O metano no centro

O metano no centro

junho 2026

Entre a urgência e a transição, o metano ganha centralidade

Do Rio a Bonn e Porto Alegre, um novo eixo da ação climática 

O mundo ainda precisará de décadas para promover a transição energética para longe dos combustíveis fósseis. Mas, diante da aceleração das mudanças climáticas e de um cenário marcado por instabilidades geopolíticas e econômicas, uma pergunta se impõe: como ganhar tempo para que essa transição aconteça antes que o planeta ultrapasse pontos de inflexão irreversíveis? 

A resposta vem ganhando força nos principais espaços de debate climático. Do Rio de Janeiro, durante a Rio Nature and Climate Week, a Bonn, na Alemanha, sede das negociações preparatórias para a COP31, o metano deixou de ser um tema setorial para ocupar uma posição cada vez mais estratégica nas discussões sobre clima, energia e desenvolvimento. 

Não por acaso. Em um mundo que busca reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis sem abrir mão da segurança energética e da estabilidade econômica, a mitigação do metano desponta como uma das poucas medidas capazes de produzir resultados relevantes ainda nesta década. 

O ponto de partida dessa reflexão é simbólico. Foi no Rio de Janeiro que o mundo entendeu a importância de construir consensos globais em torno da agenda climática. Em 1992, a Rio-92 deu origem às convenções internacionais que ainda hoje estruturam a governança ambiental global. 

Se a Rio-92 ficou marcada pela construção de acordos, a Rio Nature and Climate Week, ao recolocar o Brasil no centro do calendário climático internacional, reuniu governos, cientistas, setor privado e sociedade civil em torno de um novo desafio: transformar compromissos em ações concretas. 

A mensagem dos debates é clara: já não faltam diagnósticos nem soluções – o desafio agora é implementar. Nesse contexto, o metano ganhou protagonismo no Fórum Freio de Emergência Climática, um dos eventos centrais da programação. 

E isso não é coincidência. Responsável por cerca de um terço do aquecimento global desde a Revolução Industrial, o metano aquece até 80 vezes mais que o dióxido de carbono nas duas primeiras décadas após sua emissão, mas permanece na atmosfera por cerca de 12 anos – enquanto o CO₂ pode persistir por séculos. É essa diferença que faz de sua mitigação um verdadeiro “freio de emergência climática”: uma oportunidade de desacelerar o aquecimento global no curto prazo e ganhar tempo para mudanças estruturais mais profundas. 

O que emergiu no Rio como prioridade rapidamente se confirmou no plano institucional. 

Durante a Conferência de Mudanças Climáticas da ONU, em Bonn, a presidência turca da COP31 anunciou que pretende colocar o metano no centro da ação climática global, tendo resíduos e economia circular como duas de suas principais frentes de implementação. 

A escolha consolida uma ponte com a presidência brasileira da COP30. Em Belém, o Brasil impulsionou os Mapas do Caminho para acelerar a transição energética e reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis. Foi também durante a Conferência de Belém – e sob a copresidência brasileira da Coalizão Clima e Ar Limpo (CCAC) – que surgiu a NOW (No Organic Waste), iniciativa voltada à redução das emissões de metano por meio de uma política de “zero resíduo”, escolhida como uma das prioridades da Agenda de Ação da próxima Conferência. 

A agenda do metano ganha ainda mais relevância em um contexto de instabilidade nos mercados de energia. Conflitos recentes voltaram a expor os custos econômicos da dependência fóssil, pressionando cadeias produtivas, elevando o custo de vida e reforçando a necessidade de ampliar a segurança energética global. 

Nesse cenário, o Brasil – quinto maior emissor de metano do mundo – ocupa uma posição singular. Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e uma trajetória consolidada em biocombustíveis, o país reúne condições concretas para contribuir tanto para a redução das emissões quanto para a construção de alternativas energéticas. E uma dessas oportunidades está justamente nos resíduos. 

Hoje, eles são a segunda principal fonte de emissões de metano no país, atrás apenas da agropecuária, mas também estão entre os setores em que as soluções já existem e podem ser ampliadas a baixo custo. A captura do gás gerado pela decomposição da matéria orgânica em aterros, por exemplo, permite reduzir emissões e produzir biogás e biometano – combustíveis renováveis capazes de substituir fontes fósseis. Isso transforma um passivo ambiental em uma frente concreta de transição. 

Essa agenda tem ainda uma dimensão social incontornável – especialmente em um país que ainda convive com milhares de lixões a céu aberto. A disposição inadequada de resíduos afeta de forma desproporcional populações vulneráveis, territórios periféricos e comunidades tradicionais. Reduzir metano, nesse contexto, é também promover saúde pública, inclusão produtiva, geração de renda e justiça climática. 

É justamente essa capacidade de produzir resultados simultâneos em diferentes agendas que explica sua crescente centralidade. Poucas soluções abrangem tantas dimensões ao mesmo tempo: mitigação climática, segurança energética, desenvolvimento econômico, inclusão social e resultados em curto prazo. 

É a partir dessa convergência que os olhos agora se voltam para o Sul do Brasil. Entre 20 e 26 de julho, Porto Alegre sediará sua primeira Semana de Ação Climática. A escolha não poderia ser mais simbólica: poucos lugares representam de forma tão concreta os impactos da crise climática quanto o Rio Grande do Sul após as enchentes de 2024. 

Se o Rio ajudou a reposicionar o metano no centro do debate climático e Bonn confirmou sua centralidade na agenda internacional, Porto Alegre surge como o espaço para responder a uma pergunta decisiva: como transformar essa prioridade política em soluções concretas nos territórios? 

A boa notícia é que essas soluções já existem. Elas aparecem em experiências como Florianópolis, primeira cidade “lixo zero” do país; em tecnologias que transformam lodo de esgoto em energia, como em Curitiba; em práticas agrícolas que reduzem emissões e ampliam a produtividade da rizicultura nos campos gaúchos; e em modelos de economia circular que conciliam desenvolvimento e ação climática. 

Da Rio-92 à Rio Nature and Climate Week, de Bonn a Porto Alegre, ganha força uma ideia que atravessa toda a agenda climática: a transição energética continua sendo o destino, mas a redução das emissões de metano pode ser o primeiro passo concreto para tornar viável esse caminho. 

Em um tempo marcado pela urgência climática e pela dificuldade de transformar compromissos em ação, o metano oferece algo raro: a possibilidade de produzir resultados rápidos, concretos e mensuráveis.  

Talvez seja essa sua contribuição mais valiosa – funcionar como um freio de emergência capaz de desacelerar o aquecimento antes que a velocidade da crise ultrapasse definitivamente a capacidade de resposta do mundo. 

Se a transição energética ainda exige tempo, talvez a pergunta mais urgente seja: o que podemos fazer agora para chegar lá a tempo?

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