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Lavar as mãos com água suja

Lavar as mãos com água suja

Bastou a gente demonstrar um pingo de bom senso para sermos eleitos os novos salvadores da pátria – melhor dizendo, do mundo. Foi só o governo tomar medidas óbvias, como retomar o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), criar um ministério para os povos originários e lhes entregar o comando da Funai para que uns e outros acreditassem que resolveríamos nosso sufoco ambiental sozinhos. Se esqueceram que boa parte dos problemas que enfrentamos na área têm cúmplices fora de nossas fronteiras.

O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) da ONU vem sendo tratado há anos como aquele profeta de rua que caminha carregando um cartaz escrito “O fim do mundo está próximo”; ninguém parece lhe dar bola. A cada ano ele lança um relatório mais apocalíptico que o outro, porque nenhuma ação efetiva é tomada. O deste ano, divulgado no último dia 20, é de arrepiar as sobrancelhas: temos até 2030 para reduzir pela metade as emissões por queima de combustíveis fósseis, ou vamos encarar uma elevação de 3°C na temperatura média global até o fim do século. Tá tranquilo por que até lá já terá desencarnado? Pois lembre-se que esse aumento será gradual, um verão mais sufocante que o outro. 

Com 2ºC a mais na temperatura média do planeta, 99% dos recifes de coral vão ouvir a Marcha Fúnebre de Chopin; chuvas fortes, que costumavam cair uma vez por década, já são 30% mais comuns e, com 3°C de aquecimento, vão desabar até três vezes a cada dez anos. A continuar essa insanidade, as secas serão quatro vezes mais frequentes e as ondas de calor, quase três. Isso sem falar de outros fenômenos climáticos extremos, como a temporada de furacões que varrem o Atlântico Norte. Nostradamus era um otimista perto disso.  

Quando em campanha, o presidente Joe Biden prometeu mundos e fundos. Mas já descumpriu a promessa de proibir “novas licenças de petróleo e gás em terras e águas públicas”: ele acaba de liberar novas explorações no Alasca. Christy Goldfuss, que foi diretora executiva do Conselho de Qualidade Ambiental do governo Obama e hoje é diretora de impacto de políticas da ONG internacional Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, calcula que, em 30 anos de concessão, o chamado Projeto Willow deve emitir 239 milhões de toneladas de gases do efeito estufa: “Essa decisão é ruim para o clima, ruim para o meio ambiente e para as comunidades da população nativa do Alasca, que eram contrárias a isso, e sentem que suas vozes não foram ouvidas”.

A boa notícia é que ainda dá para adiar o fim do mundo; mas, para isso, os países mais ricos e que mais contribuem com as mudanças climáticas precisam realmente fazer a sua parte. E isso vai exigir meter a mão no bolso. Tirar pessoas de zonas de risco é uma prioridade. “Temos que reduzir as emissões em 50% até 2030 e 100% até 2050, e isso é possível com a tecnologia que a gente tem hoje”, afirma o físico Paulo Artaxo, professor da USP e membro do IPCC, entre dezenas de outras credenciais. “Há cerca de 3,5 bilhões de pessoas que vivem em condições extremamente vulneráreis, como vimos recentemente em São Sebastião. Essas populações têm 15 vezes mais chances de morrerem devido a eventos climáticos extremos”, conclui.

Ninguém tem tanto conhecimento como os povos originários para preservar a Amazônia; também não há dúvidas sobre a importância da maior floresta tropical do planeta para a regulação do clima global. Logo, protegê-los é outra prioridade. Todos se sensibilizaram com as condições desumanas a que os Yanomami vinham sendo submetidos; mas muitos dos que emitiram notas de repúdio são parte do problema. 

Segundo um relatório do Instituto Escolhas, divulgado no mês passado, metade do ouro comercializado pelo Brasil entre 2015 e 2020 foi extraído de terras indígenas. Os principais compradores são empresas do Canadá (42%), Suíça (20%) e Reino Unido (11%). “Esse ouro chega aqui na Suíça cheio de sangue. O Estado brasileiro é culpado pelas mortes que ocorrem em nossos territórios, e vocês que compram também são”, desabafou Maria Leusa Munduruku, presidente da Associação de Mulheres Munduruku Wakoborũn, em visita ao país. 

No dia 2 de fevereiro, a Comissão Europeia aprovou novas regras que diminuem os níveis permitidos de resíduos de dois agrotóxicos em alimentos: a clotianidina e o tiametoxam, substâncias mortais para as abelhas e usadas pelo Brasil, um dos principais exportadores de comida para a Europa. E o fizeram como se eles não tivessem nada a ver com isso. Essas substâncias são proibidas naquele continente desde 2018, mas os europeus continuam a fabricá-los e exportá-los. O “Atlas dos Pesticidas 2022”, produzido pela Fundação Heinrich Böll, registra que o uso de pesticidas no mundo aumentou 80% desde 1990. Pode ser coincidência, mas daquele ano até 2019, houve 75% a mais de mortes causadas pelo câncer.

Os maiores fabricantes de pesticidas do planeta são Syngenta (Suíça/China), Bayer e BASF (Alemanha). O Brasil compra a maior parte de seu veneno deles. “Em 2019 estiveram entre eles pelo menos 14 ingredientes ativos altamente perigosos que não são mais permitidos na União Europeia”, diz o texto. Foram proibidos por causarem efeitos neurológicos e prejudicarem a função sexual e a fertilidade, mas ainda são livremente comercializados no Brasil. Segundo o Atlas, o fato de a legislação brasileira ser excessivamente tolerante é a principal causa desse absurdo. OK, a gente assume a nossa parcela de culpa. Mas não seria mais fácil proibir a fabricação dessas substâncias? Assim, o problema seria resolvido de vez.

Enquanto o mundo não entra nessa luta pra valer, o mínimo que um país candidato a retomar a liderança global no enfrentamento à crise do clima precisa fazer é o dever de casa. A Frente Parlamentar Agropecuária – nome da fantasia da bancada ruralista – mantém seu apetite insaciável e conta com mais de 300 representantes no Congresso Federal. Eles já deixaram claro que vão defender bandeiras como o PL do Veneno e o PL 191, que abre terras indígenas para o agronegócio e a mineração, e barrar iniciativas como Projeto de Lei 2159/22, de Joênia Wapichana, que cria regras para rastrear a comercialização e o transporte de ouro no país. 

A luta contra o desmatamento e o uso abusivo de agrotóxicos vai ser dura. Da mesma forma, combater o garimpo ilegal se torna uma tarefa ainda mais árdua quando a freguesia é grande. Não temos como vencer essa batalha sozinhos, e uma forcinha do resto do mundo cairia bem. Nosso futuro depende de a própria Humanidade perceber que, além da união dos povos em torno de metas sustentáveis e belos discursos, precisamos de ação efetiva sem pensar nos ganhos, mas sim nas perdas e danos. Afinal, o planeta é mais importante do que qualquer empresa ou país. É desse tipo de cumplicidade que precisamos.

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