Num país polarizado, reduzir metano aproxima direita e esquerda. Dez anos depois de Kigali, conter o aquecimento exige transformar apoio em ação.
Editorial
Em A queda do céu, Davi Kopenawa alerta para um mundo de rios que desaparecem, árvores que murcham e terra ressecada e silenciosa. As palavras do xamã yanomami, registradas no livro escrito com o antropólogo Bruce Albert, encontram ecos inquietantes nas secas prolongadas, no calor extremo e na poluição atmosférica que já atravessam nosso cotidiano. Os povos originários vêm tentando sustentar esse céu há gerações. É hora de mais gente assumir sua parte nessa tarefa.
Para isso, precisamos agir também sobre os gases que estão aquecendo o planeta. Entre eles, o metano merece atenção especial: tem potencial de aquecimento 80 vezes maior que o dióxido de carbono (CO₂) em um período de 20 anos e responde por cerca de um terço do aumento da temperatura global desde a Revolução Industrial. Reduzir suas emissões é uma das formas mais rápidas de desacelerar a crise climática.
No Brasil, há um ponto de encontro para começar. Às vésperas de eleições marcadas pela polarização, reduzir metano aproxima brasileiros de direita, centro e esquerda. Na pesquisa Clima e meio ambiente na percepção dos brasileiros, realizada pela Ipsos para o Observatório do Clima, 93% dos entrevistados consideraram importante ou muito importante reduzir os vazamentos de gases poluentes, como o metano, na produção e no transporte de petróleo e gás. O apoio chega a 93% na direita e a 95% no centro e na esquerda. A pesquisa mostra que, apesar das diferenças nas prioridades de política ambiental, combater as emissões de metano não tem lado político.
Essa convergência existe mesmo com pouco conhecimento sobre o gás: 75% dos entrevistados afirmam saber pouco ou não sabem o que ele é. As consequências da crise, porém, estão mais próximas. Na mesma pesquisa, 85% reconhecem impactos das mudanças climáticas na vida dos brasileiros, e 70% dizem senti-los no próprio cotidiano. A experiência ajuda a dar sentido à preocupação, mesmo quando os mecanismos do aquecimento ainda são pouco conhecidos.
Também há uma distância entre as fontes de emissão e a percepção sobre elas. Enquanto 42% apontam aterros e lixões como a principal fonte de emissão de metano no país, apenas 22% citam a pecuária. Os dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) mostram, no entanto, que a agropecuária responde por 76% das emissões brasileiras de metano, sobretudo pela criação de gado, enquanto os resíduos são responsáveis por cerca de 16%. Algo semelhante aparece nas escolhas dos participantes da pesquisa: 49% escolheriam separar resíduos para reduzir seu impacto ambiental, mas apenas 8% mencionaram limitar o consumo de carne. Os resultados sugerem que enxergamos melhor o impacto de nossos resíduos do que o da produção dos alimentos que consumimos.
Diagnosticar essas lacunas é parte da solução. A pesquisa do Observatório do Clima mostra onde a informação precisa chegar; os inventários de emissões, onde precisamos intervir. Ferramentas de monitoramento, como satélites, ajudam a localizar grandes vazamentos, e décadas de estudos apontam formas de reduzi-los. Esse conhecimento pode orientar mudanças nas indústrias, no campo e nas cidades. E precisa caminhar também com os saberes dos povos originários, que há gerações alertam para as consequências de destruir as bases da vida e agem para protegê-las. Reunir essas ciências exige escuta e proteção aos territórios onde esses saberes continuam vivos, mas mudar esse cenário também demanda transformar conhecimentos e discursos em ação.
O tempo para essa mudança ficou mais curto. No relatório Limiting Overshoot, divulgado no início de setembro, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) reconhece que o aquecimento ultrapassará 1,5°C acima dos níveis pré-industriais na média de longo prazo. É o chamado overshoot: a ultrapassagem do limite de temperatura definido pelo Acordo de Paris. O desafio, agora, é voltar a ele. Quanto mais alto o pico e mais longa a ultrapassagem, maiores os danos e os riscos de perdas irreversíveis. Cada fração de grau que conseguirmos evitar fará diferença.
O metano oferece uma resposta a essa urgência. Superpoluente de vida curta, permanece, em média, cerca de 12 anos na atmosfera, enquanto o CO₂ pode permanecer por séculos. Por isso, cortar suas emissões funciona como um freio de emergência climática: pode desacelerar o aquecimento com benefícios já na próxima década. É uma das melhores oportunidades que temos de agir no curto prazo, enquanto avançamos nos cortes de CO₂ indispensáveis para estabilizar o clima. Precisamos das duas frentes, junto com a adaptação aos impactos que já estão em curso.
Os dez anos da Emenda de Kigali, celebrados em 15 de outubro, nos lembram que sabemos construir respostas coletivas para problemas globais. Diante do maior desafio climático da história, vale olhar para um dos acordos ambientais multilaterais mais bem-sucedidos já firmados: o Protocolo de Montreal. Criado em 1987, ele combateu substâncias que destroem a camada de ozônio e aquecem o planeta, com obrigações, prazos, monitoramento e apoio financeiro e técnico para a transição dos países.
Kigali representou um renascimento desse acordo. Os HFCs, usados na refrigeração como alternativa às substâncias que destruíam o ozônio, trouxeram outro problema: seu elevado poder de aquecimento. Em 2016, a emenda ampliou o alcance de Montreal para reduzir progressivamente esses gases. A ciência apontou um novo desafio, e a cooperação internacional aprimorou a resposta. Na proteção ao ozônio, os resultados continuam aparecendo: em 16 de setembro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) revelou que o buraco de ozônio antártico de 2025 esteve entre os menores das últimas décadas, dentro de uma tendência de recuperação que ainda precisa ser sustentada.
O aniversário de Kigali chega num momento em que essa capacidade de cooperação volta a ser decisiva. Os anos entre 2015 e 2025 foram os onze mais quentes já registrados, e o serviço meteorológico britânico alertou que o El Niño deste ano pode ser o mais forte registrado desde o século XIX, ampliando os riscos de extremos climáticos. Na era do overshoot, conhecer os caminhos e adiar sua adoção tem um custo crescente.
O metano precisa agora de um acordo global inspirado nessa experiência. O Compromisso Global do Metano mobilizou mais de 150 países, entre eles o Brasil, em torno de uma meta coletiva e voluntária: cortar pelo menos 30% das emissões mundiais de metano até 2030, em relação a 2020. É preciso transformar essa mobilização em obrigações, com metas verificáveis, financiamento e mecanismos de cumprimento. Uma governança multilateral eficaz dá continuidade à ação para além dos mandatos e ajuda a transformar promessas em resultados. Negociar esse acordo e agir com os instrumentos que já temos são tarefas que precisam caminhar juntas.
As soluções já estão documentadas. No Brasil, o Caderno de Soluções do SEEG reúne 37 medidas para reduzir o metano na agropecuária, nos resíduos, na energia e na mudança do uso da terra e florestas. Há caminhos para melhorar o manejo dos rebanhos, reduzir desperdícios, compostar resíduos orgânicos, captar biogás, conter vazamentos e prevenir incêndios florestais. As escolhas individuais fazem parte dessa resposta: separar resíduos e reduzir o consumo de carne bovina ajudam. Para ganhar escala, essas mudanças precisam de políticas públicas, infraestrutura, financiamento e compromisso das empresas.
É essa capacidade de agir que precisamos cobrar nas eleições. Os 91% dos entrevistados pela pesquisa do Observatório do Clima que consideram importante ver propostas climáticas dos candidatos reconhecem essa como uma necessidade concreta. Num país com a diversidade territorial e as desigualdades do Brasil, secas podem isolar comunidades e comprometer a geração de energia; ondas de calor adoecem trabalhadores e aumentam os custos com saúde; enchentes destroem casas e lavouras, comprometendo a segurança alimentar e a economia de um país em que o agronegócio tem grande relevância. O clima precisa estar nos projetos de saúde, educação, habitação e desenvolvimento.
Ao falar dos xamãs que sustentam o céu, Kopenawa adverte: “Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar”. Os povos originários estão entre os primeiros a sofrer os efeitos da crise climática, mas o aviso sempre foi para todos. O que denunciaram por décadas se tornou parte do cotidiano de populações muito além de seus territórios.
A ciência moderna reforça a urgência de seus alertas e mostra caminhos para conter o aquecimento. E 76% dos brasileiros consultados pela Ipsos acreditam que ainda podemos evitar os piores efeitos da crise se agirmos agora. Há conhecimento e soluções para sustentar essa esperança. Cabe a todos nós, à iniciativa privada e, sobretudo, aos governantes que elegeremos em outubro unir essas duas ciências, assumir responsabilidades e transformar soluções em resultados. É assim que podemos ajudar a segurar o céu.