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Indígenas do novo milênio

Indígenas do novo milênio,indigenous millennium

A chamada Geração Z, nascida e/ou criada neste início milênio, vai pela primeira vez às urnas numa eleição nacional. E com poder de decisão: segundo projeções do IBGE, jovens entre 16 e 24 anos representam 19,2% do total de eleitores potenciais. É uma turma alfabetizada pela linguagem digital, conectada com o mundo. E boa parte dessa galera se preocupa mais com o bem-estar do planeta, é menos consumista e individualista, e valoriza o trabalho colaborativo – porque sacou que tudo está interligado. Ou seja, entende bem os desafios que lhe serão deixados e já pensa em soluções. Cerca de 60 mil indígenas dessa geração terão idade para votar pela primeira vez este ano.

O único representante que os povos tradicionais tiveram em Brasília até hoje foi o cacique Xavante Mário Juruna (1943-2002), deputado federal de 1983 a 1987. Juruna, além de usar um gravador como arma – para registrar o que diziam seus colegas da Câmara –, ficou famoso por ser o primeiro parlamentar a denunciar uma tentativa de suborno. Hoje, os indígenas agora articulam a criação de uma bancada no Congresso Nacional, com representantes de todos os estados. Ela será pluripartidária, pois a causa é comum. Ao mesmo tempo, jovens das mais diversas regiões do país se articulam para ter voz e participação ativas em todo esse processo. Para isso, usam a tecnologia, assim como fez Juruna com seu gravador: a internet os aproximou. O que eles querem? Que mundo sonham em ajudar a construir?

A nova geração, como um todo, sabe que vivemos em rede e que uma atitude individual pode trazer consequências para o todo. Os jovens indígenas entendem que a comunhão entre o ser humano e o meio em que vive é fundamental para a sobrevivência de ambos. Também sabem que para conquistar essa harmonia é preciso pensar e agir coletivamente. Este ensinamento, herdaram dos mais velhos. E, assim como os contemporâneos urbanos, estão ligados com o mundo.

A tecnologia é usada contra os povos indígenas desde os tempos das espadas de metal; nada mais natural de que eles a use a seu favor: há 10 anos, os Suruí, de Rondônia, mantêm uma parceria com Google Earth; em 2013, os Ka’apor começaram a utilizar câmeras para monitorar o seu território, no Alto Turiaçu, no Maranhão; e os Munduruku da Bacia do Tapajós cansaram de esperar pelo governo e decidiram demarcar seu território, a Terra Sawré Muybu, por conta própria, usando aparelhos de GPS, em 2015. No ano passado, as Terras Indígenas entraram para o Google Maps; hoje, os seus limites e fronteiras estão ao alcance do dedo, no celular. Mesmo as aldeias mais isoladas já se conectam com o mundo – e usando energia solar.

Eles estão conquistando a Universidade também: estudantes indígenas são os que menos recebem apoio público; mesmo assim, em menos de sete anos a quantidade de matrículas cresceu mais de cinco vezes. O dado é do Censo da Educação Superior 2017, do Ministério da Educação, que também aponta que o número de indígenas matriculados em instituições públicas e privadas cresceu de 32.147 para 49.026 alunos de 2015 para 2016 – um aumento de 52,5%.

Tsitsina Xavante, graduada em Serviço Social e mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB), é filha de Mário Juruna. Ela faz parte da Rede de Juventude Indígena (Rejuind), que promoveu o primeiro encontro de jovens lideranças no último Acampamento Terra Livre, em abril. A Rejuind foi criada em 2009 com o objetivo de compartilhar informação e facilitar a articulação de jovens indígenas em todo o país, utilizando as novas tecnologias.

Hoje, o jovem indígena não se preocupa exclusivamente com questões ligadas à preservação ambiental, de seus costumes e direitos, mas com pautas comuns à juventude de todo o mundo, como os movimentos feminista e LGBTQ+. Tsitsina sabe que as conquistas de sua geração são consequência direta da luta de seu pai, de Raoni, de Ailton Krenak e de Álvaro Tukano, entre muitos outros – que também começaram jovens.

Graças a eles existem os artigos 231 e 232 da Constituição 1988, que garantem o direito à terra e a políticas públicas. Foi Juruna também quem criou a Comissão Permanente do Índio na Câmara dos Deputados e organizou o 1º Encontro de Lideranças dos Povos Indígenas do Brasil, que reuniu 644 caciques. “Estas lideranças sem nível superior, sem domínio na escrita, sem apoio financeiro de ONGs ou financiamento internacional, ou do Estado brasileiro, unindo-se na diversidade de povos indígenas, conseguiram esse avanço”, diz Tsitsina. “Hoje nós temos jovens formados, mestrados, doutorados, falantes de português com boa escrita, alguns falantes de outros idiomas, mas eu sei que ainda falta algo”.

Este algo pode estar nas urnas.

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