Toda vez que dizemos “infância”, repetimos uma história antiga. A palavra vem do latim infans: aquele que não tem fala. Já “criança” remete a creare, criar. É quem ainda está se formando e, por isso, precisa de cuidado e condições para florescer.
Editorial
No glossário climático Pequenos Grandes Saberes, elaborado pela ActionAid Brasil com mais de 350 meninas e meninos de sete territórios, uma pergunta simples produziu respostas reveladoras: o que significa “mudanças climáticas”? As crianças falaram de chuva excessiva, calor intenso, queimadas e rios secando. Até que uma delas resumiu tudo em uma palavra: guerra.
O impacto da resposta não está apenas na força da metáfora, mas em sua origem. Não foi uma definição formulada por cientistas ou ambientalistas. Foi a percepção de alguém que acaba de chegar ao mundo e já o reconhece como um lugar de ameaça.
Aquilo que os adultos ainda tratam como projeção já é vivido pela infância como realidade. A emergência climática interfere no desenvolvimento dos corpos, interrompe a educação, multiplica doenças e reduz possibilidades de futuro. Deixou de ser apenas uma questão ambiental. Tornou-se uma questão de saúde pública, desigualdade e direitos da infância.
Mais de 40 milhões de crianças e adolescentes brasileiros, cerca de 60% dessa população, convivem com mais de um risco climático ou ambiental. São milhões expostos ao calor extremo, à escassez de água, às enchentes e à poluição atmosférica, que sozinha afeta 24,8 milhões de meninas e meninos.
Esses números desenham uma geografia da infância ameaçada. A água que falta ou invade as casas também interrompe aulas, compromete a alimentação e dificulta o acesso à saúde. Em 2024, 1,17 milhão de crianças brasileiras tiveram as aulas suspensas ou interrompidas por eventos climáticos extremos. Na Amazônia Legal, a seca afetou mais de 420 mil crianças e provocou o fechamento ou isolamento de mais de 1.700 escolas e 760 unidades de saúde.
O clima também está alterando o mapa das doenças. Reportagem do Valor Econômico apresentou um alerta do InfoDengue, elaborado em parceria com a Fiocruz e a Escola de Matemática Aplicada da FGV: um El Niño forte pode aumentar os casos de dengue, com maior impacto nas regiões Sul e Sudeste. No Reino Unido, o The Guardian mostrou a pressão exercida pelas ondas de calor sobre o sistema público de saúde durante o verão.
Em contextos distintos, as duas notícias apontam para a mesma realidade: a crise climática já chegou aos hospitais, às escolas e às casas.
Para a infância, essa ameaça é ainda mais grave. Uma criança não é um adulto em escala reduzida. Seu organismo está em formação, seus mecanismos de regulação da temperatura são menos maduros e sua exposição proporcional a contaminantes pode ser maior. Ao mesmo tempo, depende das escolhas feitas pelos adultos, pelas empresas e pelo poder público.
A poluição por partículas finas foi associada a 5,5 milhões de novos casos de asma infantil no mundo em 2025, o equivalente a 22% dos novos diagnósticos. A poluição doméstica provocada pelo uso de combustíveis sólidos está relacionada a 300 mil mortes prematuras de crianças por ano.
A crise climática impõe uma dupla injustiça: as crianças são mais vulneráveis aos seus efeitos e menos capazes de influenciar as decisões que determinam sua exposição.
E nem todas as infâncias enfrentam os mesmos riscos. Para crianças indígenas, quilombolas, ribeirinhas e das periferias urbanas, a crise climática se soma a vulnerabilidades históricas e aprofunda desigualdades já existentes.
A emergência climática não inaugura essas desigualdades. Ela as encontra e aprofunda. Nas muitas infâncias brasileiras, pesa mais sobre aquelas que a história do país já sobrecarregava.
Proteger a infância no século XXI exige, portanto, preservar as condições climáticas, ambientais e sociais que permitem a uma criança se desenvolver plenamente. Política climática para a infância não é um apêndice da agenda ambiental. É política de saúde, educação, redução das desigualdades e garantia de direitos.
Nesse contexto, a aprovação pelo Senado do chamado ECA Ambiental, o Projeto de Lei 2.225/2024, representa um avanço importante. A proposta incorpora à legislação o direito de crianças e adolescentes à natureza e reforça sua prioridade diante de riscos e desastres socioambientais.
Mas nenhuma lei protege sozinha. O ECA Ambiental só transformará vidas se vier acompanhado de orçamento, metas, fiscalização e responsabilidades definidas. Precisará chegar às escolas, às unidades de saúde, aos sistemas de alerta, aos planos de adaptação e às decisões de investimento público e privado. A aprovação legislativa não é o fim da travessia. É o começo.
A urgência, contudo, não significa ausência de caminhos. Existem 25 soluções integradas, baseadas em tecnologias e práticas disponíveis, capazes de reduzir simultaneamente a poluição do ar e o aquecimento global. Cada dólar investido nessas medidas pode gerar cerca de 15 dólares em benefícios econômicos e de bem-estar. Retardar em oito anos as metas de redução de emissões, por outro lado, corta pela metade os benefícios à saúde que poderiam ser alcançados até 2035.
O conhecimento existe. As soluções existem. O que falta é aplicá-las na velocidade em que as crianças já estão adoecendo.
A palavra escolhida por aquela criança não deve alimentar o alarmismo, mas romper a indiferença. Ela nos lembra que a emergência climática não é apenas uma discussão sobre o futuro do planeta. É uma decisão, tomada no presente, sobre quem terá direito a chegar inteiro ao futuro.
Aos 36 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, o Brasil precisa reconhecer que a proteção integral da infância passa necessariamente pelo enfrentamento da crise climática. Não podemos aceitar que “guerra” continue sendo a palavra usada por uma criança para descrever o mundo em que acabou de chegar.
Toda criança tem direito ao futuro. Garantir esse direito é uma responsabilidade do presente. Talvez não haja retrato mais revelador do nosso tempo do que uma criança escolher a palavra “guerra” para descrever o mundo em que vive. O verdadeiro fracasso não será deixar um planeta mais quente, mas permitir que o medo ocupe o lugar da esperança.