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Nem tudo que reluz vale ouro

20 de fevereiro de 2018

O verde vale mais do que o ouro. O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo e essa é a sua maior riqueza. Mas o garimpo ilegal avança sobre a Amazônia, levando destruição à floresta. Com o Ibama cada vez mais enfraquecido, os Munduruku lutam praticamente sozinhos para deter os invasores. Os da aldeia PV, agora extinta, capitularam; mas a turma do Movimento Ipereg Ayu ainda resiste, tentando salvar o Rio da Tropa e a Floresta Nacional do Crepori. “Acabou o peixe. Estamos há quatro anos sem usar a água do rio”, diz a vice-cacique Iraneide Saw, 29, da aldeia, a Caroçal, que é agora abastecida por um poço artesiano.

A febre do ouro também atinge o ser humano por vias indiretas – e não falamos apenas da poluição dos mananciais d’água e do desmatamento, que pode levar a alterações climáticas. Existem cerca de 14.000 espécies de plantas e 163 de anfíbios na Amazônia. Não é de hoje que os povos indígenas conhecem as propriedades terapêuticas de várias delas, que vêm sendo comprovadas pela ciência pariwat – como os Munduruku chamam os não-índios.

O veneno da rã-kambo, por exemplo, pode ser uma arma eficaz contra as chamadas superbactérias; o jucá tem se mostrado eficiente no tratamento da leishmaniose; a unha de gato, que já é utilizada no tratamento de doenças como a artrite, também pode amenizar os sintomas de pacientes em estágio avançado de câncer; do jaborandi se extraem os sais de pilocarpina, usados contra o glaucoma; e a Universidade Federal do Pará estuda o uso do camapu contra o Mal de Alzheimer.

Os ecossistemas amazônicos são muito delicados, e o sumiço de uma única espécie endêmica pode causar uma extinção em massa. Numa dessas, podemos perder a cura para várias doenças. Esse tesouro não vale mais do que o vil metal? O governo não parece levar muita fé nisso. De 2016 para 2017, o Ministério do Meio Ambiente perdeu 43% do seu orçamento – ou R$ 335,5 milhões. Isso prejudica sobremaneira o trabalho de fiscalização de órgãos como o Ibama e o ICMBio, o que tem deixado ainda mais assanhados os garimpeiros.

Em outubro do ano passado, eles chegaram a atacar instalações das instituições, em retaliação à a operação Ouro Fino, realizada pelas duas contra a extração ilegal do minério no Rio Madeira, numa área de proteção ambiental. “Às vezes, a gente tira 15, 20 gramas para gastar com cachaça e prostituição. Isso eu digo vivenciado”, diz o garimpeiro Barbudo, que atua no Rio da Tropa. Tanta devastação em troca disso? Pelo jeito, ainda precisamos aprender a dar o real valor às coisas.

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