A gota d’água de Belo Monte

A gota d’água de Belo Monte

Há mais de seis anos a gente vem batendo nessa tecla: a corrupção é insustentável. Em 15 de novembro de 2011, foi lançado um vídeo-manifesto, É a Gota D’Água + 10, questionando a maior obra do Programa de Aceleramento do Crescimento (PAC) do governo brasileiro: a Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. O monstrengo já custou mais de R$ 30 bilhões e sempre teve sua eficiência e os seus relatórios de impactos socioambientais questionados por especialistas. O Xingu é um rio de grandes variações e durante oito meses por ano praticamente seca. Ele também guarda as maiores diversidades biológica e social da Amazônia. Em uma semana, a campanha reuniu mais de um milhão de assinaturas e entrou para história da Internet. Fomos atacados por todos os lados, acusados de querermos brecar o desenvolvimento do país. Mas o tempo, senhor da razão, mostrou que estávamos certos: a conta dos prejuízos causados pela usina ainda não fecharam. 

Hoje (9/3), a pedido do Ministério Público Federal (MPF), a Justiça Federal no Paraná expediu mandados de busca e apreensão em Curitiba e São Paulo, com o objetivo de aprofundar as investigações sobre o pagamento de propina na obra. Batizada Buona Sorte pela Polícia Federal, a operação faz parte da 49ª (não perca as contas) fase da Lava-Jato. A construção de Belo Monte começou a ser planejada ainda nos anos 1970, durante a ditadura militar. O PT o tirou do papel a fórceps, graças a um dispositivo muito usado pelos generais, a “suspensão de segurança”, o que levou o Brasil a ser denunciado na Organização dos Estados Americanos (OEA). E o principal alvo da Buona Sorte, coincidentemente, é outro personagem daquela época sombria, o ex-ministro Antônio Delfim Netto, que teria embolsado R$ 15 milhões. Belo Monte parece ter sido construída para gerar corrupção, e não energia.

A operação se baseia em fortes indícios de que o consórcio Norte Energia foi indevidamente favorecido para vencer o leilão destinado à concessão da usina. As provas recolhidas indicam que o Delfim recebeu 10% do percentual pago pelas construtoras Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Odebrecht, OAS e J. Malucelli, enquanto o restante da propina foi dividido entre o PMDB e o PT, ficando 45% para cada partido. Para a procuradora da República Jerusa Burmann Viecili, integrante da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, “as provas indicam que o complexo esquema criminoso verificado no âmbito da Petrobras se expandiu pelo país e alcançou também a Eletrobrás, em especial nos negócios relativos à concessão e construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Essa obra, além de ter ocasionado graves impactos sociais e ambientais na região que já haviam sido demonstrados pelo Ministério Público Federal, também redundou em elevados prejuízos econômicos para toda sociedade”.

Que belo papelão. Nossos rios são nossa maior riqueza: em nome de que permitimos absurdos desse tipo? De 18 a 23 deste mês, acontece em Brasília o 8º Fórum Mundial da Água. Será a primeira vez que o evento será realizados num país do Hemisfério Sul. Paralelamente, a mesma cidade receberá o Fórum Alternativo Mundial da Água 2018 (Fama). Vamos aproveitar a ocasião para conversarmos mais sobre isso? Uma Gota no Oceano e entidades parceiras estão lançando, junto com o diretor Luiz Fernando Carvalho, a campanha Em Nome de Quê? pensando nisso. Em breve a gente dá mais detalhes.

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