O tabuleiro mudou. O desafio agora é o equilíbrio.
Editorial
O Brasil chega ao segundo turno diante de uma escolha que não permite indiferença. Em menos de três semanas, as urnas decidirão não apenas quem governará o país pelos próximos quatro anos, mas como o poder será exercido em um momento de profunda vulnerabilidade democrática, social e climática. A mudança expressiva na correlação de forças, especialmente no Senado, amplia a capacidade de pressão sobre o equilíbrio entre os Poderes e sobre decisões cujas consequências ultrapassarão um mandato presidencial. Nesse cenário, a Presidência da República terá uma responsabilidade ainda maior: proteger as referências democráticas e humanitárias do país e manter abertas as pontes entre desenvolvimento, justiça social, direitos, diversidade e interesse público.
Se experiência administrativa, currículo e realizações de governo explicassem sozinhos o comportamento do eleitorado, muitos resultados teriam sido diferentes. O principal recado das urnas parece ser outro: as pessoas não votam apenas em fatos. Votam naquilo em que acreditam, no que desejam preservar, no que esperam conquistar e no futuro em que conseguem se reconhecer.
O linguista e cientista cognitivo norte-americano George Lakoff dedicou décadas a estudar esse fenômeno. Sua conclusão é simples: interpretamos a realidade por meio de valores e referências culturais. Antes de concordar com uma proposta, precisamos encontrar nela algo que dialogue com a história que contamos sobre quem somos, o que valorizamos e para onde desejamos ir.
É isso que ajuda a explicar a perplexidade depois do primeiro turno. Indicadores, programas de governo, desempenho econômico e estratégias de campanha importam, mas não dão conta, sozinhos, do resultado. A política também é uma disputa pelo imaginário: uma disputa entre diferentes histórias sobre o país e diferentes visões de futuro. Uma sociedade não se move apenas porque reconhece bons resultados. Move-se quando consegue se enxergar na proposta de amanhã em que ela se enxergue feliz.
O Brasil já foi capaz de construir um horizonte comum dessa natureza. Ao sair de duas décadas de ditadura, a Constituição de 1988 reuniu dignidade humana, cidadania, pluralismo, justiça social, direitos dos povos indígenas e proteção ambiental em um projeto democrático. Mais do que reorganizar o Estado, ajudou o país a imaginar que poderia ser mais justo, diverso e inclusivo. Muitas de suas promessas permanecem incompletas, mas foi esse sonho coletivo que abriu caminhos antes impensáveis.
É desse sonho que emerge Sonia Guajajara. A presença de uma mulher indígena no centro das decisões nacionais é uma das realizações mais concretas da Constituição Cidadã. Mas Sonia Guajajara não apenas materializa o horizonte de 1988. Ao ocupar esse espaço, atualiza, amplia e devolve aquele sonho ao país como uma nova visão de futuro.
Sonia Guajajara parte da experiência dos povos indígenas, mas não permanece confinada a ela. Ao levar água, clima, biodiversidade, soberania, democracia e qualidade de vida para o centro do debate, transforma uma vivência particular em projeto coletivo. Faz da defesa dos territórios uma reflexão sobre o futuro das cidades; da proteção da floresta, uma questão de segurança hídrica, climática e da cultura a chave para imaginar o amanhã.
Nessa perspectiva, a prosperidade e preservação deixam de ser adversárias. O desenvolvimento não se mede apenas pelo que conseguimos extrair do presente, e o futuro deixa de ser uma conta empurrada para quem ainda não nasceu. A emergência climática torna essa visão não apenas desejável, mas indispensável. Não existe resposta individual para a falta de água, o calor extremo, as enchentes ou a degradação dos ecossistemas. O clima, a água e a biodiversidade pertencem à esfera do bem comum: todos dependem deles, ninguém consegue preservá-los sozinho.
Essa visão também oferece uma resposta à polarização. A experiência indígena ensina que a interdependência não é fragilidade, mas condição de sobrevivência. Viver em sociedade exige negociar diferenças, preservar vínculos e sustentar compromissos que ultrapassam os interesses individuais. Nenhuma sociedade se mantém apenas pela imposição e pelo confronto.
É por isso que esta escolha importa. Os fatos podem perder espaço nas disputas políticas, mas a realidade se impõe. O El Niño já está entre nós, e as mudanças climáticas exigem políticas pautadas na ciência. O voto não define apenas quem ocupará um cargo, mas quem tomará essas decisões quando o país precisar proteger vidas, responder a emergências e preparar o futuro. Pode ser a diferença entre prevenir e remediar, cuidar e abandonar, salvar vidas e colocá-las em risco.
O Brasil já sabe o custo de ignorar os fatos. Há poucos anos, mais de 700 mil brasileiros perderam a vida quando a desinformação, a negligência e o desprezo pelas evidências cobraram seu preço mais alto. A emergência climática é a nova pandemia: não espera consenso nem respeita fronteiras. E, quanto maior a demora em agir, maior o preço pago pela sociedade. Estamos diante de um novo teste.
A pergunta é simples: aprendemos a lição?