setembro 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política
Na era do overshooting, o atraso ficou caro demais
Os números da ONU mostram que adiar a ação climática custa mais do que agir.
Editorial
Menos de uma semana depois de reconhecer que a ultrapassagem de 1,5°C de aquecimento global se tornou inevitável, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) divulgou, com a Coalizão Clima e Ar Limpo (CCAC), uma das avaliações mais abrangentes sobre os benefícios econômicos, climáticos e sanitários da ação climática. O estudo desmonta um dos argumentos mais persistentes contra essa agenda: o de que agir custa caro. Os números mostram o contrário. Caro é continuar esperando.
A principal contribuição do estudo Ativos Ocultos: os argumentos econômicos e de saúde a favor de ações climáticas e de ar limpo não está em revelar novas tecnologias. Está em demonstrar, com números difíceis de ignorar, que já sabemos como reduzir parte significativa dos impactos da crise climática. O relatório analisou 25 medidas disponíveis em setores como energia, indústria, agricultura, resíduos e transportes. A conclusão é que cada dólar investido pode gerar até US$ 15 em benefícios econômicos globais, com retornos superiores aos custos em menos de uma década.
É difícil pensar em outra política pública capaz de apresentar uma relação custo-benefício semelhante. Os retornos projetados equivalem a 2,8% do PIB mundial em 2035, 4,5% em 2050 e 11,4% em 2100. A implementação custa cerca de 0,7% do PIB global por ano, menos de um terço dos subsídios explícitos destinados aos combustíveis fósseis. Uma adoção mais rápida dessas medidas poderia evitar perdas equivalentes a US$ 10 trilhões até 2040. Em outras palavras, o mundo continua investindo mais para agravar o problema do que para solucioná-lo.
Os benefícios vão muito além do clima. Somente em 2025, a poluição do ar externo esteve associada a 6,4 milhões de mortes prematuras, enquanto a doméstica contribuiu para outras 2 milhões, incluindo as de aproximadamente 300 mil crianças. Até 2050, as medidas analisadas poderiam evitar 144 milhões de mortes prematuras, 62 milhões de casos de asma infantil, 87 milhões de infartos, 56 milhões de casos de diabetes, 45 milhões de AVCs e 36 milhões de casos de demência. Poucas vezes uma agenda ambiental esteve tão diretamente conectada à proteção da vida humana.
O relatório ganha relevância ainda maior porque chega na era do overshooting. O próprio PNUMA havia concluído que a ultrapassagem de 1,5°C se tornou inevitável. Mesmo no cenário mais otimista, a temperatura global deverá atingir um pico próximo de 1,8°C antes de iniciar uma trajetória de queda. A questão já não é evitar completamente esse limite, mas impedir que sua ultrapassagem seja mais intensa, longa e destrutiva. Quanto mais alto o pico e maior o tempo acima de 1,5°C, maiores os danos sobre ecossistemas, economias e sociedades. Cada décimo de grau importa. Cada ano importa. Cada decisão importa.
É nesse contexto que o metano emerge como uma das ferramentas mais estratégicas disponíveis. Responsável por cerca de um terço do aquecimento já observado, ele aquece mais de 80 vezes que o dióxido de carbono em um horizonte de vinte anos, mas permanece aproximadamente doze anos na atmosfera. Reduzi-lo produz, portanto, resultados mais rápidos. O conjunto das 25 medidas avaliadas poderia evitar cerca de 0,34°C de aquecimento até 2050, reduzir em aproximadamente 50% as emissões globais de CO₂, cortar cerca de 60% das emissões de metano e diminuir em quase 70% os principais poluentes atmosféricos. Na era do overshooting, isso não é um detalhe técnico. É uma oportunidade estratégica.
Talvez o aspecto mais desconfortável do relatório esteja em sua conclusão sobre os obstáculos existentes. As principais barreiras não são tecnológicas nem econômicas. Falhas de coordenação institucional, limitações de governança, dificuldades de financiamento e baixa capacidade de implementação atrasam em aproximadamente oito anos a adoção das medidas já conhecidas. Cada ano desperdiçado representa mais de US$ 1,5 trilhão em benefícios perdidos. Não faltam evidências, tecnologias ou justificativas econômicas. Faltam velocidade política e capacidade institucional para transformar conhecimento em ação.
Para o Brasil, essa não pode ser uma agenda secundária. Em um país continental, grande produtor de alimentos e energia, nossas escolhas sobre agropecuária, resíduos, combustíveis e uso do solo repercutem muito além das fronteiras nacionais. Na América Latina e no Caribe, cada dólar investido em ações integradas pelo clima e pelo ar limpo pode gerar aproximadamente US$ 9 em benefícios econômicos. Transformar esse potencial em política pública, investimento e escala é uma oportunidade de proteger vidas, fortalecer a economia e afirmar uma liderança brasileira compatível com a importância do país para o equilíbrio climático global.
A principal novidade do relatório talvez seja retirar definitivamente a ação climática de um campo exclusivamente ambiental. Clima, qualidade do ar, saúde e economia não podem mais ser tratados como agendas separadas. O chamado “ativo oculto” não é uma tecnologia recém-descoberta, mas o valor humano, econômico e climático que continuamos desperdiçando ao adiar soluções que já conhecemos
Não entramos na era do overshooting sem alternativas. Sabemos onde reduzir emissões, como melhorar a qualidade do ar e proteger vidas. Conhecemos os custos e os benefícios das soluções disponíveis. A questão já não é técnica nem científica. É política.
Na era do overshooting, a pergunta deixou de ser se podemos agir. A pergunta é quanto ainda estamos dispostos a pagar pelo atraso.
agosto 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política
Quando o futuro vira presente
Editorial
O país que irá às urnas nos próximos meses não é o mesmo das eleições anteriores. O calor extremo afeta a saúde, o trabalho e a produtividade. Secas pressionam cidades, lavouras e sistemas de energia. Chuvas intensas, enchentes e incêndios tornam-se cada vez mais frequentes e custosos. Em grande parte do território nacional, os impactos da mudança do clima já fazem parte da realidade cotidiana.
Ao mesmo tempo, o Brasil ocupa hoje a quarta posição entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta, segundo dados divulgados pelo SEEG/Observatório do Clima com base no Climate Watch. O dado revela um duplo desafio: lidar com os impactos que já atingem a população e acelerar a transição para um modelo de desenvolvimento capaz de reduzir emissões e enfrentar um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes.
Durante muito tempo, as mudanças do clima foram tratadas como uma ameaça distante. Essa distância desapareceu. O clima passou a influenciar diretamente a forma como produzimos alimentos, planejamos cidades, organizamos sistemas de saúde, garantimos segurança hídrica e estruturamos a economia.
O clima deixou de ser uma variável externa ao desenvolvimento. Hoje, ajuda a determinar seus limites e possibilidades.
A nova infraestrutura do desenvolvimento
Adaptar o país significa reduzir riscos, proteger vidas e criar condições para que cidades, serviços públicos e atividades produtivas continuem funcionando em um cenário de temperaturas mais elevadas e eventos extremos mais frequentes. Significa preparar hospitais para ondas de calor, fortalecer sistemas de alerta e defesa civil, proteger encostas, rodovias e zonas costeiras, garantir segurança hídrica e construir uma agricultura mais resiliente.
Mas a infraestrutura da adaptação não será feita apenas de concreto, aço e tecnologia. Ela dependerá também da proteção dos sistemas naturais que sustentam a economia e a qualidade de vida da população.
Rios, nascentes, aquíferos, manguezais, áreas úmidas e bacias hidrográficas garantem água para cidades, agricultura e energia. Da mesma forma, Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa não são apenas patrimônios naturais. São sistemas vivos que regulam chuvas, protegem solos, armazenam carbono e ajudam a sustentar a produção de alimentos, a geração de energia e o desenvolvimento econômico. Fragilizá-los significa aumentar a vulnerabilidade do país justamente quando mais precisamos de resiliência.
Há caminhos para seguir adiante
O Brasil já começou a construir respostas para esse desafio. O Plano Clima 2024-2035 reúne mais de 800 ações voltadas à adaptação e à redução dos riscos climáticos em áreas como saúde, recursos hídricos, cidades, energia, agricultura, gestão de riscos, povos indígenas e comunidades tradicionais. O plano reflete uma mudança importante: adaptar o país deixou de ser uma tarefa setorial e passou a ser uma estratégia nacional. Também reconhece que povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais não apenas enfrentam os impactos da mudança do clima, mas acumulam conhecimentos valiosos para um planejamento mais conectado aos ritmos, limites e respostas que a própria natureza oferece.
Entre as oportunidades mais imediatas estão soluções capazes de combinar benefícios ambientais, econômicos e sociais. É o caso da gestão de resíduos. Lixões e aterros inadequados contaminam solos e águas e emitem metano, um dos gases de efeito estufa mais potentes da atualidade. Encerrar lixões, ampliar a coleta seletiva, investir em compostagem e aproveitar o biogás para produzir biometano reduz emissões, gera energia e movimenta economias locais. Algumas cidades brasileiras já demonstram que proteção ambiental, inovação e desenvolvimento podem caminhar juntos.
A pergunta que esta eleição precisa responder
É justamente por isso que o período eleitoral merece atenção especial.
A partir de agora ouviremos propostas para saúde, educação, emprego, habitação, infraestrutura, agricultura, energia e desenvolvimento regional. A questão é simples: elas fazem sentido diante do Brasil que temos pela frente?
Uma política habitacional considera o aumento das temperaturas e os riscos de enchentes? Uma política agrícola protege a água e o solo? Um programa de saúde prepara a rede pública para eventos climáticos mais frequentes? Um projeto de infraestrutura incorpora os riscos das próximas décadas? Há compromisso com a proteção dos ecossistemas que sustentam a economia, a segurança hídrica e a qualidade de vida da população?
Se o século XX exigiu a construção da infraestrutura do desenvolvimento, o século XXI exigirá a construção da infraestrutura da adaptação.
Por isso, vale observar quem compreendeu a dimensão dessa tarefa. Quem pretende proteger nossas águas, preparar nossas cidades, fortalecer a produção de alimentos, reduzir riscos climáticos e garantir os direitos dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, cujos territórios desempenham papel decisivo para a conservação da biodiversidade, a estabilidade climática e a segurança hídrica do Brasil.
O desafio desta eleição não é apenas escolher quem governará os próximos anos. É escolher quem está preparado para governar um país que já enfrenta uma nova realidade climática.
Ignorar essa transformação não fará com que ela desapareça. Apenas tornará seus custos maiores, suas desigualdades mais profundas e seus impactos mais difíceis de enfrentar.
O Brasil que vai às urnas já mudou.
A questão agora é se mudaremos junto com ele.
As escolhas feitas nos próximos anos definirão nossa capacidade de proteger vidas, garantir segurança hídrica, fortalecer a produção de alimentos e reduzir riscos crescentes.
O clima já mudou. Resta saber se nossas escolhas estarão à altura dessa nova realidade.
agosto 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, poluição
O freio de emergência climática já está ao nosso alcance
O desafio agora é fazê-lo ganhar escala.
Editorial
Se quisermos manter viva a possibilidade de limitar o aquecimento global a 1,5°C, não podemos ignorar o metano. Ao contrário do dióxido de carbono, que dura séculos, ele permanece menos tempo na atmosfera – cerca de 12 anos –, o que faz da sua mitigação uma das formas mais rápidas de desacelerar o aquecimento global.
Por isso, o metano vem sendo chamado de freio de emergência climática.
A boa notícia é que o Brasil não precisa esperar por uma tecnologia milagrosa para acioná-lo.
Já conhecemos as principais fontes das emissões e dispomos de tecnologias, experiências e soluções capazes de gerar resultados concretos.
É justamente isso que mostra o Caderno de Soluções para Redução das Emissões de Metano no Brasil, produzido pelo SEEG, iniciativa do Observatório do Clima, com coordenação técnica de ICLEI, IEMA, Imaflora e IPAM.
Mais do que um diagnóstico, a publicação oferece uma agenda de ação. São 37 soluções distribuídas entre agropecuária, resíduos, energia e mudança do uso da terra, muitas delas disponíveis hoje, com benefícios que vão além da redução das emissões: aumento da produtividade, redução de desperdícios, geração de renda, melhoria da qualidade do ar e fortalecimento da resiliência dos territórios.
Se as soluções existem, a pergunta é inevitável: por que as emissões continuam crescendo?
Desde 2020, as emissões de metano da agropecuária aumentaram 8,2% e as de resíduos 3,1%. Juntos, esses dois setores responderam por quase 92% das emissões brasileiras em 2024.
O mérito do Caderno é mostrar que o principal obstáculo já não está na falta de conhecimento sobre o problema. O desafio está em transformar soluções conhecidas em prática corrente.
Nas cidades brasileiras, por exemplo, existem experiências bem-sucedidas em compostagem, captura de biogás, coleta seletiva e organização de cooperativas. Na agropecuária, há tecnologias e práticas de manejo capazes de reduzir emissões e aumentar eficiência. No setor de energia, reduzir vazamentos significa diminuir emissões e evitar perdas econômicas. Nos cenários de maior ambição apresentados pelo SEEG, soluções como essas podem contribuir para que a redução nas emissões de metano até 2035 cheguem a 28% na agropecuária, 29,3% nos resíduos, 82% em mudança de uso da terra e florestas e 93,1% na energia, em relação a 2020.
Mas experiências bem-sucedidas nem sempre se transformam em políticas públicas, investimentos ou padrões de mercado.
É aí que entra uma dimensão frequentemente negligenciada da ação climática: a capacidade de compartilhar conhecimento, conectar experiências e acelerar a adoção do que já funciona.
Uma solução que dá certo em um município deveria inspirar outros. Um projeto-piloto de sucesso deveria orientar novos investimentos. Aprendizados acumulados deveriam reduzir custos, evitar erros e encurtar o caminho entre intenção e implementação.
Nesse sentido, o Caderno cumpre um papel particularmente relevante. Ao reunir soluções, evidências e exemplos concretos, ele ajuda a reduzir a distância entre saber e fazer. E o Brasil já sabe o que precisa fazer. O que está em jogo agora é o tempo.
Afinal, não estamos falando de um tema secundário. O metano tem potencial de aquecimento 80 vezes maior que o CO2 em um período de 20 anos e responde por cerca de um terço do aumento da temperatura global, e poucas agendas oferecem uma oportunidade tão clara de desacelerar a emergência climática no curto prazo.
As soluções para reduzir as emissões de metano já estão à mesa. O desafio agora é criar as condições para que elas sejam adotadas na velocidade e na escala que a emergência climática exige.
O freio de emergência climática está ao nosso alcance. Quanto mais demorarmos para acioná-lo, mais difícil e mais caro será conter o aquecimento global dentro de limites que ainda nos permitem construir um futuro seguro. A janela de oportunidade está aberta, mas não permanecerá assim por muito tempo.
agosto 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, biometano, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política, poluição
Por Suely Araújo e Victor Hugo Argentino
O Brasil produz cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mas reaproveita apenas 4,2% dos materiais que consome. Em um país que ainda desperdiça tamanho potencial econômico, faz sentido investir bilhões para queimar aquilo que poderia voltar à cadeia produtiva, gerar empregos, renda e novos negócios?
Essa é a escolha estratégica que o país começa a enfrentar na gestão de resíduos. De um lado, um modelo linear baseado na queima de resíduos para geração de energia. De outro, soluções alinhadas à economia circular, capazes de preservar recursos, reduzir emissões e transformar materiais descartados em novos ativos econômicos.
O debate ganha urgência diante do avanço dos projetos de incineração — ou recuperação energética, como são chamados os empreendimentos de tratamento térmico de resíduos — e da tramitação, no Congresso Nacional, do Projeto de Lei 3.311/2025, que cria o Programa Nacional do Metano Zero. Embora tenha como objetivo reduzir emissões de gases de efeito estufa, a proposta inclui entre suas diretrizes a recuperação energética de resíduos sólidos não recicláveis, categoria que abrange as chamadas Unidades de Recuperação Energética (UREs).
O problema é que o Brasil ainda não consegue aproveitar sequer o valor econômico dos materiais que descarta. Papel, plástico, vidro, metais e resíduos orgânicos que poderiam retornar à cadeia produtiva ou gerar novos insumos industriais acabam enterrados ou destinados a tecnologias que eliminam seu valor material.
Essa é a principal questão econômica do debate. A incineração transforma um recurso em combustível de uso único. A economia circular busca exatamente o oposto: manter materiais em circulação pelo maior tempo possível, extraindo deles sucessivas camadas de valor. Em termos econômicos, trata-se da diferença entre gerar valor uma única vez ou multiplicá-lo ao longo de sucessivos ciclos produtivos.
Há ainda um aspecto frequentemente negligenciado: o risco de travamento tecnológico. Incineradores são ativos concebidos para operar durante décadas e amortizar investimentos elevados. Quanto maior a dependência dessa infraestrutura, menor a flexibilidade para incorporar avanços tecnológicos, novas metas de reciclagem ou futuras exigências regulatórias. Em um contexto de rápida evolução da economia circular, isso pode representar custos adicionais para governos e consumidores.
A conta financeira também pesa. Dados do Instituto Pólis e da Global Alliance for Incinerator Alternatives (GAIA) indicam que os custos de capital para usinas de incineração variam entre R$ 14.500 e R$ 27 mil por quilowatt instalado, enquanto a energia solar apresenta custos entre R$ 2.500 e R$ 5 mil por quilowatt. Na prática, investimentos equivalentes em outras fontes renováveis podem gerar muito mais energia com menor custo.
A própria ONU classifica a tecnologia waste-to-energy como a alternativa mais cara entre as opções de tratamento de resíduos urbanos e destaca suas limitações diante de estratégias de redução, reutilização e reciclagem.
O custo, porém, não está apenas na construção das plantas. Está também no modelo econômico que elas criam. Incineradores dependem de um fluxo constante de resíduos para operar e, por isso, competem diretamente com cadeias de reciclagem pelos mesmos materiais. Quando municípios firmam contratos de longo prazo para abastecer fornos, reduzem os incentivos para ampliar sistemas ancorados na economia circular.
Experiências internacionais evidenciam esse risco. Na Suécia, frequentemente citada como referência na gestão de resíduos, a expansão da incineração esteve associada à estagnação das taxas de reciclagem e levou o país a importar resíduos para manter suas usinas operando. Na Noruega, o aumento da capacidade instalada coincidiu com uma década de estagnação da reciclagem e crescimento das emissões de CO₂. Nos Estados Unidos, dezenas de incineradores foram desativados nas últimas décadas, enquanto a China enfrenta problemas de sobrecapacidade e insuficiência de resíduos para alimentar suas plantas.
Os impactos sociais também entram nessa equação. Em locais onde sistemas de reciclagem dependem fortemente do trabalho dos catadores, a retirada de materiais recicláveis para abastecer incineradores pode reduzir renda, enfraquecer cadeias produtivas existentes e limitar oportunidades de inclusão social.
O Brasil possui alternativas mais alinhadas à sua vocação energética e industrial. A ampliação da reciclagem, da compostagem, da biodigestão e da produção de biogás e biometano permite reduzir emissões, gerar energia renovável e criar novas oportunidades econômicas a partir dos resíduos. Num contexto em que cadeias globais exigem cada vez mais conteúdo reciclado e menor pegada de carbono, ampliar a recuperação de materiais também significa ampliar competitividade industrial.
A União Europeia, por exemplo, vem ampliando exigências relacionadas ao conteúdo reciclado em diversos setores produtivos, enquanto investidores e empresas incorporam critérios ambientais cada vez mais rigorosos em suas cadeias de suprimento. Desperdiçar materiais recicláveis significa também abrir mão de oportunidades em mercados que tendem a valorizar cada vez mais a circularidade.
A agenda é igualmente estratégica do ponto de vista climático. O metano gerado pela decomposição de resíduos em aterros possui potencial de aquecimento cerca de 80 vezes superior ao do dióxido de carbono em um horizonte de 20 anos. Capturá-lo e transformá-lo em energia ou combustível renovável reduz emissões e substitui fontes fósseis.
Experiências brasileiras já apontam nessa direção. Projetos de compostagem, biodigestão e produção de biometano demonstram que resíduos podem deixar de ser tratados apenas como problema ambiental para se transformar em ativos econômicos. Estudos também indicam que a expansão da reciclagem, da compostagem e da inclusão produtiva dos catadores pode reduzir significativamente as emissões do setor.
O debate, portanto, não deveria se limitar à forma de eliminar aquilo que descartamos. A questão central é como recuperar o valor econômico, energético e climático dos materiais que ainda podem ser aproveitados.
A decisão não é apenas tecnológica. É uma escolha sobre como gerar valor. O Brasil pode investir recursos escassos em uma infraestrutura que depende de resíduos para sobreviver ou em uma economia circular capaz de transformar resíduos em riqueza, emprego, inovação e competitividade. Em um país que ainda recupera tão pouco do que descarta, a pergunta permanece: faz sentido gastar bilhões para queimá-los?
Suely Araújo é coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.
Victor Hugo Argentino é coordenador de Resíduos Sólidos do Instituto Pólis e membro da Aliança Resíduo Zero Brasil.
agosto 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política
Biometano: energia limpa ou armadilha para a economia circular?
O desafio do biometano não é a escala. É a direção.
Com enorme potencial energético, o biometano só cumprirá sua promessa se vier acompanhado de um modelo circular que estenda os benefícios para além dos fatores energéticos e climáticos.
Por Alessandro Sanches Pereira e Victor Hugo Argentino
Segundo a Associação Brasileira de Biogás (ABiogás), os resíduos que o Brasil já produz diariamente, do esgoto das cidades aos dejetos da pecuária e às sobras da agroindústria, poderiam gerar uma quantidade de gás renovável equivalente a cerca de 70% do diesel consumido no país. No entanto, o Brasil aproveita menos de 6% do seu potencial de produção dessa fonte de energia, segundo o Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás).
Mas a expansão do biometano traz uma questão central para a transição energética brasileira: produzir mais energia não significa, automaticamente, gerar desenvolvimento nem maximizar seus benefícios climáticos e sociais.
O biogás surge da decomposição controlada de matéria orgânica. Após passar por um processo de purificação, transforma-se em biometano, um combustível com características semelhantes às do gás natural, capaz de utilizar a mesma infraestrutura e abastecer os mesmos equipamentos. Seu potencial é especialmente relevante em setores nos quais a eletrificação ainda enfrenta limitações econômicas ou tecnológicas, como o transporte pesado e alguns processos industriais.
Há também um ganho climático decisivo. Quando resíduos orgânicos se decompõem de forma descontrolada, liberam metano, um gás que aquece a atmosfera cerca de 80 vezes mais que o dióxido de carbono nos primeiros 20 anos após sua emissão. Capturar esse metano e transformá-lo em energia significa reduzir emissões, mas seu verdadeiro potencial está em combinar mitigação climática com uma gestão mais eficiente dos resíduos.
O biometano não terá o mesmo papel em todos os contextos. Ele tende a ser mais relevante onde há geração contínua de resíduos inevitáveis, alta demanda energética e poucas alternativas de descarbonização. Em outras situações, seu papel será complementar ou de transição.
A recuperação do gás de aterros, por exemplo, é necessária para reduzir as emissões de um passivo já existente, mas não pode servir de justificativa para perpetuar um modelo baseado no descarte. É mais importante evitar que os resíduos orgânicos cheguem ao aterro.
Nas cidades, a política pública deve começar pela prevenção do desperdício, pela separação dos resíduos na origem e pela recuperação dos recicláveis. Para a fração orgânica, compostagem e biodigestão podem atuar de forma complementar, conforme a infraestrutura disponível e as características locais. O biometano urbano fortalece a economia circular quando integra essa lógica. Se sua viabilidade depender da manutenção de grandes volumes de resíduos enviados aos aterros, passa a competir com estratégias mais vantajosas, como a redução da geração de resíduos, a reciclagem de nutrientes e soluções descentralizadas de tratamento. O resultado pode ser o travamento do avanço de sistemas mais circulares e com maiores cobenefícios, como geração de emprego, recuperação de solos e menor demanda de transporte.
No campo, os critérios também precisam ser claros. A prioridade deve recair sobre dejetos animais, efluentes e resíduos inevitáveis da agroindústria. Culturas energéticas dedicadas não podem competir com a produção de alimentos, pressionar o uso da terra ou incentivar a conversão de vegetação nativa.
São Paulo exemplifica tanto a oportunidade quanto a necessidade de planejamento. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) estima que 181 plantas podem entrar em operação no curto prazo para atender parcela relevante do consumo estadual de gás natural ou diesel. O estado reúne condições para liderar uma nova fronteira energética baseada em aproveitamento sustentável de resíduos.
Mas esse potencial só se concretizará com planejamento capaz de definir, em cada território, onde instalar as plantas, quais resíduos utilizar e quem consumirá o combustível. Assim, evita-se reproduzir problemas relacionados ao uso da terra e à destinação de resíduos.
Os instrumentos regulatórios e os incentivos econômicos precisam evoluir para considerar o desempenho climático dos projetos. A redução de emissões deve ser comprovada ao longo de toda a cadeia, da origem da matéria-prima ao destino do digestato; sem esse critério, corre-se o risco de remunerar apenas o volume produzido, sem garantir uma redução efetiva das emissões.
Esse debate é especialmente relevante para o Sul Global, onde a crescente discussão sobre energia a partir de resíduos tem levado cidades a projetos de recuperação energética e incineração, soluções que podem comprometer o avanço da coleta seletiva, da reciclagem e de estratégias mais alinhadas à economia circular.
O biometano tem o potencial de ser a rota de aproveitamento energético complementar a um modelo circular.
O valor do biometano não está apenas na substituição do gás fóssil. Quando bem planejado, ele pode combinar saneamento, gestão de resíduos, mitigação de metano, produção de biofertilizantes, segurança energética, segurança alimentar, geração de renda e desenvolvimento local. Mas isso exige modelos compatíveis com realidades marcadas por limitações institucionais, financeiras e de infraestrutura.
Em última instância, o debate sobre o biometano é um debate sobre o modelo de desenvolvimento que queremos construir. O desafio é garantir que a descarbonização não reproduza, sob a etiqueta de “CO2 neutro”, as mesmas lógicas lineares e exploratórias que estão na origem da crise ambiental.
Alessandro Sanches Pereira é diretor-executivo do Instituto 17 e membro do Conselho de Engenheiros para a Transição Energética do Secretário-Geral das Nações Unidas.
Victor Hugo Argentino é coordenador de Resíduos Sólidos do Instituto Pólis e membro da Aliança Resíduo Zero Brasil.
Página 1 de 1312345678...»Última »