O arroz e a crise climática

O arroz e a crise climática

julho 2026

 O que o arroz pode nos ensinar sobre a crise climática 

Editorial

Há uma silenciosa ironia no fato de que um dos alimentos mais essenciais da humanidade também esteja no centro de um dos maiores desafios do nosso tempo. O arroz, presença quase diária em nossas refeições, parece apenas um hábito. O problema não está no grão, mas no cultivo: os solos alagados impedem a entrada de oxigênio no solo, e é nessa decomposição que o metano é liberado. Esse gás responde por cerca de um terço do aquecimento global. Parte desse desafio passa, literalmente, pelo prato de quem lê este texto. 

Essa relação entre o arroz e a crise climática não se resume às emissões. Em 2024, as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% da produção nacional de arroz, nos forçaram a olhar para esse estado. Aquela tragédia também revelou outro desafio: proteger a produção de um alimento que sustenta mais da metade da população mundial. Isso significa ir além de produzir arroz apesar da crise climática. Significa produzir melhor: com mais resiliência, menos emissões e maior segurança alimentar. 

A urgência desse debate não terminou com as enchentes de 2024. Dois anos depois, enquanto este texto é escrito, o estado enfrenta novas enchentes. Milhares de pessoas fora de casa, municípios em alerta, os rios transbordando outra vez.  

Paralelamente à tragédia, há quem trabalhe para evitar que o futuro repita o passado. Pesquisadores e agricultores gaúchos têm buscado transformar as lições da crise em soluções para uma produção de arroz mais resiliente e com menor emissão. Esse esforço, começou muito antes das enchentes: nas últimas quatro décadas, a intensidade das emissões da rizicultura gaúcha caiu de 84 para 37 quilos de metano por tonelada de arroz produzida. 

As enchentes ocupam as manchetes com razão, mas as soluções para reduzir emissões raramente permanecem no debate público. E elas já mostram resultados. Em 2024, o Brasil colheu 12,8 milhões de toneladas de arroz, a quarta maior safra da história. Segundo o Imaflora, se as boas práticas consolidadas no Sul fossem levadas ao resto do país, poderíamos deixar de emitir cerca de 300 mil toneladas de metano até 2035, sem perder produtividade. Um dos exemplos mais emblemáticos dessa transformação também está no Rio Grande do Sul. 

No assentamento Filhos de Sepé, localizado em uma Área de Proteção Ambiental do Banhado Grande, famílias organizadas em cooperativas cultivam 1.600 hectares de arroz orgânico. É hoje a maior área contínua de produção de arroz orgânico da América Latina. 

As soluções existem. Entre os vídeos que seguem, do painel “Menos Metano, Mais Futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz”, realizado durante a 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, está a voz de quem pesquisa o solo, de quem produz, organiza comunidades inteiras em torno da terra, e de quem traduz tudo isso em dados. São vozes de dentro do IRGA (Instituto Rio Grandense de Arroz), do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra), três formas diferentes de mostrar que é possível produzir arroz, alimentando mais da metade da população mundial, com menos metano, mais renda, justiça social e resiliência climática. 

Acompanhe trecho da fala da painelista Mara Grohs, pesquisadora do IRGA, durante gravação do painel da Uma Gota no Oceano “Menos Metano, Mais Futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz”, na 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre. 

Para acompanhar outros cortes do painel, além da discussão na íntegra, acesse o canal do Youtube da Uma Gota no Oceano 

Translate »