Copo meio cheio

Copo meio cheio

As mudanças climáticas estão abalando as estruturas não só do mundo ocidental, como também do oriental. Literalmente e metaforicamente. Um estudo da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade Técnica da Dinamarca indica que o descontrole no clima vem causando alterações no eixo de rotação da Terra desde os anos 1990. A razão é a redistribuição do volume de água no planeta, causada pelo degelo dos polos – afinal, H₂O pesa. Por outro lado, depois da Cúpula do Clima convocada por Joe Biden, já é possível vislumbrar o copo meio cheio – no bom sentido, é claro. As grandes potências parecem ter acordado para o significado da expressão emergência climática, o que é ótimo. O próprio presidente americano disse que é preciso limitar em 1,5°C o aumento médio da temperatura global até 2100 – o Acordo de Paris prevê, oficialmente, 2° C. “Estão deixando a gente sonhar”, já dizia o filósofo Ronaldinho Gaúcho.

É claro que nem tudo são flores. De acordo com a mesma pesquisa, caso as emissões de gases do efeito estufa continuem em desabalada carreira, o Ártico pode descongelar nos verões de 2040 em diante. O pior é que a economia mundial pode derreter junto. O quadro é tão sério que até o presidente brasileiro foi obrigado a reconhecer que as mudanças climáticas são resultado da ação humana, um dos últimos bastiões de sua cartilha negacionista. Caso o governo não demonstre seriedade, periga o Brasil ser abandonado no século XX por seus pares. Certa vez, o ex-presidente Collor comparou os carros brasileiros a carroças. Essa hipérbole pode deixar de ser figura de retórica: se até os Estados Unidos, que têm o petróleo entranhado em sua cultura, vão apostar na eletrificação de automóveis, quem vai comprar lá fora uma peça de museu movida a suco de dinossauro?

A boa notícia é que, com a água batendo em lugares, digamos, desagradáveis, os países começaram a se mexer. Na véspera da cúpula, a União Europeia (UE) anunciou que o bloco vai zerar as emissões de CO₂ até 2050 e as reduzirá em 55 % em relação aos níveis de 1990; Vladimir Putin, presidente da Rússia, se comprometeu a atingir neutralidade em carbono até 2025; e o Japão, a diminuir em 46%, até 2030. Os americanos também deram uma cartada alta: afirmaram que vão cortar as emissões de carbono em até 52% até 2030 – na era Barack Obama, a meta era reduzir de 26 a 28% até 2025. A onda verde contagiou até o presidente brasileiro, que prometeu duplicar a verba da fiscalização ambiental no encontro de líderes – para, no dia seguinte, cortar o orçamento do Ministério do Meio Ambiente. Como diz o ditado, o que é bom dura pouco. Nesse caso, muito pouco mesmo.

O fato é que águas passadas não movem moinhos e o mundo parece mesmo estar finalmente enxergando com novos olhos a questão ambiental. Na cúpula, Joe Biden falou explicitamente nos empregos que a indústria de energia eólica poderia gerar. Os líderes das principais nações agem por duplo pragmatismo. “Ações sobre o clima não são necessárias apenas para o futuro de nossas vidas e meios de subsistência. A ação climática é o principal motor do crescimento; é a história de crescimento do século XXI”, disse o ex-economista-chefe do Banco Mundial, Nicholas Stern. Gina McCarthy, assessora nacional de clima do presidente americano, foi ainda mais sincera: “É por isso que tantas pessoas estão se interessando pela questão das mudanças climáticas. Porque agora está sendo apresentado como uma oportunidade”. É como se alguém enfim tivesse lido o cartaz há anos exibido pelos ambientalistas, que diz “Quer saber como salvar a humanidade e ainda ganhar um troco? Pergunte como!”, e pensado “Hmmm… Acho que isso me interessa”. Óbvio que interessa!

Oba-oba à parte, é hora de arregaçarmos as mangas e trabalharmos por um mundo mais sustentável. Afinal, o copo só está meio cheio. É claro que esta missão envolverá desafios. Como ajudar, por exemplo, James Owuor? Retratado pela revista Time, este queniano viu as mudanças climáticas causarem o aumento das chuvas e a subida das águas em 12 metros no Lago Baringo, na região onde vivia. Com isso, ele perdeu não só sua casa como seu emprego em um resort que existia na região e teve de fechar. O que faremos em casos como este? As nações ricas sabem que as menos favorecidas vão precisar de ajuda para fazer a transição para uma economia mais sustentável. EUA, Noruega e Reino Unido criaram um fundo para brecar o desmatamento e o anfitrião Joe Biden também anunciou na cúpula que vai dobrar as verbas para ações climáticas em países em desenvolvimento. O Brasil já falou alto quando o assunto era o meio ambiente. Em vez de pedir dinheiro em troca da proteção da Amazônia, nós, brasileiros, deveríamos liderar essa revolução verde e ajudar o mundo a superar essa emergência. Em nome de que abrir mão desse privilégio?

 

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Dois gatilhos e um ponto de virada

Dois gatilhos e um ponto de virada

Como um vírus. Quando David Attenborough nasceu, em 1937, a população mundial era de 2,3 bilhões; a concentração de CO₂ na atmosfera, de 280 partes por milhão (ppm), e 66% da vida selvagem da Terra estavam preservados. Em 1954, quando o famoso naturalista inglês começou seu périplo pelo planeta, esses números tinham chegado a 2,7 bilhões, 310 ppm e 64%; e em 2020, a 7,8 bilhões, 415 ppm e 35%. A destruição da natureza, causada por uma única espécie, vem crescendo em velocidade exponencial, talvez só comparável à da propagação da Covid-19 pelo mundo. A população triplicou desde o nascimento de Attenborough e a quantidade de pessoas infectadas pelo novo coronavírus cresceu mais de 3.000 vezes entre 31 de janeiro e 31 de setembro de 2020, de acordo com a Universidade John Hopkins. Por outro lado, se a situação da Terra inspira cuidados, a descoberta da cura pode estar próxima.

Passados 83 anos, a temperatura média global subiu 1°C, 70% das aves do planeta são domesticadas e 50% de suas terras férteis estão ocupadas pela agricultura. O mundo nunca experimentou mudanças tão radicais em tão pouco tempo. São 4 bilhões de anos de história de vida na Terra e houve cinco grandes extinções em massa – a última, reduziu a população de dinossauros em 75% –, até a chegada do Holoceno. Nesta era geológica, o clima no planeta e suas atividades vulcânicas se estabilizaram. Em 10 mil anos, houve somente aquele 1°C de aumento da temperatura. Attenborough considera o Holoceno o nosso verdadeiro Jardim do Éden. Graças a ele, a espécie humana pôde se dedicar à agricultura em larga escala, pois o tempo e as estações se tornaram mais regulares. Logo, se tornou uma das mais numerosas e a mais daninha do planeta. Agora rumamos para a sexta grande extinção – e, desta vez, além de causá-la, podemos estar entre as vítimas.

Ao longo de quase 70 anos dedicados ao estudo da vida selvagem, o naturalista conta, no documentário “David Attenborough e o nosso planeta” (2020), que observou dois gatilhos que nos fizeram despertar para a necessidade da preservação do meio ambiente. O primeiro foi quando os astronautas da missão Apollo 8 filmaram a Terra a partir da órbita lunar pela primeira vez, em 1968: “Naquela imagem, havia toda a Humanidade”, diz ele. O ponto azul na imensidão escura fez com que o homem despertasse para o fato de que o planeta era sua casa, que era finita e que cuidar dele era essencial, pois não havia para onde correr. Não por acaso, o primeiro grande encontro internacional sobre meio ambiente aconteceu quatro anos depois, em Estocolmo. Não chegou a ser um salto gigante para a Humanidade, mas foi um primeiro pequeno passo.

Dez anos depois da Apollo 8, lá estava Attenborough com um gravador no Havaí, para registrar o som das jubartes. À época, as baleias eram alvo de caça indiscriminada e corriam risco de extinção. Aquele canto calou fundo no coração de gente do mundo inteiro e ali o naturalista identificou o segundo gatilho: “Ninguém queria que os animais fossem extintos. As pessoas passaram a se importar com a natureza quando se tornaram cientes dela”, diz ele. A comoção global foi tamanha que até Roberto Carlos, o cantor mais querido do Brasil no período, dedicou a elas uma de suas canções – “Seus netos vão te perguntar em poucos anos / Pelas baleias que cruzavam oceanos / Que eles viram em velhos livros / Ou nos filmes dos arquivos / Dos programas vespertinos de televisão”. Preservar era pop e a palavra ecologia entrou de vez para o vocabulário cotidiano. O maior mamífero do mundo foi salvo, mas momentaneamente, já que continuamos maltratando seu lar.

“David Attenborough e o nosso planeta” foi gravado antes de a Covid-19 se espalhar mundo afora. Fosse hoje, provavelmente o naturalista teria identificado a pandemia como o terceiro gatilho. A emergência de saúde é, muito provavelmente, consequência direta da má relação entre homem e floresta. É bom dizer que a situação já era prevista por especialistas, como o astrônomo inglês Martin Rees, em 2014: “Viagens aéreas podem espalhar pandemias ao redor do mundo em dias”. Um levantamento feito pelo portal Getty Images em 26 países no ano passado mostrou que 92% dos entrevistados já estavam preocupados com a forma como tratamos a casa que dividimos no cosmo. Mais do que um gatilho, o novo coronavírus pode ser nosso ponto de virada definitivo. “Como a pandemia nos fez lembrar, somos dependentes uns dos outros e dependentes da nossa mãe-terra”, disse o Papa Francisco em uma live na internet na última terça (13). Sobre a Terra, o pontífice foi direto ao ponto: “Não podemos continuar a espremê-la como a uma laranja”.

Nós derrubamos 15 bilhões de árvores por ano. A continuar neste ritmo, a Amazônia terá se tornado uma savana seca já na próxima década, a produção global de alimentos vai entrar em crise por volta de 2080 e o planeta estará 4°C graus mais quente até o fim do século. Quem viver, não verá. Mais de 1/3 dos medicamentos que usamos hoje em dia têm seus princípios ativos derivados da natureza – de plantas, microrganismos e animais. Entre 60% e 80% dos antibióticos e remédios contra o câncer também. “Se olharmos para a história do desenvolvimento da medicina moderna, ela foi quase inteiramente baseada no estudo de plantas medicinais e microrganismos, especialmente para a fabricação de agentes anti-infecciosos”, explica João Calixto, diretor do Centro de Inovação e Ensaios Pré-clínicos (CIEnP). Apenas nos últimos quatro anos, o número de plantas e fungos ameaçados de extinção dobrou, chegando a 40%. A cura para a Covid-19 e outras moléstias fatais pode desaparecer antes de ser descoberta.

Apesar de ser testemunha ocular privilegiada (sic) de tamanha devastação, David Attenborough mantém a esperança de que sairemos dessa. E um estudo publicado na última quarta-feira (14) na revista “Nature” – também depois de seu documentário ser filmado, portanto – certamente lhe deu um novo alento, pois a missão pode não ser tão impossível assim. O estudo foi conduzido por um grupo de 27 pesquisadores de 12 países (liderado pelo brasileiro Bernardo Strassburg, professor da PUC-Rio e diretor-executivo do Instituto Internacional para Sustentabilidade) e mapeou ecossistemas do mundo inteiro. Os cientistas calculam que a regeneração de 30% das áreas degradadas do globo poderia evitar mais de 70% das extinções de animais terrestres e absorver quase metade do CO₂ – ou 466 bilhões de toneladas – acumulado na atmosfera terrestre desde a Revolução Industrial. Para começar, vamos regenerar mentalidades.

 

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Emergência climática

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O clima não está normal nem aqui, nem lá na China. Junho e julho de 2019 foram os mais quentes da História, recordes de calor foram batidos em todo o Hemisfério Norte. Houve apagões em Nova York, o fogo queima florestas no Ártico, os termômetros marcaram 45,1°C na França (42,6°C em Paris) e 800 milhões (!) de chineses estão sendo afetados pelas temperaturas de mais de 40°C que atinge suas metrópoles.

Parlamentos de Alemanha, Argentina, Austrália, Bélgica, Canadá, Espanha, EUA, França, Irlanda, Itália, Nova Zelândia, Reino Unido, República Checa e Suíça decretaram emergência climática. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) não tem dúvida: essas ondas de calor “carregam a assinatura da mudança climática provocada pelo homem”.

O homem causa e paga: segundo um relatório da seguradora alemã Munich Re, desastres naturais causados pelo desequilíbrio no clima provocaram prejuízos de US$ 42 bilhões no primeiro semestre. Por isso, mesmo que o presidente Donald Trump vá abolir as regras adotadas no governo Barack Obama para reduzir emissões de poluentes por veículos, a Califórnia e outros 13 estados americanos continuarão a aplicá-las. Quatro das maiores montadoras do mundo instaladas nos Estados Unidos  – Ford, Volkswagen, Honda e BMW  – juntaram-se esta semana ao grupo de dissidentes.

Está acontecendo mais rápido do que esperávamos. No ano passado, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) anunciou que as emissões de CO₂ teriam que ser reduzidas em 45% até 2030, para manter o aumento das temperaturas médias globais abaixo de 1,5°C até o fim do século. Hoje, os cientistas reconhecem que será preciso corrigir essa meta e que os próximos 18 meses serão fundamentais.

Neste momento, estamos nos encaminhando para 3°C de aquecimento até 2100, o que seria catastrófico para a vida – humana e animal – no planeta. “A matemática do clima é brutalmente clara: embora o mundo não possa ser curado nos próximos anos, pode ser fatalmente ferido por negligência até 2020”, diz Hans Joachim Schellnhuber, fundador e diretor emérito do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático.

Assim como nos EUA, no Brasil parece haver um descompasso entre o que pensam opinião e o poder públicos. Pesquisas recém-divulgadas pelo Instituto Datafolha apontam que 85% da população, que sofre os efeitos na pele, acredita que o planeta está esquentando e 72% concordam que a causa é a atividade humana; que 86% dos brasileiros rejeitam a ideia de abrir as terras indígenas para a mineração. Enquanto isso, o governo, que é uma entidade abstrata, luta contra a Ciência e os fatos. Não se detém catástrofes por decreto.

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Insight

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Animação de Thayssa da Silva Telles, finalista do concurso “O clima tá mudando”.

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