Na disputa e nas vitórias, sempre em frente

Na disputa e nas vitórias, sempre em frente

Por Eloy Terena

Ministro dos Povos Indígenas do Brasil

Sou, com orgulho, um “filho da Constituição de 1988”. Nasci no mesmo ano em que o Estado brasileiro, após séculos de negação, reconheceu os direitos dos povos indígenas às suas terras tradicionalmente ocupadas e assegurou o direito à diferença em nossas línguas, culturas, formas de organização social e modos de vida. A chamada Constituição Cidadã inaugurou um novo marco na relação entre o país e seus povos originários.

Promulgada 488 anos após a invasão colonizadora, a Constituição representou um ponto de inflexão na afirmação da dignidade indígena. Pelo reconhecimento de direitos originários, foi determinado que todas as terras indígenas estivessem demarcadas no prazo de cinco anos, mas o que deveria ter sido concluído até 1993 permanece como uma tarefa inconclusa da democracia brasileira, e a transformação segue seu curso com avanços e recuos, próprios da alternância de poder.

Também chegamos a um momento histórico: o Brasil conta hoje com o Ministério dos Povos Indígenas, cuja criação é expressão concreta do protagonismo e resultado de décadas de articulação entre diferentes povos, além da formação de novas gerações aptas a ocupar espaços.

Na educação e no mundo do trabalho, iniciativas como a criação de uma Universidade Indígena, e a ampliação de mecanismos de inclusão no serviço público também fortalecem o empoderamento de novas gerações, cada vez mais presentes na formulação de políticas.

Em espaços internacionais como a COP30, os povos indígenas deixaram de ser apenas afetados pelas decisões globais e passaram a participar ativamente do debate. Programas como o Kuntari Katu e iniciativas como o Ciclo COParente ajudaram a estruturar essa presença. Em meio à emergência climática global, os povos indígenas ocupam posição de vanguarda: nossos territórios são historicamente os mais eficazes na proteção das florestas e concentram cerca de 80% da biodiversidade do planeta. Ao protegê-los, contribuímos de forma decisiva para a estabilidade climática e ambiental no Brasil e no mundo.

Mais de 3,2 milhões de hectares de terras indígenas foram homologados — uma extensão equivalente à de países como El Salvador ou Eslovênia. Outros 1,5 milhão de hectares avançam em processo de reconhecimento por meio de 21 portarias declaratórias. Soma-se a isso outros 7,5 milhões de hectares em terras delimitadas, de maneira que entre 2023 e abril de 2026 se concretizaram um avanço de 12 milhões de hectares em território indígena em alguma fase do processo de demarcação.

Destaco nesse processo a vitória emblemática na Terra Indígena Yanomami, onde foi possível debelar cerca de 98,77% do garimpo ilegal, com efeitos diretos sobre a proteção da vida, da floresta e da soberania nacional, gerando milhões de prejuízo para o crime organizado nas ações no território.

Isso não significa, entretanto, que as pressões tenham cessado. Ameaças como a grilagem de terras, a expansão desordenada das monoculturas, o agrotóxico, a mineração predatória e projetos de infraestrutura que desconsideram impactos sociais e ambientais persistem e, nesse contexto, ressurgem tensões em torno de direitos já reconhecidos, como no debate sobre o marco temporal, que segue mobilizando forças contrárias, mesmo após decisões do Supremo Tribunal Federal.

A história dos povos indígenas sempre foi marcada pela disputa — por terra, por direitos, por existir. Seguimos em frente, como sempre fizemos, com diálogo, firmeza e responsabilidade. A justiça histórica para os povos indígenas não é um favor: é uma condição para um Brasil mais democrático, sustentável e à altura de seu próprio futuro.

O texto que me atravessou e nunca mais me deixou

O texto que me atravessou e nunca mais me deixou

Por Maria Paula Fernandes

Este testemunho nasce de um gesto simples e profundo: o envio, pela jornalista Nádia Pontes, de uma reportagem escrita por ela para a Deutsche Welle, em agosto de 2010. Ao me reenviar aquele texto, Nadia — minha companheira de jornada desde então — ativou uma memória disruptiva: o instante em que fui atravessada, de forma irreversível, por uma luta que não começou comigo, mas passou a me incluir.

Reler aquela matéria é também reencontrar a trajetória da minha amiga Sonia Guajajara, então a primeira mulher a coordenar a Coiab . Ao longo dos anos, ela se afirmaria como liderança mundial, deputada federal e se tornaria a primeira mulher indígena a comandar um ministério de Estado no Brasil, à frente do inédito Ministério dos Povos Indígenas. Um caminho longo, improvável e profundamente inspirador.

Há nesse resgate algo muito poderoso: uma coerência rara e revigorante. Uma linha contínua entre a luta nos territórios, a articulação política e a presença institucional. Olhar para trás e ver essa história me traz uma certeza profunda: fiz a escolha certa ao caminhar ao lado dessa mobilização.

A mobilização indígena no Brasil é ancestral, contínua, anterior ao Estado e resistente ao apagamento. Em 2010, foi a mim que essa mobilização alcançou, por meio de lideranças indígenas em movimento e de um jornalismo sensível, rigoroso e profundamente comprometido com a vida.

Naquele tempo anterior às redes sociais e à comunicação instantânea, foi o jornalismo que rompeu distâncias geográficas e simbólicas. Trabalhos como o da Nadia permitiram que alguém do Sudeste compreendesse o que estava em jogo no Xingu, no Pará, na Amazônia — não como “progresso” abstrato, mas como conflito humano, violação de direitos e ameaça concreta aos modos de vida indígenas.

Dessa tomada de consciência nasceu, em 2011, a campanha do movimento Gota d’Água, que em apenas uma semana reuniu 1 milhão de assinaturas questionando a construção da usina de Belo Monte. Aquela mobilização deixou uma marca definitiva: informação consistente mobiliza. E letramento é, em si, um ato político.

Para mim, ali começou uma travessia sem volta. O que inicialmente era um tema tornou‑se propósito de vida. Com acolhimento, escuta e aprendizagem — oferecidos por lideranças indígenas, jornalistas, juristas, antropólogos, ativistas e procuradores — fui compreendendo que ampliar o alcance de uma causa exige muito mais do que indignação. Exige tradução, cuidado, constância e compromisso coletivo.

É dessa compreensão que nasce e se afirma a missão da Uma Gota no Oceano: irrigar informação consistente, independente e atraente para semear reflexão e colher transformação.

Essa missão é uma escolha ética e política. Porque defender os povos indígenas não é uma pauta setorial. É confrontar um modelo de desenvolvimento que expropria, silencia e destrói. É reconhecer os territórios como infraestrutura vital do planeta. É afirmar, sem concessões, que não há justiça climática sem justiça territorial.

Este texto é memória e presença. É testemunho e posição. E é um compromisso permanente de seguir em rede, seguir aprendendo e seguir irrigando consciência — porque hoje sabemos, com absoluta clareza, que defender os povos indígenas é defender a possibilidade da vida humana na Terra.

2025: Comunicação no centro da resposta climática 

2025: Comunicação no centro da resposta climática 

Em 2025, a crise climática deixou de ser apenas um alerta para se tornar um divisor de caminhos. Não se tratava mais de reconhecer sua gravidade – isso já era consenso -, mas de enfrentar escolhas complexas diante de um cenário global marcado por retrocessos ambientais e pressões econômicas crescentes sobre a Amazônia e outros biomas. 

Nesse contexto, a Gota reafirmou sua essência: irrigar informação consistente e independente para semear reflexão e colher transformação. Atuamos onde decisões são tomadas e onde seus impactos reverberam. A comunicação foi construída em diálogo com organizações, lideranças e territórios, respeitando protagonismos, ampliando alcances e influenciando os rumos da transição climática no Brasil e no mundo. 

COP30: A virada do protagonismo 

A COP30, realizada em Belém do Pará, entrou para a história como a COP dos Povos Indígenas e dos Povos Afrodescendentes.  

Em um contexto geopolítico adverso, o Brasil registrou a maior presença indígena já vista em uma conferência do clima: mais de 3,5 mil indígenas de mais de 100 povos foram acolhidos na Aldeia COP, e quase 900 indígenas foram credenciados para a Zona Azul onde acompanharam as negociações oficiais – entre eles, 30 diplomatas indígenas formados por meio do projeto Kuntari Katu. 

Essa presença marca uma inflexão histórica: os povos originários se afirmaram, de forma incontornável, como referências centrais nas soluções climáticas globais, e Belém se transformou em um território vivo de articulação e mobilização. 

A atuação da Gota na comunicação estratégica do Ministério dos Povos Indígenas foi decisiva para que esse protagonismo não se limitasse ao simbólico, mas se consolidasse institucionalmente.  

Em momentos de tensão, quando manifestações legítimas correram o risco de criminalização ou distorção, a comunicação atuou como ferramenta de proteção, reposicionamento e clareza. Ao final da COP, uma mensagem se impôs com força: não há resposta climática eficaz sem territórios demarcados, protegidos e reconhecidos como estratégicos. Esse entendimento se traduziu em anúncios concretos, como novas portarias declaratórias e homologações de Terras Indígenas. 

Quilombos, afrodescendência e justiça climática global 

Ao longo do ano, fortalecemos a comunicação quilombola como ferramenta de defesa de direitos. Produzimos conteúdos, estruturamos respostas rápidas a violações, apoiamos disputas territoriais e investimos na autonomia comunicativa dos movimentos. O Manual de Redação Quilombola, as oficinas de formação e a cobertura colaborativa da COP deixam um legado. 

Avançamos também em uma das conquistas mais estruturantes da nossa história: a inclusão inédita dos povos afrodescendentes nos documentos oficiais da UNFCCC, durante a COP30. Ao lado da CONAQ e da CITAFRO, a Gota contribuiu para transformar uma agenda historicamente invisibilizada em reconhecimento internacional, abrindo um novo capítulo na governança climática global. 

Casos como os dos quilombos do Curiaú (Amapá) e do Patuazinho (Pará) – ambos ameaçados por pressões urbanísticas, disputas fundiárias e sucessivas violações de direitos territoriais – evidenciaram, na prática, como a comunicação estratégica pode alterar correlações de força. Ao dar visibilidade qualificada às denúncias e sustentar a pressão pública, a comunicação contribuiu para frear retrocessos, fortalecer processos de defesa territorial e influenciar decisões administrativas e institucionais. 

Metano: nosso freio de emergência climática 

Outro eixo central do nosso trabalho em 2025 foi colocar o metano no centro da agenda climática, como aquilo que ele de fato é: um freio de emergência para o aquecimento global. Em parceria com o Global Methane Hub, traduzimos um tema técnico em linguagem acessível, sem abrir mão do rigor científico e da densidade do debate. 

O lançamento do novo relatório global de metano na COP30, a campanha Freio de Emergência Climática, o ABC do Metano, o personagem Super M. e os seminários realizados no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, e no Museu das Amazônias, em Belém, tiveram um objetivo comum: mostrar que reduzir metano agora é uma das formas mais rápidas e eficazes de evitar impactos climáticos ainda mais severos no curto prazo. 

Ao mesmo tempo, reforçamos a compreensão de que soluções como a economia circular – baseada na redução de desperdícios, na reutilização de materiais e na valorização de ciclos produtivos locais – não são apenas ambientais, mas também sociais, sanitárias e econômicas, especialmente relevantes para países do Sul Global. 

Aprendizados que moldam o futuro 

2025 reafirmou que não existe neutralidade na comunicação climática. Toda escolha narrativa reforça ou enfrenta desigualdades. Toda ausência de contexto pode legitimar violências. E toda estratégia bem construída pode abrir caminhos antes considerados impossíveis. 

Aprendemos que: 

  • A comunicação dos territórios precisa partir da escuta, do vínculo e do respeito aos seus tempos e saberes; 
  • Protagonismo se constrói com confiança, continuidade e reconhecimento de quem já está na linha de frente. 

 Os desafios que vêm pela frente 

O próximo ano nos desafia a sustentar e aprofundar as conquistas de 2025. 

  • O reconhecimento internacional precisa se transformar em implementação real; 
  • A inclusão de indígenas e afrodescendentes nos documentos da ONU precisa virar acesso a recursos, proteção territorial e políticas públicas efetivas; 
  • A centralidade dos povos indígenas e quilombolas precisa resistir às pressões do extrativismo, do racismo ambiental e das falsas soluções climáticas. 

Seguiremos apostando naquilo que sabemos fazer melhor: comunicação com densidade, compromisso ético e enraizamento nos territórios. Porque, em um mundo atravessado por disputas, escolher como contar as histórias é também escutar cada agente, cada ator social, cada indivíduo, cada comunidade. Vozes que ecoam atingem distâncias inimagináveis.

Permitir que o “Brasil profundo” seja ouvido e protegido é estruturar a narrativa que liga nosso passado e presente a um futuro possível: mais harmônico, sustentável e inclusivo. É seguir com a certeza de que o que construímos até aqui é só o começo!

 

 

 

A maior e melhor participação indígena da história de todas as COPs 

A maior e melhor participação indígena da história de todas as COPs 

Por Sonia Guajajara, Ministra dos Povos Indígenas do Brasil 

A COP30 em Belém do Pará foi um marco histórico nas negociações climáticas globais. Pela primeira vez, os povos indígenas não apenas estiveram presentes em grande número, mas exerceram influência direta sobre o conteúdo e as orientações políticas do processo multilateral. Realizada na Amazônia, região decisiva para o equilíbrio climático planetário, a conferência evidenciou uma mudança estrutural: nenhuma estratégia climática será eficaz sem considerar os povos indígenas como atores centrais das soluções. 

Essa participação inédita foi fruto de um processo preparatório intenso. O ciclo de formação COParente percorreu todas as regiões e biomas do país, promovendo debates sobre clima e governança territorial. O programa Kuntari Katu, em parceria com o Itamaraty, preparou jovens lideranças indígenas para o funcionamento multilateral. Essas iniciativas garantiram que os delegados chegassem a Belém com capacidade técnica e enraizamento territorial, fortalecendo o protagonismo indígena. A Presidência da COP30 abraçou esse espírito, apoiando o lançamento do Círculo dos Povos, espaço de diálogo internacional que acolheu mensalmente demandas de povos indígenas e comunidades tradicionais. 

Em Belém, a Aldeia COP tornou-se o coração da conferência. Acolheu 3.500 pessoas de mais de 100 povos e recebeu 5 mil visitantes de centenas de países. Ali se realizaram debates estratégicos, apresentações culturais, práticas de cura ancestral e encontros internacionais. Saúdo a Cúpula dos Povos, que retomou o protagonismo dos movimentos sociais com importantes espaços de articulação e construção. De espaços como a Cúpula e a Aldeia nasceram diversas ações e duas grandes marchas que levaram ao mundo a mensagem de que são as vozes dos povos impactados pelas mudanças climáticas que precisam ocupar os espaços oficiais. 

Na Zona Azul, quase 900 indígenas foram credenciados – a maior delegação indígena já registrada em uma COP, não apenas em número, mas em grau de organização e capacidade de incidir nas negociações. Em Dubai, na COP28, havia cerca de 350 indígenas credenciados, numa relação de sete lobistas dos setores de petróleo e mineração para cada indígena. Em Belém, a proporção passou a ser dois para um. Embora ainda haja desequilíbrio, trata-se de uma mudança qualitativa. Uma aposta de que com mais participação e protagonismo poderemos encontrar as melhores respostas para as emergências climáticas. 

Os resultados desta mudança já foram imediatos. Pela primeira vez em 30 COPs, os direitos territoriais indígenas foram reconhecidos como políticas de mitigação necessárias para uma transição justa. Também pela primeira vez nos textos oficiais foi afirmada a necessidade do consentimento livre, prévio e informado para ações que envolvam povos indígenas. 

Mas as conquistas não se limitaram à agenda de negociação. Assinei, em nome do Presidente Lula, o compromisso intergovernamental de posse da Terra, que prevê a proteção de 59 milhões de hectares de florestas até 2030. Somado a outros países, esse compromisso alcança 160 milhões de hectares protegidos no planeta. No Brasil, durante a COP, foram homologadas quatro Terras Indígenas, dez portarias declaratórias foram assinadas, seis relatórios de identificação e delimitação foram publicados e outras dez reservas indígenas foram constituídas, reafirmando o compromisso do governo com a demarcação e proteção dos territórios. Celebramos também a declaração contra o racismo ambiental e a decisão de incorporar comunidades locais nas estruturas oficiais da Convenção até a COP32. 

No campo do financiamento climático, avançamos com três iniciativas estratégicas: a renovação do compromisso financeiro de fortalecimento da posse da Terra, a criação do Fundo Vítuke de apoio à gestão ambiental indígena e o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, a mais inovadora iniciativa da história do financiamento climático, com implementação prevista para 2026. É legítimo reconhecer que muitos alertaram para os riscos de transformar a natureza em mercadoria, subordinando árvores, rios e territórios à lógica do mercado. O TFFF nasce justamente para romper com essa mentalidade. Foi concebido para garantir que ao menos 20% dos recursos sejam destinados e geridos de forma direta pelas populações que vivem e cuidam da floresta, reconhecendo que são elas as guardiãs da biodiversidade e da vida. Não se trata de financiar exploração, mas de assegurar condições para que os territórios continuem vivos, protegidos e respeitados. Ao colocar os povos indígenas no centro da governança, afirmamos que não há justiça climática sem justiça territorial. 

Na COP30, direitos humanos e meio ambiente caminharam em conjunto. Celebramos a primeira iniciativa de uma Convenção do Clima em favor da proteção dos defensores ambientais e a decisão de avançar, até a COP32, na incorporação das comunidades locais – afrodescendentes e povos tradicionais – nas instâncias oficiais. 

Esses resultados expressam a força de uma ação coletiva. Como disse Paulo Freire: “Sonho que se sonha só é só um sonho. Sonho que se sonha junto vira realidade.” A presença indígena em Belém foi a concretização desse sonho coletivo, unindo múltiplas lideranças e visões em um esforço político comum. A COP30 ficará marcada como a conferência que reposicionou os povos indígenas no centro do debate climático internacional e demonstrou que, quando os povos indígenas dispõem de condições adequadas para participar plenamente, a agenda climática ganha profundidade, legitimidade e capacidade de transformação. 

O legado da COP30 é inequívoco: territórios indígenas, políticas de proteção florestal e sistemas de governança ancestral são componentes inseparáveis de qualquer estratégia climática eficaz  

A força do diálogo 

A força do diálogo 

Auguegi wao!  

Na língua Bakairi, eu chego e peço licença: deixem-me falar! Deixem-me contar um pouco sobre as nossas lutas neste ano de 2024, compartilhar nossas preocupações e, claro, nossas conquistas. Neste ano, nós, povos indígenas de Mato Grosso, representados pela Federação dos Povos e Organizações Indígenas de MT (Fepoimt), conquistamos mais espaços. E não falo somente da demarcação de territórios, mas também de lugares de fala.  

Sim, porque começamos o ano com novos representantes no Conselho Nacional de Políticas Indigenistas, tão importante na luta pelos nossos direitos. Consolidamos o Acampamento Terra Livre (ATL) em Mato Grosso com a participação de mais de 400 indígenas dos 46 povos do estado na praça Ulisses Guimarães, em Cuiabá, uma  mobilização crucial para ampliar o diálogo com os poderes Executivo e Legislativo e compartilhar as nossas lutas com a sociedade.  

Por falar em conquistar espaços públicos, 12 vereadores indígenas foram eleitos nas eleições municipais. Agora são 12 vozes a mais em defesa dos direitos dos povos tradicionais nos próximos quatro anos, em vários cantos de Mato Grosso. 

Após décadas de luta e embates jurídicos, celebramos a homologação do território indígena Cacique Fontoura, do povo Iny Karajá, e a declaração dos limites de ocupação tradicional do território Apiaká do Pontal e Isolados.  

Também levamos uma delegação a Brasília, onde fomos recebidos por quatro ministros do Supremo Tribunal Federal para debater a inconstitucionalidade do marco temporal. Conquistamos a participação dos povos indígenas no programa do governo “Arroz da Gente”, de incentivo à produção com acompanhamento técnico e garantia de comercialização. O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome também incluiu os povos indígenas no Plano Nacional de Cuidados. 

Mas este foi um ano de estiagem severa, e os incêndios florestais devastaram nossos territórios. De janeiro até agora, o número de focos de calor foi quatro vezes maior que no mesmo período do ano passado. Já estamos em emergência climática! 

Não temos como impedir as mudanças, mas podemos nos preparar. Precisamos de um plano de adaptação climática para as cidades, é urgente! Precisamos de um plano de manejo do fogo, já que nas condições climáticas atuais, a prevenção e o combate não são mais os mesmos. Os sinais estão todos aí, a natureza vem nos alertando.  

Em 2025, como anfitrião da COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, o Brasil ousa ser protagonista da agenda climática. Com três dos principais biomas do país, o Estado de Mato Grosso pode e deve estar no centro dos debates e das decisões políticas. E a nossa expectativa é participar efetivamente da construção das políticas públicas. Por isso defendemos a criação de uma secretaria indígena no estado, com recursos próprios. Queremos construir pontes, e não muros.  

Nossa missão neste ano que se inicia segue firme: trabalhar em defesa dos direitos dos povos indígenas ao bem viver. Para tanto, é preciso conversar! Governador, bancadas parlamentares, estamos abertos ao diálogo!  

Auguegi wao!   

*ELIANE XUNAKALO é presidenta da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt)

Artigo produzido por Uma Gota no Oceano e publicado pelo jornal A Gazeta em 31/12/2024

Link: https://flip.maven.com.br/pub/jornalagazeta/?numero=11652&ipg=1238093#page/2

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