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Lições de guerra

2 de março de 2022

Uma das maiores riquezas do Brasil – corremos o risco de perdê-la também, mas essa é outra história – é a sua tradição diplomática, que privilegia a paz, o debate e o bom senso. Ela não vem de ontem, mas dos tempos do imperador. Infelizmente, isso não nos torna capazes de impedir guerras – a irracionalidade é indomável – e, muito menos, imunes às suas consequências, por mais longe que aconteçam. Porém, podemos aprender algo com elas. Mal foram disparados os primeiros tiros entre russos e ucranianos, as manchetes já estampavam que o barril de petróleo tinha atingido o seu maior preço desde 2014. Lição número 2 – a primeira, evidentemente, é faça amor, não faça guerra: nunca ponha todos os ovos na mesma cesta. Ou seja, não aposte numa única matriz energética.

No Brasil, 57,5% da eletricidade vem das hidrelétricas. Já foi bem mais, só que veio a crise hídrica – causada por nós mesmos, diga-se de passagem – e o que parecia uma fonte inesgotável começou a secar. É preciso diversificar e os investimentos em energias solar e eólica vêm crescendo, é verdade; deveria ser bem mais, entretanto. Sol e vento são de graça, mas o atual governo teima em continuar a gastar nosso dinheiro com termelétricas movidas a combustíveis fósseis, que estão ficando cada vez mais caros – o que já vinha acontecendo antes de russos e ucranianos chegarem às vias de fato. Perdemos o meio ambiente e nós, duas vezes: vemos o dinheiro de nossos impostos ser queimado e a conta de luz disparar.

Lembram-se quando começou a pandemia da Covid-19 e faltaram máscaras no mercado? A guerra contra o coronavírus tem uma semelhança com a que ora castiga a Europa nesse sentido. Assim como a China havia monopolizado o mercado de material hospitalar, hoje os europeus têm que ficar pianinho com Putin, ou entram numa fria. Eles são totalmente dependentes do gás que vem da Rússia para aquecerem seus lares no inverno – por ironia, a mesma estação que ajudou o país a derrotar Napoleão e Hitler. Lição número 3: há setores que não devem ser terceirizados, pois são estratégicos para a soberania nacional.

No último dia 22, os acionistas deram o seu aval para a privatização da Eletrobras. É como entregar a chave de casa para um estranho. Haja confiança. Há duas semanas, tivemos uma notícia bastante desagradável relacionada a outro setor estratégico: a Changi, uma empresa de Cingapura, simplesmente desistiu de administrar o Aeroporto Internacional Tom Jobim, vulgo Galeão, oito anos depois de ganhar o leilão de sua concessão. A razão alegada foi que o negócio estava dando prejuízo.

Os aeroportos do Nordeste foram privatizados em 2019. Quem dá as cartas agora é a empresa espanhola Aena, uma estatal, vejam só. Todo mundo gosta do Brasil, mas, sabem como é, nunca se sabe o dia de amanhã. Vai que a empresa é arrematada por uma estatal de outro país e a gente acabe se estranhando? Ficaremos totalmente à sua mercê: basta tirar a tomada. Em nome de que correr um risco desses?

Tem outro caso emblemático, que envolve diretamente a guerra em curso, nos aproxima dos europeus e que pode afetar gravemente a menina dos olhos do governo, o agronegócio. O país importa 85% dos fertilizantes que consome, sendo que em janeiro a Rússia respondeu por 30,1% deste total. Mal foram iniciadas as hostilidades, o preço de suas principais matérias-primas, a ureia e o fósforo, aumentaram 42% e 16%, respectivamente. E o Brasil pensa em abrir mão do controle de uma de suas jóias da coroa, uma companhia do ramo que, assim como a Embraer – cuja venda melou, por sinal – é referência no exterior e que também deveria ser considerada estratégica a essa altura do campeonato, a Embrapa. E se ela for parar nas mãos da concorrência?

Justo agora que o mundo precisa mais do que nunca investir em produção de alimentos de forma sustentável? Quando teríamos a chance de nos tornar os bambambãs do pedaço na área, a gente vai entregar o ouro? No meio de tanta incerteza? O patrão ficou maluco?

 

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