Na pandemia, povos indígenas precisaram recorrer ao Supremo Tribunal Federal para que o governo cumprisse obrigações básicas de proteção. Essa memória ajuda a refletir sobre as escolhas que faremos diante de uma era de extremos climáticos cada vez mais frequentes.
Por Maria Paula Fernandes e Monica Prestes
Há experiências que deixam marcas permanentes em uma sociedade.
A pandemia foi uma delas. O medo de adoecer, a incerteza sobre o dia seguinte, as despedidas impossíveis, o som das ambulâncias e a busca desesperada por cilindros de oxigênio ficarão para sempre na memória de milhões de brasileiros. Aos poucos, os números que acompanhávamos diariamente deixaram de ser estatísticas e ganharam rosto, nome e história.
Foi naquele período que muitos de nós descobrimos, da forma mais dolorosa, o que significa depender das decisões de um governo quando a própria vida está em risco. Para os povos indígenas, essa vulnerabilidade foi ainda mais profunda.
Desde 2019, acompanhamos o trabalho da COIAB e testemunhamos de perto os relatos que chegavam dos territórios amazônicos. Com a pandemia, passamos a ouvir diariamente histórias marcadas pela dor, pela urgência e pela sensação de abandono. Enquanto lideranças indígenas buscavam acesso a cuidados básicos de saúde e alertavam para o avanço da doença, o governo insistia em soluções sem respaldo científico, enviando caixas de cloroquina ao território Yanomami.
A situação era agravada pela exclusãode indígenas que viviam nas cidades e em territórios ainda não homologados dos registros e das políticas que deveriam protegê-los. Ao serem ignorados pelos mecanismos oficiais, milhares de pessoas ficaram sem acesso aos direitos e aos cuidados que deveriam ser garantidos justamente no momento em que mais precisavam deles. Foi nesse contexto que a APIB levou ao Supremo Tribunal Federal a ADPF 709, transformando em ação judicial um grito de socorro que já ecoava nos territórios. Não se tratava de uma disputa institucional, mas de garantir condições mínimas de sobrevivência para povos que viam a doença avançar enquanto aguardavam respostas do poder público.
A decisão do STF obrigou o governo a adotar medidas concretas de proteção. Mais do que uma vitória jurídica, ela deixou uma lição que continua atual: democracias precisam de freios e contrapesos porque há momentos em que a proteção da vida não pode depender exclusivamente da vontade de quem governa.
As cicatrizes daquele período continuam abertas. Em Manaus, pessoas morreram por falta de oxigênio. Na CPI da Pandemia, estimou-se que centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas. Não estamos falando apenas de números, mas de vidas interrompidas, famílias transformadas para sempre e futuros que deixaram de existir. Essa é a dimensão humana de decisões tomadas tarde demais ou em desacordo com os alertas disponíveis.
É justamente por isso que esquecer não é uma opção. A memória da pandemia não é apenas uma homenagem àqueles que perdemos. Ela é também um dever cívico e humanitário, porque nos obriga a refletir sobre o tipo de Estado, de instituições e de lideranças de que precisamos quando a vida da população está em risco. A pandemia não foi apenas uma crise sanitária. Foi um dos acontecimentos mais marcantes de nossa história recente e revelou como o custo de ignorar evidências, desprezar alertas e adiar respostas recai primeiro sobre aqueles que têm menos recursos para se proteger. Por isso, sua memória não pertence apenas ao passado. Ela deve orientar as escolhas que fazemos sobre o futuro.
O futuro, aliás, já começou a chegar. O El Niño, que agravou secas históricas na Amazônia, enchentes devastadoras no Sul e ondas de calor em diferentes regiões do país, é apenas a comissão de frente de um período marcado por extremos climáticos cada vez mais frequentes e intensos. Se a pandemia colocou à prova a capacidade do Estado de proteger sua população diante de uma ameaça amplamente conhecida pela ciência, a emergência climática testará nossa capacidade de aprender com os erros do passado e agir antes que os danos se tornem irreversíveis.
Esse desafio exigirá coordenação, planejamento, capacidade de ação e respeito ao conhecimento científico. A diferença entre agir a tempo ou ignorar os alertas não será medida apenas em indicadores ambientais. Será medida em vidas, empregos, alimentos, acesso à água, segurança e dignidade.
Foi justamente isso que aprendemos durante a pandemia: quando governos falham em reconhecer uma ameaça a tempo, quem está mais exposto aos riscos é sempre quem paga o preço mais alto. Essa não é apenas uma constatação sobre o passado. É um critério para pensar o futuro.
Às vésperas do segundo turno, essa experiência deveria orientar nossa escolha, não apenas porque estamos elegendo um presidente, mas porque estamos decidindo como o Brasil pretende enfrentar um período de profundas transformações climáticas, sociais e econômicas.
Antes de votar, vale prestar atenção à experiência daqueles que convivem diariamente com os impactos das decisões tomadas pelo Estado. Vale ouvir os povos indígenas e as comunidades quilombolas, os cientistas e os profissionais da saúde, assim como aqueles que já estão na linha de frente das transformações que começaram e que serão cada vez mais intensas nos próximos anos.
A democracia só cumpre sua promessa quando ninguém precisa temer pela própria vida para ser ouvido. Ao votar, assumimos também responsabilidade pelo país que os outros terão de viver. A pandemia nos ensinou o preço de ignorar os alertas, e a emergência climática nos oferece a oportunidade de não repetir esse erro. Depois de tudo o que vivemos, esquecer não é uma opção, porque a memória só cumpre seu papel quando nos ajuda a fazer escolhas melhores para o futuro.
Maria Paula Fernandes é jornalista e diretora-fundadora da Uma Gota no Oceano.
Monica Prestes é jornalista e correspondente da Gota na Amazônia.