O lixo nosso de cada dia

O lixo nosso de cada dia

O lixo nosso de cada dia: futuro dos resíduos não está nas chaminés

Por Victor H. Argentino de M. Vieira, Coordenador de Resíduos Sólidos no Instituto Pólis e Rafael Eudes, assessor da área de Resíduos Sólidos no Pólis

Proibir incineração é passo essencial para transformar cidades em espaços de economia circular e justiça ambiental. Florianópolis, reconhecida pela ONU como exemplo, mostra que coleta seletiva, compostagem e educação ambiental são caminhos a serem seguidos. 

O Plano Nacional de Resíduos Sólidos, instituído em 2022, prevê a eliminação dos lixões e o aumento da reciclagem no Brasil. No entanto, mais de 3 mil depósitos de lixo a céu aberto continuam ativos e, ao mesmo tempo em que o chorume se infiltra no solo, podendo alcançar lençóis freáticos e cursos d’água, a decomposição da matéria orgânica libera metano (CH4) para a atmosfera, um gás de efeito estufa responsável por cerca de um terço do aquecimento global.  

Dados do relatório de 2025 do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) mostram que em 2024 o país gerou mais de 88 milhões de toneladas de resíduos sólidos. Do total coletado, 26% tiveram como destino lixões a céu aberto ou aterros controlados que não impermeabilizam o solo para evitar o vazamento do chorume. Se por um lado é flagrante o risco de comprometer a água que abastece inúmeras comunidades, os satélites do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) também detectaram que as emissões resultantes dos resíduos respondem por cerca de 15% do metano emitido pelo Brasil. 

Recentemente, a ONU homenageou 20 cidades do mundo que implementaram soluções alinhadas ao conceito de resíduo zero. A única escolhida na América Latina foi Florianópolis, pioneira ao assumir, por lei, o compromisso de alcançar lixo zero até 2030. Nada feito por meio de soluções mágicas, mas por compromissos claros com a economia circular. 

Em um momento em que o Brasil tem sido palco para um intenso debate sobre tecnologias de incineração de resíduos, promovidas por meio de Usinas de Recuperação Energética (UREs), Florianópolis aponta outro caminho: o futuro está na redução da geração, na coleta seletiva, na reciclagem e na compostagem. A cidade desviou 14% dos resíduos orgânicos dos aterros; aumentou a compostagem de alimentos de 1.175 toneladas, em 2020, para 6.002 toneladas no ano passado; e cerca de 200 famílias garantem renda através da triagem de recicláveis. O compromisso com a economia circular se consolidou na Lei Municipal nº 10.574, que proíbe o envio de resíduos a aterros sanitários e à incineração, priorizando a reciclagem e a compostagem como destinos ambientalmente adequados. 

Enquanto algumas cidades voltam a considerar, sob novas narrativas, a queima de resíduos como resposta rápida ao fechamento de lixões e à escassez de aterros, vale lembrar que a incineração carrega um histórico conhecido de impactos ambientais e à saúde. Em São Paulo, por quatro décadas, três incineradores anunciados como tecnologia de “última geração”, importados da Alemanha, operaram emitindo substâncias cancerígenas e desreguladores endócrinos sem controle ou monitoramento adequados. O legado não foi a solução da gestão de resíduos, mas impactos ambientais e sociais duradouros, frequentemente esquecidos quando o discurso da “energia a partir do lixo” retorna com verniz de modernidade. 

Mesmo nos chamados “melhores padrões mundiais”, a incineração segue levantando alertas – inclusive pela própria ONU, que chama a atenção para a falta de fiscalização adequada e controle efetivo das emissões das UREs nos países em desenvolvimento. Monitoramentos conduzidos pela Zero Waste Europe e ToxicWatch indicam que países notórios pelo controle ambiental, como a França, registram emissões de poluentes orgânicos persistentes acima de níveis considerados seguros e 407 cidades receberam comunicados para evitar o consumo de ovos locais devido à contaminação por dioxinas, substâncias cancerígenas associadas à operação de incineradoras. 

Dados econômicos também evidenciam que há alternativas mais vantajosas à incineração, cujo custo de implantação pode ser até oito vezes maior que o da energia solar fotovoltaica, com eficiência elétrica limitada a 20%–25%. Na Europa, a experiência revelou outro impasse: a Suécia importa resíduos para manter incineradores ativos, e a União Europeia passou a priorizar a reciclagem através de mudanças nas suas legislações e programas de financiamento público.  

O contraste entre os caminhos é evidente: de um lado, políticas públicas que apostam em ciclos regenerativos, inclusão social e fortalecimento de economias locais – reduzir, reutilizar e reciclar-, de outro, modelos caros, poluentes e insustentáveis, que não enfrentam a raiz do problema e apenas o transformam em cinzas, gases e passivos ambientais. Florianópolis mostra que o futuro se constrói com inteligência e cuidado, e não nas chaminés do passado.

O lugar do Brasil na equação climática global

O lugar do Brasil na equação climática global

Antes de 1992, quando o Rio de Janeiro sediou a RIO-92 e colocou o planeta numa mesma sala para discutir o que ainda chamávamos de “futuro”, o Brasil já era uma encruzilhada de destinos. Somos o país que abriga a maior biodiversidade terrestre do mundo: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal, Pampa. Biomas que não são paisagens, são reguladores do clima global, reservatórios de vida e de tempo. E mais: estamos atrás apenas da China em reservas de terras raras. No século XXI, o olhar do mundo pousa sobre nós. 

Mas o Brasil que pode liderar não se resume ao PIB do agronegócio ou ao portfólio de biocombustíveis e alternativas energéticas. É também, e sobretudo, o dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, que há séculos manejam territórios que a ciência agora corre para compreender. Cerca de 20% do território nacional sob gestão indígena apresenta índices de desmatamento significativamente menores do que áreas desprotegidas. Não por acaso, mas por conhecimento acumulado, transmitido e vivido. Ignorá-los na arquitetura das soluções climáticas não é apenas injusto, é ineficiente. 

Mais de três décadas depois da RIO-92 e vinte anos após a Rio+20, marcos que inauguraram a gramática da diplomacia climática moderna, o Rio de Janeiro volta a ser palco do debate sobre o futuro do planeta. Entre 1º e 6 de junho, a Rio Nature and Climate Week recoloca a cidade no centro das decisões que moldam o amanhã. No dia 3, a Uma Gota no Oceano, em parceria com o Global Methane Hub e a Presidência da COP30, realiza o Fórum Metano: Freio de Emergência Climática, um espaço onde o invisível ganha nome, dado e urgência. 

O metano (CH₄) atravessa tudo. Dialoga com a gestão de resíduos, que pode ser reinventada; com a agropecuária, que pode produzir mais emitindo menos; com a energia, que pode ser mais limpa e eficiente. Responsável por cerca de 30% do aquecimento global desde a Revolução Industrial e com um potencial de aquecimento mais de 80 vezes superior ao CO₂ em 20 anos, ele tem uma característica decisiva: pode ser reduzido agora. Diferente do carbono, que permanece por séculos na atmosfera, o metano se dissipa em pouco mais de uma década. Cortar suas emissões é a ação climática mais rápida, mais justa e com melhor custo-benefício disponível. E o Brasil – quinto maior emissor global de CH₄, com 21,1 milhões de toneladas em 2023 – ocupa um lugar onde responsabilidade e oportunidade são equivalentes. 

A agropecuária responde por cerca de 75% das emissões nacionais de metano e pode reduzir até 28% até 2035 com tecnologias já disponíveis. O setor de resíduos, responsável por 16%, tem potencial de redução de 36% até 2030 por meio de políticas estruturantes que também geram emprego, renda e dignidade, especialmente para os catadores, agentes climáticos que o país ainda insiste em subestimar. Estão previstos R$ 6,4 bilhões em investimentos em biometano até 2030. Os números são claros: a transição não é sacrifício. É projeto de país. 

Mas essa transição não acontece por inércia nem por um setor isolado. O poder público precisa transformar marcos legais em orçamento e política territorial. A iniciativa privada precisa ir além do greenwashing e assumir metas mensuráveis, auditáveis, conectadas a toda a cadeia produtiva. E o terceiro setor, sem tutela e sem ingenuidade, é o elo que traduz ciência em ação e ação em escala. Quando esses três vetores convergem, o Brasil deixa de prometer liderança e começa a exercê-la. 

Há, ainda, uma assimetria que o debate climático reluta em nomear: o que é dito em Berlim, Londres ou Washington chega com peso institucional; o que emerge de Belém, Salvador ou Manaus precisa disputar legitimidade, palavra por palavra. A Rio Nature and Climate Week é também uma resposta a essa hierarquia. 

O Sul Global não precisa de tradução para nomear o que vive. E, num momento em que o multilateralismo é sistematicamente tensionado e acordos voluntários como o Global Methane Pledge, assinado por mais de 150 países na COP26, ainda carecem de mecanismos robustos de responsabilização. O Brasil pode ser a voz que reorganiza o debate. Não por altruísmo, mas por posição: nossa sociobiodiversidade, nossa escala territorial e nossa capacidade de articular ciência, povo e política nos colocam em um lugar que nenhum outro país ocupa. 

O Fórum Metano: Freio de Emergência Climática não é apenas um evento. É o ponto em que governo, mercado e sociedade civil deixam de discutir os limites do problema e passam a assumir, de forma compartilhada, a responsabilidade pela solução. 

O Brasil carrega, há décadas, os elementos centrais dessa resposta: território, biodiversidade, ciência e saberes que atravessam gerações. Não se trata mais de reconhecer esse potencial, mas de decidir o que fazer com ele. 

Em junho, o Rio de Janeiro volta ao centro desse movimento, não como memória de um passado diplomático, mas como espaço de definição sobre o futuro que o país está disposto a liderar.

Metano: rumo ao fim dos combustíveis fósseis

Metano: rumo ao fim dos combustíveis fósseis

Metano: ponto de partida do Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis

Por Carlos Nobre*

O último relatório da Organização Mundial de Meteorologia (Estado do Clima Global 2025), divulgado recentemente, não deixa margem para dúvidas: vivemos os 11 anos mais quentes da história da humanidade entre 2015 e 2025. Nos últimos três anos o planeta atingiu a marca de 1,5°C de aquecimento acima dos níveis pré-industriais – definida como limite pelo Acordo de Paris.

Para quem estuda o clima há décadas, o que vemos agora não é apenas uma estatística; é a confirmação de inúmeros alertas e previsões que se concretizam por meio do recorde de incêndios, secas e tempestades batendo à nossa porta todos os dias. É neste cenário de urgência que o mundo se volta para Santa Marta, na Colômbia, onde acontece a Conferência do Tratado Internacional de Combustíveis Fósseis, no fim de abril.

Lá, daremos um passo fundamental na construção do TAFF (Transition Acceleration Fossil Fuel), o Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis. Este roteiro, iniciado na COP30 sob liderança do Brasil, ainda está sendo desenhado e passará por diversas etapas e negociações ao longo deste ano. Embora o destino final e os prazos exatos para o abandono do carvão, petróleo e gás ainda não tenham entrado na mesa de negociação, a ciência nos impõe uma condição inegociável: qualquer caminho viável precisa, obrigatoriamente, passar pela redução drástica do metano.

A razão é física. O metano é um gás da família dos superpoluentes que responde por cerca de um terço do aquecimento global atual. Isso porque, embora o gás carbônico (CO2) permaneça na atmosfera por mais de 150 anos, o metano é 80 vezes mais poderoso para reter calor no curto prazo, dissipando-se em cerca de 12 anos. Isso significa que reduzir o metano agora é a única forma de “frear” o aquecimento ainda nesta década, enquanto enfrentamos a transição mais complexa do setor de energia, que responde por 75% das emissões globais. Não é à toa, afinal, que ele recebeu a alcunha de ‘freio de emergência climática’.

Essa urgência na mitigação do metano é reforçada pela instabilidade geopolítica. A guerra dos EUA e Israel no Irã gera o risco real de que países acelerem o uso de fósseis para suprir necessidades imediatas, o que seria um desastre após os recordes de emissões batidos em 2025.

Para oferecer o suporte técnico necessário a esse desafio, lançaremos, em Santa Marta, o Painel Científico para a Transição Energética Global. Esta ferramenta ajudará a otimizar os resultados do TAFF, apontando como eliminar emissões de gases de efeito estufa – entre eles o metano – e transformar sistemas produtivos.

No Brasil, esse olhar para o metano também deve ser minucioso. Precisamos enfrentar as emissões da pecuária — nossa maior fonte de metano — e modernizar urgentemente a gestão de resíduos sólidos nas cidades, setor que é o segundo maior emissor de metano no país. Somado a isso, o fim do desmatamento e a recuperação de biomas são vitais para estancar o desequilíbrio climático e garantir nossa resiliência como potência ambiental.

Não se sabe ainda quantas paradas o Mapa do Caminho do TAFF exigirá, nem quão tortuosa será a diplomacia até o final do ano, quando a presidência brasileira da COP30 deve entregar o plano à presidência da COP31. Mas uma coisa é certa: a mitigação do metano precisa ser a primeira parada obrigatória dessa jornada. Sem priorizar esse superpoluente agora, o Mapa não nos levará a lugar nenhum a tempo de evitar o colapso. Santa Marta é o momento de garantir que o primeiro passo seja dado.

O freio de emergência da crise climática tem nome: metano

O freio de emergência da crise climática tem nome: metano

Ignorar superpoluente de maior impacto no curto prazo enfraquece o TAFF Roadmap e compromete a chance de estabilizar o clima nas próximas décadas

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Por Henrique Bezerra

 A proposta liderada pelo Brasil para construir um Mapa Global da Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, o TAFF Roadmap, inaugura um novo patamar no debate climático internacional. Pela primeira vez, os países começam a enfrentar a pergunta que sempre foi evitada: em que ordem devemos abandonar petróleo, gás e carvão, e com base em quais critérios científicos? Para transformar ambição em ação concreta, é essencial incluir nesse cálculo aquilo que hoje é o fator mais negligenciado e, paradoxalmente, mais poderoso da política climática: o metano (CH4).

Responsável por mais de um terço do aquecimento global, o metano é um superpoluente de vida curta e impacto climático explosivo. Em um horizonte de 20 anos, pode aquecer o planeta cerca de 80 vezes mais que o carbono (CO₂). Mas permanece na atmosfera por pouco mais de uma década, o que significa reduzir suas emissões produz efeitos quase imediatos na desaceleração da temperatura, ou seja: não existe trajetória plausível para manter viva a meta de 1,5°C sem cortes rápidos e profundos do metano, sobretudo no setor de combustíveis fósseis

Esse gás, que deveria ser capturado e aproveitado, escapa da infraestrutura de petróleo e gás em volumes massivos por vazamentos crônicos, queima ineficiente ou ventilação deliberada. E aqui está uma realidade pouco compreendida fora dos círculos técnicos: nem todo combustível fóssil tem a mesma pegada climática. Há campos que operam com perdas mínimas, fruto de tecnologia atualizada, regulação rígida e monitoramento constante. Outros liberam quantidades gigantescas de metano por equipamentos envelhecidos, pressões instáveis do reservatório, ausência de programas de detecção e reparo de vazamentos, falta de manutenção preventiva ou simples inexistência de normas obrigatórias.

Ignorar essa assimetria compromete a credibilidade de qualquer planejamento global de transição. Se queremos um TAFF Roadmap racional e alinhado ao 1,5°C, os ativos com maiores emissões de metano precisam ser os primeiros a sair de operação. É esse tipo de critério técnico, objetivo, transparente e cientificamente embasado que transforma diretrizes diplomáticas em política climática real.

Ao mesmo tempo, os campos remanescentes precisam imediatamente adotar soluções já disponíveis e de baixo custo: programas obrigatórios de detecção e reparo de vazamentos; eliminação da ventilação rotineira; substituição de equipamentos pneumáticos alimentados por gás; captura e aproveitamento do gás associado para evitar flaring; e monitoramento contínuo com sensores e satélites. Em muitos casos, a mitigação é não apenas barata, mas economicamente vantajosa, pois recupera o gás que antes era desperdiçado.

O principal freio de emergência que ainda temos para desacelerar o aquecimento global está na mitigação imediata do metano. Cortes agressivos desse superpoluente nos próximos anos são uma das poucas ações capazes de produzir impacto dentro da janela crítica que ainda resta.

A Conferência de Santa Marta, na Colômbia, no fim de abril, será um momento crucial para consolidar esse entendimento. A articulação com o Acordo Global do Metano — que move países para cortar emissões em todos os setores — pode dar a musculatura necessária para que o desenho do TAFF Roadmap se converta em implementação real. E se o Brasil conseguir harmonizar esses elementos até a COP31, poderá entregar ao mundo algo que ainda não existe: um caminho de transição organizado, transparente e alinhado à ciência.

Henrique Bezerra, especialista em mercado de energia, é líder regional do programa da Global Methane Hub no Brasil.

#freiodeemergênciaclimática

Link: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-freio-de-emergencia-da-crise-climatica-tem-nome-metano.ghtml?giftId=823f9859f0baf87&utm_source=Whatsapp&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilharmateria

Foto da ilustração baseada da foto original do Fernando Frazão/Agência Brasil

A água que falta começa no lixo que sobra

A água que falta começa no lixo que sobra

Reduzir metano é também proteger rios, lagos e aquíferos e garantir um futuro que não seque antes de chegar

Por Paula Fernandes e Mônica Prestes  

Na Semana do Dia Mundial da Água, enquanto o mundo reconhece a gravidade da crise hídrica, o Brasil precisa admitir que um dos seus maiores desafios está do lado de casa e segue ignorado por sucessivos governos. 

Não está escondido nos confins da Amazônia, nem nos gráficos climáticos internacionais. Está nos arredores das nossas cidades, nas bordas dos centros urbanos, nos morros improvisados de resíduos que a vista já deixou de estranhar. Os mais de 3 mil lixões ainda ativos no país são feridas abertas que sangram metano para a atmosfera e chorume para o solo. São gatilhos simultâneos da crise climática e da crise hídrica. A água que falta começa no lixo que sobra. 

Sob toneladas de resíduos, o chorume infiltra-se silenciosamente pelo solo até alcançar lençóis freáticos e cursos d’água, carregando toxinas que contaminam mananciais inteiros. Na superfície, a decomposição da matéria orgânica libera metano – um superpoluente com poder de aquecimento 80 vezes maior que o CO₂ nas primeiras duas décadas. É esse gás invisível que acelera as secas, agrava a falta de chuvas, derruba reservatórios a níveis críticos e empurra cidades inteiras para o racionamento. Ele intensifica enchentes, amplia extremos e desestabiliza o clima de forma que não poupa nem quem mora à beira do rio, nem quem depende da represa que abastece a torneira – quando a água chega, porque cada vez mais ela simplesmente não chega. O que sai dos lixões não fica nos lixões: ele volta pelo ar, volta pelo clima e, cedo ou tarde, volta pela rede de abastecimento.  

Não por acaso, a ONU descreve o mundo como vivendo uma “falência hídrica global”. Metade dos grandes lagos do planeta já perdeu volume desde os anos 1990. Sete em cada dez dos principais aquíferos estão em declínio. O Brasil não é exceção. O MapBiomas mostra que enfrentamos oito dos dez anos mais secos desde 1985 apenas na última década. E, em 2023, o país viu desaparecer, em superfície de água, uma área do tamanho do Distrito Federal. Enquanto nossos corpos hídricos encolhem, nossas montanhas de lixo crescem. Em 2024, o país gerou mais de 80 milhões de toneladas de resíduos urbanos, e 40% do que foi coletado teve destino inadequado: lixões ou aterros que não impermeabilizam o solo. Estamos tentando matar a sede com a água que ajudamos a envenenar. 

A crise já é visível do espaço. Satélites detectam as plumas de metano que escapam dos lixões brasileiros, revelando emissões crescentes ano após ano. O setor de resíduos já responde por cerca de 15% do metano nacional, um salto de mais de 200% desde 1990. No Distrito Federal, 87% das emissões de metano vêm do lixo; em oito municípios goianos, o índice supera 90%. É a crise climática alimentada por aquilo que descartamos e por aquilo que não queremos ver. 

Às vezes, a crise deixa de ser invisível. Em Padre Bernardo (GO), o lixão colapsou e despejou o equivalente a 16 piscinas olímpicas de resíduos dentro do Rio do Sal. Em Planaltina, o chorume escorreu para a vegetação e ameaçou contaminar um afluente do Rio Maranhão. Em Brasília, o antigo Lixão da Estrutural funcionou por cinco décadas a poucos quilômetros da Praça dos Três Poderes, deixando um legado de vulnerabilidade e desigualdade hídrica que persiste até hoje. Cada episódio é um lembrete brutal de que ignorar o lixo é colocar em risco a água e a vida que depende dela. 

Se o problema é grave, as soluções são conhecidas e acessíveis. A adesão do Brasil ao programa internacional “Redução de Resíduos Orgânicos de Metano” (LOW-M, na sigla em inglês) uma coalizão de mais de 30 países e organizações, mostra que é possível reduzir drasticamente as emissões de metano do setor de resíduos com baixos investimentos. A captura e o aproveitamento energético do metano como biogás transformam um poluente potente em energia limpa. Iniciativas como o Brasil Composta e Cultiva promovida pelo Instituto Pólis, com o apoio do Global Methane Hub, reforçam que compostagem e reciclagem podem reduzir emissões, melhorar o solo e aliviar a pressão sobre aterros. E nada disso será sustentável sem colocar os catadores, que sempre sustentaram a reciclagem no país, no centro da transição.  

A verdade é direta: não há segurança hídrica onde há lixões ativos. Não há estabilidade climática onde há metano escapando sem controle. Não há futuro possível onde rios e lagos secam enquanto resíduos urbanos transbordam. Proteger a água implica olhar para o lixo. Reduzir metano significa ganhar tempo, aliviar extremos, salvar mananciais. O Dia Mundial da Água deveria nos lembrar que o futuro não se mede apenas pela vazão dos reservatórios, mas também pelo volume de resíduos que insistimos em ignorar. 

Diante de tantos riscos, tanto atraso e tantas vidas impactadas, a pergunta é inevitável e urgente: em nome de quê seguimos aceitando que o lixo dite o futuro da nossa água? 

*Monica Prestes, jornalista correspondente na Amazônia e Paula Fernandes, diretora da Uma Gota no Oceano

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