setembro 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política
Num país polarizado, reduzir metano aproxima direita e esquerda. Dez anos depois de Kigali, conter o aquecimento exige transformar apoio em ação.
Editorial
Em A queda do céu, Davi Kopenawa alerta para um mundo de rios que desaparecem, árvores que murcham e terra ressecada e silenciosa. As palavras do xamã yanomami, registradas no livro escrito com o antropólogo Bruce Albert, encontram ecos inquietantes nas secas prolongadas, no calor extremo e na poluição atmosférica que já atravessam nosso cotidiano. Os povos originários vêm tentando sustentar esse céu há gerações. É hora de mais gente assumir sua parte nessa tarefa.
Para isso, precisamos agir também sobre os gases que estão aquecendo o planeta. Entre eles, o metano merece atenção especial: tem potencial de aquecimento 80 vezes maior que o dióxido de carbono (CO₂) em um período de 20 anos e responde por cerca de um terço do aumento da temperatura global desde a Revolução Industrial. Reduzir suas emissões é uma das formas mais rápidas de desacelerar a crise climática.
No Brasil, há um ponto de encontro para começar. Às vésperas de eleições marcadas pela polarização, reduzir metano aproxima brasileiros de direita, centro e esquerda. Na pesquisa Clima e meio ambiente na percepção dos brasileiros, realizada pela Ipsos para o Observatório do Clima, 93% dos entrevistados consideraram importante ou muito importante reduzir os vazamentos de gases poluentes, como o metano, na produção e no transporte de petróleo e gás. O apoio chega a 93% na direita e a 95% no centro e na esquerda. A pesquisa mostra que, apesar das diferenças nas prioridades de política ambiental, combater as emissões de metano não tem lado político.
Essa convergência existe mesmo com pouco conhecimento sobre o gás: 75% dos entrevistados afirmam saber pouco ou não sabem o que ele é. As consequências da crise, porém, estão mais próximas. Na mesma pesquisa, 85% reconhecem impactos das mudanças climáticas na vida dos brasileiros, e 70% dizem senti-los no próprio cotidiano. A experiência ajuda a dar sentido à preocupação, mesmo quando os mecanismos do aquecimento ainda são pouco conhecidos.
Também há uma distância entre as fontes de emissão e a percepção sobre elas. Enquanto 42% apontam aterros e lixões como a principal fonte de emissão de metano no país, apenas 22% citam a pecuária. Os dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) mostram, no entanto, que a agropecuária responde por 76% das emissões brasileiras de metano, sobretudo pela criação de gado, enquanto os resíduos são responsáveis por cerca de 16%. Algo semelhante aparece nas escolhas dos participantes da pesquisa: 49% escolheriam separar resíduos para reduzir seu impacto ambiental, mas apenas 8% mencionaram limitar o consumo de carne. Os resultados sugerem que enxergamos melhor o impacto de nossos resíduos do que o da produção dos alimentos que consumimos.
Diagnosticar essas lacunas é parte da solução. A pesquisa do Observatório do Clima mostra onde a informação precisa chegar; os inventários de emissões, onde precisamos intervir. Ferramentas de monitoramento, como satélites, ajudam a localizar grandes vazamentos, e décadas de estudos apontam formas de reduzi-los. Esse conhecimento pode orientar mudanças nas indústrias, no campo e nas cidades. E precisa caminhar também com os saberes dos povos originários, que há gerações alertam para as consequências de destruir as bases da vida e agem para protegê-las. Reunir essas ciências exige escuta e proteção aos territórios onde esses saberes continuam vivos, mas mudar esse cenário também demanda transformar conhecimentos e discursos em ação.
O tempo para essa mudança ficou mais curto. No relatório Limiting Overshoot, divulgado no início de setembro, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) reconhece que o aquecimento ultrapassará 1,5°C acima dos níveis pré-industriais na média de longo prazo. É o chamado overshoot: a ultrapassagem do limite de temperatura definido pelo Acordo de Paris. O desafio, agora, é voltar a ele. Quanto mais alto o pico e mais longa a ultrapassagem, maiores os danos e os riscos de perdas irreversíveis. Cada fração de grau que conseguirmos evitar fará diferença.
O metano oferece uma resposta a essa urgência. Superpoluente de vida curta, permanece, em média, cerca de 12 anos na atmosfera, enquanto o CO₂ pode permanecer por séculos. Por isso, cortar suas emissões funciona como um freio de emergência climática: pode desacelerar o aquecimento com benefícios já na próxima década. É uma das melhores oportunidades que temos de agir no curto prazo, enquanto avançamos nos cortes de CO₂ indispensáveis para estabilizar o clima. Precisamos das duas frentes, junto com a adaptação aos impactos que já estão em curso.
Os dez anos da Emenda de Kigali, celebrados em 15 de outubro, nos lembram que sabemos construir respostas coletivas para problemas globais. Diante do maior desafio climático da história, vale olhar para um dos acordos ambientais multilaterais mais bem-sucedidos já firmados: o Protocolo de Montreal. Criado em 1987, ele combateu substâncias que destroem a camada de ozônio e aquecem o planeta, com obrigações, prazos, monitoramento e apoio financeiro e técnico para a transição dos países.
Kigali representou um renascimento desse acordo. Os HFCs, usados na refrigeração como alternativa às substâncias que destruíam o ozônio, trouxeram outro problema: seu elevado poder de aquecimento. Em 2016, a emenda ampliou o alcance de Montreal para reduzir progressivamente esses gases. A ciência apontou um novo desafio, e a cooperação internacional aprimorou a resposta. Na proteção ao ozônio, os resultados continuam aparecendo: em 16 de setembro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) revelou que o buraco de ozônio antártico de 2025 esteve entre os menores das últimas décadas, dentro de uma tendência de recuperação que ainda precisa ser sustentada.
O aniversário de Kigali chega num momento em que essa capacidade de cooperação volta a ser decisiva. Os anos entre 2015 e 2025 foram os onze mais quentes já registrados, e o serviço meteorológico britânico alertou que o El Niño deste ano pode ser o mais forte registrado desde o século XIX, ampliando os riscos de extremos climáticos. Na era do overshoot, conhecer os caminhos e adiar sua adoção tem um custo crescente.
O metano precisa agora de um acordo global inspirado nessa experiência. O Compromisso Global do Metano mobilizou mais de 150 países, entre eles o Brasil, em torno de uma meta coletiva e voluntária: cortar pelo menos 30% das emissões mundiais de metano até 2030, em relação a 2020. É preciso transformar essa mobilização em obrigações, com metas verificáveis, financiamento e mecanismos de cumprimento. Uma governança multilateral eficaz dá continuidade à ação para além dos mandatos e ajuda a transformar promessas em resultados. Negociar esse acordo e agir com os instrumentos que já temos são tarefas que precisam caminhar juntas.
As soluções já estão documentadas. No Brasil, o Caderno de Soluções do SEEG reúne 37 medidas para reduzir o metano na agropecuária, nos resíduos, na energia e na mudança do uso da terra e florestas. Há caminhos para melhorar o manejo dos rebanhos, reduzir desperdícios, compostar resíduos orgânicos, captar biogás, conter vazamentos e prevenir incêndios florestais. As escolhas individuais fazem parte dessa resposta: separar resíduos e reduzir o consumo de carne bovina ajudam. Para ganhar escala, essas mudanças precisam de políticas públicas, infraestrutura, financiamento e compromisso das empresas.
É essa capacidade de agir que precisamos cobrar nas eleições. Os 91% dos entrevistados pela pesquisa do Observatório do Clima que consideram importante ver propostas climáticas dos candidatos reconhecem essa como uma necessidade concreta. Num país com a diversidade territorial e as desigualdades do Brasil, secas podem isolar comunidades e comprometer a geração de energia; ondas de calor adoecem trabalhadores e aumentam os custos com saúde; enchentes destroem casas e lavouras, comprometendo a segurança alimentar e a economia de um país em que o agronegócio tem grande relevância. O clima precisa estar nos projetos de saúde, educação, habitação e desenvolvimento.
Ao falar dos xamãs que sustentam o céu, Kopenawa adverte: “Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar”. Os povos originários estão entre os primeiros a sofrer os efeitos da crise climática, mas o aviso sempre foi para todos. O que denunciaram por décadas se tornou parte do cotidiano de populações muito além de seus territórios.
A ciência moderna reforça a urgência de seus alertas e mostra caminhos para conter o aquecimento. E 76% dos brasileiros consultados pela Ipsos acreditam que ainda podemos evitar os piores efeitos da crise se agirmos agora. Há conhecimento e soluções para sustentar essa esperança. Cabe a todos nós, à iniciativa privada e, sobretudo, aos governantes que elegeremos em outubro unir essas duas ciências, assumir responsabilidades e transformar soluções em resultados. É assim que podemos ajudar a segurar o céu.
setembro 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política
Toda vez que dizemos “infância”, repetimos uma história antiga. A palavra vem do latim infans: aquele que não tem fala. Já “criança” remete a creare, criar. É quem ainda está se formando e, por isso, precisa de cuidado e condições para florescer.
Editorial
No glossário climático Pequenos Grandes Saberes, elaborado pela ActionAid Brasil com mais de 350 meninas e meninos de sete territórios, uma pergunta simples produziu respostas reveladoras: o que significa “mudanças climáticas”? As crianças falaram de chuva excessiva, calor intenso, queimadas e rios secando. Até que uma delas resumiu tudo em uma palavra: guerra.
O impacto da resposta não está apenas na força da metáfora, mas em sua origem. Não foi uma definição formulada por cientistas ou ambientalistas. Foi a percepção de alguém que acaba de chegar ao mundo e já o reconhece como um lugar de ameaça.
Aquilo que os adultos ainda tratam como projeção já é vivido pela infância como realidade. A emergência climática interfere no desenvolvimento dos corpos, interrompe a educação, multiplica doenças e reduz possibilidades de futuro. Deixou de ser apenas uma questão ambiental. Tornou-se uma questão de saúde pública, desigualdade e direitos da infância.
Mais de 40 milhões de crianças e adolescentes brasileiros, cerca de 60% dessa população, convivem com mais de um risco climático ou ambiental. São milhões expostos ao calor extremo, à escassez de água, às enchentes e à poluição atmosférica, que sozinha afeta 24,8 milhões de meninas e meninos.
Esses números desenham uma geografia da infância ameaçada. A água que falta ou invade as casas também interrompe aulas, compromete a alimentação e dificulta o acesso à saúde. Em 2024, 1,17 milhão de crianças brasileiras tiveram as aulas suspensas ou interrompidas por eventos climáticos extremos. Na Amazônia Legal, a seca afetou mais de 420 mil crianças e provocou o fechamento ou isolamento de mais de 1.700 escolas e 760 unidades de saúde.
O clima também está alterando o mapa das doenças. Reportagem do Valor Econômico apresentou um alerta do InfoDengue, elaborado em parceria com a Fiocruz e a Escola de Matemática Aplicada da FGV: um El Niño forte pode aumentar os casos de dengue, com maior impacto nas regiões Sul e Sudeste. No Reino Unido, o The Guardian mostrou a pressão exercida pelas ondas de calor sobre o sistema público de saúde durante o verão.
Em contextos distintos, as duas notícias apontam para a mesma realidade: a crise climática já chegou aos hospitais, às escolas e às casas.
Para a infância, essa ameaça é ainda mais grave. Uma criança não é um adulto em escala reduzida. Seu organismo está em formação, seus mecanismos de regulação da temperatura são menos maduros e sua exposição proporcional a contaminantes pode ser maior. Ao mesmo tempo, depende das escolhas feitas pelos adultos, pelas empresas e pelo poder público.
A poluição por partículas finas foi associada a 5,5 milhões de novos casos de asma infantil no mundo em 2025, o equivalente a 22% dos novos diagnósticos. A poluição doméstica provocada pelo uso de combustíveis sólidos está relacionada a 300 mil mortes prematuras de crianças por ano.
A crise climática impõe uma dupla injustiça: as crianças são mais vulneráveis aos seus efeitos e menos capazes de influenciar as decisões que determinam sua exposição.
E nem todas as infâncias enfrentam os mesmos riscos. Para crianças indígenas, quilombolas, ribeirinhas e das periferias urbanas, a crise climática se soma a vulnerabilidades históricas e aprofunda desigualdades já existentes.
A emergência climática não inaugura essas desigualdades. Ela as encontra e aprofunda. Nas muitas infâncias brasileiras, pesa mais sobre aquelas que a história do país já sobrecarregava.
Proteger a infância no século XXI exige, portanto, preservar as condições climáticas, ambientais e sociais que permitem a uma criança se desenvolver plenamente. Política climática para a infância não é um apêndice da agenda ambiental. É política de saúde, educação, redução das desigualdades e garantia de direitos.
Nesse contexto, a aprovação pelo Senado do chamado ECA Ambiental, o Projeto de Lei 2.225/2024, representa um avanço importante. A proposta incorpora à legislação o direito de crianças e adolescentes à natureza e reforça sua prioridade diante de riscos e desastres socioambientais.
Mas nenhuma lei protege sozinha. O ECA Ambiental só transformará vidas se vier acompanhado de orçamento, metas, fiscalização e responsabilidades definidas. Precisará chegar às escolas, às unidades de saúde, aos sistemas de alerta, aos planos de adaptação e às decisões de investimento público e privado. A aprovação legislativa não é o fim da travessia. É o começo.
A urgência, contudo, não significa ausência de caminhos. Existem 25 soluções integradas, baseadas em tecnologias e práticas disponíveis, capazes de reduzir simultaneamente a poluição do ar e o aquecimento global. Cada dólar investido nessas medidas pode gerar cerca de 15 dólares em benefícios econômicos e de bem-estar. Retardar em oito anos as metas de redução de emissões, por outro lado, corta pela metade os benefícios à saúde que poderiam ser alcançados até 2035.
O conhecimento existe. As soluções existem. O que falta é aplicá-las na velocidade em que as crianças já estão adoecendo.
A palavra escolhida por aquela criança não deve alimentar o alarmismo, mas romper a indiferença. Ela nos lembra que a emergência climática não é apenas uma discussão sobre o futuro do planeta. É uma decisão, tomada no presente, sobre quem terá direito a chegar inteiro ao futuro.
Aos 36 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, o Brasil precisa reconhecer que a proteção integral da infância passa necessariamente pelo enfrentamento da crise climática. Não podemos aceitar que “guerra” continue sendo a palavra usada por uma criança para descrever o mundo em que acabou de chegar.
Toda criança tem direito ao futuro. Garantir esse direito é uma responsabilidade do presente. Talvez não haja retrato mais revelador do nosso tempo do que uma criança escolher a palavra “guerra” para descrever o mundo em que vive. O verdadeiro fracasso não será deixar um planeta mais quente, mas permitir que o medo ocupe o lugar da esperança.
julho 2025 | Direitos humanos
No momento em que o mundo convoca pela urgência de ações climáticas e respeito aos direitos humanos, o Congresso brasileiro avança com o chamado “PL da Devastação” (PL 2.159/2021), que desmantela o licenciamento ambiental e ignora os territórios de povos indígenas e quilombolas. Isso é ainda mais grave após o parecer consultivo da Corte Interamericana de Direitos Humanos, divulgado no início de julho, que liga direitos humanos e crises climáticas.O artigo a seguir, publicado no Correio Braziliense, expõe como o Congresso desrespeita a sociedade e o clima, omitindo ciência e diálogo, ao mesmo tempo em que coloca o Brasil em xeque antes da COP‑30 em Belém.
Congresso ignora sociedade e clima com PL da Devastação
Os parlamentares não poderão dizer que estavam desavisados. A Corte IDH divulgou um parecer consultivo histórico sobre a relação entre emergências climáticas e proteção dos direitos humanos
Por Juliana de Paula Batista — advogada socioambientalista e Vercilene Francisco Dias, coordenadora do Departamento Jurídico da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq)
A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) divulgou, no começo de julho, um parecer consultivo histórico sobre a relação entre emergências climáticas e proteção dos direitos humanos. O documento vincula os países que se submeteram à jurisdição da Corte IDH, caso do Brasil, a adequarem suas leis, políticas públicas e ações aos parâmetros mais eficazes para a proteção dos direitos tratados no parecer. “Os Estados têm a obrigação de agir (…) para combater as causas humanas das alterações climáticas e proteger as pessoas sob a sua jurisdição dos impactos climáticos, em particular aquelas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade”, diz o parecer.
A boa-nova, no entanto, encontra um clima pouco amigável no Brasil com a aprovação, na madrugada de 17 de julho, do PL 2.159/2021, ou o PL da Devastação, na Câmara dos Deputados. O projeto, que agora segue para sanção ou veto do presidente da República, desmonta, de modo preocupante, as regras para o licenciamento ambiental de obras e atividades, alterando o arcabouço vigente desde a redemocratização.
Se for mantido, permitirá que empreendimentos altamente impactantes sejam licenciados a toque de caixa. Terras indígenas e quilombolas, por exemplo, só serão consideradas se já estiverem nas fases finais de um longo e complexo processo de regularização fundiária, o que pode demorar mais de 30 anos. As terras que estão nas fases iniciais do processo de demarcação ou titulação poderão ser solenemente ignoradas, e grandes empreendimentos nelas instalados. Os impactos não serão estudados, tampouco prevenidos, mitigados ou compensados. O que restará serão danos irreparáveis.
A estratégia não é ingênua e foi pensada justamente para criar fatos consumados por terceiros nessas áreas, inviabilizar a posse plena da terra e gerar ainda mais insegurança jurídica para os direitos fundamentais de indígenas e quilombolas. As terras indígenas e quilombolas estão entre as principais barreiras contra o avanço do desmatamento no Brasil. Dados do Mapbiomas mostram que, nos últimos 30 anos, terras indígenas perderam apenas 1% de vegetação nativa, enquanto nas áreas privadas a perda foi de 20,6%.
Legislar contra o meio ambiente e em prejuízo das terras indígenas e quilombolas viola frontalmente uma das conclusões unânimes da Corte IDH: os estados devem adotar as medidas legislativas, administrativas e de política pública adequadas para garantir a proteção dos territórios dos povos indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais, além de implementar estratégias voltadas para reforçar, a curto e longo prazo, a resiliência e a capacidade de adaptação climática desses povos.
O Congresso Nacional não se preocupou com nada disso. Tampouco considerou o melhor conhecimento científico disponível para tomar suas decisões. O campo científico não foi convidado para sentar à mesa e apresentar estudos que pudessem nortear uma discussão racional sobre as consequências da nova lei para o clima. Qual será o impacto? Ninguém sabe.
Mas, os parlamentares não poderão dizer que estavam desavisados. A Corte IDH alertou que os países devem fortalecer o Estado Democrático de Direito como marco essencial para proteger os direitos humanos, a eficácia da ação pública e uma participação cidadã aberta e inclusiva. Com ouvidos moucos, eles preferiram a seletividade que lhes mantêm beneficiados por lobbies e emendas. A sociedade? Que coma brioches.
É fundamental que se coloque freio de arrumação em um Congresso que legisla de costas para a sociedade. A emergência climática já sacrifica os brasileiros, especialmente os mais pobres, como vimos nas enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul ou nos incêndios florestais que consumiram o Pantanal.
Na antevéspera da Conferência das Partes (COP-30), que acontece em Belém, em novembro, o Congresso Nacional boicota o papel do Brasil como um país que poderia estar na vanguarda das negociações climáticas. Nesse cenário, o parecer consultivo da Corte IDH é um instrumento importante para fortalecer — seja nas prováveis judicializações que devem acabar no Supremo Tribunal Federal, seja na própria Corte IDH — a defesa do meio ambiente.
Para os indígenas e quilombolas, que resistem dia a dia, o parecer da Corte IDH será uma ferramenta de luta para manter em pé seus povos e vivos os seus territórios.
julho 2023 | Climate change, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Mudanças Climáticas
Um bom termômetro para saber se uma festa está acabando é olhar quanto gelo ainda sobrou no freezer. É hora de acender as luzes e tirar a música no planeta Terra: nada menos que quatro recordes seguidos de temperatura média global foram quebrados na semana passada. O ponto alto aconteceu na última quinta-feira (6/7), com 17,23ºC, o dia mais quente já registrado. Esse calorão vem reduzindo o estoque de gelo do planeta – e, consequentemente, fazendo com que ele esquente mais e mais. Em fevereiro, a Antártida derreteu como nunca; e no mês passado, chegou ao nível mais baixo para um mês de junho, início de inverno. Como se tivessem desligado o congelador no meio da farra.
O Continente Antártico havia perdido quase uma Argentina de gelo – 2,5 milhões km² – no fim do mês passado, em relação à superfície média de 1991 a 2020. Em 16 de fevereiro, a camada de gelo sobre o mar tinha sido reduzida a 2,06 milhões km², a menor área registrada desde o início do monitoramento por satélite, há 45 anos. A recuperação tem sido bem lenta, chegando a 11,5 km², 17% abaixo do normal. O mais preocupante é que, até bem pouco tempo, as mudanças climáticas vinham poupando a Antártida: foram 35 anos de estabilidade e, em setembro de 2014, chegou a atingir a maior extensão coberta desde 1979: 20 milhões de km². A partir de 2015, a queda foi constante e a falta de gelo não só contribui com o aquecimento do planeta, como pode levar espécies à extinção.
Se não faz frio o suficiente no inverno do Hemisfério Sul, o verão no Norte promete ferver. Um estudo publicado na revista científica “Nature Medicine” calcula que até 94 mil pessoas podem morrer por causa do calor na Europa em 2040, caso nenhuma providência seja tomada. O ano de 2022 foi o mais quente registrado no continente e matou 61.672 pessoas. Na Itália, uma forte onda de calor, causada por um anticiclone chamado Cerberus, vai fazer a temperatura passar dos 40ºC na maior parte do país e chegar a até 48ºC na Sicília e na Sardenha. Os italianos enfrentaram inundações e tempestades na primavera, e Alemanha, Espanha, França e Polônia também devem ser bastante castigadas pelo sol nos próximos dias. É o mesmo disco arranhado tocando sem parar desde 2015.
Uma boa nova vem da Amazônia: o desmatamento está em queda constante. No primeiro semestre, diminuiu 34% em relação ao mesmo período do ano passado; em junho, a queda foi de 41%, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Mas ainda não há o que festejar: o El Niño ronda ameaçadoramente a maior floresta tropical do mundo. É um círculo vicioso, a derrubada da mata alimenta o aquecimento global, que põe fogo no verde. Os focos de calor cresceram 10,7% nos primeiros seis meses do ano, chegando a 8.344, e atingem o maior número desde 2019 – quando foram 10.606. E se o desmatamento diminui na Amazônia, ele vem crescendo vertiginosamente no bioma vizinho. O Cerrado já perdeu 4.408 km², 21% a mais que no primeiro semestre de 2022, o que dá quase quatro cidades do Rio de Janeiro.
O clima pode ser de fim de festa, mas não é hora de tocar a marcha fúnebre. Nada de desânimo, todos nós podemos colaborar para mudar esse quadro preocupante. Uma dica: o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima abriu um canal para consulta popular, onde é possível votar nas iniciativas do Programa Plurianual Participativo (PPA) do governo federal, como o projeto de Combate à Emergência Climática, por exemplo. Além disso, também é possível mandar propostas. Mas não dá pra esperar a festa acabar: as votações estão abertas até 14 de julho, é preciso agir logo. Só temos este planeta, brindemos à sua saúde e cuidemos dela!
Saiba mais:
Brasil Participativo Enfrentamento da Emergência Climática
https://brasilparticipativo.presidencia.gov.br/processes/programas/f/1/proposals/50
Camada de gelo no mar da Antártica chega ao nível mais baixo já registrado em um mês de junho
https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2023/07/10/camada-de-gelo-no-mar-da-antartica-chega-ao-nivel-mais-baixo-ja-registrado-em-um-mes-de-junho.ghtml
Gelo da Antártida enfrenta dificuldade para se recompor após derretimento recorde
https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2023/07/gelo-da-antartida-enfrenta-dificuldade-para-se-recompor-apos-derretimento-recorde.shtml
Planeta registra o mês de junho mais quente da história, diz observatório europeu
https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2023/07/06/planeta-registra-o-mes-de-junho-mais-quente-da-historia-diz-observatorio-europeu.ghtml
Mais de 61 mil pessoas morreram de calor na Europa no verão de 2022, diz estudo
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/07/10/mais-de-61-000-pessoas-morreram-de-calor-na-europa-no-verao-de-2022.ghtml
Onda de calor na Itália pode gerar temperatura recorde na Europa
https://veja.abril.com.br/mundo/onda-de-calor-na-italia-pode-gerar-temperatura-recorde-na-europa
Entenda os fatores que causam os recordes de temperatura no planeta Terra
https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2023/07/05/entenda-os-fatores-que-causam-os-recordes-de-temperatura-seguidos-no-planeta-terra.ghtml
As medidas para evitar que El Niño provoque ‘hecatombe’ na Amazônia
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx05w4kee92o
fevereiro 2023 | Amazônia, Biodiversidade, Direitos indígenas, Garimpo, Povos Tradicionais, Tapajós
Puyr Tembé, presidente da Federação dos Povos Indígenas do Estado do Pará (Fepipa) e secretária dos Povos Indígenas do Pará
A mãe do Brasil é indígena. Foi uma de nós quem deu à luz esta terra. Nossa ligação com ela é verdadeiramente ancestral. O mundo inteiro se comoveu com o martírio dos Yanomami e correu para ajudá-los. Sou mãe: consigo imaginar, como se fosse minha, a dor de quem perde o filho ou que não pode amamentá-lo; ou das mulheres que sofreram violência sexual e abortaram por espancamento. Infelizmente, os Yanomami não são os únicos que correm o risco de serem dizimados por causa da cobiça alheia: eu, por exemplo, vivo num estado tão ou mais ameaçado pelo garimpo ilegal que Roraima. Por isso dediquei minha vida à luta pela defesa de nossas terras.
Nasci há 44 anos na aldeia São Pedro, na Terra Indígena Alto Rio Guamá, no sudoeste do Pará. Sou mãe de três filhas, avó e milito desde muito jovem; só que nos últimos quatro anos, nós, mulheres e lideranças indígenas, tivemos que decidir entre lutar para viver, ou esperar pela morte. A forma como fomos (des)tratadas durante a pandemia acendeu definitivamente o alerta. Hoje, presido a Federação dos Povos Indígenas do Estado do Pará (Fepipa) e fui convidada para assumir a recém-criada Secretaria dos Povos Indígenas do Pará. Além disso, faço parte da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira e sou cofundadora da Associação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).
Mais da metade das áreas de garimpo do país ficam no Pará, muitas delas em unidades de conservação e em nossos territórios. Estima-se que 60 mil garimpeiros atuam só na Bacia do Rio Tapajós. Na mesma região, vivem 13 mil Munduruku; ou seja, eles estão em minoria em suas próprias terras. Os efeitos já podem ser sentidos: a Polícia Federal calcula que foram despejados cerca de 7 milhões de toneladas de rejeitos tóxicos na bacia hidrográfica, enquanto um estudo da Fundação Oswaldo Cruz revelou que mais da metade da população de três aldeias (Sawré Muybu, Sawré Aboy e Poxo Muybu) tem mercúrio no organismo acima do recomendado.
É por isso que temos muitas frentes de batalha, mas a maior delas é lutar pela vida. E quando dizemos isso, falamos de demarcação e desintrusão de terras indígenas. Protegendo nossas terras, preservamos sua biodiversidade e nossas próprias vidas, e ajudamos a proteger a própria Humanidade. Os povos indígenas agora falam de igual para igual com a sociedade como um todo. Hoje estamos no governo, devemos executar em vez de solicitar. Mas eu continuo sendo Tembé.
Estamos lutando pelas que já não estão mais aqui, levadas pela pandemia ou pelo mercúrio, por nossa ancestralidade; e pelas nossas que ainda estão por vir, o nosso futuro. Só que nós, mulheres do movimento indígena, não vamos conseguir fazer isso sozinhas. Ainda precisamos do Estado, dos parceiros, dos aliados, das entidades que sempre nos deram apoio, colaboradores e simpatizantes. Toda a população brasileira deve assumir conosco a maternidade/paternidade deste país.