Consenso global e o suicídio legislativo

Consenso global e o suicídio legislativo

Brasil entre o consenso global e o suicídio legislativo 

O materialismo da crise climática atual não permite mais o luxo de discussões abstratas num contexto em que se manifesta no calor que mata e nas águas que deslocam populações inteiras. No cenário global, o maior avanço não reside apenas em metas numéricas, mas na consolidação da lente do consenso: a capacidade de buscar soluções comuns a partir de diferenças profundas para garantir a sobrevivência mútua.

É sob esse espírito de mediação que o Brasil, por meio da presidência da COP30, conduziu as negociações internacionais, fortalecendo em Bonn e em Londres, a construção de consensos que deverão orientar a agenda climática até a COP31. A liderança brasileira não reivindica para si o mérito exclusivo de entregas como o “Mapa do Caminho” para o combate aos fósseis e ao desmatamento; antes, atua como o maestro de uma construção global, buscando o ponto de equilíbrio entre nações soberanas para implementar soluções urgentes que o planeta já não pode adiar.

Contudo, este protagonismo externo esbarra em um paradoxo interno, asfixiante. O Congresso Nacional, onde deveria residir a soberania popular, parece operar em um vácuo de realidade científica e de desenvolvimento. Composto por 513 deputados e 81 senadores, este corpo de 594 legisladores tem o dever de representar uma nação de aproximadamente 214 milhões de habitantes. A partir das eleições de 2026, a Câmara passará a contar com 531 deputados, elevando o número de parlamentares no Congresso para 612. Mais cadeiras, porém, não significam necessariamente maior compromisso com o interesse público. A atuação legislativa tem priorizado cálculos políticos imediatistas em detrimento da Res publica (coisa pública), ignorando que o pulso da Terra não aguarda o tempo das apurações de votos, dos lobbies e convenções partidárias.

Essa desconexão é evidenciada no documento “Brasil 2045”, elaborado por uma coalizão com mais de 170 organizações da sociedade civil brasileira, com a mediação do Observatório do Clima. A proposta, que reúne ações para uma política ambiental capaz de conciliar desenvolvimento, competitividade e segurança climática, expõe o contraste entre a liderança que o Brasil busca exercer no multilateralismo internacional e a agenda que avança no Congresso Nacional. Enquanto a diplomacia brasileira trabalha para construir consensos em torno da implementação do Acordo de Paris, parlamentares impulsionam o chamado “Pacote da Destruição“, um conjunto de propostas que flexibiliza o licenciamento ambiental, fragiliza salvaguardas socioambientais e amplia a pressão sobre ecossistemas estratégicos. O levantamento também revela outra contradição: apenas 0,58% das emendas parlamentares individuais foram destinadas à agenda climática. Trata-se de uma verdadeira irracionalidade estratégica: desmontam-se justamente os instrumentos capazes de proteger a economia, a produção agrícola, a segurança hídrica e a infraestrutura nacional diante do avanço da crise climática. É uma conta que não fecha. Sacrifica-se o futuro por ganhos imediatos que, ironicamente, corroem as bases do próprio desenvolvimento econômico.

O agronegócio, pilar da balança comercial brasileira, é o exemplo mais dramático dessa miopia. Embora tenha celebrado recordes de exportação em 2025, o setor hoje enfrenta a erosão de sua produtividade devido a eventos extremos e ao El Niño, que compromete o regime de chuvas e a saúde do solo. A agropecuária, responsável por cerca de 25% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, sabota sua própria resiliência ao apoiar legisladores que fragilizam o Código Florestal. Não há o que comemorar em cifras bilionárias quando a infraestrutura natural que sustenta a produção está sendo consumida por queimadas e secas severas que o próprio setor ajuda a intensificar.

O custo dessa irresponsabilidade é contado em vidas. Estudos da Fiocruz e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação indicam que ondas de calor extremo, potencializadas pelo desmatamento que o Congresso reluta em frear, causaram cerca de 120 mil mortes evitáveis no Brasil entre 2000 e 2019, atingindo desproporcionalmente os idosos e mais pobres. E sabemos que a pobreza no Brasil, tem cor. Diante deste luto, o Legislativo ainda insiste em teses como o Marco Temporal, um artifício jurídico que tenta restringir o direito dos povos indígenas às suas terras apenas se eles estivessem ocupando-as no dia exato da promulgação da Constituição de 1988, ignorando séculos de expulsões violentas e presença ancestral.

E essa capacidade não é um acidente geográfico. Um estudo global recente da Conservation International, baseado em entrevistas com 49 lideranças indígenas de seis continentes, da Amazônia às savanas do leste africano, derruba a ideia de que essas terras são saudáveis apenas por serem remotas ou pouco povoadas. A pesquisa mostra o contrário: 96% das comunidades, protegem ecossistemas inteiros. A conservação funciona porque há gente cuidando, não apesar dela. Mas o mesmo estudo revela o preço dessa vigília: 61% das lideranças apontaram mineração, agropecuária comercial e exploração madeireira como ameaças diretas, e mais da metade das 43 comunidades pesquisadas já convive com atividades extrativistas em seu entorno. É exatamente esse cerco que o Congresso brasileiro amplia ao discutir mineração em terras indígenas e flexibilizar o licenciamento ambiental: povos como os Mamoadate, no Acre, prestam um serviço climático de valor incalculável sem qualquer contrapartida do Estado brasileiro e, com frequência, apesar dele.

A democracia representativa enfrenta sua maior prova nas eleições de 2026: a necessidade de alinhar a vontade das urnas à realidade biofísica do planeta. A soberania brasileira e o protagonismo na COP30 não podem ser adornos de gala para o mercado internacional enquanto o Congresso Nacional opera como um agente de vulnerabilidade interna. A verdadeira Res publica exige que os 594 representantes em Brasília reconheçam que a proteção da vida e dos territórios é a única base sobre a qual se pode construir uma potência ambiental. O Brasil não será líder de um mundo que seus próprios legisladores ajudam a incendiar; a liderança real começa por garantir que a segurança climática do povo brasileiro seja o eixo inegociável de toda e qualquer política pública.

Neste processo, a própria soberania nacional é colocada em xeque: um Estado que permite o desmonte de suas salvaguardas ambientais renuncia à capacidade de garantir segurança hídrica, alimentar e econômica básica ao seu povo, deixando de agir como a “potência ambiental” para se tornar uma nação cada vez mais vulnerável aos impactos climáticos que ela própria ajudou a intensificar.

A caminho do colapso

A caminho do colapso

O mundo acelera rumo ao colapso e ainda escolhe ir devagar

Reduzir as emissões de metano são hoje o ponto mais rápido e acessível de intervenção climática

Por Durwood Zaelke, fundador e presidente do Instituto para Governança e Desenvolvimento Sustentável (IGSD)

O planeta está aquecendo mais rápido do que jamais previmos e seguimos respondendo mais devagar do que podemos. Desde a Rio-92, quando o mundo firmou seu primeiro compromisso global para enfrentar a crise climática, a velocidade do aquecimento dobrou. Não é retórica: é física. Estamos acelerando em direção a limites que podem redefinir as condições de vida na Terra.

O teto de 1,5ºC, consagrado no Acordo de Paris, deixou de ser uma ambição distante. É uma linha que estamos prestes a cruzar. A de 2ºC, antes tratada como cenário extremo, já entra no horizonte de poucas décadas. Entre esses dois marcos há uma janela perigosamente estreita, pouco mais de uma década, para evitar mudanças irreversíveis.

Não se trata de projeções abstratas, mas de riscos concretos: o colapso da Amazônia, o derretimento acelerado da Groenlândia e a desorganização de correntes oceânicas que regulam o clima global. Ultrapassá-los não significa apenas mais calor, mas um planeta estruturalmente mais instável, com impactos em cadeia sobre água, alimentos, economia e segurança.

O curto prazo já deixou de ser alerta para se tornar evidência. Ondas de calor extremo tornaram-se recorrentes. O “super” El Niño, já observado em diferentes regiões do mundo, pode amplificar ainda mais essa instabilidade. Ao mesmo tempo, o próprio sistema climático começa a trabalhar contra nós: partes da Amazônia já emitem mais carbono do que absorvem. A natureza, silenciosamente, está mudando de lado.

Diante disso, a resposta global segue presa a promessas graduais, metas distantes e compromissos voluntários que não refletem a urgência do problema. O mundo conhece as soluções, mas ainda hesita em adotá-las na escala e na velocidade necessárias. A mais evidente delas é também a mais negligenciada: os superpoluentes climáticos.

Quase metade do aquecimento atual não vem do dióxido de carbono, mas de poluentes como metano, hidrofluorcarbonos, carbono negro e ozônio troposférico. São dezenas, centenas ou até milhares de vezes mais potentes que o CO2 e permanecem menos tempo na atmosfera. Isso muda tudo. Reduzi-los não é apenas eficaz; é imediato. Cortá-los agora pode evitar muito mais aquecimento nas próximas décadas do que a descarbonização isolada.

Não se trata de uma aposta. É uma estratégia comprovada. O Protocolo de Montreal permanece como o acordo ambiental mais eficaz da história justamente por ser vinculante, com metas claras e implementação real. A lição é inequívoca: quando os países assumem obrigações concretas, os resultados aparecem. Quando ficam no voluntarismo, não.

É exatamente aí que falhamos com o metano, hoje o ponto mais rápido e acessível de intervenção. A tecnologia existe, o custo é baixo e os ganhos são imediatos. Continuar tratando esse tema como opcional deixou de ser prudência. É omissão.

A mensagem começa a mudar. Não por acaso, durante a Semana de Ação Climática de Londres, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lançou um apelo global à ação sobre o metano e afirmou que “a poluição por metano deve ser a próxima a ser eliminada”, defendendo um novo padrão global de “emissões de metano próximas de zero em toda a cadeia de valor”. Para ele, a era das ações voluntárias acabou. A primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley fala em “um novo momento camada de ozônio”. Ambos têm razão.

O Brasil, que ajudou a inaugurar o multilateralismo climático, tem a chance de liderar novamente. Mas o tempo para passos graduais acabou.

A física não negocia. Cada fração de grau importa. Cada ano perdido estreita o caminho. Não estamos mais escolhendo entre agir depois ou agora, mas entre agir rápido ou reagir tarde demais.

Ainda temos as ferramentas e o conhecimento para evitar o pior. O que falta é decisão.

E, neste ponto da história, decidir devagar já é decidir perder.

 

Entre COP 30 e a COP 31, como avançar para reduzir o metano?

Entre COP 30 e a COP 31, como avançar para reduzir o metano?

A redução do metano e a janela de tempo entre a COP 30 e a COP 31

De Belém, a Bonn, passando por Londres até Antalya: por que acelerar a mitigação do metano pode ser uma ação decisiva para o planeta? 

Editorial  

Londres é o momento em que essa travessia ganha corpo: quando a agenda climática precisa sair do campo da negociação e começar a se provar na implementação. A Conferência sobre Mudanças do Clima em Bonn deixou evidente o quanto ainda hesitamos em agir onde já seria possível fazer diferença imediata. 

A conferência terminou sem oferecer respostas proporcionais à urgência do momento. Não é incomum. A reunião de meio de ano da ONU raramente entrega grandes anúncios, seu papel é outro, mais sutil e, por isso mesmo, mais revelador. É em Bonn que se mede a temperatura real do processo climático: quanto da ambição anunciada na COP anterior resiste ao teste do tempo, da geopolítica e dos interesses em disputa. 

O que se viu, desta vez, foi uma travessia que avança, mas ainda sem eixo claro. 

Há movimento: o Mecanismo de Transição Justa começa a ganhar contorno, os Mapas do Caminho para fósseis e florestas seguem acumulando contribuições, e mais de 180 países continuam engajados nas salas de negociação. Ainda assim, por trás desse esforço coletivo, persiste uma sensação difícil de ignorar: seguimos operando em muitas frentes, sem que o centro da decisão se organize com a urgência necessária. 

Esse descompasso ajuda a explicar por que alguns temas estruturantes seguem sem aterrissagem. O fim dos combustíveis fósseis ainda não encontrou uma tradução política estável, o financiamento continua preso a impasses conhecidos, e a nova presidência da COP31 ainda ensaia seu próprio ritmo. 

Nesse cenário, o chamado “Espírito de Belém” não apenas permanece — ele se revela essencial. Não como legado de uma presidência, mas como expressão do próprio multilateralismo: uma ação coletiva, construída em camadas, sustentada por muitos atores avançando simultaneamente. 

Mas sustentar esse espírito não é o mesmo que converter esse movimento em velocidade. E é justamente aí que o diagnóstico de Bonn ganha densidade: seguimos avançando nas engrenagens mais complexas da transição — aquelas que exigem negociação longa, arquitetura institucional e pactos estruturais — enquanto hesitamos diante da frente mais frequentemente apontada pela ciência como capaz de gerar benefícios climáticos de curto prazo. 

 

O metano ocupa esse lugar. 

Central na ciência e periférico na política, ele raramente mobiliza imagens ou manchetes intuitivas, nem se traduz com facilidade no debate público. E, no entanto, é ali que está uma das poucas possibilidades reais de ganhar tempo, tempo concreto, mensurável, dentro da janela crítica desta geração. 

Isso porque, diferente do CO₂, o metano atua rápido e responde rápido. Reduzi-lo hoje é reduzir o ritmo do aquecimento, ainda nesta década. É essa relação direta entre ação e efeito que o diferencia e que torna ainda mais difícil justificar sua posição secundária. 

Por isso, talvez seja insuficiente tratá-lo como “fruta baixa”. O que está em jogo não é apenas facilidade ou custo, mas velocidade. A possibilidade de alterar o ritmo da curva enquanto ainda estamos em movimento, de agir antes que a trajetória se torne irreversível. 

É, em essência, um freio de emergência. 

E o que Bonn revelou, de forma quase silenciosa, é o quanto seguimos desconfortáveis em acioná-lo com a centralidade que ele exige. Não por falta de tecnologia — grande parte das soluções já existe, muitas delas de baixo custo — nem por dúvida científica. O que falta é deslocamento de prioridade e, em alguma medida, de imaginação política e narrativa. 

Porque o metano ainda não ocupa o espaço simbólico que a crise climática já conquistou em outras frentes. Continuamos reagindo às imagens mais visíveis da emergência — incêndios, enchentes, secas — enquanto o principal mecanismo de resposta imediata permanece invisível, técnico, quase lateral. 

Esse descompasso não é apenas comunicacional. Ele tem implicações diretas na ação. 

É aqui que a comunicação deixa de ser periférica e passa a ser estrutural. Dar visibilidade ao metano não é apenas traduzir um tema difícil, é transformar uma oportunidade concreta de ação em prioridade política. 

À medida que saímos de Bonn e entramos na Climate Week de Londres, essa tensão tende a se intensificar. Porque Londres não é apenas mais um evento no calendário: é o espaço onde compromissos começam a ganhar densidade política, econômica e narrativa, e onde a agenda deixa de ser promessa difusa para disputar prioridade real. 

Se o metano não ocupar esse espaço agora, dificilmente ocupará depois. E a consequência é previsível: chegaremos a Antalya, sede da COP31 com um repertório já conhecido — consensos amplos, declarações consistentes — convivendo com uma dificuldade persistente de traduzir tudo isso na velocidade que a ciência exige. 

Bonn não fracassou. Mas também não resolveu. O que deixou foi um diagnóstico mais claro do momento que atravessamos. 

A crise climática já não nos permite avançar apenas pelas agendas estruturais. Elas seguem indispensáveis, mas, sozinhas, já não respondem ao tempo disponível. 

Há momentos em que é preciso agir onde o impacto é imediato. 

E, neste momento da história, o metano não é apenas uma agenda entre outras. É o freio de emergência que pode manter a travessia dentro da pista enquanto o restante da transição ganha escala. 

Ignorá-lo não é apenas uma escolha estratégica. É, em alguma medida, decidir seguir acelerando mesmo sabendo que a curva já começou.

O metano no centro

O metano no centro

Entre a urgência e a transição, o metano ganha centralidade

Do Rio a Bonn e Porto Alegre, um novo eixo da ação climática 

O mundo ainda precisará de décadas para promover a transição energética para longe dos combustíveis fósseis. Mas, diante da aceleração das mudanças climáticas e de um cenário marcado por instabilidades geopolíticas e econômicas, uma pergunta se impõe: como ganhar tempo para que essa transição aconteça antes que o planeta ultrapasse pontos de inflexão irreversíveis? 

A resposta vem ganhando força nos principais espaços de debate climático. Do Rio de Janeiro, durante a Rio Nature and Climate Week, a Bonn, na Alemanha, sede das negociações preparatórias para a COP31, o metano deixou de ser um tema setorial para ocupar uma posição cada vez mais estratégica nas discussões sobre clima, energia e desenvolvimento. 

Não por acaso. Em um mundo que busca reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis sem abrir mão da segurança energética e da estabilidade econômica, a mitigação do metano desponta como uma das poucas medidas capazes de produzir resultados relevantes ainda nesta década. 

O ponto de partida dessa reflexão é simbólico. Foi no Rio de Janeiro que o mundo entendeu a importância de construir consensos globais em torno da agenda climática. Em 1992, a Rio-92 deu origem às convenções internacionais que ainda hoje estruturam a governança ambiental global. 

Se a Rio-92 ficou marcada pela construção de acordos, a Rio Nature and Climate Week, ao recolocar o Brasil no centro do calendário climático internacional, reuniu governos, cientistas, setor privado e sociedade civil em torno de um novo desafio: transformar compromissos em ações concretas. 

A mensagem dos debates é clara: já não faltam diagnósticos nem soluções – o desafio agora é implementar. Nesse contexto, o metano ganhou protagonismo no Fórum Freio de Emergência Climática, um dos eventos centrais da programação. 

E isso não é coincidência. Responsável por cerca de um terço do aquecimento global desde a Revolução Industrial, o metano aquece até 80 vezes mais que o dióxido de carbono nas duas primeiras décadas após sua emissão, mas permanece na atmosfera por cerca de 12 anos – enquanto o CO₂ pode persistir por séculos. É essa diferença que faz de sua mitigação um verdadeiro “freio de emergência climática”: uma oportunidade de desacelerar o aquecimento global no curto prazo e ganhar tempo para mudanças estruturais mais profundas. 

O que emergiu no Rio como prioridade rapidamente se confirmou no plano institucional. 

Durante a Conferência de Mudanças Climáticas da ONU, em Bonn, a presidência turca da COP31 anunciou que pretende colocar o metano no centro da ação climática global, tendo resíduos e economia circular como duas de suas principais frentes de implementação. 

A escolha consolida uma ponte com a presidência brasileira da COP30. Em Belém, o Brasil impulsionou os Mapas do Caminho para acelerar a transição energética e reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis. Foi também durante a Conferência de Belém – e sob a copresidência brasileira da Coalizão Clima e Ar Limpo (CCAC) – que surgiu a NOW (No Organic Waste), iniciativa voltada à redução das emissões de metano por meio de uma política de “zero resíduo”, escolhida como uma das prioridades da Agenda de Ação da próxima Conferência. 

A agenda do metano ganha ainda mais relevância em um contexto de instabilidade nos mercados de energia. Conflitos recentes voltaram a expor os custos econômicos da dependência fóssil, pressionando cadeias produtivas, elevando o custo de vida e reforçando a necessidade de ampliar a segurança energética global. 

Nesse cenário, o Brasil – quinto maior emissor de metano do mundo – ocupa uma posição singular. Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e uma trajetória consolidada em biocombustíveis, o país reúne condições concretas para contribuir tanto para a redução das emissões quanto para a construção de alternativas energéticas. E uma dessas oportunidades está justamente nos resíduos. 

Hoje, eles são a segunda principal fonte de emissões de metano no país, atrás apenas da agropecuária, mas também estão entre os setores em que as soluções já existem e podem ser ampliadas a baixo custo. A captura do gás gerado pela decomposição da matéria orgânica em aterros, por exemplo, permite reduzir emissões e produzir biogás e biometano – combustíveis renováveis capazes de substituir fontes fósseis. Isso transforma um passivo ambiental em uma frente concreta de transição. 

Essa agenda tem ainda uma dimensão social incontornável – especialmente em um país que ainda convive com milhares de lixões a céu aberto. A disposição inadequada de resíduos afeta de forma desproporcional populações vulneráveis, territórios periféricos e comunidades tradicionais. Reduzir metano, nesse contexto, é também promover saúde pública, inclusão produtiva, geração de renda e justiça climática. 

É justamente essa capacidade de produzir resultados simultâneos em diferentes agendas que explica sua crescente centralidade. Poucas soluções abrangem tantas dimensões ao mesmo tempo: mitigação climática, segurança energética, desenvolvimento econômico, inclusão social e resultados em curto prazo. 

É a partir dessa convergência que os olhos agora se voltam para o Sul do Brasil. Entre 20 e 26 de julho, Porto Alegre sediará sua primeira Semana de Ação Climática. A escolha não poderia ser mais simbólica: poucos lugares representam de forma tão concreta os impactos da crise climática quanto o Rio Grande do Sul após as enchentes de 2024. 

Se o Rio ajudou a reposicionar o metano no centro do debate climático e Bonn confirmou sua centralidade na agenda internacional, Porto Alegre surge como o espaço para responder a uma pergunta decisiva: como transformar essa prioridade política em soluções concretas nos territórios? 

A boa notícia é que essas soluções já existem. Elas aparecem em experiências como Florianópolis, primeira cidade “lixo zero” do país; em tecnologias que transformam lodo de esgoto em energia, como em Curitiba; em práticas agrícolas que reduzem emissões e ampliam a produtividade da rizicultura nos campos gaúchos; e em modelos de economia circular que conciliam desenvolvimento e ação climática. 

Da Rio-92 à Rio Nature and Climate Week, de Bonn a Porto Alegre, ganha força uma ideia que atravessa toda a agenda climática: a transição energética continua sendo o destino, mas a redução das emissões de metano pode ser o primeiro passo concreto para tornar viável esse caminho. 

Em um tempo marcado pela urgência climática e pela dificuldade de transformar compromissos em ação, o metano oferece algo raro: a possibilidade de produzir resultados rápidos, concretos e mensuráveis.  

Talvez seja essa sua contribuição mais valiosa – funcionar como um freio de emergência capaz de desacelerar o aquecimento antes que a velocidade da crise ultrapasse definitivamente a capacidade de resposta do mundo. 

Se a transição energética ainda exige tempo, talvez a pergunta mais urgente seja: o que podemos fazer agora para chegar lá a tempo?

Diferentes mundos à mesma mesa

Diferentes mundos à mesma mesa

O que acontece quando diferentes mundos sentam à mesma mesa?

Durante décadas, grande parte da governança climática internacional foi construída em torno de compromissos. O Fórum Freio de Emergência Climática sinaliza que estamos entrando em uma nova etapa, não porque os acordos tenham perdido relevância, mas porque sua efetividade passa a depender de algo mais profundo: a capacidade de conectar ciência, territórios, governos, comunidades e setores produtivos em torno de objetivos comuns.

Se antes o desafio era pactuar, agora é implementar.

E o que começa a emergir é o esforço coletivo de dar forma a esse Mapa do Caminho, articulando, na prática, atores, saberes e soluções que já estão em movimento.

O Fórum não revelou a ausência de respostas, mostrou que elas já existem, em abundância, ainda que dispersas. Revelou, sobretudo, o quanto precisamos aproximar conhecimentos, experiências e setores que avançam na mesma direção, mas raramente ocupam o mesmo espaço de construção. Em outras palavras: dependemos da capacidade de fazer diferentes mundos conversarem.

Em um só dia, cientistas, gestores públicos, lideranças, catadores, comunicadores e representantes do setor produtivo colocaram o metano no centro do debate — não como um tema técnico, mas como uma alavanca política e de propósito. Foi ali, no encontro entre esses mundos, que se tornou mais visível a necessidade de conectar respostas que já existem, mas ainda operam de forma dispersa.

A presença de Marina Silva parece nos lembrar que algumas ideias sobrevivem porque aprenderam a resistir. Sua fala evoca a própria seringueira: uma árvore que suporta a ferida sem abandonar sua vocação de produzir. A agenda ambiental brasileira conhece derrotas, desmontes e retrocessos. Ainda assim, segue produzindo conhecimento, instituições, políticas públicas e capacidade de mobilização, como quem insiste em abrir caminhos mesmo quando o terreno parece hostil.

Sonia Guajajara trouxe ao Fórum uma lembrança incontornável: não existe política climática eficaz sem os povos que, há séculos, protegem os territórios onde a biodiversidade permanece viva. Guajajara, “os guardiões das florestas”, nos convida a experimentar outras formas de pensar o mundo, na relação entre território, natureza e futuro. Sem esses territórios, não há caminho climático consistente, nem horizonte de justiça possível.

É nesse contexto que a fala de Ana Toni ganha ainda mais densidade. Ela aponta para uma fissura central da política climática global: a distância persistente entre compromisso e implementação. Mais do que um diagnóstico, sua intervenção desloca o eixo do debate — da ambição para a entrega, da promessa para a capacidade real de transformação.

Como CEO da COP30, Ana não apenas reconhece a força de lideranças como Sonia, Marina e Mia Mottley, como ajuda a reorganizar o campo a partir delas. Primeira-ministra de Barbados, Mottley tornou-se uma das vozes mais potentes do debate contemporâneo sobre mudança do clima e justiça climática ao insistir que a urgência da crise exige respostas à altura da velocidade do problema.

E o metano, nesse contexto, emerge como peça-chave na equação entre tempo e resultado.

É nele que se mede a nossa capacidade de agir agora, enquanto o futuro ainda pode ser disputado.

Ana não nega o multilateralismo, propõe sua ressignificação. E, ao fazê-lo, aponta para a necessidade de uma nova arquitetura de cooperação: uma que valoriza os acordos entre países, mas reconhece, com igual força, as alianças que emergem entre territórios, comunidades, cidades, cientistas, movimentos sociais, filantropias e setores produtivos engajados em problemas concretos.

É nesse horizonte que se inscreve o Mapa do Caminho da COP30, lançado pela Presidência em Belém, não apenas como um documento, mas como um processo político capaz de alinhar rumos, acelerar implementações e dar coerência às múltiplas frentes já em movimento.

Um mapa que não se impõe de cima para baixo, mas se fortalece onde ciência, política e território se encontram.

O que se viu durante a Rio Nature & Climate Week foi um ensaio concreto dessa arquitetura em ação, menos centrada na negociação abstrata e mais na confluência entre ciência, política, sociedade civil, setor produtivo e comunidades. Um espaço onde parte das conexões exigidas por esse caminho comum pôde ser vista, debatida e experimentada na prática.

Rios diferentes, naturezas distintas, que se encontram sem precisar se dissolver.

Nego Bispo chamaria isso de confluir.

Talvez esse seja o principal sinal desta semana: mais do que um diagnóstico, a reafirmação de um percurso que já está em curso e que precisa, agora, ganhar escala, consistência e continuidade.

O mapa já existe.

O desafio do nosso tempo é ser capaz de percorrê-lo juntos.

E não por acaso, o Rio ocupa um lugar especial nessa trajetória.

Foi aqui, em 1992, que o mundo aprendeu a construir consensos globais em torno do clima, da biodiversidade e da desertificação. Foi aqui que nasceram as três convenções que estruturam, até hoje, a governança ambiental internacional.

Décadas depois, o Rio volta a reunir vozes que lembram uma lição ainda atual: não basta pactuar caminhos, é preciso aprender a percorrê-los.

Translate »