2025: Comunicação no centro da resposta climática 

2025: Comunicação no centro da resposta climática 

Em 2025, a crise climática deixou de ser apenas um alerta para se tornar um divisor de caminhos. Não se tratava mais de reconhecer sua gravidade – isso já era consenso -, mas de enfrentar escolhas complexas diante de um cenário global marcado por retrocessos ambientais e pressões econômicas crescentes sobre a Amazônia e outros biomas. 

Nesse contexto, a Gota reafirmou sua essência: irrigar informação consistente e independente para semear reflexão e colher transformação. Atuamos onde decisões são tomadas e onde seus impactos reverberam. A comunicação foi construída em diálogo com organizações, lideranças e territórios, respeitando protagonismos, ampliando alcances e influenciando os rumos da transição climática no Brasil e no mundo. 

COP30: A virada do protagonismo 

A COP30, realizada em Belém do Pará, entrou para a história como a COP dos Povos Indígenas e dos Povos Afrodescendentes.  

Em um contexto geopolítico adverso, o Brasil registrou a maior presença indígena já vista em uma conferência do clima: mais de 3,5 mil indígenas de mais de 100 povos foram acolhidos na Aldeia COP, e quase 900 indígenas foram credenciados para a Zona Azul onde acompanharam as negociações oficiais – entre eles, 30 diplomatas indígenas formados por meio do projeto Kuntari Katu. 

Essa presença marca uma inflexão histórica: os povos originários se afirmaram, de forma incontornável, como referências centrais nas soluções climáticas globais, e Belém se transformou em um território vivo de articulação e mobilização. 

A atuação da Gota na comunicação estratégica do Ministério dos Povos Indígenas foi decisiva para que esse protagonismo não se limitasse ao simbólico, mas se consolidasse institucionalmente.  

Em momentos de tensão, quando manifestações legítimas correram o risco de criminalização ou distorção, a comunicação atuou como ferramenta de proteção, reposicionamento e clareza. Ao final da COP, uma mensagem se impôs com força: não há resposta climática eficaz sem territórios demarcados, protegidos e reconhecidos como estratégicos. Esse entendimento se traduziu em anúncios concretos, como novas portarias declaratórias e homologações de Terras Indígenas. 

Quilombos, afrodescendência e justiça climática global 

Ao longo do ano, fortalecemos a comunicação quilombola como ferramenta de defesa de direitos. Produzimos conteúdos, estruturamos respostas rápidas a violações, apoiamos disputas territoriais e investimos na autonomia comunicativa dos movimentos. O Manual de Redação Quilombola, as oficinas de formação e a cobertura colaborativa da COP deixam um legado. 

Avançamos também em uma das conquistas mais estruturantes da nossa história: a inclusão inédita dos povos afrodescendentes nos documentos oficiais da UNFCCC, durante a COP30. Ao lado da CONAQ e da CITAFRO, a Gota contribuiu para transformar uma agenda historicamente invisibilizada em reconhecimento internacional, abrindo um novo capítulo na governança climática global. 

Casos como os dos quilombos do Curiaú (Amapá) e do Patuazinho (Pará) – ambos ameaçados por pressões urbanísticas, disputas fundiárias e sucessivas violações de direitos territoriais – evidenciaram, na prática, como a comunicação estratégica pode alterar correlações de força. Ao dar visibilidade qualificada às denúncias e sustentar a pressão pública, a comunicação contribuiu para frear retrocessos, fortalecer processos de defesa territorial e influenciar decisões administrativas e institucionais. 

Metano: nosso freio de emergência climática 

Outro eixo central do nosso trabalho em 2025 foi colocar o metano no centro da agenda climática, como aquilo que ele de fato é: um freio de emergência para o aquecimento global. Em parceria com o Global Methane Hub, traduzimos um tema técnico em linguagem acessível, sem abrir mão do rigor científico e da densidade do debate. 

O lançamento do novo relatório global de metano na COP30, a campanha Freio de Emergência Climática, o ABC do Metano, o personagem Super M. e os seminários realizados no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, e no Museu das Amazônias, em Belém, tiveram um objetivo comum: mostrar que reduzir metano agora é uma das formas mais rápidas e eficazes de evitar impactos climáticos ainda mais severos no curto prazo. 

Ao mesmo tempo, reforçamos a compreensão de que soluções como a economia circular – baseada na redução de desperdícios, na reutilização de materiais e na valorização de ciclos produtivos locais – não são apenas ambientais, mas também sociais, sanitárias e econômicas, especialmente relevantes para países do Sul Global. 

Aprendizados que moldam o futuro 

2025 reafirmou que não existe neutralidade na comunicação climática. Toda escolha narrativa reforça ou enfrenta desigualdades. Toda ausência de contexto pode legitimar violências. E toda estratégia bem construída pode abrir caminhos antes considerados impossíveis. 

Aprendemos que: 

  • A comunicação dos territórios precisa partir da escuta, do vínculo e do respeito aos seus tempos e saberes; 
  • Protagonismo se constrói com confiança, continuidade e reconhecimento de quem já está na linha de frente. 

 Os desafios que vêm pela frente 

O próximo ano nos desafia a sustentar e aprofundar as conquistas de 2025. 

  • O reconhecimento internacional precisa se transformar em implementação real; 
  • A inclusão de indígenas e afrodescendentes nos documentos da ONU precisa virar acesso a recursos, proteção territorial e políticas públicas efetivas; 
  • A centralidade dos povos indígenas e quilombolas precisa resistir às pressões do extrativismo, do racismo ambiental e das falsas soluções climáticas. 

Seguiremos apostando naquilo que sabemos fazer melhor: comunicação com densidade, compromisso ético e enraizamento nos territórios. Porque, em um mundo atravessado por disputas, escolher como contar as histórias é também escutar cada agente, cada ator social, cada indivíduo, cada comunidade. Vozes que ecoam atingem distâncias inimagináveis.

Permitir que o “Brasil profundo” seja ouvido e protegido é estruturar a narrativa que liga nosso passado e presente a um futuro possível: mais harmônico, sustentável e inclusivo. É seguir com a certeza de que o que construímos até aqui é só o começo!

 

 

 

A maior e melhor participação indígena da história de todas as COPs 

A maior e melhor participação indígena da história de todas as COPs 

Por Sonia Guajajara, Ministra dos Povos Indígenas do Brasil 

A COP30 em Belém do Pará foi um marco histórico nas negociações climáticas globais. Pela primeira vez, os povos indígenas não apenas estiveram presentes em grande número, mas exerceram influência direta sobre o conteúdo e as orientações políticas do processo multilateral. Realizada na Amazônia, região decisiva para o equilíbrio climático planetário, a conferência evidenciou uma mudança estrutural: nenhuma estratégia climática será eficaz sem considerar os povos indígenas como atores centrais das soluções. 

Essa participação inédita foi fruto de um processo preparatório intenso. O ciclo de formação COParente percorreu todas as regiões e biomas do país, promovendo debates sobre clima e governança territorial. O programa Kuntari Katu, em parceria com o Itamaraty, preparou jovens lideranças indígenas para o funcionamento multilateral. Essas iniciativas garantiram que os delegados chegassem a Belém com capacidade técnica e enraizamento territorial, fortalecendo o protagonismo indígena. A Presidência da COP30 abraçou esse espírito, apoiando o lançamento do Círculo dos Povos, espaço de diálogo internacional que acolheu mensalmente demandas de povos indígenas e comunidades tradicionais. 

Em Belém, a Aldeia COP tornou-se o coração da conferência. Acolheu 3.500 pessoas de mais de 100 povos e recebeu 5 mil visitantes de centenas de países. Ali se realizaram debates estratégicos, apresentações culturais, práticas de cura ancestral e encontros internacionais. Saúdo a Cúpula dos Povos, que retomou o protagonismo dos movimentos sociais com importantes espaços de articulação e construção. De espaços como a Cúpula e a Aldeia nasceram diversas ações e duas grandes marchas que levaram ao mundo a mensagem de que são as vozes dos povos impactados pelas mudanças climáticas que precisam ocupar os espaços oficiais. 

Na Zona Azul, quase 900 indígenas foram credenciados – a maior delegação indígena já registrada em uma COP, não apenas em número, mas em grau de organização e capacidade de incidir nas negociações. Em Dubai, na COP28, havia cerca de 350 indígenas credenciados, numa relação de sete lobistas dos setores de petróleo e mineração para cada indígena. Em Belém, a proporção passou a ser dois para um. Embora ainda haja desequilíbrio, trata-se de uma mudança qualitativa. Uma aposta de que com mais participação e protagonismo poderemos encontrar as melhores respostas para as emergências climáticas. 

Os resultados desta mudança já foram imediatos. Pela primeira vez em 30 COPs, os direitos territoriais indígenas foram reconhecidos como políticas de mitigação necessárias para uma transição justa. Também pela primeira vez nos textos oficiais foi afirmada a necessidade do consentimento livre, prévio e informado para ações que envolvam povos indígenas. 

Mas as conquistas não se limitaram à agenda de negociação. Assinei, em nome do Presidente Lula, o compromisso intergovernamental de posse da Terra, que prevê a proteção de 59 milhões de hectares de florestas até 2030. Somado a outros países, esse compromisso alcança 160 milhões de hectares protegidos no planeta. No Brasil, durante a COP, foram homologadas quatro Terras Indígenas, dez portarias declaratórias foram assinadas, seis relatórios de identificação e delimitação foram publicados e outras dez reservas indígenas foram constituídas, reafirmando o compromisso do governo com a demarcação e proteção dos territórios. Celebramos também a declaração contra o racismo ambiental e a decisão de incorporar comunidades locais nas estruturas oficiais da Convenção até a COP32. 

No campo do financiamento climático, avançamos com três iniciativas estratégicas: a renovação do compromisso financeiro de fortalecimento da posse da Terra, a criação do Fundo Vítuke de apoio à gestão ambiental indígena e o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, a mais inovadora iniciativa da história do financiamento climático, com implementação prevista para 2026. É legítimo reconhecer que muitos alertaram para os riscos de transformar a natureza em mercadoria, subordinando árvores, rios e territórios à lógica do mercado. O TFFF nasce justamente para romper com essa mentalidade. Foi concebido para garantir que ao menos 20% dos recursos sejam destinados e geridos de forma direta pelas populações que vivem e cuidam da floresta, reconhecendo que são elas as guardiãs da biodiversidade e da vida. Não se trata de financiar exploração, mas de assegurar condições para que os territórios continuem vivos, protegidos e respeitados. Ao colocar os povos indígenas no centro da governança, afirmamos que não há justiça climática sem justiça territorial. 

Na COP30, direitos humanos e meio ambiente caminharam em conjunto. Celebramos a primeira iniciativa de uma Convenção do Clima em favor da proteção dos defensores ambientais e a decisão de avançar, até a COP32, na incorporação das comunidades locais – afrodescendentes e povos tradicionais – nas instâncias oficiais. 

Esses resultados expressam a força de uma ação coletiva. Como disse Paulo Freire: “Sonho que se sonha só é só um sonho. Sonho que se sonha junto vira realidade.” A presença indígena em Belém foi a concretização desse sonho coletivo, unindo múltiplas lideranças e visões em um esforço político comum. A COP30 ficará marcada como a conferência que reposicionou os povos indígenas no centro do debate climático internacional e demonstrou que, quando os povos indígenas dispõem de condições adequadas para participar plenamente, a agenda climática ganha profundidade, legitimidade e capacidade de transformação. 

O legado da COP30 é inequívoco: territórios indígenas, políticas de proteção florestal e sistemas de governança ancestral são componentes inseparáveis de qualquer estratégia climática eficaz  

A força do diálogo 

A força do diálogo 

Auguegi wao!  

Na língua Bakairi, eu chego e peço licença: deixem-me falar! Deixem-me contar um pouco sobre as nossas lutas neste ano de 2024, compartilhar nossas preocupações e, claro, nossas conquistas. Neste ano, nós, povos indígenas de Mato Grosso, representados pela Federação dos Povos e Organizações Indígenas de MT (Fepoimt), conquistamos mais espaços. E não falo somente da demarcação de territórios, mas também de lugares de fala.  

Sim, porque começamos o ano com novos representantes no Conselho Nacional de Políticas Indigenistas, tão importante na luta pelos nossos direitos. Consolidamos o Acampamento Terra Livre (ATL) em Mato Grosso com a participação de mais de 400 indígenas dos 46 povos do estado na praça Ulisses Guimarães, em Cuiabá, uma  mobilização crucial para ampliar o diálogo com os poderes Executivo e Legislativo e compartilhar as nossas lutas com a sociedade.  

Por falar em conquistar espaços públicos, 12 vereadores indígenas foram eleitos nas eleições municipais. Agora são 12 vozes a mais em defesa dos direitos dos povos tradicionais nos próximos quatro anos, em vários cantos de Mato Grosso. 

Após décadas de luta e embates jurídicos, celebramos a homologação do território indígena Cacique Fontoura, do povo Iny Karajá, e a declaração dos limites de ocupação tradicional do território Apiaká do Pontal e Isolados.  

Também levamos uma delegação a Brasília, onde fomos recebidos por quatro ministros do Supremo Tribunal Federal para debater a inconstitucionalidade do marco temporal. Conquistamos a participação dos povos indígenas no programa do governo “Arroz da Gente”, de incentivo à produção com acompanhamento técnico e garantia de comercialização. O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome também incluiu os povos indígenas no Plano Nacional de Cuidados. 

Mas este foi um ano de estiagem severa, e os incêndios florestais devastaram nossos territórios. De janeiro até agora, o número de focos de calor foi quatro vezes maior que no mesmo período do ano passado. Já estamos em emergência climática! 

Não temos como impedir as mudanças, mas podemos nos preparar. Precisamos de um plano de adaptação climática para as cidades, é urgente! Precisamos de um plano de manejo do fogo, já que nas condições climáticas atuais, a prevenção e o combate não são mais os mesmos. Os sinais estão todos aí, a natureza vem nos alertando.  

Em 2025, como anfitrião da COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, o Brasil ousa ser protagonista da agenda climática. Com três dos principais biomas do país, o Estado de Mato Grosso pode e deve estar no centro dos debates e das decisões políticas. E a nossa expectativa é participar efetivamente da construção das políticas públicas. Por isso defendemos a criação de uma secretaria indígena no estado, com recursos próprios. Queremos construir pontes, e não muros.  

Nossa missão neste ano que se inicia segue firme: trabalhar em defesa dos direitos dos povos indígenas ao bem viver. Para tanto, é preciso conversar! Governador, bancadas parlamentares, estamos abertos ao diálogo!  

Auguegi wao!   

*ELIANE XUNAKALO é presidenta da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt)

Artigo produzido por Uma Gota no Oceano e publicado pelo jornal A Gazeta em 31/12/2024

Link: https://flip.maven.com.br/pub/jornalagazeta/?numero=11652&ipg=1238093#page/2

COIAB: 35 anos de vitórias e muita luta pela frente

COIAB: 35 anos de vitórias e muita luta pela frente

por Toya Manchineri*

No coração da maior floresta tropical do mundo, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) celebra 35 anos de resistência e comprometimento com a defesa de nossos territórios e culturas. À medida que nos preparamos para a COP-30 em Belém, refletimos sobre as conquistas e os desafios que persistem. Comemoramos as vitórias do passado, mas estamos de olho no futuro, com o pé no presente. “Demarcação, já!” é nosso lema; mas apenas demarcar já não é mais suficiente. Nesse sentido, a história da Terra Indígena Yanomami é exemplar. Homologada em 1992, ela continua sendo constantemente ameaçada por invasões. Este não é um problema isolado; é uma realidade enfrentada por muitas comunidades. Os que invadem nossas terras são apoiados por poderes econômicos e políticos.

Representamos cerca de 860 mil indígenas de 180 povos diferentes, falantes de 160 línguas. Nossa diversidade é nossa força, mas enfrentamos adversidades significativas. É crucial intensificar esforços para proteger o que é sagrado e vital para a sobrevivência de toda espécie humana. Os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), também chamados de Planos de Vida, são elaborados pelos próprios povos, que conhecem as particularidades de suas terras e suas necessidades, e sabem a melhor forma de preservar o meio ambiente local. Não paramos no tempo: unimos nossos saberes ancestrais, acumulados ao longo de 12 mil anos de manejo da floresta, com a ciência moderna.

Não poderíamos falar de COIAB sem citar o papel fundamental das mulheres em sua criação e consolidação. Um exemplo marcante é o da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn), cujo apoio contínuo desde os primeiros dias foi essencial para o desenvolvimento e fortalecimento da COIAB. Entre os nomes que compuseram a coordenação executiva da COIAB, podemos citar a pioneira Maria do Carmo Serra Wanano, a ministra dos Povos Indígenas Sonia Bone Guajajara e Nara Baré, a primeira mulher eleita como coordenadora-geral. Para nós, o planeta onde vivemos e a que tudo devemos tem nome e sobrenome femininos: Mãe Terra.

Enfrentamos perigos imediatos. Políticos mal-intencionados querem que a sociedade brasileira aceite a tese do “marco temporal” – mais de uma vez declarado inconstitucional pelo STF –, e buscam criar atalhos para a entrada de desmatadores na Amazônia, como a Ferrogrão e o asfaltamento da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho; e a exploração de gás no Maranhão e de potássio no Território Mura. É uma luta desigual: enquanto temos apenas uma representante no Congresso, a bancada ruralista conta com 374.

Conclamamos a sociedade brasileira e os cidadãos do mundo a se juntarem a nós nesta luta, não apenas dos povos indígenas, mas de todos que valorizam a vida e a justiça ambiental. Essa não é uma luta só de 860 mil indígenas, mas de todos os 8 bilhões de habitantes da Terra. É o recado que queremos dar ao mundo em Belém, em 2025. A COIAB foi fundada num 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, e à medida que avançamos para a COP-30, carregamos as esperanças e os sonhos de nossos ancestrais, comprometidos em proteger nossa Mãe Terra para as futuras gerações.

* Toya Manchineri é coordenador executivo da COIAB.

Enredos do século passado

Enredos do século passado

Se é verdade que o ano no Brasil só começa depois do Carnaval, ainda bem que este caiu no início de fevereiro, pois temos muito a fazer. O bloco da Bancada do Fim do Mundo não está nem aí para estourar o tempo do desfile – leia-se o prazo para tomarmos medidas definitivas contra o avanço das mudanças climáticas e o ponto de não retorno da Amazônia –, como se não houvesse amanhã. Fora que o seu repertório parece inesgotável, embora seja só variações sobre os mesmos temas. E aqui estamos nós, com 30 anos de atraso – a Constituição diz que todas as terras indígenas deveriam estar demarcadas até 1993, bem como determinou a titulação dos quilombos –, falando de “marco temporal”. Um enredo do século passado.

A Unidos do Ruralismo tem em mãos uma ala quase imbatível, a maioria do Congresso mais antivida que já tivemos. Em 21 de setembro de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu, por nove votos a dois, a inconstitucionalidade da tese, que põe barreiras quase intransponíveis para que novos territórios originários sejam homologados – e ainda ameaça muitos já demarcados. A despeito de a maior Corte do país considerá-la inconstitucional, os ruralistas aprovaram, ainda em setembro, o PL 2.903/2023, que institui o marco temporal. 

O projeto foi vetado pelo presidente Lula em outubro, mas os congressistas derrubaram o veto. Seu nome agora é Lei 14.701/2023. Coube a uma deputada federal indígena liderar uma nova luta no Supremo, agora pela inconstitucionalidade da lei. Inacreditavelmente, o judiciário terá que julgar novamente um caso que já deu por resolvido. Anotem na agenda: o STF julga este ano duas Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) e enfrenta a pressão dos lobbies do agronegócio e da mineração. O relator será Gilmar Mendes. 

Também dormita na Câmara o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 177/2021, cujo objetivo é retirar o Brasil da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Na prática, ela liberaria geral a mineração, o agronegócio e a construção de obras de impacto em terras indígenas. Ou seja, mais do mesmo. A Escola de Samba Salgueiro levou à avenida o enredo Hutukara, que conta a história da luta Yanomami. Sim, luta.  O próprio Davi Kopenawa, uma de suas mais proeminentes lideranças, pediu que a escola não tratasse os Yanomami como coitadinhos e, sim, como são de fato: guerreiros.  A invasão de sua terra por garimpeiros remonta aos anos 1980, mas eles vêm resistindo bravamente. 

Só que já passou da hora de encontrar uma solução rápida e definitiva. No início do ano, o governo federal anunciou que vai investir R$ 1,2 bilhão numa operação permanente contra o garimpo ilegal. É preciso que os povos indígenas participem da coordenação dessas ações e fiscalizem para onde vai esse dinheiro. Sabe-se que membros das Forças Armadas que têm simpatia pelo garimpo sabotaram missões no território – isso sem contar os políticos da região, que têm políticas francamente anti-indígenas. É agente da “abin paralela” pra todo lado.

Os garimpeiros não trabalham para si próprios, mas para muitos dos ocupantes das cadeiras do Congresso ou empresários que os apoiam financeiramente – e este ano tem eleições municipais. É preciso escolher candidatos comprometidos com a defesa da vida e ficar nos seus pés depois de eleitos. Cada anúncio de obra do PAC na Amazônia merece atenção redobrada. Uma estrada asfaltada, hidrovias, pistas de pouso e ferrovias serviriam para facilitar a vida dos invasores e para desviar dinheiro que poderia desenvolver a bioeconomia e ações de conservação. Tapetes vermelhos para o crime por cima do verde.

Outro desafio que não pode esperar mais um Carnaval é o desmatamento no Cerrado. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), enquanto houve uma redução de 50% do desmatamento na Amazônia, no segundo maior bioma do Brasil ele cresceu 43%. Foram abaixo 7,8 mil km² de vegetação nativa em 2023. Não tem tanto segredo porque a causa é basicamente uma: o avanço sem trégua do monopólio da soja. 

A solução mais prática e óbvia nos leva ao início do artigo: o aumento de áreas protegidas. A Amazônia tem mais de 40% de seu território coberto, enquanto no Cerrado essa proporção fica entre 12% e 14%. É preciso demarcar mais terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação. E, claro, cortar os subsídios dos desmatadores. A marchinha favorita dessa turma é “Me dá um dinheiro aí”. 

Como diz o pensador acadêmico da ABL Ailton Krenak, “até quando as pessoas vão ficar olhando o povo indígena defender sozinho a floresta?”. O escritor também disse que não quer “salvar os indígenas, mas evitar a extinção da espécie humana”. Tem enredo melhor que esse? É hora de a sociedade civil puxar esse samba.

 

Saiba mais:

ACNUDH manifesta-se contra retirada do Brasil da Convenção 169 da OIT

https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm/noticias/acnudh-manifesta-se-contra-retirada-do-brasil-da-convencao-169-da-oit

 

Não adianta chorar sobre o cerrado derrubado

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2024/01/nao-adianta-chorar-sobre-o-cerrado-derrubado.shtml

 

Congresso derruba veto de Lula ao marco temporal das terras indígenas

https://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2023/12/congresso-derruba-veto-de-lula-ao-marco-temporal-das-terras-indigenas

 

Marco temporal volta ao STF com três ações diferentes e Gilmar Mendes relator; entenda

https://www.brasildefato.com.br/2024/01/04/marco-temporal-volta-ao-stf-com-tres-acoes-diferentes-e-gilmar-mendes-relator-entenda

 

PP, Republicanos e PL acionam o STF para validar o marco temporal de terras indígenas

https://www.jota.info/justica/pp-republicanos-e-pl-acionam-o-stf-para-validar-o-marco-temporal-de-terras-indigenas-28122023

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