O Pacto pela vida

O Pacto pela vida

É a Gota D’água: pacto pela vida 

Entre a escassez de água no mundo e a devastação da floresta, o Brasil carrega um destino inadiável: assumir a liderança ecológica que o planeta exige. 

 

Por Paula Fernandes — Diretora da Gota 

Às vezes parece que vivemos em um tempo suspenso, cheio de incertezas e rearranjos inesperados. O impasse no acordo Europa-Mercosul, as ameaças sobre a Groenlândia, os sinais de colapso climático em diferentes regiões – tudo isso compõe uma configuração instável, quase caótica, que nos obriga a repensar nosso lugar no mundo. É nesse cenário que a água e a floresta se revelam não apenas como recursos, mas como destino. 

Nesta semana, a Universidade das Nações Unidas lançou um alerta inédito: o mundo já vive um estado de “falência hídrica”. Aquíferos subterrâneos em colapso, lagos encolhendo e bilhões de pessoas sem acesso à água suficiente mostram que não estamos diante de uma crise temporária, mas de uma nova realidade. O Brasil detém cerca de 12% da água doce superficial do mundo. Grande parte dessa riqueza está concentrada na Amazônia, cuja bacia hidrográfica responde por cerca de 20% da descarga fluvial mundial — o maior fluxo de água doce do planeta. Essa abundância hídrica nos coloca entre os países mais privilegiados do mundo, com vantagem estratégica para agricultura e abastecimento urbano. Como lembra João Moreira Salles em Arrabalde, “a periferia se tornou o verdadeiro centro, e o centro, a periferia. É a Amazônia que nos põe e nos tira da cena internacional”. 

Em paralelo a esse diagnóstico global, Sergio Leitão resgata em seu artigo para o Correio Braziliense “Por um pacto político que resolva a questão fundiária na Amazônia” uma condição histórica que nos persegue: a ausência de destinação clara para terras públicas perpetua o desmatamento e compromete diretamente os sistemas naturais que regulam o ciclo da água. O que a ONU mostra como colapso planetário, Leitão revela como prática cotidiana no Brasil: a destruição da floresta e a fragilidade da governança fundiária corroem nossa capacidade de proteger o recurso mais estratégico que temos. 

Foi diante dessas preocupações que surgiu a Uma Gota no Oceano. Em 2011, lançamos a campanha Movimento Gota D’água, que denunciava os impactos socioambientais da construção da Usina de Belo Monte, símbolo da exploração desregrada dos recursos hídricos e da falta de debate público sobre seus efeitos. Em 2013, nos estruturamos como organização de comunicação estratégica voltada para questões socioambientais, incorporando em nosso trabalho o fortalecimento dos direitos dos povos tradicionais, indígenas e quilombolas, reconhecidos como guardiões mais eficientes do nosso patrimônio natural. Em 2018, lançamos a campanha Em nome de quê?, lembrando que os rios são as artérias do planeta e precisam correr livres e saudáveis para garantir nosso modo de vida. E, desde o ano passado, temos colocado o metano no centro do nosso radar, mostrando que reduzir suas emissões é a estratégia imediata mais eficaz para ganhar tempo na corrida contra as mudanças climáticas. 

Neste ano de eleições e de turbulência internacional, nosso desafio é mediar olhares e narrativas com consistência, independência e clareza, para que, em meio ao excesso de notícias e à pressão da desinformação, a sociedade perceba que a resposta está em proteger o nosso patrimônio natural e valorizar a nossa IA — Inteligência Ancestral. Por milênios, partes desta floresta vêm sendo manipuladas por mãos indígenas, em trabalhos de seleção de plantas e construção de solos férteis que revelam um conhecimento profundo das interações entre plantas, animais, fungos, micro-organismos, chuva e vento. A floresta que conhecemos hoje é fruto dessa notável inteligência ecológica. 

Permitir que a Amazônia seja degradada não seria apenas um erro político ou econômico: seria um colapso moral, uma traição ao futuro. A sabedoria dos povos indígenas e quilombolas é a nossa bússola, capaz de orientar o Brasil e o mundo em direção à sobrevivência. Nossa relevância internacional não se mede em cifras ou poder bélico, mas naquilo que nos torna singulares: a maior floresta tropical do planeta e os povos que sabem como cuidar dela. O destino nos chama: esta é a primeira, e talvez a única, oportunidade de o Brasil assumir protagonismo no avanço global rumo a uma nova economia verde. 

Acima da média

Acima da média

Acima da média

Por Marcia Hirota*

“Acima da média” é o termo mais ouvido nos últimos anos e, daqui para frente, vai fazer parte do cotidiano. Mais dias quentes e ondas de calor intensas. Mais períodos frios, chuvas excessivas, secura e baixa umidade. Os cientistas e ambientalistas alertam há tempos, mas o grau de frequência aumentou e nossas cidades não estão preparadas para enfrentar tragédias climáticas.

É triste ver o terrível momento pelo qual passa o Rio Grande do Sul e Santa Catarina diante da calamidade e do impacto direto na vida, história e memória das pessoas. Toda nossa solidariedade a elas. Enquanto o cenário ainda é crítico, temos que olhar para o passado e futuro. Precisamos nos munir de planos de prevenção, alerta, contingência, adaptação e mitigação frente às mudanças climáticas.

Segundo levantamento do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), vinculado à Secretaria de Estado de Economia e Planejamento do Espírito Santo, das 27 capitais brasileiras incluindo o Distrito Federal, 15 não contam com o Plano de Mudanças Climáticas. No universo das 16 capitais dos 17 estados abrangidos pelo bioma Mata Atlântica, 6 não elaboraram um plano climático: Aracaju (SE), Campo Grande (MS), Maceió (AL), Natal (RN), Porto Alegre (RS) e Vitória (ES). No contexto dos 3.429 municípios da Mata Atlântica, a maioria não possui planos de ação climática e a urgência é maior para aqueles localizados em regiões mais frágeis e áreas costeiras. É no bioma que vivem cerca de 70% da população brasileira.

A luta pelo desmatamento zero continua. Segundo dados apresentados pela SOS Mata Atlântica, INPE e Mapbiomas, a supressão da vegetação nativa ainda é preocupante no bioma mais devastado do país, enquanto a pauta deveria ser de restauração e adaptação.

“Acima da média” é também o ataque à legislação ambiental. Como apontou levantamento feito por especialistas a pedido de O Globo, o Congresso Nacional aprovou, ao menos, onze leis para afrouxar normas de proteção ambiental, na última década. E o problema persiste pois avança por lá o chamado “pacote da destruição”, com ameaças à Mata Atlântica e flexibilização que podem trazer retrocessos e mais desmontes, no caminho contrário à proteção ambiental e emergências impostas pelas mudanças climáticas. Uma luta urgente que conta com a participação atenta e efetiva da sociedade.

Para o futuro, o país precisa garantir políticas positivas mais robustas e avançar efetivamente na agenda de adaptação e mitigação climática, com empenho na preservação dos biomas e restauração dos ecossistemas, mais áreas protegidas e soluções baseadas na natureza, e modelos de desenvolvimento aliados à conservação dos nossos patrimônios naturais e à segurança para os povos, populações e comunidades locais.

Nos próximos meses, prefeitos(as) e vereadores serão eleitos. Será deles a responsabilidade de preparar nossas cidades para o futuro, que já é o presente. Para tanto, as agendas ambiental, social e climática devem fazer parte das prioridades. Caso contrário, continuaremos a presenciar tragédias climáticas “acima da média”.

*Marcia Hirota é presidente do Conselho da Fundação SOS Mata Atlântica e conselheira da ONG Uma Gota no Oceano.

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