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Não era só uma cachoeira

27 de outubro de 2021

No último dia 25, às vésperas do início da COP 26, os ministros da Economia e do Meio Ambiente lançaram o seu Programa Nacional de Crescimento Verde. Genérico até dizer chega, com pinta de dever escolar feito na última hora, ele teria como principal objetivo “aliar redução das emissões de carbono, conservação de florestas e uso racional de recursos naturais com geração de emprego verde e crescimento econômico”. Como será posto em prática? “Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar” (Pagodinho, Zeca).

Para azar da dupla, no dia seguinte, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) soltou um relatório que aponta o Brasil como o país do G-20 que mais regrediu em suas metas para reduzir emissões de CO₂. E, poucos dias antes, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) havia divulgado os dados sobre o desmatamento em setembro na maior floresta tropical do mundo: 1.224 km² de verde sumiram, a pior taxa para o mês nos últimos 10 anos – o volume acumulado de 2021 alcançou 8.939 km², quase 40% a mais do que no mesmo período em 2020 e o maior índice desde 2012. Não há como engabelar dona realidade.

A cascata não é exclusividade do governo atual: “Disseram para a gente que (a hidrelétrica de) Belo Monte seria só uma cachoeira”, lembra Juma Xipaia, cacica de uma aldeia nas cercanias de Altamira, no Pará, a cidade mais prejudicada pela obra. Parece que foi ontem – pois os erros se repetem em looping, mesmo com as mudanças na Presidência –, mas se vão 10 anos desde que um grupo de artistas, jornalistas, ativistas e cientistas se juntaram à luta dos povos do Xingu contra a construção da hidrelétrica, que já durava boas três décadas.

Em 15 de novembro de 2011, o Movimento Gota D’Água, que daria origem a Uma Gota no Oceano, lançou um vídeo-manifesto estrelado por atores como Marcos Palmeira, Dira Paes, Guilhermina Guinle, Isis Valverde, Eriberto Leão e Cissa Guimarães, entre outros. A campanha, que provocava a população a questionar o uso de uma fortuna em dinheiro público numa iniciativa tão controversa, angariou mais de um milhão de assinaturas em uma semana e entrou para história da Internet. A repercussão não se limitou ao Brasil: o vídeo foi espontaneamente legendado em cinco idiomas e alcançou 22 países.

A reação em contrário foi em cascata; mentiras jorraram de todos os lados – mesmo de quem fazia oposição à presidente Dilma Rousseff, que tirou do papel um projeto que fora gestado pelos militares. Apesar dos ataques, em dois meses a petição chegou a 2,5 milhões de assinaturas. Ela foi entregue ao governo que, literalmente, fez ouvidos de mercador. Juma Xipaia tinha só 20 anos, mas já há algum tempo estava envolvida com a resistência à construção de Belo Monte. Junto ao movimento Xingu Vivo Para Sempre, lutava pelos direitos dos povos tradicionais da região – além dos indígenas, ribeirinhos, quilombolas etc. –, que poderiam ser impactados pelo empreendimento.

Ambientalistas engrossavam o coro dos descontentes, tentando chamar atenção para o efeito nocivo da hidrelétrica para a Amazônia. Naquele momento, o Consórcio Norte Energia S/A já havia vencido a concorrência para construir a usina, e depois de um troca-troca na direção, o Ibama concedia as licenças necessárias à obra. Tudo à revelia dos estudos que previam um desastre – como provou o senhor da razão, o tempo. Belo Monte custou quase três vezes mais que o previsto (R$ 14 bilhões contra R$ 40 bilhões), sem contar os generosos incentivos fiscais; a Norte Energia lucrou R$ 950 milhões só no ano passado. Nada menos que 70% dessa dinheirama foi financiada pelo BNDES.

Curiosamente, o governo atual não se interessou em investigar essa caixa preta, coisa que dizia que faria nos tempos da campanha presidencial. Coincidentemente, o presidente esteve esta semana em Roraima, onde promete construir mais uma hidrelétrica. Ironicamente, ela se chamaria Bem Querer.

Belo Monte opera, em média, com apenas 40% da sua capacidade anual instalada; em setembro, gerou somente 2% de seu potencial. Vivemos a maior crise hídrica em mais de 90 anos e 65% da eletricidade do Brasil vem de nossos rios. A vazão do Xingu foi reduzida em 80%, afetando diretamente a biodiversidade e os povos indígenas locais. A usina inundou 640 km² de floresta; em consequência, elevou em três vezes as emissões de gases do efeito estufa na região da Volta Grande do Xingu. O fenômeno é o resultado da decomposição de matéria orgânica em áreas inundadas, que produz metano, um gás até 86 vezes mais danoso que o CO₂.

Nesses 10 anos, Juma enfrentou ruralistas, foi ameaçada e passou um ano fora do Brasil. Voltou para casa e criou um instituto com seu nome, para continuar lutando pelos direitos indígenas. Altamira viu dobrar os índices de roubos, furtos, acidentes de trânsito e violência doméstica. O índice de homicídios aumentou 150% desde 2011, levando a cidade ao topo do ranking das cidades mais violentas do Brasil em 2015, segundo o Atlas da Violência (Ipea/Fórum de Segurança Pública). “Eu tinha 13 anos quando se iniciou esse processo e logo percebi que não seria somente uma grande cachoeira, como diziam, e sim um projeto de morte. O que está acontecendo hoje em Altamira é tudo aquilo que a gente já tinha imaginado. A gente já sabia que o que teria era destruição. Não somente do meio ambiente, da fauna e da flora, mas sobretudo de nosso modo de vida, nossa essência, o nosso lar”, lamenta a cacica Xipaia, hoje com 30 anos.

Mas apesar de todos esses pesares, há o que se comemorar nesse aniversário de dez anos do movimento Gota d’Água. Hoje, a sociedade brasileira está mais atenta às questões ambientais e entende a importância da preservação das culturas indígenas para proteger a floresta – e, consequentemente, o nosso futuro. Tem cascata que não cola mais. Hoje, há muito mais gotas nesse oceano. Ou, como diz Juma, “sejamos uma só gota, ainda que de povos diferentes”.

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