

A crise já é visível do espaço. Satélites detectam as plumas de metano que escapam dos lixões brasileiros, revelando emissões crescentes ano após ano. O setor de resíduos já responde por cerca de 15% do metano nacional, um salto de mais de 200% desde 1990. No Distrito Federal, 87% das emissões de metano vêm do lixo; em oito municípios goianos, o índice supera 90%. É a crise climática alimentada por aquilo que descartamos e por aquilo que não queremos ver. 

Às vezes, a crise deixa de ser invisível. Em Padre Bernardo (GO), o lixão colapsou e despejou o equivalente a 16 piscinas olímpicas de resíduos dentro do Rio do Sal. Em Planaltina, o chorume escorreu para a vegetação e ameaçou contaminar um afluente do Rio Maranhão. Em Brasília, o antigo Lixão da Estrutural funcionou por cinco décadas a poucos quilômetros da Praça dos Três Poderes, deixando um legado de vulnerabilidade e desigualdade hídrica que persiste até hoje. Cada episódio é um lembrete brutal de que ignorar o lixo é colocar em risco a água e a vida que depende dela. 

Se o problema é grave, as soluções são conhecidas e acessíveis. A adesão do Brasil ao programa internacional “Redução de Resíduos Orgânicos de Metano” (LOW-M, na sigla em inglês) uma coalizão de mais de 30 países e organizações, mostra que é possível reduzir drasticamente as emissões de metano do setor de resíduos com baixos investimentos. A captura e o aproveitamento energético do metano como biogás transformam um poluente potente em energia limpa. Iniciativas como o Brasil Composta e Cultiva promovida pelo Instituto Pólis, com o apoio do Global Methane Hub, reforçam que compostagem e reciclagem podem reduzir emissões, melhorar o solo e aliviar a pressão sobre aterros. E nada disso será sustentável sem colocar os catadores, que sempre sustentaram a reciclagem no país, no centro da transição.  

A verdade é direta: não há segurança hídrica onde há lixões ativos. Não há estabilidade climática onde há metano escapando sem controle. Não há futuro possível onde rios e lagos secam enquanto resíduos urbanos transbordam. Proteger a água implica olhar para o lixo. Reduzir metano significa ganhar tempo, aliviar extremos, salvar mananciais. O Dia Mundial da Água deveria nos lembrar que o futuro não se mede apenas pela vazão dos reservatórios, mas também pelo volume de resíduos que insistimos em ignorar. 

Diante de tantos riscos, tanto atraso e tantas vidas impactadas, a pergunta é inevitável e urgente: em nome de quê seguimos aceitando que o lixo dite o futuro da nossa água? 

*Monica Prestes, jornalista correspondente na Amazônia e Paula Fernandes, diretora da Uma Gota no Oceano

2025: Comunicação no centro da resposta climática 

2025: Comunicação no centro da resposta climática 

Em 2025, a crise climática deixou de ser apenas um alerta para se tornar um divisor de caminhos. Não se tratava mais de reconhecer sua gravidade – isso já era consenso -, mas de enfrentar escolhas complexas diante de um cenário global marcado por retrocessos ambientais e pressões econômicas crescentes sobre a Amazônia e outros biomas. 

Nesse contexto, a Gota reafirmou sua essência: irrigar informação consistente e independente para semear reflexão e colher transformação. Atuamos onde decisões são tomadas e onde seus impactos reverberam. A comunicação foi construída em diálogo com organizações, lideranças e territórios, respeitando protagonismos, ampliando alcances e influenciando os rumos da transição climática no Brasil e no mundo. 

COP30: A virada do protagonismo 

A COP30, realizada em Belém do Pará, entrou para a história como a COP dos Povos Indígenas e dos Povos Afrodescendentes.  

Em um contexto geopolítico adverso, o Brasil registrou a maior presença indígena já vista em uma conferência do clima: mais de 3,5 mil indígenas de mais de 100 povos foram acolhidos na Aldeia COP, e quase 900 indígenas foram credenciados para a Zona Azul onde acompanharam as negociações oficiais – entre eles, 30 diplomatas indígenas formados por meio do projeto Kuntari Katu. 

Essa presença marca uma inflexão histórica: os povos originários se afirmaram, de forma incontornável, como referências centrais nas soluções climáticas globais, e Belém se transformou em um território vivo de articulação e mobilização. 

A atuação da Gota na comunicação estratégica do Ministério dos Povos Indígenas foi decisiva para que esse protagonismo não se limitasse ao simbólico, mas se consolidasse institucionalmente.  

Em momentos de tensão, quando manifestações legítimas correram o risco de criminalização ou distorção, a comunicação atuou como ferramenta de proteção, reposicionamento e clareza. Ao final da COP, uma mensagem se impôs com força: não há resposta climática eficaz sem territórios demarcados, protegidos e reconhecidos como estratégicos. Esse entendimento se traduziu em anúncios concretos, como novas portarias declaratórias e homologações de Terras Indígenas. 

Quilombos, afrodescendência e justiça climática global 

Ao longo do ano, fortalecemos a comunicação quilombola como ferramenta de defesa de direitos. Produzimos conteúdos, estruturamos respostas rápidas a violações, apoiamos disputas territoriais e investimos na autonomia comunicativa dos movimentos. O Manual de Redação Quilombola, as oficinas de formação e a cobertura colaborativa da COP deixam um legado. 

Avançamos também em uma das conquistas mais estruturantes da nossa história: a inclusão inédita dos povos afrodescendentes nos documentos oficiais da UNFCCC, durante a COP30. Ao lado da CONAQ e da CITAFRO, a Gota contribuiu para transformar uma agenda historicamente invisibilizada em reconhecimento internacional, abrindo um novo capítulo na governança climática global. 

Casos como os dos quilombos do Curiaú (Amapá) e do Patuazinho (Pará) – ambos ameaçados por pressões urbanísticas, disputas fundiárias e sucessivas violações de direitos territoriais – evidenciaram, na prática, como a comunicação estratégica pode alterar correlações de força. Ao dar visibilidade qualificada às denúncias e sustentar a pressão pública, a comunicação contribuiu para frear retrocessos, fortalecer processos de defesa territorial e influenciar decisões administrativas e institucionais. 

Metano: nosso freio de emergência climática 

Outro eixo central do nosso trabalho em 2025 foi colocar o metano no centro da agenda climática, como aquilo que ele de fato é: um freio de emergência para o aquecimento global. Em parceria com o Global Methane Hub, traduzimos um tema técnico em linguagem acessível, sem abrir mão do rigor científico e da densidade do debate. 

O lançamento do novo relatório global de metano na COP30, a campanha Freio de Emergência Climática, o ABC do Metano, o personagem Super M. e os seminários realizados no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, e no Museu das Amazônias, em Belém, tiveram um objetivo comum: mostrar que reduzir metano agora é uma das formas mais rápidas e eficazes de evitar impactos climáticos ainda mais severos no curto prazo. 

Ao mesmo tempo, reforçamos a compreensão de que soluções como a economia circular – baseada na redução de desperdícios, na reutilização de materiais e na valorização de ciclos produtivos locais – não são apenas ambientais, mas também sociais, sanitárias e econômicas, especialmente relevantes para países do Sul Global. 

Aprendizados que moldam o futuro 

2025 reafirmou que não existe neutralidade na comunicação climática. Toda escolha narrativa reforça ou enfrenta desigualdades. Toda ausência de contexto pode legitimar violências. E toda estratégia bem construída pode abrir caminhos antes considerados impossíveis. 

Aprendemos que: 

  • A comunicação dos territórios precisa partir da escuta, do vínculo e do respeito aos seus tempos e saberes; 
  • Protagonismo se constrói com confiança, continuidade e reconhecimento de quem já está na linha de frente. 

 Os desafios que vêm pela frente 

O próximo ano nos desafia a sustentar e aprofundar as conquistas de 2025. 

  • O reconhecimento internacional precisa se transformar em implementação real; 
  • A inclusão de indígenas e afrodescendentes nos documentos da ONU precisa virar acesso a recursos, proteção territorial e políticas públicas efetivas; 
  • A centralidade dos povos indígenas e quilombolas precisa resistir às pressões do extrativismo, do racismo ambiental e das falsas soluções climáticas. 

Seguiremos apostando naquilo que sabemos fazer melhor: comunicação com densidade, compromisso ético e enraizamento nos territórios. Porque, em um mundo atravessado por disputas, escolher como contar as histórias é também escutar cada agente, cada ator social, cada indivíduo, cada comunidade. Vozes que ecoam atingem distâncias inimagináveis.

Permitir que o “Brasil profundo” seja ouvido e protegido é estruturar a narrativa que liga nosso passado e presente a um futuro possível: mais harmônico, sustentável e inclusivo. É seguir com a certeza de que o que construímos até aqui é só o começo!

 

 

 

Extremos do planeta caminham para o perigoso ponto de não retorno

Extremos do planeta caminham para o perigoso ponto de não retorno

À medida que nos aproximamos da COP30, marcada para acontecer em Belém, cresce a urgência de encarar a crise climática com a seriedade que ela exige. Neste artigo, publicado na Folha de S. Paulo, os especialistas Carlos Nobre e Durwood Zaelke alertam para o risco iminente de colapso em dois ecossistemas cruciais para o equilíbrio climático da Terra: a floresta amazônica e a tundra do Ártico. Atravessando hemisférios e conectados por um mesmo problema, a aceleração do aquecimento global e a emissão desenfreada de gases de efeito estufa, especialmente o metano, esses biomas caminham para um ponto de não retorno climático, com impactos devastadores e irreversíveis. A leitura é um chamado à ação urgente e coordenada, especialmente por parte de países como o Brasil, que têm um papel decisivo na construção de soluções.

Extremos do planeta caminham para o perigoso ponto de não retorno

Tundra do Ártico e floresta amazônica demandam ações imediatas para mitigar o metano e outros superpoluentes climáticos de curta duração

Por Carlos Nobre e Durwood Zaelke

O atual cenário de guerra e o clima de tensão entre países importantes na geopolítica mundial têm afastado a crise climática global do noticiário diário. A proximidade da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), no entanto, traz o tema para a ordem do dia, diante da alarmante situação de dois importantes extremos ambientais da Terra: a floresta amazônica e a tundra do Ártico — um bioma localizado no extremo norte do planeta, coberto quase que exclusivamente por gelo. Ambos enfrentam riscos reais de ultrapassar o chamado ponto de não retorno climático, situação em que os danos ambientais se tornam irreversíveis.

Ainda que separados por milhares de quilômetros, esses dois biomas compartilham uma ligação fundamental: estão profundamente ameaçados pelo aumento acelerado da temperatura global e pelas emissões de gases de efeito estufa (GEE), especialmente o metano. Embora similar ao dióxido de carbono (CO2), ele permanece na atmosfera por cerca de uma década, em comparação a centenas de milhares de anos do CO2, mas absorve 86 vezes mais energia solar, contribuindo para o efeito estufa e impactando severamente o meio ambiente. Os prejuízos causados rompem limites geográficos e socioambientais, afetando o agronegócio e a economia de forma geral.

Como sabemos, a amazônia é a maior floresta tropical do mundo e tem um papel fundamental na regulação do clima terrestre. Além de manter o ciclo das chuvas e abrigar uma biodiversidade única, ela funciona como “sumidouro de carbono”. É um processo natural que absorve e armazena CO2 da atmosfera. O desmatamento ilegal, juntamente com os incêndios florestais, está reduzindo a capacidade da amazônia de absorver CO2 e nos aproxima de um colapso ecológico que pode ser irreversível.

Do outro lado do hemisfério, no Norte, o Ártico está aquecendo quatro vezes mais rápido do que a média global e, com isso, o gelo do Ártico e a tundra terrestre estão derretendo a um ritmo preocupante. Essa camada marinha de água congelada é altamente reflexiva, e a substituição desse grande escudo branco por um oceano mais escuro acarreta mais aquecimento por conta da absorção do calor, em um efeito de retroalimentação autoamplificadora. A neve e o gelo terrestres no Ártico também são reflexivos e, quando derretem e são substituídos por terra mais escura, desencadeiam outro ciclo de retroalimentação autoamplificadora. Além disso, neste bioma, conhecido como “permafrost”, o aquecimento do solo congelado há milênios corre o risco de liberar vastas reservas de metano e CO2.

A conexão entre esses dois biomas revela que a crise climática não é localizada, é global. A ciência nos mostra o que está acontecendo e o futuro do planeta depende das escolhas que fazemos hoje. Se chegarmos a esse ponto de não retorno —e estamos caminhando céleres para isso—, a amazônia e o Ártico não conseguirão mais se regenerar. Nesse grave cenário que se avizinha, mesmo se reduzíssemos drasticamente as emissões, o sistema climático seguiria aquecendo por conta própria. Se esse limite for ultrapassado, cerca de 70% da amazônia pode se degradar nas próximas décadas, tornando a floresta inviável.

Evitar esse ponto crítico requer ação imediata para mitigar o metano e outros poluentes climáticos de curta duração, desacelerando o aquecimento mais próximo. Nesse sentido, estudos do Instituto de Governança e Desenvolvimento Sustentável (IGSD) indicam que mitigar o metano e outros superpoluentes climáticos pode evitar quatro vezes mais aquecimento em 2050 do que cortar apenas o CO2.

No ano em que o Brasil sedia a COP30, em Belém, há um apelo crescente para que o país lidere uma nova abordagem para mitigar os superpoluentes climáticos de curto prazo. Isso inclui a exigência para que as empresas de óleo e gás limitem imediatamente suas emissões de metano e desencorajem fortemente a exploração de novos combustíveis fósseis, reconhecendo que as reservas existentes hoje são muito maiores do que podem ser queimadas mantendo o planeta relativamente seguro.

A impossibilidade de atingir a meta firmada em 2015 no Acordo de Paris —de frear o aumento da temperatura média global em até 1,5°C— é um estímulo para que sigamos em busca de uma transição justa e inclusiva para as próximas gerações. Cada dia é importante para não recebermos uma conta impagável e sem retorno, em um futuro que está mais próximo do que se imagina.

Carlos Nobre é Climatologista, membro da Academia Brasileira de Ciências e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC); Durwood Zaelke é Advogado ambiental, fundador do Institute for Governance & Sustainable Development (IGSD).

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