O metano pode ser a medida da cooperação global nesta década
Em 1987, ainda na Guerra Fria, representantes de 46 países reuniram-se em Montreal no Canadá, num momento de rara convergência. Cientistas haviam demonstrado que certos gases sintéticos destruíam a camada de ozônio, e o mundo precisava agir antes que o colapso fosse irreversível. O Protocolo de Montreal não nasceu do otimismo, nasceu de três condições simultâneas: clareza científica, soluções disponíveis e a disposição de cooperar acima de rivalidades econômicas e diferenças ideológicas. Quase quatro décadas depois, a camada de ozônio se recupera. Foi o maior sucesso do multilateralismo ambiental moderno, e a prova de que a cooperação internacional, quando ancorada em evidência e urgência real, é capaz de reverter trajetórias que pareciam irreversíveis.
Hoje, o mundo tem uma janela semelhante. Desta vez, o desafio atende pelo nome de metano, (CH₄).
O metano responde por cerca de 30% do aquecimento global, com potencial de aquecimento até 80 vezes superior ao dióxido de carbono (CO₂). Suas emissões estão distribuídas por atividades centrais da economia: agropecuária, resíduos, produção de energia… e, apesar disso, continua sendo um personagem secundário no debate público e raramente aparece no noticiário. Brasil, China, Estados Unidos e Índia estão entre os maiores emissores de metano do planeta. Essa concentração de responsabilidade em poucos países é, ao mesmo tempo, um obstáculo e uma oportunidade para a cooperação internacional: se esses quatro atores agirem de forma coordenada, cada tonelada capturada produz alívio climático imediato e mensurável.
A boa notícia é que as soluções já existem e, em muitos casos, estão disponíveis em escala. A má notícia é que nenhuma delas prospera isoladamente. Todas exigem o que apenas a cooperação entre governos, cooperação internacional, setor privado, ciência e sociedade civil consegue construir: financiamento, transferência tecnológica e mercados capazes de transformar conhecimento em ação, reduzir emissões, gerar valor e converter desafios climáticos em oportunidades de desenvolvimento.
O metano reúne características raras na agenda climática contemporânea, e pode ser um dos mais promissores vetores de recomposição do multilateralismo climático. Mas seu potencial não se realiza automaticamente. Não apenas porque reduz emissões, mas porque oferece algo de que a cooperação internacional necessita para se sustentar: resultados mensuráveis, verificáveis e rápidos o suficiente para gerar confiança política. Em um cenário marcado por disputas geopolíticas crescentes, a cooperação se fortalece quando os benefícios da ação coletiva podem ser observados, medidos e compartilhados. É essa capacidade de transformar compromissos diplomáticos em resultados concretos que mantém países engajados mesmo quando divergem em quase todo o resto.
Eis o teste decisivo. A credibilidade da cooperação climática não será medida pelo número de compromissos anunciados, e sim pela capacidade de transformá-los em resultados. Há um obstáculo que o avanço institucional, sozinho, não resolve: o abismo entre compromisso e implementação. Países assinam pledges (compromissos). Metas são declaradas. E o metano continua escapando dos aterros, das tubulações da cadeia de produção de petróleo e gás e dos ruminantes da pecuária, na mesma velocidade. O desafio já não está em reconhecer o problema. Está em produzir resultados compatíveis com a escala e a urgência da crise. Porque a mudança do clima deixou de ser apenas uma questão ambiental. Em outras palavras, é também de segurança nacional. Alerta à capacidade dos países de proteger seus territórios, sustentar suas economias e preservar sua autonomia em um mundo cada vez mais marcado por riscos climáticos. O desafio colocado diante do Brasil é, portanto, maior do que reduzir emissões. É demonstrar que uma agenda climática pode gerar resultados concretos, produzir desenvolvimento, fortalecer cadeias econômicas historicamente desconectadas e ampliar a resiliência estratégica do país diante das transformações do século XXI.
É nesse contexto que o Fórum Metano: Freio de Emergência Climática se insere. Realizado no dia 3 de junho, durante a Rio Nature & Climate Week, não é um espaço de consenso fácil, e é precisamente por isso que importa. Governos, setor privado, terceiro setor, sociedade civil e instituições de pesquisa estarão reunidos não para discutir cenários, mas para enfrentar uma pergunta imediata: se sabemos onde estão as emissões, conhecemos as soluções e dispomos das tecnologias, por que ainda não estamos avançando na velocidade necessária?
A mesa de encerramento do Fórum é, ela própria, uma declaração sobre o estado da agenda climática global. Marina Silva é a referência que atravessou décadas de tensão entre desenvolvimento e preservação dentro do próprio Estado brasileiro, tornando-se símbolo internacional, por persistência numa agenda que o país demorou a levar a sério. Sônia Guajajara construiu sua trajetória nas trincheiras entre direitos territoriais, soberania dos povos e sustentabilidade, e chegou ao Congresso Nacional como voz de territórios que estão na linha de frente da crise climática antes mesmo de ela ter nome. Ana Toni carrega a responsabilidade de traduzir em realidade os compromissos assumidos na COP30, a conferência que o Brasil sediou e que recolocou o país no centro da diplomacia climática internacional. Esta convergência carrega um simbolismo próprio. Ela reúne elementos sem os quais nenhum desafio planetário pode ser enfrentado: a experiência dos territórios onde a crise já é realidade, a capacidade institucional de transformar decisões em políticas públicas e a cooperação internacional necessária para coordenar interesses e acelerar soluções.
A história mostra que grandes avanços climáticos não acontecem quando territórios, instituições e diplomacia caminham separados. Eles acontecem quando essas forças operam na mesma direção. Foi assim com o Protocolo de Montreal, em 1987. Quase quatro décadas depois, a lógica permanece a mesma.
O metano não resolverá sozinho a crise climática. Mas oferece algo que raramente aparece na política internacional: a possibilidade de transformar conhecimento consolidado em resultados visíveis dentro de uma mesma geração. E resultados importam. Calendários eleitorais mudam. Mandatos terminam. A física da atmosfera não espera que estejamos prontos.
A pergunta já não é se sabemos o que fazer. A pergunta é se teremos, como em Montreal, a capacidade de agir antes que a janela se feche. Porque a história raramente se lembra daqueles que assistiram às transformações da arquibancada. Ela costuma se lembrar de quem reconheceu, a tempo, que o momento de agir já havia chegado. Não por acaso, o Fórum Freio de Emergência Climática se encerra com quem passou a vida inteira recusando a espera.