O que os novos eventos extremos no Rio Grande do Sul revelam sobre o desafio que lideranças públicas e sociedade precisarão enfrentar.
Enquanto Porto Alegre se prepara para receber a Semana do Clima de 2026, o Rio Grande do Sul volta a enfrentar os efeitos dos eventos extremos. Neste mês de julho, um novo temporal atingiu municípios gaúchos, entre eles Eldorado do Sul, uma das cidades mais devastadas pelas enchentes de 2024. Ainda em processo de reconstrução, famílias voltaram a enfrentar alagamentos, prejuízos e insegurança. Em Canoas, ventos intensos arrancaram telhados e provocaram novos danos.
As imagens são um lembrete incômodo de que aquilo que parecia uma tragédia recente continua fazendo parte do presente.
Em 2024, o Rio Grande do Sul viveu uma das maiores catástrofes de sua história. As enchentes afetaram 6,3 milhões de pessoas, destruíram 2,3 milhões de domicílios e deixaram 185 mortos e 23 desaparecidos. Das 497 cidades gaúchas, 478 foram atingidas. Mais do que números, essa experiência revelou a vulnerabilidade de nossas cidades diante de uma realidade climática que já não pode ser tratada como um problema do futuro.
Essa situação não ocorreu por acaso. Ela resulta do encontro entre um planeta em aquecimento e estruturas urbanas, econômicas e institucionais que ainda não acompanharam a velocidade das transformações em curso. O desafio que se impõe é claro: adaptar-se aos impactos já inevitáveis e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões que alimentam a crise.
Mas o Rio Grande do Sul também possui uma tradição que inspira respostas. Foi aqui que nomes como Padre Rambo, Henrique Roessler e José Lutzenberger ajudaram a construir algumas das bases do ambientalismo brasileiro. Esse legado de conhecimento, participação social e mobilização continua vivo em universidades, organizações da sociedade civil, empresas e comunidades que hoje buscam caminhos para enfrentar os desafios do nosso tempo.
Adaptar cidades deixou de ser uma escolha; tornou-se uma necessidade. Isso significa fortalecer sistemas de alerta, qualificar a defesa civil, revisar políticas de ocupação do território e preparar respostas antes e não depois das emergências.
Ao mesmo tempo, a adaptação não substitui a mitigação. Reduzir as emissões de gases de efeito estufa continua sendo essencial para limitar o agravamento da crise. Entre as medidas mais eficazes está a redução das emissões de metano, responsável por cerca de um terço do aquecimento global observado até hoje. Combater esse superpoluente é uma das formas mais rápidas de desacelerar o aumento da temperatura ainda nesta década.
É também um exemplo de como a ação climática pode caminhar lado a lado com o desenvolvimento econômico. Durante a Semana do Clima de Porto Alegre, a Uma Gota no Oceano promoverá o painel “Menos Metano, Mais Futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz”, reunindo a pesquisadora do Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA), Mara Grohs; o engenheiro agrônomo Edivane Portela, referência em produção de arroz orgânico e de base ecológica; e Gabriel Quintana, coordenador da Iniciativa de Ciência do Clima do Imaflora.
O debate discutirá como a agricultura gaúcha pode reduzir emissões sem renunciar à produtividade, à competitividade e à segurança alimentar. Em um estado responsável por cerca de 70% da produção nacional de arroz, falar de clima também significa falar de desenvolvimento, inovação e futuro.
É nesse contexto que a Semana do Clima de Porto Alegre ganha relevância. Durante uma semana, representantes de governos, empresas, universidades, organizações da sociedade civil e organismos internacionais estarão reunidos para discutir soluções capazes de fortalecer a resiliência das comunidades e acelerar a transição para uma economia de baixo carbono.
Porque não existem mais crises climáticas isoladas. Assim como o desmatamento da Amazônia influencia o regime de chuvas em diferentes partes do país, os eventos extremos que atingem o Rio Grande do Sul são um alerta para todo o Brasil. O clima conecta territórios, economias e destinos.
A Semana do Clima acontece justamente nesse cruzamento entre experiência e oportunidade. Enquanto pesquisadores, gestores públicos, empresas e organizações buscam respostas para os desafios do século XXI, famílias em municípios como Eldorado do Sul ainda tentam reconstruir suas vidas pela segunda vez em pouco mais de dois anos. É dessa proximidade entre conhecimento e realidade, entre ciência e experiência, que podem surgir as soluções mais concretas para o futuro.
Mas a experiência recente também deixa uma provocação inevitável. Se a crise climática já interfere na produção de alimentos, na infraestrutura das cidades, na economia e na segurança das pessoas, por que esse tema ainda ocupa tão pouco espaço no debate público e nas campanhas eleitorais?
Nos próximos anos, será cada vez mais difícil avaliar lideranças apenas pelas promessas que fazem. Será preciso observar também como compreendem os riscos climáticos, quais soluções apresentam para proteger a população e que prioridades estabelecem para preparar o país para um futuro mais resiliente.
O clima deixou de ser um tema de especialistas. Tornou-se uma questão central para a vida de todos nós. E talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer a quem governa, ou pretende governar, seja simples: está preparado para enfrentar o maior desafio do nosso tempo?
Serviço:
Painel: “Menos Metano, Mais Futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz”
Quando: terça-feira (21), das 11h30 às 12h30
Local: Teatro Oficina Olga Reverbel, no Complexo Multipalco Eva Sopher, junto ao Theatro São Pedro, no centro da capital
Entrada gratuita