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Refugiados do clima e do descaso

20 de junho de 2017

Segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), o número de refugiados e deslocados no mundo atingiu 65,6 milhões de pessoas no ano passado, um crescimento de 300 mil na comparação com 2015 (saiba mais aqui). Por trás de cada refugiado geralmente há um ato de violência, direto ou indireto. E ele não precisa estar fugindo de conflitos armados. Hoje, pode-se dizer isso, inclusive, de vítimas de catástrofes naturais. O descaso com o meio ambiente é uma forma de violência – e das mais destrutivas.

Hoje é o Dia Mundial do Refugiado, dia para a gente se lembrar que atualmente as mudanças climáticas estão entre as maiores responsáveis pelos fluxos migratórios. Em 2014, calcula-se que houve 19,3 milhões de refugiados climáticos no mundo, conforme o último relatório do Centro de Monitoramento de Deslocados Internos (IDMC). Já a Acnur estima que serão aproximadamente 250 milhões até o fim do século. O ano de 2016 foi o mais quente da História e caso a temperatura do planeta continue a subir, o número de fenômenos climáticos extremos crescerá no mesmo ritmo: foram registrados 750 em 2016, contra uma média de 590 casos nos últimos dez anos. 

A política desenvolvimentista adotada há cerca de uma década no Brasil, aliada à negligência e à ganância, gerou dois casos emblemáticos de refugiados socioambientais, que são refugiados em seu próprio país. A exploração desmedida de nossos recursos naturais causou a tragédia de Mariana e abandonou à própria sorte a população da região do entorno da Usina de Belo Monte. A área inundada para encher o reservatório da hidrelétrica foi de 500 quilômetros quadrados, o tamanho da cidade de Curitiba. Com a inundação, cerca de 10 mil famílias do município de Altamira tiveram que deixar para sempre suas casas, que muitas vezes abrigaram gerações. O número de indígenas afetados direta ou indiretamente na região chega a 20 mil. O vazamento da barragem de Samarco/Vale que matou o Rio Doce deixou 303 famílias desalojadas.

Essas pessoas não perderam somente suas casas, mas também suas identidades culturais – no caso dos povos indígenas, dá para se falar em etnocídio. E caso nada seja feito, casos como estes podem se tornar comuns. Só ao longo do Rio Amazonas há 140 barragens em funcionamento ou em construção e outras 428 estão planejadas. E a qualquer momento pode ser aprovado no Congresso o Projeto de Lei que flexibiliza as regras do licenciamento ambiental. A licença de instalação da mineradora canadense Belo Sun à beira do Xingu no momento está suspensa, mas a decisão pode ser revertida; até hoje, a Samarco/Vale sequer pagou um centavo dos R$ 344,8 milhões em multas aplicadas pelo Ibama, que autuou a empresa 23 vezes. Imaginem o que está por vir. Por isso é preciso resistir e reagir.  

Foto: Getty Image