Reduzir metano é também proteger rios, lagos e aquíferos e garantir um futuro que não seque antes de chegar
Por Paula Fernandes e Mônica Prestes
Na Semana do Dia Mundial da Água, enquanto o mundo reconhece a gravidade da crise hídrica, o Brasil precisa admitir que um dos seus maiores desafios está do lado de casa e segue ignorado por sucessivos governos.
Não está escondido nos confins da Amazônia, nem nos gráficos climáticos internacionais. Está nos arredores das nossas cidades, nas bordas dos centros urbanos, nos morros improvisados de resíduos que a vista já deixou de estranhar. Os mais de 3 mil lixões ainda ativos no país são feridas abertas que sangram metano para a atmosfera e chorume para o solo. São gatilhos simultâneos da crise climática e da crise hídrica. A água que falta começa no lixo que sobra.
Sob toneladas de resíduos, o chorume infiltra-se silenciosamente pelo solo até alcançar lençóis freáticos e cursos d’água, carregando toxinas que contaminam mananciais inteiros. Na superfície, a decomposição da matéria orgânica libera metano – um superpoluente com poder de aquecimento 80 vezes maior que o CO₂ nas primeiras duas décadas. É esse gás invisível que acelera as secas, agrava a falta de chuvas, derruba reservatórios a níveis críticos e empurra cidades inteiras para o racionamento. Ele intensifica enchentes, amplia extremos e desestabiliza o clima de forma que não poupa nem quem mora à beira do rio, nem quem depende da represa que abastece a torneira – quando a água chega, porque cada vez mais ela simplesmente não chega. O que sai dos lixões não fica nos lixões: ele volta pelo ar, volta pelo clima e, cedo ou tarde, volta pela rede de abastecimento.
Não por acaso, a ONU descreve o mundo como vivendo uma “falência hídrica global”. Metade dos grandes lagos do planeta já perdeu volume desde os anos 1990. Sete em cada dez dos principais aquíferos estão em declínio. O Brasil não é exceção. O MapBiomas mostra que enfrentamos oito dos dez anos mais secos desde 1985 apenas na última década. E, em 2023, o país viu desaparecer, em superfície de água, uma área do tamanho do Distrito Federal. Enquanto nossos corpos hídricos encolhem, nossas montanhas de lixo crescem. Em 2024, o país gerou mais de 80 milhões de toneladas de resíduos urbanos, e 40% do que foi coletado teve destino inadequado: lixões ou aterros que não impermeabilizam o solo. Estamos tentando matar a sede com a água que ajudamos a envenenar.
A crise já é visível do espaço. Satélites detectam as plumas de metano que escapam dos lixões brasileiros, revelando emissões crescentes ano após ano. O setor de resíduos já responde por cerca de 15% do metano nacional, um salto de mais de 200% desde 1990. No Distrito Federal, 87% das emissões de metano vêm do lixo; em oito municípios goianos, o índice supera 90%. É a crise climática alimentada por aquilo que descartamos e por aquilo que não queremos ver.
Às vezes, a crise deixa de ser invisível. Em Padre Bernardo (GO), o lixão colapsou e despejou o equivalente a 16 piscinas olímpicas de resíduos dentro do Rio do Sal. Em Planaltina, o chorume escorreu para a vegetação e ameaçou contaminar um afluente do Rio Maranhão. Em Brasília, o antigo Lixão da Estrutural funcionou por cinco décadas a poucos quilômetros da Praça dos Três Poderes, deixando um legado de vulnerabilidade e desigualdade hídrica que persiste até hoje. Cada episódio é um lembrete brutal de que ignorar o lixo é colocar em risco a água e a vida que depende dela.
Se o problema é grave, as soluções são conhecidas e acessíveis. A adesão do Brasil ao programa internacional “Redução de Resíduos Orgânicos de Metano” (LOW-M, na sigla em inglês) uma coalizão de mais de 30 países e organizações, mostra que é possível reduzir drasticamente as emissões de metano do setor de resíduos com baixos investimentos. A captura e o aproveitamento energético do metano como biogás transformam um poluente potente em energia limpa. Iniciativas como o Brasil Composta e Cultiva promovida pelo Instituto Pólis, com o apoio do Global Methane Hub, reforçam que compostagem e reciclagem podem reduzir emissões, melhorar o solo e aliviar a pressão sobre aterros. E nada disso será sustentável sem colocar os catadores, que sempre sustentaram a reciclagem no país, no centro da transição.
A verdade é direta: não há segurança hídrica onde há lixões ativos. Não há estabilidade climática onde há metano escapando sem controle. Não há futuro possível onde rios e lagos secam enquanto resíduos urbanos transbordam. Proteger a água implica olhar para o lixo. Reduzir metano significa ganhar tempo, aliviar extremos, salvar mananciais. O Dia Mundial da Água deveria nos lembrar que o futuro não se mede apenas pela vazão dos reservatórios, mas também pelo volume de resíduos que insistimos em ignorar.
Diante de tantos riscos, tanto atraso e tantas vidas impactadas, a pergunta é inevitável e urgente: em nome de quê seguimos aceitando que o lixo dite o futuro da nossa água?
*Monica Prestes, jornalista correspondente na Amazônia e Paula Fernandes, diretora da Uma Gota no Oceano