abril 2026 | COP, COP30, Metano, Mudanças Climáticas, Política, poluição, Rios, TAFF
Metano: ponto de partida do Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis
Por Carlos Nobre*
O último relatório da Organização Mundial de Meteorologia (Estado do Clima Global 2025), divulgado recentemente, não deixa margem para dúvidas: vivemos os 11 anos mais quentes da história da humanidade entre 2015 e 2025. Nos últimos três anos o planeta atingiu a marca de 1,5°C de aquecimento acima dos níveis pré-industriais – definida como limite pelo Acordo de Paris.
Para quem estuda o clima há décadas, o que vemos agora não é apenas uma estatística; é a confirmação de inúmeros alertas e previsões que se concretizam por meio do recorde de incêndios, secas e tempestades batendo à nossa porta todos os dias. É neste cenário de urgência que o mundo se volta para Santa Marta, na Colômbia, onde acontece a Conferência do Tratado Internacional de Combustíveis Fósseis, no fim de abril.
Lá, daremos um passo fundamental na construção do TAFF (Transition Acceleration Fossil Fuel), o Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis. Este roteiro, iniciado na COP30 sob liderança do Brasil, ainda está sendo desenhado e passará por diversas etapas e negociações ao longo deste ano. Embora o destino final e os prazos exatos para o abandono do carvão, petróleo e gás ainda não tenham entrado na mesa de negociação, a ciência nos impõe uma condição inegociável: qualquer caminho viável precisa, obrigatoriamente, passar pela redução drástica do metano.
A razão é física. O metano é um gás da família dos superpoluentes que responde por cerca de um terço do aquecimento global atual. Isso porque, embora o gás carbônico (CO2) permaneça na atmosfera por mais de 150 anos, o metano é 80 vezes mais poderoso para reter calor no curto prazo, dissipando-se em cerca de 12 anos. Isso significa que reduzir o metano agora é a única forma de “frear” o aquecimento ainda nesta década, enquanto enfrentamos a transição mais complexa do setor de energia, que responde por 75% das emissões globais. Não é à toa, afinal, que ele recebeu a alcunha de ‘freio de emergência climática’.
Essa urgência na mitigação do metano é reforçada pela instabilidade geopolítica. A guerra dos EUA e Israel no Irã gera o risco real de que países acelerem o uso de fósseis para suprir necessidades imediatas, o que seria um desastre após os recordes de emissões batidos em 2025.
Para oferecer o suporte técnico necessário a esse desafio, lançaremos, em Santa Marta, o Painel Científico para a Transição Energética Global. Esta ferramenta ajudará a otimizar os resultados do TAFF, apontando como eliminar emissões de gases de efeito estufa – entre eles o metano – e transformar sistemas produtivos.
No Brasil, esse olhar para o metano também deve ser minucioso. Precisamos enfrentar as emissões da pecuária — nossa maior fonte de metano — e modernizar urgentemente a gestão de resíduos sólidos nas cidades, setor que é o segundo maior emissor de metano no país. Somado a isso, o fim do desmatamento e a recuperação de biomas são vitais para estancar o desequilíbrio climático e garantir nossa resiliência como potência ambiental.
Não se sabe ainda quantas paradas o Mapa do Caminho do TAFF exigirá, nem quão tortuosa será a diplomacia até o final do ano, quando a presidência brasileira da COP30 deve entregar o plano à presidência da COP31. Mas uma coisa é certa: a mitigação do metano precisa ser a primeira parada obrigatória dessa jornada. Sem priorizar esse superpoluente agora, o Mapa não nos levará a lugar nenhum a tempo de evitar o colapso. Santa Marta é o momento de garantir que o primeiro passo seja dado.
março 2026 | Metano, Mudanças Climáticas, Política, poluição, Rios
Ignorar superpoluente de maior impacto no curto prazo enfraquece o TAFF Roadmap e compromete a chance de estabilizar o clima nas próximas décadas
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Por Henrique Bezerra
A proposta liderada pelo Brasil para construir um Mapa Global da Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, o TAFF Roadmap, inaugura um novo patamar no debate climático internacional. Pela primeira vez, os países começam a enfrentar a pergunta que sempre foi evitada: em que ordem devemos abandonar petróleo, gás e carvão, e com base em quais critérios científicos? Para transformar ambição em ação concreta, é essencial incluir nesse cálculo aquilo que hoje é o fator mais negligenciado e, paradoxalmente, mais poderoso da política climática: o metano (CH4).
Responsável por mais de um terço do aquecimento global, o metano é um superpoluente de vida curta e impacto climático explosivo. Em um horizonte de 20 anos, pode aquecer o planeta cerca de 80 vezes mais que o carbono (CO₂). Mas permanece na atmosfera por pouco mais de uma década, o que significa reduzir suas emissões produz efeitos quase imediatos na desaceleração da temperatura, ou seja: não existe trajetória plausível para manter viva a meta de 1,5°C sem cortes rápidos e profundos do metano, sobretudo no setor de combustíveis fósseis
Esse gás, que deveria ser capturado e aproveitado, escapa da infraestrutura de petróleo e gás em volumes massivos por vazamentos crônicos, queima ineficiente ou ventilação deliberada. E aqui está uma realidade pouco compreendida fora dos círculos técnicos: nem todo combustível fóssil tem a mesma pegada climática. Há campos que operam com perdas mínimas, fruto de tecnologia atualizada, regulação rígida e monitoramento constante. Outros liberam quantidades gigantescas de metano por equipamentos envelhecidos, pressões instáveis do reservatório, ausência de programas de detecção e reparo de vazamentos, falta de manutenção preventiva ou simples inexistência de normas obrigatórias.
Ignorar essa assimetria compromete a credibilidade de qualquer planejamento global de transição. Se queremos um TAFF Roadmap racional e alinhado ao 1,5°C, os ativos com maiores emissões de metano precisam ser os primeiros a sair de operação. É esse tipo de critério técnico, objetivo, transparente e cientificamente embasado que transforma diretrizes diplomáticas em política climática real.
Ao mesmo tempo, os campos remanescentes precisam imediatamente adotar soluções já disponíveis e de baixo custo: programas obrigatórios de detecção e reparo de vazamentos; eliminação da ventilação rotineira; substituição de equipamentos pneumáticos alimentados por gás; captura e aproveitamento do gás associado para evitar flaring; e monitoramento contínuo com sensores e satélites. Em muitos casos, a mitigação é não apenas barata, mas economicamente vantajosa, pois recupera o gás que antes era desperdiçado.
O principal freio de emergência que ainda temos para desacelerar o aquecimento global está na mitigação imediata do metano. Cortes agressivos desse superpoluente nos próximos anos são uma das poucas ações capazes de produzir impacto dentro da janela crítica que ainda resta.
A Conferência de Santa Marta, na Colômbia, no fim de abril, será um momento crucial para consolidar esse entendimento. A articulação com o Acordo Global do Metano — que move países para cortar emissões em todos os setores — pode dar a musculatura necessária para que o desenho do TAFF Roadmap se converta em implementação real. E se o Brasil conseguir harmonizar esses elementos até a COP31, poderá entregar ao mundo algo que ainda não existe: um caminho de transição organizado, transparente e alinhado à ciência.
Henrique Bezerra, especialista em mercado de energia, é líder regional do programa da Global Methane Hub no Brasil.
#freiodeemergênciaclimática
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Foto da ilustração baseada da foto original do Fernando Frazão/Agência Brasil