setembro 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política
Num país polarizado, reduzir metano aproxima direita e esquerda. Dez anos depois de Kigali, conter o aquecimento exige transformar apoio em ação.
Editorial
Em A queda do céu, Davi Kopenawa alerta para um mundo de rios que desaparecem, árvores que murcham e terra ressecada e silenciosa. As palavras do xamã yanomami, registradas no livro escrito com o antropólogo Bruce Albert, encontram ecos inquietantes nas secas prolongadas, no calor extremo e na poluição atmosférica que já atravessam nosso cotidiano. Os povos originários vêm tentando sustentar esse céu há gerações. É hora de mais gente assumir sua parte nessa tarefa.
Para isso, precisamos agir também sobre os gases que estão aquecendo o planeta. Entre eles, o metano merece atenção especial: tem potencial de aquecimento 80 vezes maior que o dióxido de carbono (CO₂) em um período de 20 anos e responde por cerca de um terço do aumento da temperatura global desde a Revolução Industrial. Reduzir suas emissões é uma das formas mais rápidas de desacelerar a crise climática.
No Brasil, há um ponto de encontro para começar. Às vésperas de eleições marcadas pela polarização, reduzir metano aproxima brasileiros de direita, centro e esquerda. Na pesquisa Clima e meio ambiente na percepção dos brasileiros, realizada pela Ipsos para o Observatório do Clima, 93% dos entrevistados consideraram importante ou muito importante reduzir os vazamentos de gases poluentes, como o metano, na produção e no transporte de petróleo e gás. O apoio chega a 93% na direita e a 95% no centro e na esquerda. A pesquisa mostra que, apesar das diferenças nas prioridades de política ambiental, combater as emissões de metano não tem lado político.
Essa convergência existe mesmo com pouco conhecimento sobre o gás: 75% dos entrevistados afirmam saber pouco ou não sabem o que ele é. As consequências da crise, porém, estão mais próximas. Na mesma pesquisa, 85% reconhecem impactos das mudanças climáticas na vida dos brasileiros, e 70% dizem senti-los no próprio cotidiano. A experiência ajuda a dar sentido à preocupação, mesmo quando os mecanismos do aquecimento ainda são pouco conhecidos.
Também há uma distância entre as fontes de emissão e a percepção sobre elas. Enquanto 42% apontam aterros e lixões como a principal fonte de emissão de metano no país, apenas 22% citam a pecuária. Os dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) mostram, no entanto, que a agropecuária responde por 76% das emissões brasileiras de metano, sobretudo pela criação de gado, enquanto os resíduos são responsáveis por cerca de 16%. Algo semelhante aparece nas escolhas dos participantes da pesquisa: 49% escolheriam separar resíduos para reduzir seu impacto ambiental, mas apenas 8% mencionaram limitar o consumo de carne. Os resultados sugerem que enxergamos melhor o impacto de nossos resíduos do que o da produção dos alimentos que consumimos.
Diagnosticar essas lacunas é parte da solução. A pesquisa do Observatório do Clima mostra onde a informação precisa chegar; os inventários de emissões, onde precisamos intervir. Ferramentas de monitoramento, como satélites, ajudam a localizar grandes vazamentos, e décadas de estudos apontam formas de reduzi-los. Esse conhecimento pode orientar mudanças nas indústrias, no campo e nas cidades. E precisa caminhar também com os saberes dos povos originários, que há gerações alertam para as consequências de destruir as bases da vida e agem para protegê-las. Reunir essas ciências exige escuta e proteção aos territórios onde esses saberes continuam vivos, mas mudar esse cenário também demanda transformar conhecimentos e discursos em ação.
O tempo para essa mudança ficou mais curto. No relatório Limiting Overshoot, divulgado no início de setembro, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) reconhece que o aquecimento ultrapassará 1,5°C acima dos níveis pré-industriais na média de longo prazo. É o chamado overshoot: a ultrapassagem do limite de temperatura definido pelo Acordo de Paris. O desafio, agora, é voltar a ele. Quanto mais alto o pico e mais longa a ultrapassagem, maiores os danos e os riscos de perdas irreversíveis. Cada fração de grau que conseguirmos evitar fará diferença.
O metano oferece uma resposta a essa urgência. Superpoluente de vida curta, permanece, em média, cerca de 12 anos na atmosfera, enquanto o CO₂ pode permanecer por séculos. Por isso, cortar suas emissões funciona como um freio de emergência climática: pode desacelerar o aquecimento com benefícios já na próxima década. É uma das melhores oportunidades que temos de agir no curto prazo, enquanto avançamos nos cortes de CO₂ indispensáveis para estabilizar o clima. Precisamos das duas frentes, junto com a adaptação aos impactos que já estão em curso.
Os dez anos da Emenda de Kigali, celebrados em 15 de outubro, nos lembram que sabemos construir respostas coletivas para problemas globais. Diante do maior desafio climático da história, vale olhar para um dos acordos ambientais multilaterais mais bem-sucedidos já firmados: o Protocolo de Montreal. Criado em 1987, ele combateu substâncias que destroem a camada de ozônio e aquecem o planeta, com obrigações, prazos, monitoramento e apoio financeiro e técnico para a transição dos países.
Kigali representou um renascimento desse acordo. Os HFCs, usados na refrigeração como alternativa às substâncias que destruíam o ozônio, trouxeram outro problema: seu elevado poder de aquecimento. Em 2016, a emenda ampliou o alcance de Montreal para reduzir progressivamente esses gases. A ciência apontou um novo desafio, e a cooperação internacional aprimorou a resposta. Na proteção ao ozônio, os resultados continuam aparecendo: em 16 de setembro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) revelou que o buraco de ozônio antártico de 2025 esteve entre os menores das últimas décadas, dentro de uma tendência de recuperação que ainda precisa ser sustentada.
O aniversário de Kigali chega num momento em que essa capacidade de cooperação volta a ser decisiva. Os anos entre 2015 e 2025 foram os onze mais quentes já registrados, e o serviço meteorológico britânico alertou que o El Niño deste ano pode ser o mais forte registrado desde o século XIX, ampliando os riscos de extremos climáticos. Na era do overshoot, conhecer os caminhos e adiar sua adoção tem um custo crescente.
O metano precisa agora de um acordo global inspirado nessa experiência. O Compromisso Global do Metano mobilizou mais de 150 países, entre eles o Brasil, em torno de uma meta coletiva e voluntária: cortar pelo menos 30% das emissões mundiais de metano até 2030, em relação a 2020. É preciso transformar essa mobilização em obrigações, com metas verificáveis, financiamento e mecanismos de cumprimento. Uma governança multilateral eficaz dá continuidade à ação para além dos mandatos e ajuda a transformar promessas em resultados. Negociar esse acordo e agir com os instrumentos que já temos são tarefas que precisam caminhar juntas.
As soluções já estão documentadas. No Brasil, o Caderno de Soluções do SEEG reúne 37 medidas para reduzir o metano na agropecuária, nos resíduos, na energia e na mudança do uso da terra e florestas. Há caminhos para melhorar o manejo dos rebanhos, reduzir desperdícios, compostar resíduos orgânicos, captar biogás, conter vazamentos e prevenir incêndios florestais. As escolhas individuais fazem parte dessa resposta: separar resíduos e reduzir o consumo de carne bovina ajudam. Para ganhar escala, essas mudanças precisam de políticas públicas, infraestrutura, financiamento e compromisso das empresas.
É essa capacidade de agir que precisamos cobrar nas eleições. Os 91% dos entrevistados pela pesquisa do Observatório do Clima que consideram importante ver propostas climáticas dos candidatos reconhecem essa como uma necessidade concreta. Num país com a diversidade territorial e as desigualdades do Brasil, secas podem isolar comunidades e comprometer a geração de energia; ondas de calor adoecem trabalhadores e aumentam os custos com saúde; enchentes destroem casas e lavouras, comprometendo a segurança alimentar e a economia de um país em que o agronegócio tem grande relevância. O clima precisa estar nos projetos de saúde, educação, habitação e desenvolvimento.
Ao falar dos xamãs que sustentam o céu, Kopenawa adverte: “Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar”. Os povos originários estão entre os primeiros a sofrer os efeitos da crise climática, mas o aviso sempre foi para todos. O que denunciaram por décadas se tornou parte do cotidiano de populações muito além de seus territórios.
A ciência moderna reforça a urgência de seus alertas e mostra caminhos para conter o aquecimento. E 76% dos brasileiros consultados pela Ipsos acreditam que ainda podemos evitar os piores efeitos da crise se agirmos agora. Há conhecimento e soluções para sustentar essa esperança. Cabe a todos nós, à iniciativa privada e, sobretudo, aos governantes que elegeremos em outubro unir essas duas ciências, assumir responsabilidades e transformar soluções em resultados. É assim que podemos ajudar a segurar o céu.
setembro 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política
Toda vez que dizemos “infância”, repetimos uma história antiga. A palavra vem do latim infans: aquele que não tem fala. Já “criança” remete a creare, criar. É quem ainda está se formando e, por isso, precisa de cuidado e condições para florescer.
Editorial
No glossário climático Pequenos Grandes Saberes, elaborado pela ActionAid Brasil com mais de 350 meninas e meninos de sete territórios, uma pergunta simples produziu respostas reveladoras: o que significa “mudanças climáticas”? As crianças falaram de chuva excessiva, calor intenso, queimadas e rios secando. Até que uma delas resumiu tudo em uma palavra: guerra.
O impacto da resposta não está apenas na força da metáfora, mas em sua origem. Não foi uma definição formulada por cientistas ou ambientalistas. Foi a percepção de alguém que acaba de chegar ao mundo e já o reconhece como um lugar de ameaça.
Aquilo que os adultos ainda tratam como projeção já é vivido pela infância como realidade. A emergência climática interfere no desenvolvimento dos corpos, interrompe a educação, multiplica doenças e reduz possibilidades de futuro. Deixou de ser apenas uma questão ambiental. Tornou-se uma questão de saúde pública, desigualdade e direitos da infância.
Mais de 40 milhões de crianças e adolescentes brasileiros, cerca de 60% dessa população, convivem com mais de um risco climático ou ambiental. São milhões expostos ao calor extremo, à escassez de água, às enchentes e à poluição atmosférica, que sozinha afeta 24,8 milhões de meninas e meninos.
Esses números desenham uma geografia da infância ameaçada. A água que falta ou invade as casas também interrompe aulas, compromete a alimentação e dificulta o acesso à saúde. Em 2024, 1,17 milhão de crianças brasileiras tiveram as aulas suspensas ou interrompidas por eventos climáticos extremos. Na Amazônia Legal, a seca afetou mais de 420 mil crianças e provocou o fechamento ou isolamento de mais de 1.700 escolas e 760 unidades de saúde.
O clima também está alterando o mapa das doenças. Reportagem do Valor Econômico apresentou um alerta do InfoDengue, elaborado em parceria com a Fiocruz e a Escola de Matemática Aplicada da FGV: um El Niño forte pode aumentar os casos de dengue, com maior impacto nas regiões Sul e Sudeste. No Reino Unido, o The Guardian mostrou a pressão exercida pelas ondas de calor sobre o sistema público de saúde durante o verão.
Em contextos distintos, as duas notícias apontam para a mesma realidade: a crise climática já chegou aos hospitais, às escolas e às casas.
Para a infância, essa ameaça é ainda mais grave. Uma criança não é um adulto em escala reduzida. Seu organismo está em formação, seus mecanismos de regulação da temperatura são menos maduros e sua exposição proporcional a contaminantes pode ser maior. Ao mesmo tempo, depende das escolhas feitas pelos adultos, pelas empresas e pelo poder público.
A poluição por partículas finas foi associada a 5,5 milhões de novos casos de asma infantil no mundo em 2025, o equivalente a 22% dos novos diagnósticos. A poluição doméstica provocada pelo uso de combustíveis sólidos está relacionada a 300 mil mortes prematuras de crianças por ano.
A crise climática impõe uma dupla injustiça: as crianças são mais vulneráveis aos seus efeitos e menos capazes de influenciar as decisões que determinam sua exposição.
E nem todas as infâncias enfrentam os mesmos riscos. Para crianças indígenas, quilombolas, ribeirinhas e das periferias urbanas, a crise climática se soma a vulnerabilidades históricas e aprofunda desigualdades já existentes.
A emergência climática não inaugura essas desigualdades. Ela as encontra e aprofunda. Nas muitas infâncias brasileiras, pesa mais sobre aquelas que a história do país já sobrecarregava.
Proteger a infância no século XXI exige, portanto, preservar as condições climáticas, ambientais e sociais que permitem a uma criança se desenvolver plenamente. Política climática para a infância não é um apêndice da agenda ambiental. É política de saúde, educação, redução das desigualdades e garantia de direitos.
Nesse contexto, a aprovação pelo Senado do chamado ECA Ambiental, o Projeto de Lei 2.225/2024, representa um avanço importante. A proposta incorpora à legislação o direito de crianças e adolescentes à natureza e reforça sua prioridade diante de riscos e desastres socioambientais.
Mas nenhuma lei protege sozinha. O ECA Ambiental só transformará vidas se vier acompanhado de orçamento, metas, fiscalização e responsabilidades definidas. Precisará chegar às escolas, às unidades de saúde, aos sistemas de alerta, aos planos de adaptação e às decisões de investimento público e privado. A aprovação legislativa não é o fim da travessia. É o começo.
A urgência, contudo, não significa ausência de caminhos. Existem 25 soluções integradas, baseadas em tecnologias e práticas disponíveis, capazes de reduzir simultaneamente a poluição do ar e o aquecimento global. Cada dólar investido nessas medidas pode gerar cerca de 15 dólares em benefícios econômicos e de bem-estar. Retardar em oito anos as metas de redução de emissões, por outro lado, corta pela metade os benefícios à saúde que poderiam ser alcançados até 2035.
O conhecimento existe. As soluções existem. O que falta é aplicá-las na velocidade em que as crianças já estão adoecendo.
A palavra escolhida por aquela criança não deve alimentar o alarmismo, mas romper a indiferença. Ela nos lembra que a emergência climática não é apenas uma discussão sobre o futuro do planeta. É uma decisão, tomada no presente, sobre quem terá direito a chegar inteiro ao futuro.
Aos 36 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, o Brasil precisa reconhecer que a proteção integral da infância passa necessariamente pelo enfrentamento da crise climática. Não podemos aceitar que “guerra” continue sendo a palavra usada por uma criança para descrever o mundo em que acabou de chegar.
Toda criança tem direito ao futuro. Garantir esse direito é uma responsabilidade do presente. Talvez não haja retrato mais revelador do nosso tempo do que uma criança escolher a palavra “guerra” para descrever o mundo em que vive. O verdadeiro fracasso não será deixar um planeta mais quente, mas permitir que o medo ocupe o lugar da esperança.
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Na era do overshooting, o atraso ficou caro demais
Os números da ONU mostram que adiar a ação climática custa mais do que agir.
Editorial
Menos de uma semana depois de reconhecer que a ultrapassagem de 1,5°C de aquecimento global se tornou inevitável, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) divulgou, com a Coalizão Clima e Ar Limpo (CCAC), uma das avaliações mais abrangentes sobre os benefícios econômicos, climáticos e sanitários da ação climática. O estudo desmonta um dos argumentos mais persistentes contra essa agenda: o de que agir custa caro. Os números mostram o contrário. Caro é continuar esperando.
A principal contribuição do estudo Ativos Ocultos: os argumentos econômicos e de saúde a favor de ações climáticas e de ar limpo não está em revelar novas tecnologias. Está em demonstrar, com números difíceis de ignorar, que já sabemos como reduzir parte significativa dos impactos da crise climática. O relatório analisou 25 medidas disponíveis em setores como energia, indústria, agricultura, resíduos e transportes. A conclusão é que cada dólar investido pode gerar até US$ 15 em benefícios econômicos globais, com retornos superiores aos custos em menos de uma década.
É difícil pensar em outra política pública capaz de apresentar uma relação custo-benefício semelhante. Os retornos projetados equivalem a 2,8% do PIB mundial em 2035, 4,5% em 2050 e 11,4% em 2100. A implementação custa cerca de 0,7% do PIB global por ano, menos de um terço dos subsídios explícitos destinados aos combustíveis fósseis. Uma adoção mais rápida dessas medidas poderia evitar perdas equivalentes a US$ 10 trilhões até 2040. Em outras palavras, o mundo continua investindo mais para agravar o problema do que para solucioná-lo.
Os benefícios vão muito além do clima. Somente em 2025, a poluição do ar externo esteve associada a 6,4 milhões de mortes prematuras, enquanto a doméstica contribuiu para outras 2 milhões, incluindo as de aproximadamente 300 mil crianças. Até 2050, as medidas analisadas poderiam evitar 144 milhões de mortes prematuras, 62 milhões de casos de asma infantil, 87 milhões de infartos, 56 milhões de casos de diabetes, 45 milhões de AVCs e 36 milhões de casos de demência. Poucas vezes uma agenda ambiental esteve tão diretamente conectada à proteção da vida humana.
O relatório ganha relevância ainda maior porque chega na era do overshooting. O próprio PNUMA havia concluído que a ultrapassagem de 1,5°C se tornou inevitável. Mesmo no cenário mais otimista, a temperatura global deverá atingir um pico próximo de 1,8°C antes de iniciar uma trajetória de queda. A questão já não é evitar completamente esse limite, mas impedir que sua ultrapassagem seja mais intensa, longa e destrutiva. Quanto mais alto o pico e maior o tempo acima de 1,5°C, maiores os danos sobre ecossistemas, economias e sociedades. Cada décimo de grau importa. Cada ano importa. Cada decisão importa.
É nesse contexto que o metano emerge como uma das ferramentas mais estratégicas disponíveis. Responsável por cerca de um terço do aquecimento já observado, ele aquece mais de 80 vezes que o dióxido de carbono em um horizonte de vinte anos, mas permanece aproximadamente doze anos na atmosfera. Reduzi-lo produz, portanto, resultados mais rápidos. O conjunto das 25 medidas avaliadas poderia evitar cerca de 0,34°C de aquecimento até 2050, reduzir em aproximadamente 50% as emissões globais de CO₂, cortar cerca de 60% das emissões de metano e diminuir em quase 70% os principais poluentes atmosféricos. Na era do overshooting, isso não é um detalhe técnico. É uma oportunidade estratégica.
Talvez o aspecto mais desconfortável do relatório esteja em sua conclusão sobre os obstáculos existentes. As principais barreiras não são tecnológicas nem econômicas. Falhas de coordenação institucional, limitações de governança, dificuldades de financiamento e baixa capacidade de implementação atrasam em aproximadamente oito anos a adoção das medidas já conhecidas. Cada ano desperdiçado representa mais de US$ 1,5 trilhão em benefícios perdidos. Não faltam evidências, tecnologias ou justificativas econômicas. Faltam velocidade política e capacidade institucional para transformar conhecimento em ação.
Para o Brasil, essa não pode ser uma agenda secundária. Em um país continental, grande produtor de alimentos e energia, nossas escolhas sobre agropecuária, resíduos, combustíveis e uso do solo repercutem muito além das fronteiras nacionais. Na América Latina e no Caribe, cada dólar investido em ações integradas pelo clima e pelo ar limpo pode gerar aproximadamente US$ 9 em benefícios econômicos. Transformar esse potencial em política pública, investimento e escala é uma oportunidade de proteger vidas, fortalecer a economia e afirmar uma liderança brasileira compatível com a importância do país para o equilíbrio climático global.
A principal novidade do relatório talvez seja retirar definitivamente a ação climática de um campo exclusivamente ambiental. Clima, qualidade do ar, saúde e economia não podem mais ser tratados como agendas separadas. O chamado “ativo oculto” não é uma tecnologia recém-descoberta, mas o valor humano, econômico e climático que continuamos desperdiçando ao adiar soluções que já conhecemos
Não entramos na era do overshooting sem alternativas. Sabemos onde reduzir emissões, como melhorar a qualidade do ar e proteger vidas. Conhecemos os custos e os benefícios das soluções disponíveis. A questão já não é técnica nem científica. É política.
Na era do overshooting, a pergunta deixou de ser se podemos agir. A pergunta é quanto ainda estamos dispostos a pagar pelo atraso.
agosto 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política
Quando o futuro vira presente
Editorial
O país que irá às urnas nos próximos meses não é o mesmo das eleições anteriores. O calor extremo afeta a saúde, o trabalho e a produtividade. Secas pressionam cidades, lavouras e sistemas de energia. Chuvas intensas, enchentes e incêndios tornam-se cada vez mais frequentes e custosos. Em grande parte do território nacional, os impactos da mudança do clima já fazem parte da realidade cotidiana.
Ao mesmo tempo, o Brasil ocupa hoje a quarta posição entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta, segundo dados divulgados pelo SEEG/Observatório do Clima com base no Climate Watch. O dado revela um duplo desafio: lidar com os impactos que já atingem a população e acelerar a transição para um modelo de desenvolvimento capaz de reduzir emissões e enfrentar um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes.
Durante muito tempo, as mudanças do clima foram tratadas como uma ameaça distante. Essa distância desapareceu. O clima passou a influenciar diretamente a forma como produzimos alimentos, planejamos cidades, organizamos sistemas de saúde, garantimos segurança hídrica e estruturamos a economia.
O clima deixou de ser uma variável externa ao desenvolvimento. Hoje, ajuda a determinar seus limites e possibilidades.
A nova infraestrutura do desenvolvimento
Adaptar o país significa reduzir riscos, proteger vidas e criar condições para que cidades, serviços públicos e atividades produtivas continuem funcionando em um cenário de temperaturas mais elevadas e eventos extremos mais frequentes. Significa preparar hospitais para ondas de calor, fortalecer sistemas de alerta e defesa civil, proteger encostas, rodovias e zonas costeiras, garantir segurança hídrica e construir uma agricultura mais resiliente.
Mas a infraestrutura da adaptação não será feita apenas de concreto, aço e tecnologia. Ela dependerá também da proteção dos sistemas naturais que sustentam a economia e a qualidade de vida da população.
Rios, nascentes, aquíferos, manguezais, áreas úmidas e bacias hidrográficas garantem água para cidades, agricultura e energia. Da mesma forma, Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa não são apenas patrimônios naturais. São sistemas vivos que regulam chuvas, protegem solos, armazenam carbono e ajudam a sustentar a produção de alimentos, a geração de energia e o desenvolvimento econômico. Fragilizá-los significa aumentar a vulnerabilidade do país justamente quando mais precisamos de resiliência.
Há caminhos para seguir adiante
O Brasil já começou a construir respostas para esse desafio. O Plano Clima 2024-2035 reúne mais de 800 ações voltadas à adaptação e à redução dos riscos climáticos em áreas como saúde, recursos hídricos, cidades, energia, agricultura, gestão de riscos, povos indígenas e comunidades tradicionais. O plano reflete uma mudança importante: adaptar o país deixou de ser uma tarefa setorial e passou a ser uma estratégia nacional. Também reconhece que povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais não apenas enfrentam os impactos da mudança do clima, mas acumulam conhecimentos valiosos para um planejamento mais conectado aos ritmos, limites e respostas que a própria natureza oferece.
Entre as oportunidades mais imediatas estão soluções capazes de combinar benefícios ambientais, econômicos e sociais. É o caso da gestão de resíduos. Lixões e aterros inadequados contaminam solos e águas e emitem metano, um dos gases de efeito estufa mais potentes da atualidade. Encerrar lixões, ampliar a coleta seletiva, investir em compostagem e aproveitar o biogás para produzir biometano reduz emissões, gera energia e movimenta economias locais. Algumas cidades brasileiras já demonstram que proteção ambiental, inovação e desenvolvimento podem caminhar juntos.
A pergunta que esta eleição precisa responder
É justamente por isso que o período eleitoral merece atenção especial.
A partir de agora ouviremos propostas para saúde, educação, emprego, habitação, infraestrutura, agricultura, energia e desenvolvimento regional. A questão é simples: elas fazem sentido diante do Brasil que temos pela frente?
Uma política habitacional considera o aumento das temperaturas e os riscos de enchentes? Uma política agrícola protege a água e o solo? Um programa de saúde prepara a rede pública para eventos climáticos mais frequentes? Um projeto de infraestrutura incorpora os riscos das próximas décadas? Há compromisso com a proteção dos ecossistemas que sustentam a economia, a segurança hídrica e a qualidade de vida da população?
Se o século XX exigiu a construção da infraestrutura do desenvolvimento, o século XXI exigirá a construção da infraestrutura da adaptação.
Por isso, vale observar quem compreendeu a dimensão dessa tarefa. Quem pretende proteger nossas águas, preparar nossas cidades, fortalecer a produção de alimentos, reduzir riscos climáticos e garantir os direitos dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, cujos territórios desempenham papel decisivo para a conservação da biodiversidade, a estabilidade climática e a segurança hídrica do Brasil.
O desafio desta eleição não é apenas escolher quem governará os próximos anos. É escolher quem está preparado para governar um país que já enfrenta uma nova realidade climática.
Ignorar essa transformação não fará com que ela desapareça. Apenas tornará seus custos maiores, suas desigualdades mais profundas e seus impactos mais difíceis de enfrentar.
O Brasil que vai às urnas já mudou.
A questão agora é se mudaremos junto com ele.
As escolhas feitas nos próximos anos definirão nossa capacidade de proteger vidas, garantir segurança hídrica, fortalecer a produção de alimentos e reduzir riscos crescentes.
O clima já mudou. Resta saber se nossas escolhas estarão à altura dessa nova realidade.
agosto 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, poluição
O freio de emergência climática já está ao nosso alcance
O desafio agora é fazê-lo ganhar escala.
Editorial
Se quisermos manter viva a possibilidade de limitar o aquecimento global a 1,5°C, não podemos ignorar o metano. Ao contrário do dióxido de carbono, que dura séculos, ele permanece menos tempo na atmosfera – cerca de 12 anos –, o que faz da sua mitigação uma das formas mais rápidas de desacelerar o aquecimento global.
Por isso, o metano vem sendo chamado de freio de emergência climática.
A boa notícia é que o Brasil não precisa esperar por uma tecnologia milagrosa para acioná-lo.
Já conhecemos as principais fontes das emissões e dispomos de tecnologias, experiências e soluções capazes de gerar resultados concretos.
É justamente isso que mostra o Caderno de Soluções para Redução das Emissões de Metano no Brasil, produzido pelo SEEG, iniciativa do Observatório do Clima, com coordenação técnica de ICLEI, IEMA, Imaflora e IPAM.
Mais do que um diagnóstico, a publicação oferece uma agenda de ação. São 37 soluções distribuídas entre agropecuária, resíduos, energia e mudança do uso da terra, muitas delas disponíveis hoje, com benefícios que vão além da redução das emissões: aumento da produtividade, redução de desperdícios, geração de renda, melhoria da qualidade do ar e fortalecimento da resiliência dos territórios.
Se as soluções existem, a pergunta é inevitável: por que as emissões continuam crescendo?
Desde 2020, as emissões de metano da agropecuária aumentaram 8,2% e as de resíduos 3,1%. Juntos, esses dois setores responderam por quase 92% das emissões brasileiras em 2024.
O mérito do Caderno é mostrar que o principal obstáculo já não está na falta de conhecimento sobre o problema. O desafio está em transformar soluções conhecidas em prática corrente.
Nas cidades brasileiras, por exemplo, existem experiências bem-sucedidas em compostagem, captura de biogás, coleta seletiva e organização de cooperativas. Na agropecuária, há tecnologias e práticas de manejo capazes de reduzir emissões e aumentar eficiência. No setor de energia, reduzir vazamentos significa diminuir emissões e evitar perdas econômicas. Nos cenários de maior ambição apresentados pelo SEEG, soluções como essas podem contribuir para que a redução nas emissões de metano até 2035 cheguem a 28% na agropecuária, 29,3% nos resíduos, 82% em mudança de uso da terra e florestas e 93,1% na energia, em relação a 2020.
Mas experiências bem-sucedidas nem sempre se transformam em políticas públicas, investimentos ou padrões de mercado.
É aí que entra uma dimensão frequentemente negligenciada da ação climática: a capacidade de compartilhar conhecimento, conectar experiências e acelerar a adoção do que já funciona.
Uma solução que dá certo em um município deveria inspirar outros. Um projeto-piloto de sucesso deveria orientar novos investimentos. Aprendizados acumulados deveriam reduzir custos, evitar erros e encurtar o caminho entre intenção e implementação.
Nesse sentido, o Caderno cumpre um papel particularmente relevante. Ao reunir soluções, evidências e exemplos concretos, ele ajuda a reduzir a distância entre saber e fazer. E o Brasil já sabe o que precisa fazer. O que está em jogo agora é o tempo.
Afinal, não estamos falando de um tema secundário. O metano tem potencial de aquecimento 80 vezes maior que o CO2 em um período de 20 anos e responde por cerca de um terço do aumento da temperatura global, e poucas agendas oferecem uma oportunidade tão clara de desacelerar a emergência climática no curto prazo.
As soluções para reduzir as emissões de metano já estão à mesa. O desafio agora é criar as condições para que elas sejam adotadas na velocidade e na escala que a emergência climática exige.
O freio de emergência climática está ao nosso alcance. Quanto mais demorarmos para acioná-lo, mais difícil e mais caro será conter o aquecimento global dentro de limites que ainda nos permitem construir um futuro seguro. A janela de oportunidade está aberta, mas não permanecerá assim por muito tempo.