setembro 2026 | Alternativas Energéticas, Biodiversidade, Climate change, Desenvolvimento Sustentável, Global Methane Hub, Gota D'água, Metano, Mudanças Climáticas, Política
Toda vez que dizemos “infância”, repetimos uma história antiga. A palavra vem do latim infans: aquele que não tem fala. Já “criança” remete a creare, criar. É quem ainda está se formando e, por isso, precisa de cuidado e condições para florescer.
Editorial
No glossário climático Pequenos Grandes Saberes, elaborado pela ActionAid Brasil com mais de 350 meninas e meninos de sete territórios, uma pergunta simples produziu respostas reveladoras: o que significa “mudanças climáticas”? As crianças falaram de chuva excessiva, calor intenso, queimadas e rios secando. Até que uma delas resumiu tudo em uma palavra: guerra.
O impacto da resposta não está apenas na força da metáfora, mas em sua origem. Não foi uma definição formulada por cientistas ou ambientalistas. Foi a percepção de alguém que acaba de chegar ao mundo e já o reconhece como um lugar de ameaça.
Aquilo que os adultos ainda tratam como projeção já é vivido pela infância como realidade. A emergência climática interfere no desenvolvimento dos corpos, interrompe a educação, multiplica doenças e reduz possibilidades de futuro. Deixou de ser apenas uma questão ambiental. Tornou-se uma questão de saúde pública, desigualdade e direitos da infância.
Mais de 40 milhões de crianças e adolescentes brasileiros, cerca de 60% dessa população, convivem com mais de um risco climático ou ambiental. São milhões expostos ao calor extremo, à escassez de água, às enchentes e à poluição atmosférica, que sozinha afeta 24,8 milhões de meninas e meninos.
Esses números desenham uma geografia da infância ameaçada. A água que falta ou invade as casas também interrompe aulas, compromete a alimentação e dificulta o acesso à saúde. Em 2024, 1,17 milhão de crianças brasileiras tiveram as aulas suspensas ou interrompidas por eventos climáticos extremos. Na Amazônia Legal, a seca afetou mais de 420 mil crianças e provocou o fechamento ou isolamento de mais de 1.700 escolas e 760 unidades de saúde.
O clima também está alterando o mapa das doenças. Reportagem do Valor Econômico apresentou um alerta do InfoDengue, elaborado em parceria com a Fiocruz e a Escola de Matemática Aplicada da FGV: um El Niño forte pode aumentar os casos de dengue, com maior impacto nas regiões Sul e Sudeste. No Reino Unido, o The Guardian mostrou a pressão exercida pelas ondas de calor sobre o sistema público de saúde durante o verão.
Em contextos distintos, as duas notícias apontam para a mesma realidade: a crise climática já chegou aos hospitais, às escolas e às casas.
Para a infância, essa ameaça é ainda mais grave. Uma criança não é um adulto em escala reduzida. Seu organismo está em formação, seus mecanismos de regulação da temperatura são menos maduros e sua exposição proporcional a contaminantes pode ser maior. Ao mesmo tempo, depende das escolhas feitas pelos adultos, pelas empresas e pelo poder público.
A poluição por partículas finas foi associada a 5,5 milhões de novos casos de asma infantil no mundo em 2025, o equivalente a 22% dos novos diagnósticos. A poluição doméstica provocada pelo uso de combustíveis sólidos está relacionada a 300 mil mortes prematuras de crianças por ano.
A crise climática impõe uma dupla injustiça: as crianças são mais vulneráveis aos seus efeitos e menos capazes de influenciar as decisões que determinam sua exposição.
E nem todas as infâncias enfrentam os mesmos riscos. Para crianças indígenas, quilombolas, ribeirinhas e das periferias urbanas, a crise climática se soma a vulnerabilidades históricas e aprofunda desigualdades já existentes.
A emergência climática não inaugura essas desigualdades. Ela as encontra e aprofunda. Nas muitas infâncias brasileiras, pesa mais sobre aquelas que a história do país já sobrecarregava.
Proteger a infância no século XXI exige, portanto, preservar as condições climáticas, ambientais e sociais que permitem a uma criança se desenvolver plenamente. Política climática para a infância não é um apêndice da agenda ambiental. É política de saúde, educação, redução das desigualdades e garantia de direitos.
Nesse contexto, a aprovação pelo Senado do chamado ECA Ambiental, o Projeto de Lei 2.225/2024, representa um avanço importante. A proposta incorpora à legislação o direito de crianças e adolescentes à natureza e reforça sua prioridade diante de riscos e desastres socioambientais.
Mas nenhuma lei protege sozinha. O ECA Ambiental só transformará vidas se vier acompanhado de orçamento, metas, fiscalização e responsabilidades definidas. Precisará chegar às escolas, às unidades de saúde, aos sistemas de alerta, aos planos de adaptação e às decisões de investimento público e privado. A aprovação legislativa não é o fim da travessia. É o começo.
A urgência, contudo, não significa ausência de caminhos. Existem 25 soluções integradas, baseadas em tecnologias e práticas disponíveis, capazes de reduzir simultaneamente a poluição do ar e o aquecimento global. Cada dólar investido nessas medidas pode gerar cerca de 15 dólares em benefícios econômicos e de bem-estar. Retardar em oito anos as metas de redução de emissões, por outro lado, corta pela metade os benefícios à saúde que poderiam ser alcançados até 2035.
O conhecimento existe. As soluções existem. O que falta é aplicá-las na velocidade em que as crianças já estão adoecendo.
A palavra escolhida por aquela criança não deve alimentar o alarmismo, mas romper a indiferença. Ela nos lembra que a emergência climática não é apenas uma discussão sobre o futuro do planeta. É uma decisão, tomada no presente, sobre quem terá direito a chegar inteiro ao futuro.
Aos 36 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, o Brasil precisa reconhecer que a proteção integral da infância passa necessariamente pelo enfrentamento da crise climática. Não podemos aceitar que “guerra” continue sendo a palavra usada por uma criança para descrever o mundo em que acabou de chegar.
Toda criança tem direito ao futuro. Garantir esse direito é uma responsabilidade do presente. Talvez não haja retrato mais revelador do nosso tempo do que uma criança escolher a palavra “guerra” para descrever o mundo em que vive. O verdadeiro fracasso não será deixar um planeta mais quente, mas permitir que o medo ocupe o lugar da esperança.
maio 2022 | Desenvolvimento Sustentável, Educação ambiental, Oceanos, Recycling
Agora o diagnóstico é oficial: você não só pode ter micropartículas plásticas correndo nas veias como, muito provavelmente, as carrega nos pulmões. É para tapar o nariz, não? De solução prática para substituir papel, metal, vidro e outras matérias-primas, o plástico vem se tornado uma infestação que está se espalhando implacavelmente por nossos corpos e pelo planeta. Segundo o estudo “A ameaça global da poluição plástica”, assinado por cientistas alemães, suecos e noruegueses, publicado em julho passado na revista “Science”, estamos chegando ao ponto de não retorno – quando os danos ao meio ambiente serão irreversíveis. Em outubro, foi anunciado na Plastic Health Summit, conferência realizada em Amsterdã, na Holanda, que temos apenas nove anos para reverter este quadro.
Esta contagem regressiva vem se acelerando. Desde 2019 sabemos que há microplástico na água que bebemos e em nossa comida; em agosto de 2020, pesquisadores da Universidade do Arizona encontraram vestígios do material em todas as 47 autópsias realizadas em amostras de pulmão, fígado, baço e rins humanos examinadas. Em março deste ano, cientistas da Universidade Livre de Amsterdã, detectaram fragmentos no sangue de 17 dos 22 doadores anônimos testados. “A grande questão é: o que está acontecendo em nosso corpo? As partículas ficam retidas no corpo? E esses níveis são suficientemente altos para desencadear doenças?”, alertou o professor Dick Vethaak.
Ainda é cedo para dimensionar os danos que beber, comer e respirar plástico podem causar diretamente à nossa saúde; mas os estragos que o material vem causando à Terra, o grande organismo onde vivemos, são conhecidos e bem visíveis. Micropartículas plásticas estão por todos os lados, da Fossa das Marianas ao Monte Everest, e chegam até mesmo à atmosfera. No mês passado, descobriu-se que estamos aspirando plástico: um estudo da Hull York Medical School, na Inglaterra, publicado na revista “Science of the Total Environment” descobriu, pela primeira vez, partículas plásticas em pulmões de pessoas vivas. O resultado espantou até a professora Laura Sadofsky, sua principal autora. “Não esperávamos encontrar o maior número de partículas nas regiões inferiores dos pulmões, ou partículas dos tamanhos que encontramos. É surpreendente, pois as vias aéreas são menores nas partes inferiores dos pulmões e esperávamos que partículas desses tamanhos fossem filtradas ou presas antes de chegar tão fundo”.
Lançado a dez dias do início da COP26, que foi realizada no início de novembro passado na Escócia, o relatório “Da Poluição à Solução: Uma Análise Global sobre Lixo Marinho e Poluição Plástica”, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), deu uma ideia do tamanho da encrenca. De acordo com ele, o material responde por 85% dos resíduos que chegam ao mar e que até 2040 a quantidade deve triplicar, caso nada seja feito, podendo chegar a 37 milhões de toneladas por ano. “Esta pesquisa fornece o argumento científico mais forte até hoje para responder à urgência, agir coletivamente e proteger e restaurar nossos oceanos e todos os ecossistemas afetados pela poluição em seu curso”, disse a diretora executiva do Pnuma, Inger Andersen.
A ambientalista dinamarquesa ressalta que o plástico também tem forte ligação com as mudanças climáticas. Calcula-se que em 2015 ele era responsável pela geração de 1,7 gigatoneladas de CO₂ equivalente (GtCO2e), e em 2050 este número deverá chegar a 6,5 GtCO2e, ou 15% do total global. E os resíduos que chegam ao mar também ajudam a temperatura do planeta a subir. As micropartículas se unem à flora marinha – microalgas, bactérias e fitoplânctons –, e prejudicam sua capacidade de fazer fotossíntese: “Se você para de consumir gás carbônico, o oceano acaba perdendo um pouco do seu papel em controlar o efeito estufa”, explicou Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano.
No dia 2 de março, a ONU deu o pontapé inicial para a criação do primeiro tratado global contra a poluição por plástico, durante a Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Anue), que se realizou em Nairóbi, no Quênia. A resolução recebeu o aval de nada menos que 175 países e, por isso, foi comparada ao Acordo de Paris. Mas, assim como o pacto firmado em 2015, na França, ele só vai sair do papel se houver pressão popular – e tudo indica que haverá. Sob encomenda das ONGs Plastic Free Foundation e WWF, o Instituto Ipsos fez uma pesquisa no fim do ano passado, com mais de 20 mil pessoas de 28 países, incluindo o Brasil. O resultado foi uma goleada: cerca de 90% dos entrevistados se disseram favoráveis a uma coalizão global para buscar soluções. A maioria já entendeu que deter essa infestação depende de todos nós; falta convencer os desentendidos.
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agosto 2019 | Direitos indígenas, Povos Tradicionais
“Não vamos aceitar o desmonte da saúde indígena. Não vamos aceitar a municipalização da saúde indígena. Nós, mulheres, temos a obrigação de não aceitar nenhum tipo de imposição que venha a atingir nossas vidas.”
Essas são as palavras de Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Ao lado de outras mulheres indígenas, ela ocupou pacificamente, na manhã desta segunda (12), o quarto andar do prédio do Ministério da Saúde. O ato em defesa do subsistema de atenção à saúde indígena pediu a liberdade de escolha pelo parto natural e também reclamou sobre a imposição da cesariana.
A manifestação teve danças e cânticos tradicionais dos mais de 100 povos indígenas que estão em Brasília para a Primeira Marcha das Mulheres Indígenas. O tema da marcha, que tem horário marcado para as 7h desta terça, é Território: Nosso Corpo, Nosso Espírito.
Muito pertinente. Afinal de contas, os povos indígenas são os guardiões da floresta, parte indissociável da terra onde nasceram e vivem. Não à toa, de acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, ninguém entende melhor o valor das florestas do que os indígenas. Mas é claro. A floresta é o corpo e o espírito deles.
Foto: Mariana Freitas
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