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Cheiro de Belo Monte no ar

Cheiro de Belo Monte no ar

Há uma grande diferença entre ambição e cobiça: a primeira pode ser uma coisa boa; a segunda, jamais. Exemplos práticos: o atual governo tem a ambição de transformar o Brasil na maior potência ambiental de fato; porém, o mesmo grupo político que hoje está no poder foi movido pela cobiça quando construiu Belo Monte. A hidrelétrica, que gera mais prejuízos que energia, está lá, desde 2016, como lição a ser aprendida – para que erro igual não seja repetido. Por isso, causa preocupação a declaração do presidente Lula de que “se explorar esse petróleo tiver problema para a Amazônia, certamente não será explorado, mas eu acho difícil, porque é a 530 km de distância da Amazônia”. Esses “mas” costumam ser prenúncio de más notícias.

O Ibama negou a autorização, porque os senões são muitos. Para começar, a região já tem cerca de 100 poços perfurados e não se encontrou nada que justificasse novas explorações – vários deles, por sinal, foram fechados por causa de acidentes. Nesse quesito particular, o Brasil tem um currículo nada invejável: foram nove desastres do tipo de 2011 a 2022, quase um por ano. Ficar a “530 km de distância da Amazônia” não é nenhuma vantagem, pois a Petrobras levaria quase dois dias para chegar ao local em caso de vazamento. Além disso, a empresa não está habituada com as correntes marítimas locais, que são bem diferentes das bacias de Campos (RJ) e Santos (SP). Mas o argumento definitivo é que se estima que a produção na região seria pelo menos três vezes menor que as das reservas marinhas do Sudeste. Não tem um cheirinho de Belo Monte no ar?

E esse odor desagradável se espalha floresta adentro. Lula se comprometeu a zerar o desmatamento no país até 2030. Mas, até lá, muito verde pode vir abaixo. Um desses projetos, asfaltar a BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, serviria de tapete vermelho para toda sorte de malfeitor: invasores de terras protegidas, traficantes, grileiros, mineradoras e garimpeiros ilegais, milicianos, contrabandistas de madeira etc. A rodovia, que tem 885 km de extensão, pode impactar 69 terras indígenas – onde vivem 18 etnias e povos isolados –, 41 unidades de conservação e a última grande área contínua de mata virgem da Amazônia brasileira. A estrada é uma ideia de jerico da ditadura, reabilitada pelo governo anterior; isso já seria motivo de sobra para ser descartada pelo atual. 

O traçado da BR-319 já existe, mas só um pequeno trecho, em condições precárias, está aberto. O impasse recai sobre o asfaltamento do chamado “trecho do meio”, que conectaria os dois extremos da rodovia – do Amazonas a Rondônia. Ainda assim, a estrada serve de porteira aberta para criminosos em geral. Bastou Bolsonaro anunciar que ela receberia asfalto novo para que o desmatamento disparasse: o número vinha caindo desde 2001. Em 2020, foi de 216 km²; em 2021, deu um triplo-carpado para 453 km²; no ano passado, chegou a 480 km². A estrada era inviável de nascença, mais um elefante branco, como a usina no Rio Xingu: “A BR-319 não tinha nenhum raciocínio econômico. Era tudo paranoia de que a Amazônia seria tomada pela cobiça internacional”, diz o biólogo Philip M. Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). 

Esse delírio pode impactar uma área de 39 mil km² (maior que Alemanha e Holanda juntas) e bagunçar mais os regimes de chuva naquelas regiões. Em 2021, 15% dos 10,3 km² devastados em toda Amazônia Legal aconteceram na área e a estrada sequer se presta ao transporte de cargas. “Se for asfaltada, a rodovia BR-319 irá beneficiar até mesmo quadrilhas de roubo de carros. Além disso, as estradas vicinais ilegais ao longo da rodovia estão abrigando vários tipos de atividades criminosas, como grilagem de terras, desmatamento ilegal e garimpo”, diz Lucas Ferrante, também biólogo do Inpa. Uma pesquisa de 2020, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), estima que, com o asfaltamento, as emissões de gases do efeito estufa quadruplicariam na região nos próximos 30 anos, chegando a 8 bilhões de toneladas, o quádruplo do que o país emite em um ano. 

A EF-170, vulgo Ferrogrão, também fede um bocado. A ferrovia, que ligaria Sinop (MT) ao porto de Miritituba (PA), serviria somente para escoar a soja do Centro-Oeste; no fim da linha, a produção seguiria por uma hidrovia no Rio Tapajós. Para construí-la, seria necessário tirar um naco do Parque Nacional Jamanxim, que é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral. Em 2017, o presidente Michel Temer sancionou a Lei 13.452 exclusivamente para este fim. Calcula-se que 2 mil km² de verde sumiriam de cara. 

O pior é que a lei, que está no centro do julgamento prestes a ser realizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pode criar jurisprudência para outras obras. E a estrada de ferro abriria caminho para outros portos, hidrovias e rodovias. Essa infraestrutura exigiria mais energia; e aí quem garante que novas hidrelétricas também não seriam construídas? Os 993 km da Ferrogrão ainda impactariam mais duas Florestas Nacionais (Flonas) e os povos Kayapó, Munduruku e Panará – que não tiveram respeitado seu direito de consulta e consentimento livre, prévio e informado. É ou não é puro suco de Belo Monte? Depois disso tudo, com que moral o Brasil se sentaria à mesa de negociação climática? Precisamos relembrar ao governo que o caminho da cobiça não rende só mau cheiro.

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Biodiversidade de Abrolhos sob ameaça

Biodiversidade de Abrolhos sob ameaça

Abrolhos, com seu mar azul esverdeado, é um arquipélago localizado no sul da Bahia. O primeiro parque nacional marinho do Brasil é berçário para baleias jubarte, refúgio para tartarugas marinhas em risco de extinção e também é a região com a maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul.

Em fevereiro deste ano, uma pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) mostrou que a lama de rejeitos com metais pesados da barragem que se rompeu em Mariana, em 2015, afetou os corais do parque.

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Esta semana, segundo o jornal “O Estado de São Paulo”, o presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, ignorou o parecer técnico do próprio órgão que chefia e autorizou o leilão de sete blocos de petróleo localizados em regiões de alta sensibilidade do arquipélago. Segundo o relatório, qualquer incidente com derramamento de óleo, poderia atingir “todo o litoral sul da Bahia e a costa do Espírito Santo, incluindo todo o complexo recifal do banco de Abrolhos”.

Em nome de que colocar toda essa biodiversidade em risco para a exploração de um combustível fóssil que, além de ser extraído de maneira não segura, vai contribuir para a poluição do ar e consequentemente agravar as mudanças climáticas?

Via: Estadão

Foto: reprodução da TV Globo

Poluição está na moda?

Poluição está na moda?

Não espanta ninguém que a indústria do petróleo seja a atividade que cause mais poluição ao planeta. Mas o segundo lugar dessa lista ingrata certamente vai pegar muita gente com as calças na mão: a moda.

Por exemplo: o poliéster, a fibra sintética mais usada na indústria, consome 70 milhões de barris de petróleo por ano. E demora 200 para se decompor.

Já o cultivo de algodão responde globalmente pelo uso de 24% de todos os inseticidas e 11% de todos os pesticidas.
Em cima dessas cifras impressionantes, há um problema maior.

A cultura de descarte que paira insistente sobre a moda potencializa muito toda a poluição originada na obtenção da matéria-prima.

Mas ninguém precisa andar pelado: reduzir, reaproveitar e reciclar são palavras de ordem para chegarmos a um consumo (bem) mais consciente e sustentável.

Via: BBC Brasil

Foto: Sebastião Moreira/EFE/Arquivo

Saiba mais: https://www.bbc.com/portuguese/geral-39253994

MP do Trilhão, não!

MP do Trilhão, não!

O brasileiro já sacou que combustível fóssil é a maior roubada: numa pesquisa de opinião lançada ontem sobre os impactos dos derivados do petróleo, 85% dos entrevistados responderam que influem na qualidade de ar; 77%, na da água; e 82%, nas mudanças climáticas. Ainda assim, será votada amanhã no Senado a Medida Provisória  (MP) 795, que dá R$ 1 trilhão em benefícios fiscais para companhias de petróleo.

A imagem dessas empresas frente aos entrevistados também não é nada boa: 88% as consideram gananciosas; 87,3%, politicamente poderosas; e 72%, sem ética. A MP do Trilhão vai na contramão da opinião pública. Só que este ano mesmo barramos no grito a liberação para mineração na Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), na Amazônia. Então vamos gritar de novo: #MPdoTrilhãoNão!

Via Exame e Blog do Planeta

Saiba mais e conheça um trilhão de razões para ser contra a MP 759

MP do Trilhão: marcha-ré do desenvolvimento sustentável

MP do Trilhão: marcha-ré do desenvolvimento sustentável

Nunca é feito à luz do sol, até nisso há desperdício: a Câmara Federal aprovou ontem, na calada da noite, o texto base da Medida Provisória 795/17, a MP do Trilhão, que concede mais benefícios fiscais à indústria petrolífera. Caso vire lei, o país deixa de arrecadar R$ 40 bilhões por ano e engata mais uma vez a marcha-ré do desenvolvimento sustentável, além de dar as costas para o Acordo de Paris.

Imaginem o que dá para fazer com essa grana: já dissemos aqui que com dez vezes menos, R$ 4 bilhões, é possível zerar o desmatamento; mas R$ 4 bilhões também é o que vai custar o Complexo Eólico Campos Neutrais, no Rio Grande do Sul, o maior da América Latina, que vai gerar eletricidade limpa para três milhões de pessoas. Nenhum outro país do mundo subsidia exploração de combustíveis fósseis como o Brasil. É coisa de mãe para filho. A quem isso interessa?

Via Agência Brasil

Foto: Viktor Veres/AFP

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