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O rio morreu

O rio morreu

Quando a natureza fala, os indígenas escutam. No fim de outubro de 2015, todos os anciões das aldeias Krenak ficaram doentes ao mesmo tempo. O acontecimento veio acompanhado da mudez de grilos e sapos, percebida pelos ouvidos mais atentos. “Sabíamos que aquele silêncio significava algo”, contou tempos depois a liderança e escritora Shirley Djukurnã krenak. Eram sinais claros, como relâmpagos antes da tempestade. Por volta de 15h30 de 5 de novembro daquele ano, o rompimento da barragem da Vale, em Mariana, originou uma onda de resíduos do tamanho do Pão de Açúcar, que matou 19 pessoas e afetou a vida de 500 mil cidadãos que viviam às margens do Rio Doce. O desastre teve um significado a mais para os Krenak. Este povo acredita que o crime ambiental fez o espírito daquelas águas ir para o alto da montanha. Para os Krenak, desde então, o Watu, o rio sagrado, está morto.

Um rio espiritualmente morto é uma ideia que não faz sentido para o pensamento ocidental. Em uma reunião com representantes de uma mineradora, Dejanira Krenak, liderança e matriarca do povo Krenak, perguntou: “De que forma você traz um morto à vida?”. Foi uma boa maneira de traduzir o dilema para quem não o compreendia. Por quatro dias, um tsunami de lama percorreu os 400 quilômetros entre os municípios de Mariana e Resplendor, onde vivem os Krenak. À medida que avançava, a onda diluía na água rejeitos que impediriam que a luz chegasse ao fundo do rio por 6 meses e causariam a morte de quase 30 mil peixes. Mas os impactos não pararam por ali. Para se ter uma ideia, só no primeiro ano após o rompimento, todas as 26 espécies de peixe sumiram do Rio Doce.

Assim como a pandemia impôs um novo normal a grande parte do planeta em 2020, o desastre de Mariana mudou a vida dos Krenak há cinco anos. Cerca de 140 famílias foram forçadas a se readaptar para sobreviver. Pais que aprenderam a nadar no Rio Doce, uma tradição de várias gerações, se viram forçados a ensinar seus filhos a mergulhar em caixas d’água sem nenhuma correnteza. Hoje, cada Krenak tem direito a 5 litros de água mineral por dia para beber. Prioridade entre as ações mitigatórias, o novo sistema de abastecimento ainda não está pronto. Diante de um quadro tão chocante, muitos morreram de depressão.

Até setembro de 2020, as empresas responsáveis pela barragem haviam pago mais de R$ 250 milhões em ações mitigatórias e compensatórias aos Krenak, aos Guarani e aos Tupiniquim, os 3 povos atingidos pelo desastre. O valor é pequeno diante do que foi perdido. “Não tem casa, não tem dinheiro ou qualquer coisa que pague o que fizeram com o rio”, afirmou em 2017 uma liderança Krenak sobre a situação. Dinheiro algum é capaz de devolver um espírito a um rio e os séculos de relação com o território não se contabilizam em cifras.

A história dos Krenak em Minas é antiga e bonita. Há registros do século XVIII da presença do povo na região. No passado, chegaram a ocupar uma extensão de mais de 800 quilômetros. Eles estão em Resplendor desde, pelo menos, 1910 – quando um espaço de 4 mil hectares na margem esquerda do Rio Doce foi reservado para eles. A demarcação definitiva só veio na década de 1980 e hoje a Terra Indígena conta com 7 aldeias que abrigam 540 pessoas. Antes do desastre de Mariana, os Krenak já sofriam com problemas como a desertificação do solo por conta da exploração excessiva de empresas da região. Com o rompimento da barragem, as dificuldades só aumentaram, mas não foram suficientes para enfraquecer o vínculo que existe entre o povo e a terra. Há mais de 15 anos, os Krenak pedem a incorporação de parte do Parque Estadual Sete Salões ao território. Mesmo com o crime de 2015, eles mantêm aceso o desejo de voltar às cavernas sagradas que existem neste local.

“Estamos muito tristes em ver a impunidade que reina hoje”, afirmou Geovani Krenak, liderança, em 2018 sobre o caso de Mariana. Dois anos depois, o cenário não mudou muito. Até hoje segue sem conclusão o processo no qual 4 empresas e 22 executivos foram denunciados como responsáveis pelo desastre. A denúncia foi feita pelo Ministério Público Federal em 2016.

Desde julho, tramita em Manchester, na Inglaterra, um novo processo com pedidos de indenizações a uma das mineradoras envolvidas no desastre. Em entrevista ao Estado de Minas, os advogados dos atingidos relataram que a ação é fruto direto da lentidão do sistema judiciário brasileiro em avaliar o caso de Mariana.

A demora em se fazer justiça é denunciada também em protestos realizados pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Para marcar a data de 5 anos de injustiça na bacia do rio Doce, atingidos por barragens de Minas Gerais e do Espírito Santo organizaram atos que denunciaram a falta de reparação para a população afetada. O objetivo principal foi chamar a atenção da Justiça para as pessoas que perderam suas casas, os empregos, e sofrem com desabastecimento de água limpa, problemas de saúde e aumento da violência por conta do maior crime ambiental brasileiro.

O estrago foi feito em curto espaço de tempo. Foram quinze dias para a lama tóxica se mover da barragem de Fundão, em Minas Gerais, à foz do rio Doce, no Espírito Santo. Já a cura vai se dar a longo prazo: estima-se que deve levar mais de 20 anos para os rios e nascentes da região afetada pelo rompimento da barragem se recuperarem. É uma previsão desanimadora para muitos, mas que não deve assustar os Krenak, acostumados a grandes desafios ao longo de sua trajetória. Removidos de suas terras pelo Estado Brasileiro em 1957, eles voltaram a Resplendor dois anos depois, após uma caminhada que durou três meses. Pouco mais de quinze anos depois, a Funai determinou uma nova remoção em 1972, revertida por meio de uma nova caminhada, em 1980, que demorou 95 dias. Desta vez, o caminho pode ser mais longo e a caminhada, mais demorada. Mas o objetivo dos Krenak segue o mesmo: viver em harmonia com a natureza no lugar que consideram sagrado.

Leia mais:

BBC – Após dois anos, impacto ambiental do desastre em Mariana ainda não é totalmente conhecido (05/11/2020)

Lama faz índios Krenaks depender de água mineral 04/11/2020

Dom Total -‘De que forma você traz um morto à vida?’, diz indígena krenak sobre Rio Doce (30/10/2019)

Elástica – “Envenenam a Terra por não acreditar que ela é um organismo vital” (20/07/2020)

Época – ‘Lutamos contra a mineração há 200 anos’, diz indígena que vive às margens do Rio Doce’ (15/08/2019)

Bom Dia Brasil – Rio Doce, da nascente à foz (29/09/2017)

G1 – Após a lama, tribo Krenak deixou de fazer rituais e festas no Rio Doce (28/10/2016)

Istoé – Três anos após desastre de Mariana, indígenas Krenak pedem justiça (05/11/2018)

Fiocruz – Povo indígena Krenak segue lutando por reconhecimento e demarcação total de seu território tradicional (04/08/2018)

Ramboll – Relatório sobre proteção e recuperação da qualidade de vida dos povos indígenas (Setembro de 2020)

O Globo – Desastre ambiental em Mariana afeta cultura dos índios krenaks (31/10/2017)

Uma Gota no Oceano – Mariana: dois anos como um dia (07/11/2017)

Hoje é dia de luta contra as barragens

Hoje é dia de luta contra as barragens

Água parada não move moinhos e pode causar tragédias. A pauta do 14 de março, Dia de Luta Internacional Contra Barragens, é a defesa dos rios e dos direitos das comunidades atingidas por barragens, e a construção de um modelo econômico e energético limpo, sustentável e popular. Mas todo dia é dia para defendermos estas causas, pois tragédias como a de Mariana não podem ser esquecidas e muita água ainda vai rolar debaixo do Xingu por causa da construção de Belo Monte.

Tem que correr! Primeiro, porque rios como o Xingu e o Tapajós precisam fluir livres para carregar seus jorros de biodiversidade. Segundo, pela urgência de criar ações que respondam à altura aos impactos de grandes barragens sobre as águas do Brasil e do mundo. O Rio Doce foi aniquilado pela Samarco e ninguém ainda foi devidamente punido.

Afinal, água é vida. Vida #TemQueCorrer solta.

Aproveite para assistir ao documentário “Belo Monte: Depois da Inundação”, com direção do canadense Todd Southgate e narração de Marcos Palmeira, que já está disponível para streaming e download gratuitos: https://vimeo.com/181830626

Carnaval também é reflexão

Carnaval também é reflexão

“O Carnaval é a maior caricatura, na folia o povo esquece a amargura”, diz a letra do velho samba. Mas também há espaço para a dura realidade e para a reflexão em meio à alegria. Cantando os rios em seu enredo, a campeã Portela levou à Avenida um carro que lembrou a tragédia de Mariana.

Com isso, a escola de samba de Madureira chamou atenção para o desastre ambiental que matou o Rio Doce e pelo menos 19 pessoas. Um crime que continua impune.

Enquanto isso, o governo federal, que deveria manter os pés na realidade, preferiu recorrer ao mundo da fantasia para fugir à sua responsabilidade: no informe oficial que enviou à ONU sobre a situação dos direitos humanos no Brasil, omitiu o desastre ambiental do Rio Doce, além do aumento do desmatamento na Amazônia.

Haja samba para superar essa desarmonia com a verdade.

Via: Jornal Nacional

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Saiba mais: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2017/03/assinado-por-paulo-barros-enredo-da-portela-falou-sobre-rios.html

Justiça suspende licença de Belo Sun

Justiça suspende licença de Belo Sun

Conseguimos deter o monstro. Mas por pouco tempo. A Justiça de Altamira (PA) suspendeu a licença de instalação do projeto de mineração Belo Sun. Esta aberração quer extrair ouro da região da Volta Grande do Xingu. O perigo que uma catástrofe ambiental das dimensões de Mariana se repita no coração da Amazônia é grande.

A decisão de pará-lo atende a um pedido de liminar da Defensoria Pública do Estado do Pará, mas vale só por 180 dias.

Temos agora uma corrida contra o tempo para detê-lo definitivamente.

Belo Sun é o filhote de Belo Monte, o monstro que “rouba as terras dos seus filhos, devora as matas e secas os rios”, como diz o samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense.

São monstros que se alimentam de cobiça.

Via: Estadão​

Foto: Cultura Mix

Saiba mais: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,justica-suspende-licenca-que-autoriza-mineracao-de-ouro-em-belo-monte,70001673979